a margem espiral
lAERTE antonio
parte 1

Se você permitir que estes poemas sejam você próprio conversando consigo mesmo, aí terá valido a pena tê-los lido. Somos bem mais semelhantes em nossa falta que diferentes no que nos sobra. Daí que nossa maior falta será sempre falta de ser. E assim será enquanto não aprendermos a pronunciar Eu Sou.
Que a nossa espiral se expanda e se funda com Aquela... que é Deus em nós, isto através de nos conhecermos sempre um pouco mais, mediante o mudar de nossa existência para novos enfoques de consciência por veredas de nos irmos transcendendo. A pessoa renasce do seu sonho, ovo cuja casca se quebra dentro da vontade de Deus... e então se aprende a ousar o vôo.
Um abraço. E boa viagem!
Laerte Antonio
A rosa é a rosa,
o resto é flor.
A vida será escalada
com a razão desconstruída,
o sentimento re-sentido
e a intuição reinventada
a partir de não se partir
a não ser de pontos-zero
e se chegar senão a nada:
o ser vendo-se ser em ser-se —
numa reconstrução
sem o cimento da idéia
plantada entre partir-chegar.
O homem precisa achar
a margem espiral
do rio que flui em si —
a sua libertação
do esquerdo e do direito.
LA 00/09
em nosso pensar
do que em nosso sentir.
O pensamento
é a água em que nos lavamos
e regamos o nosso crescimento.
Só podemos ser livres
( ou felizes )
de pensamento em pensamento.
Pensamos, logo somos
um texto no contexto
que reescrevemos.
O Outro há de florescer
quando caírem nossas folhas.
LA 00/09
No Sórdido Real...
No sórdido real de cada dia
o que fazer com tal perversidade,
senão trocá-la pela irrealidade
que se pode inventar por companhia?
Não é nesse irreal em que se cria
o real de uma não-realidade,
o feliz de uma não-felicidade
e o triste se traveste em alegria?
Que fazer com a verdade da inverdade
que a cada hora a mídia nos enfia
nos poros com risível seriedade?
Que fazer, senão rir dessa mania
de querer reinventar toda a verdade
no sórdido real de cada dia?
LA 00/09
dos sofrimentos dos outros:
“Sofrem demais ( um horror! ), não merecem...
O que fizeram, senão ser bons?
Ah, isso é pra confundir —
e pra desanimar!...
Por quê? Pra quê? Que é quê?...
Coitadinho! Coitadinha!”
O ego ressentido, em autodó:
“Não mereciam não, não mereciam!
................................................................
Mas que fazer
em nossa sempre impotência?
Que fazer,
senão o que o pastor e o padre
nos ensinaram:
‘Seja feita a vontade Dele!
Amém, irmãos?!
Amém!!’
............................................................................
É aí que me lembro de Jó —
que tem por tema
nada menos que o seguinte:
Se você tentar saber
por que alguém sofre tanto,
ou o porquê de qualquer desgraça —
saiba que estará sempre
— no mínimo — errado.
LA 00/09
Enquanto farfalharmos folhudos,
criando sombras à nossa volta,
como é que o Outro em nós pode florir,
frutificar seus frutos
para além da parábola do jardim?
Ouves o vento?
O que é o vento,
senão o semeador
do real reproduzido?
E o invento, o que é?
Não é transubstanciarmos
o real em transreal
pela vontade
e por força de sonhá-lo assim
em nosso imaginá-lo —
até que tenha um corpo
à nossa mão ou em nós?
Muito do que somos,
somo-lo
pelo ousar-querer-imaginá-lo —
enquanto o Outro nos reconstrói...
E aí então colhemos
o irreal do real realizado.
LA 00/09
Deletei, Por Descuido...
Deletei, por descuido, o eu em mim,
de sorte que ficou-lhe vago o assento
que procurei preencher com o pensamento
de que o outro ( me ) viesse à tona, enfim.
O outro veio e passou-me o dom e o fim
de eu pensar o que digo em sentimento
e sentir o que penso pelo vento
que entre chamas me diz seu não por sim...
Ergui o véu da moça que rezava:
vi — assustado — que ela era eu
em tempos de que já nem me lembrava...
O padre, ainda bem, não percebeu
que era minh’alma que ao meu lado orava
para salvar em mim o corpo seu.
LA 00/09
para o emprego que tinha, eu me sentia
entre pontos em mim de ir-voltar:
havia Norte e Afeto a me situar.
Havia braços me esperando, havia
o hábito gostoso: amor-mania
fluindo em seu afeto a se doar —
sabor de herói-heroína a confiar...
Havia o real tornado irrealidade
vertida em mítica felicidade —
o sonho feito coisa de pegar.
Havia consciência da existência
num plano de existência da consciência:
a esperança a zelar pelo viver-sonhar.
LA 00/09
Tuas Mãos
o silêncio irial de flavas salas:
tuas mãos floresciam charmes-sonhos
aperolando sons, brilhos inconhos...
Teus dedos — bailarinos — deslizavam
sobre o claro das teclas que cantavam
em cascatas de claros, raros tons
num cortejo imperial de sonhos-sons...
Ferias almas com o perfume brando
de notas irisadas entre os vãos
de sentimentos e emoções ecoando...
Hoje o teclado é mudo ( o tempo vence-o... ),
mas lema o opalescer de tuas mãos
e os sonhos tropeçados no silêncio.
LA 00/09
Entre Os Faunos Da Orla...
Entre os faunos da orla e as sereias,
o que é mesmo, compadre, que acontece?
Dizem os pescadores que as areias
andam revoltas desde que anoitece...
Um fuá danado: pelas luas cheias,
entre a maré com o vento que enlouquece,
todo um belo bordel se estabelece
de ondinas, faunos, sátiros, nereidas...
Bosques e águas se juntam num marulho,
num farfalhar e sôfrego barulho
de dar água na boca e cócegas nas tripas...
E a fauna desse contubérnio vário
só se esconde por dentro do cenário
quando o sol vem beber o licor das tulipas.
LA 00/09
Sempre Amarrada Por Um Fio...
Sempre amarrada por um fio, a paz.
Entre casais, amigos e nações
ou sejam lá que outras relações —
basta um nada, e seu laço se desfaz.
Ao marulhar de suas emoções,
por muito que o homem mostre-se capaz
de navegar por seu azul fugaz —
é sempre um navegar de inquietações.
Parece que a consciência exige atritos,
que a harmonia se faz de feros gritos...
e os opostos se fundem numa margem
que não é a direita nem a esquerda —
mas margem interior, um ganho e perda...
e o mais é viagem dentro de outra viagem.
LA 00/09
( de uma princesa egípcia ),
feito, segundo um sensitivo,
por um ourives atlante.
Pérolas, pedras, ouro
e opalescências raras.
Estava ali numa redoma
no Museu dos museus —
ante uma fila ordeira:
três minutos de contemplação
para cada pessoa.
Na redoma,
um clima de catedral:
charme-magia-transcendência
de luzes-cores-sombras-sonhos —
um orgasmo suspenso
de gozo eterno.
Ríctus de silêncio,
céus de abismos.
Sedas raras cobrindo seios
sob olhos em bruxuleios...
...................................................................
Uma atração tamanha —
um vetusto, prístino chique,
piramidal glamour
a causar um frisson
de umedecer a alma
de um santo.
LA 00/09
Os Silêncios Gritavam...
Os silêncios gritavam de assustados:
traficantes trocavam estampidos
com policiais especializados —
conversa de mocinhos com bandidos.
Máquina de fazer desajustados
e marginalizados e excluídos —
é isso a sociedade: gera os brados
de heróis que logo mais serão bandidos.
Gera desempregados e nepotes
que se devoram, trocam os seus botes —
porque o esquema que os gera é a iniqüidade:
que reparte a pobreza e centra o ouro —
mamíferos de luxo e os besouros...
A irrealidade excreta a realidade.
LA 00/09
Dizem Que A Vida Sempre...
de seus vôos: uma vez que suas alas
façam o irial do sonho das opalas
tornar a dor um pouco mais amena.
Dizem que a tempestade já serena
se — de repente — as asas da falena
vêm queimar-se nas lâmpadas da sala...
Dizem que, então, a tempestade cala.
Dizem que pra curar-se de um amor —
só outro amor ( mais popozudo! ); de uma
ressaca, — um outro gole: um bom licor.
E dizem tantas coisas, que se alguma
nem verdadeira for, a gente até
perdoa, e nem por isso perde a fé.
LA 00/09
Uma calma bonita
andorinha pela tarde
e diz que a vida vale a pena
do seu vôo.
A criançada brinca
no chafariz
e assim — livre-esquecida —
molha os pés e é feliz.
O mais é gente atenta:
conversando inteligente...
passando a desesperança a limpo.
Precisam de filosofia
e muitos “ias”( com divãs ),
ou mesmo fé e metafísica —
e muito humor, bastante riso,
muita ironia
para ‘agüentarem’ a vida.
Neles, a realidade
é rebatida com a realidade,
o que produz chispas heróicas...
Já as crianças enfrentam
a realidade com a irrealidade,
e como o sonho ( nelas ) vence —
são felizes
em meio à não-felicidade.
LA 00/09
De Tudo, O Que Restou...
De tudo, o que restou? Ficou o guizo
que fazia cantante o andar da cabra,
dois pés bem velhos de jabuticaba
e de Mariazinha o medo-siso
( que lhe virou, talvez, em prejuízo
de não se ter doado a nenhum cabra
que lhe desse aliança, casa e a magra
vidinha, pendurada num sorriso...).
De tudo, o que restou? Sobrou a hera
nas paredes da casa que sonhou
o que não foi, mas que em sonhando era...
De tudo, o que restou foi a lembrança
da vida toureada com a esperança —
capa rubra que nunca descansou.
LA 00/09
com esse arreio sobre as nossas costas.
Queira a Deus — breve — já não recorramos
às vossas xotas cheias de propostas...
Como antes não dá mais: já nos cansamos
de vos ser escudeiros nas apostas
de vossas lealdades... Hoje estamos
sem moinhos de vento... e de mãos postas
( não em vossas xiranhas ) mas na bússola
do norte do amor-próprio e do auto-escrúpulo.
Chega, pois, de sorrir bebendo absinto.
Muitos, senhoras, nem mais somos homens —
abdicamos: nem cornos-lobisomens,
nem veados, nem machões: um nó no pinto.
LA 00/09
C. C. & S. C.
( A Leveza De Um Ex- )
Quando me separei de Aparecida,
passei a degustar algo tão bom
como voltar à infância em sobretom:
em tom de liberdade e bem mais vida.
Foi tão bom, que escrevi pra minha ex-Cida:
Se soubesse que sem o teu batom
fosse tão lindo, então quisera, com
mais pressa, vê-la desAparecida.
O que com Cida era bom, sem ela,
virou divino: hoje saboreio
minha segunda infância, sem chinela...
Hoje há C. C. e S. C. na minha vida:
o ( todo em prata ), com Cidinha, arreio...
e a leveza da vida, sem a Cida .
LA 00/09
trabalhado em cristal, rubis e opalas —
vibrações-brilho lidas no mental,
traduzidas em gamas-sonhos-falas...
Um vento... chego à porta, mas não abro...
Brilha o silêncio nesse mineral,
e a prata, e o ouro, e os sóis do candelabro
reverberam nas vozes do coral...
Luzes, agulhas-reverberações
tecem, retecem sons em sobretons...
e murmuram, ondulam orações...
Entre os lumes-magia dos vitrais
cantam do candelabro as luzes-sons
em múrmuras visões celestiais...
LA 00/09
Viver faz bem:
vai nos mostrando
o mundo e a nós.
Viver desenrijece,
torna mais brando —
vai dispondo a cerviz
na horizontal.
Vai transformando o riso, o ricto
em sorriso...
Viver faz bem:
vai ensinando a paciência
com a gente e com os outros.
Ensina que, se dói,
dói para todos.
Se é bom —
é assim com todos.
Viver ensina que eu tu ele
são vigas daquela ponte
( dentro de cada um )
que temos de atravessar.
Viver faz bem:
vai revelando
que isto não é assim,
mas de outros e muitos modos.
Que não é isto ou aquilo,
mas sobretudo isto e aquilo.
Que o outro só atrapalha
a quem não quiser se ver:
o outro é espelho,
não raro, incômodo.
Viver faz bem:
vai nos metabolizando
a realidade
em visões de realidades —
a tal ponto que o sonho
se torna o cais singrante
do nosso sempre outro
partir-chegar:
um modo de navegar
através e por dentro
do real re-sonhado.
Viver faz bem:
vai nos tornando claro
que o pão da vida é a alegria,
e que a sua farinha
deve ser repartida —
para que seja completa.
Viver nos diz que odiar é fácil —
basta maldade e ignorância.
Viver nos diz que amar
é ainda mais fácil —
basta alguém fazer de modo
como se fizesse pra si.
Viver faz bem:
vai nos contando que somos
tão diferentemente iguais,
que deveríamos
nos suportar bem mais.
Viver nos vai preparando
pra sermos donos de nada...
Pois não somos nossos corpos,
tampouco a vida é nossa:
mas graça que nos foi dada
para por ela atravessarmos
para além do nosso engano
LA 00/09
Tenho escondido de mim
muitas coisas espantosas,
mas os outros, com certeza,
sabem de quase todas.
Nossos sigilos
e dissimulações
são tão ruidosos,
que se fazem visíveis —
não obstante tenhamos
apagado todas as luzes.
O primeiro que se engana
é sempre aquele “eu mesmo”,
logo em seguida,
aqueles “uns aos outros”.
Em nossa capacidade
mais alta de fingir
é que pensamos
estar nosso valor.
LA 00/09
O Saldo De Viver...
O saldo de viver é aprender
que a vida morre sempre noutra vida
e a morte é luz na alma renascida
no difícil ofício de viver.
O que é que a vida ganha com morrer,
a não ser a esperança anoitecida
de que cedo estará amanhecida
em seu glorioso reacontecer?
O saldo da árvore serão seus frutos,
o dos frutos serão suas sementes,
o das sementes, — árvores: tributos...
Elos de vida e morte coniventes —
condições que jamais podem durar
já porque o caminho tem que andar.
LA 00/09
O homem sente
que algo fundamental lhe falta,
e que deve ir buscá-lo.
A sua inteligência
sócio-programada,
seu caminho profetizado...
seu ir em frente ininterrupto —
nem se quisesse
o homem não poderia mais parar:
uma força profunda o impulsiona —
o homem sente, sabe
que não está em seu lugar
e que precisa chegar lá.
Por achados e enganos,
sabe que ter não lhe basta:
precisa ser —
ser o que quer
e que — depois de sê-lo —
precisa transformar
a sua essência em ser-se:
em ser autogerado —
num recordar-se
que é puro esquecimento,
aquém e além de ser.
LA 00/09
Eu, por mim, meu amigo,
escolhi o desabrigo
( e tenho pago o preço... )
do telhado social —
um modo só de viver
( com sua maluquez )
o meu prazer de ser
em solidão transcendental.
LA 00/09
Parti amanhã,
cheguei hoje —
estava em Sidney.
Trago estas flores
que te colhi do futuro.
Põe-nas no vaso
feito da argila
dos amanhãs.
Teu coração
por certo sabe
onde ele está:
ou terá quebrado
o nosso vaso?
LA 00/09
Não temas:
fizemos nossos teoremas
com a calma geometria
de quem o tempo todo,
entre as estrelas e o lodo —
foi um barro constelado
e animado pela poesia.
Quem viveu nesse porre
( na corola dessa aurora ) —
só tem que agradecer,
não pelo viver-morrer,
mas pelo morrer-viver...
Quando chegar a hora,
cala, confia... e morre.
Quem sabe a morte
também não é um porre
do melhor vinho?
Pensar que sim
não dá brilho ao banquete?
Claro, claro que dá! —
já que morrer
é um nascer do avesso.
LA 00/09
O real se traveste em sonho
que se desveste em construções —
talvez uma questão de
morfologia mental:
a coisa, a descoisa
e a realização dela mesma —
em outras gamas de ser.
É assim que a realidade se transforma
e vai se transmudando em consciência.
Todo o Universo é um tobogã
do Não para o Sim cosmológico —
cabe ao Ser a tarefa
de conscienciá-Lo.
LA 00/09

faz nosso barco singrar
em direção ao que gestamos
lá em nosso psíquico —
então colhemos nosso desejo:
porque o querer
das atividades psíquicas
foi focado nesse desejo,
e já podemos caminhar
por sobre as nossas águas.
LA 00/09
Aqui Foi Um Lugar...
Aqui foi um lugar de horas macias,
tardes andorinhadas e trissantes,
bocejos constelados, calmas vias
com mulheres do amor: as pluri-amantes.
Aqui foi um lugar de horas esguias —
lisas pelos silêncios porejantes
de haver em alma sonhos-geometrias,
modulados por luzes coagulantes...
Aqui foi um lugar de horas-amoras —
roxas dentre as corolas das auroras,
fluindo em depiladas cicatrizes...
Aqui foi um lugar de horas felizes,
horas ciciadas de iriais demoras
molhando os pés em frescos chafarizes.
LA 00/09
Lindo Era Ter Você...
possuir nas mãos, a não ser nuvem, ar.
As tardes mornas de domingo, a aguada
dos chiados de dezembro a goteirar...
A floresta a gemer bem compassada
na grande, enorme cama a resmungar.
A penumbra de seda, entre almofadas,
madrugadas uivando em rude farfalhar.
O saber que era pouco tudo isto,
mas não querer senão saborear
o aquoso entrelaçado em oaristo...
E sentir o quão pobre era a riqueza,
quão maltrapilha toda realeza —
nessa dor de saber, mas a cantar...
LA 00/09
A Distância Era Longe...
que tudo aquilo de que foge um monge.
Naquele tempo o coração não tinha
noção de como andar por sua vinha...
Sabia catecismo, inglês, francês,
grego, latim... mas nada de amorês.
A emoção sempre verde é que o empurrava
para os longes do mar ou selva brava.
Hoje não. Fez mestrados em enganos,
doutorados com tese em perdas-danos,
e aprendeu a sentir com a razão.
De sorte que, safado entre safados,
de nada lhe valeram doutorados —
logrou mudar o tom, não a intenção.
LA 00/09
Direito? Esquerdo? Apenas...
Direito? Esquerdo? Apenas divergido.
Pensado por si mesmo entre o estourar
de pipocas com sonho dirigido...
Maria vai? Não. Hoje, vai ficar.
Sereias cantam, cantam seu comprido
canto aos marujos pelo mar... o mar
do vende-vende até deixar vendido
o comprador incauto a soçobrar.
Nem direita, nem centro, nem esquerda:
mas por cima, por baixo ou pelo ar —
contanto que nem isto nem aquilo.
Quem sabe ser faquir ou ser psilo
a pregar, despregar e repregar...
rabos de cobras, não! Que é isso, ó merda?!
LA 00/09
Olá, Meu Coração...
Olá, minh’alma, derrubaste a pauta
e já não sabes a canção que um dia
era teu vinho e pão, tua alegria?
Será que um dia, coração, teremos
um décimo de tudo o que quisemos?
E quanto a ti, minh’alma, essa loucura
pela vida, é isso bom, tem isso cura?
Virão dias, sosseguem, virão dias
com outras gamas, outras geometrias
( que sabemos mentais ) e dons inconhos...
E em alma-coração, teremos clima
de realizar a mística vindima
para dar de beber aos nossos sonhos.
LA 00/09
Com O Pensar Tocamos...
Com o pensar tocamos o futuro,
mas é com nossas mãos que nós o unimos
ao barro do passado ( o barro escuro )
e ao do presente, e nos reconstruímos.
Mister amolentar o barro obscuro
em alma-coração, e a ele adirmos
a fé que faz o sonho nascituro
e a esperança que é a força de construírmos.
Com a fé programamos, e o que somos
são programas de ontem que transpomos
de lá para o hoje e, no hoje, os remoldamos...
A esperança faz ver o sonho pronto,
como num conto em perenal reconto, —
o pensado daquilo que pensamos.
LA 00/09
O amor, suas mumunhas e alfazemas.
Sempre armando intricados teoremas.
Solvê-los como? Pela inteligência
ou pelo coração? Por qual ciência?
O amor tem mil e um estratagemas —
lisos para furar quaisquer esquemas:
dribla, faz gol em clara frangolência,
passando a perna em toda competência.
Para entender o amor, — só não querendo...
Isto é: só confundindo o dividendo
com o resto... e sem fazer da conta muita conta.
Assim, de amor se entende sem a sede
de querer entendê-lo. Diz que a lontra,
após comer o peixe, fura a rede.
LA 00/09
O Vento Dá Os Últimos...
O inverno dá os últimos retoques:
desfolha a xantofila e vai semeando
o que a planta moldou e foi criando,
em sono-sonho, ao vento em seus remoques...
Vem a chuva e carrega esses estoques
de sementes pra longe, e os vai molhando,
vai entregando ao sol que, aos tatos-toques
de luz, os vai abrindo e germinando...
O relógio interior do sabiá
lhe diz que é hora de cantar, que é hora
de construir e amar, que o frio se fuera...
Setembro põe no peito o seu crachá:
luz-flores-cores em mil tons, agora
num renascer chamado primavera.
LA 00/09
Para O Ego Se Despir...
deve ser tão difícil quanto ver-se
cavalgar sua insólita arrogância —
cavalo e cavaleiro a entreter-se.
Nesse doping de si a entontecer-se,
nessa self-beleza e bel-fragrância,
como é que pode um homem transcender-se
se a autopulsão é bem maior que a ânsia?...
No entanto apregoamos, aos bramidos,
que outros são os drogados, os vencidos,
outros os doentes em seus débeis esmos...
Dizemos uns dos outros coisas tristes,
e as coisas que dizemos não são chistes —
são aquilo que temos em nós mesmos.
LA 00/09
Casarão
Parecia um bocejo o casarão,
fechado há muito e muito. Altas paredes
unhadas e escorridas: largos risos
( banguelos ). Picumãs, carunchos, poeira.
Ainda havia passos, falas, sonhos,
gemidos, gritos, solidões doídas
vibrando aqui, ali, além: do teto
ao chão, fantasmas tristes... sem seus donos.
Fora, a escada de mármore, o muro,
a hera, a dor de dálias, — sentinelas
fiéis e muito exaustas, mas sorrindo...
Um vento ( só ) pelas varandas ermas...
Um tilintar mental ( de taças? ) e a lembrança
ainda tinta de alegria e vinho.
LA 00/09
Belos Os Temporais...
linhas de vento empinam negras pipas...
Os ares a rugir ferocidades —
um medo bom passando pelas tripas...
Rudes ventos roçando telhas, ripas —
tesões gozando de brutalidades:
destroncando o pescoço das tulipas...
varrendo galhos e outras mais enormidades.
Belos destruidores amorais.
Belos porque de uma brutalidade
estúpida: brutais porque-brutais.
Belos porque horrorizam de beleza —
de uma beleza má num sem maldade...
Porque espantam a própria natureza.
LA 00/09
Ninguém, Nem Nada...
mister desarrumar.
Urgente desaprender,
reconhecer, desmontar,
desvestir, descoser —
do espírito até a carne.
ticamente correto:
do sabemos, partir pro não sabemos;
do achamos, pro procuramos;
do é assim, pro pode ser de mil modos.
Perder o medo do ridículo:
ver o sapato do palhaço,
as calças do palhaço,
os suspensórios, a camisa de bolinhas,
o nariz, a peruca, a cara desenhada,
o chapéu de palhinha:
ver tudo isso —
mas não em outra pessoa...
Ver a repartição da pobreza,
a concentração da riqueza —
a iniqüidade fazendo
príncipes e mendigos,
mocinhos e bandidos,
normais... e loucos... e...
Mas ver as coisas não nos outros —
vê-las em nós.
É mais que hora
de nos vermos fingidores
de não termos trabalhado
na construção da desventura.
Ninguém, nada nos iluda:
cada um de nós
é um fazedor —
do mundo e do homem.
E cada um de nós
é esse mundo, é esse homem.
LA 00/09
Os desquitados vivem
a bem-aventurança
de uma segunda infância.
Só agora é que eles vêem
como dói representar
a comédia da cultura.
Machinhos e femeazinhas
— desquitados —
agora querem brincar —
aproveitar a infância.
LA 00/09
Delírios Travestidos...
Delírios travestidos de razões,
razões sentimentais fingindo temas
que se vão transformando em teoremas
que mostram como descascar mamões...
Touros valentes, derrubais peões?
E pisais seu escroto e outros emblemas
com a mesma classe de jogar espermas
nas vossas fãs pastando solidões?
Touros valentes, por que sois tão broncos?
Não sabeis salivar vosso vaquês —
buscando, então, rachar roliços troncos?...
Touros valentes, certo, já falhastes( ? )...
E não vos adiantou nem os guindastes,
a geléia, a gemada e os bons patês?
LA 00/09
cujo começo ( topa? ) você faz na mente...
De tudo o que restou, sobrou tão pouco,
nem ficou das loucuras um só louco.
De tudo, só o riso se salvou.
LA 00/09
Branco estelar era o cricri do grilo,
acompanhando o ritmo da chuva
e o vento fresco e bom que de senti-lo
faz o grilo cantar isto e aquilo.
E alegre-alegre — feito uma viúva —
era o cricri do grilo: bom de ouvi-lo,
nos dezembros, ao cheiro bom da uva
e o farfalhar molhado da imbaúva.
De um branco astral era o cricri do grilo,
chispando prata em seu cantar tranqüilo
e abafado: qual dentro de uma luva...
Da cama ouvia o seu cricri, e ouvi-lo
não era áspero como um bituva,
nem tão macio assim feito uma vulva.
LA 00/09
Ao chegares à tua Taprobana,
não te esqueças: há outra mais além...
Aquela a que aportaste sempre engana —
sugere que após ela nada vem.
Aliás, é dado à natureza humana
criar raiz, prender-se com alguém:
construir uma tenda sobre a gana
que lhe enche o ver... e, então, pensar que tem...
As Taprobanas mudam-se de gamas —
aquilo que, hoje, numa delas, amas,
noutra, verás que objeto e amor são outros...
Um horizonte engole outro horizonte,
os potros são cavalos de outros potros...
Não faças uma casa sobre a ponte.
LA 00/09
Vim por um caminho tão estreito
que, se olhasse para trás,
certamente despenharia
em mim.
Vim por aquele caminho
entre o ser e a solidão,
entre o sorriso de Deus
e abismos atapetados
das flores do meu desejo.
Vim por um caminho estreito
entre as estrelas
e o coaxar molhado de escuro.
Vim debulhando a realidade
para que os pássaros a comam
e a transubstanciem
num vôo que é interior —
e possam empreender a travessia
sem o risco-perdição
de caírem nas próprias águas.
LA 00/09
Se Maomé Não Vai...
Sempre que Débora o deixava sem,
ele zumbia fanho como quem
pragueja, reza ou diz com a boca cheia —
e ia buscar seu mel noutra colmeia.
Se lambuzava todo no melaço
e só depois voltava para o braço
daquela que, com ares de rainha,
ai de quem fosse lhe tirar farinha!
E assim o pobre atravessou as décadas —
triste, azarado como quem defeca das
nuvens, mas eis... acerta a própria sombra!
Até que um dia ( o mundo gira...) a irmã da dona
vem pra ficar: esguia, andar de alfombra...
olhar de quem achou... e finge-se bobona...
LA 00/09
Um hiato, um silêncio, um desprestígio:
fim de tarde apoiada em frias lanças...
Um céu de tempestades em bonanças...
Algo de hediondo sem deixar vestígio.
Assassínios e crimes sem fianças —
agora fiançáveis, sem litígio.
( Beijar-te a boca e acariciar-te o míjio!...)
Tarde a morrer nos braços de crianças...
No ar, um mal sem o licor estígio.
Um cheiro, um gosto, uns olhos de finanças
em visões de um delírio calipígio...
Os sonhos engordaram: suas panças
balançam pelas ruas, sem prestígio...
Tarde incendiando vestes de esperanças.
LA 00/09
Ela Ia Descalça...
Ela ia descalça à nossa frente,
às vezes fraca, muitas vezes forte,
mas sempre-sempre, quase sempremente,
ela ia à frente com seu rico porte.
Por vezes nos sumia longamente
até que a vida parecesse morte...
Mas ei-la: já voltava, diligente,
alegre, a nos trazer o seu aporte.
E falava-nos sempre tão baixinho
que só o coração podia ouvi-la,
feliz, a ir e vir pelo caminho.
Forte, feliz: um jeito de criança —
transmitia uma fé sempre tranqüila...
Os que a viam chamavam-na Esperança.
LA 00/09
A Rubra Rosa Enchia A Sala...
A rubra rosa enchia a sala do seu canto,
trazido do mental de uma intenção —
num transe de delírio que do pranto
fazia — afogueada — uma canção.
A rubra rosa, ali naquele canto,
num solitário: esguia mão em outra mão,
a oferecer, com salivado encanto,
a sua rubra voz ao coração...
Nesse rubro cantar, rubro acalanto,
em tons em alma e sobretons de espanto,
a rosa despetala o seu dizer —
seu jeito de dizer e florescer
as intenções semeadas no seu canto —
a rosa rubramente a enternecer.
LA 00/09
As Lágrimas Caíram...
As lágrimas caíram, ninguém riu,
não era ( aquele ) tempo de chorar —
por isso, em vindo os olhos a prantear,
quem sabe ninguém riu porque não viu.
Portanto, se alguém deve derramar
dores do olhar, derrame o que sentiu
que devia cair, e, se caiu,
que tenha sido doce o seu rolar.
Água salgada: uns chamam disso as lágrimas,
ou cloreto de sódio comovido...
Eu prefiro chamá-las de sintagmas...
Há os que chamam de fracos os que choram,
e os que os chamam sensíveis... mas ignoram
que é um caso de viver e ter vivido.
LA 00/09
Era Tão Feminista,
que mandou cavar um poço
profundo, mas tão profundo —
que lhe trouxesse as águas
do Estige.
LA 00/09
Nossa amizade, Glória,
virou um treco.
Também não há sinteco,
amada,
que conserve uma história
já tão pisada.
Das rosas ( que não mandei )
pode ficar com a saudade —
se não foram verdade,
não fui eu só que errei:
o calor que as murchou,
o vento que as desfolhou —
eles também erraram,
pois nunca me falaram
( nem ninguém me alertou )
que você sempre ironizou
as flores
( e por que não faria? )
da humana angústia em cores
de cada dia.
LA 00/09
Pagamos para ver
as pessoas felizes —
assim, o somos nelas,
enquanto nos julgamos
incapazes de sê-lo —
enquanto o velho mundo
projeta aos infelizes
as novelas dos felizes.
Enquanto nos julgarmos
incapazes —
fartamente o seremos:
infelizes alegres
da felicidade alheia.
Ou nós nos libertamos
dos chiliques da cultura,
ou seremos os seus cultos
escravos.
versus infelizes
deve ser resolvida
aos risos, às risadas...
ou com as suas primas —
as Gargalhadas,
irmãs do Ra-ra-rá.
Pois é.
LA 00/09
Ah, Eu Também...
Ah, eu também
comi muitas mulheres.
Só não molhei o pão
no fundo da panela,
nem nunca ingeri peles,
nem penas.
Quanto ao mais,
sempre fui vegetariano.
LA 00/09
Upa, upa, povalo! Camaradas,
cavalguemos o lombo desse povo!
A ele ( sempre ) muita marmelada
e promessas de céu por casca de ovo.
O.... deixaremos sempre à beira-nada,
na boca um pirulito e um bico novo.
Tangeremos os tais feito boiada —
para o bico necrófilo do corvo.
Quando forem demais, inventaremos
a trama de um conflito e os mandaremos
para as doces moradas eternais...
Povo e ovo precisam ser quebrados,
ser mexidos, batidos e fritados
ao paladar das classes celestiais.
LA 00/09
para nos dar mostra
de como seria boa
a amizade.
Os amigos
não precisam ser muitos —
para que não suceda
que alguns,
em se tornando adversários,
não nos sejam ainda piores
que os não-amigos antigos.
LA 00/09
E Coisa E Tal...
com as rêmiges ferindo as fímbrias do ar...
A manhã é um canto com entôo
de azul envolto em luz a fervilhar.
Para todo lugar aonde se olha —
um mesmo e só escândalo de azul:
de azul e ouro e verde, uma só bolha
de beleza e riqueza, norte-sul...
O céu, a terra, o mar: o macro, o quântico —
em tudo o mesmo brilho e glória e tom violáceo...
mesmo equilíbrio e tresloucar romântico...
Entre os homens, a coisa é diferente —
basta ver onde moram, simplesmente:
sarjeta, ponte ( e coisa e tal...) mansão, palácio...
LA 00/09
Bacias e bacias e bacias:
de ágate, louça, folha, vidro, cobre —
bacias de lavar as mãos macias
dos que dispõem do mundo, a fauna nobre.
Bacias e bacias: fidalguias
afogando o direito que é do pobre...
Bacias com as cínicas manias
de lavar o que a água não encobre.
Bacias de águas rubras, águas frias...
Bacias de estratégias-covardias —
velhas bacias de auto-enganos vãos.
Tristes bacias de intenção salobre —
calar o sórdido que a luz não cobre:
bacias de omissões de sujas mãos.
LA 00/09
Fazenda Longe...
A tarde é de um desânimo vacum,
lambendo o sal da ponta do nariz.
Folhas paradas, movimento algum
no verde, nem um pio de perdiz.
Uma tristeza mole no lá longe,
a derramar-se pelo azul cinzento.
Não sei o quê de arrependido monge
com uma ferida no seu pensamento...
É feio o casario da fazenda,
é triste o ser humano em derredor:
mais parece o fantasma de uma lenda...
A vida passa com um peso às costas...
Muitas patas pisando as próprias bostas...
Criaturas mascando a sua dor.
LA 00/09
Comeu galinha até
ao molho pardo.
Por muito tempo andou
sujo de penas:
penas de todas as cores.
Mas... se sua mulher, com pena,
lhe perdoou,
quem se faz quem
para recriminá-lo?
LA 00/09
Homem nenhum-nenhum,
em país algum,
devia ser levado a sério
enquanto a subpobreza
não fosse erradicada,
e a mendicidade: assistida
como incapaz —
porém cuidada.
Pobreza, sim. Subpobreza, não.
Riqueza, sim. Mega-riqueza, não.
Equacionado assim
( de modo adolescente )
é que se vê a enormidade
do drama humano.
Quanta doença, ó transeuntes,
e que vasto hospital!
LA 00/09
e os que adorariam
ser o que os outros fingem.
Há, portanto, aqueles
a quem apenas falta
fingir.
Modela bem os teus sonhos
com o barro constelado
da importância que sabes
que as coisas jamais tiveram.
Modela-os,
e experimenta como é lindo
um sonho findo —
um sonho que julgavas
fosse eterno,
e de repente
— maravilhosamente —
um nada.
Um nada-tudo
com que recomeças outro —
que sabes nada de outros.
Enfim, quem disse que há um fim?...
Ou que um serafim
tem que te arrebatar
para seres feliz?
Se experimentares o humor,
o riso, a ironia —
verás que não são só remédio,
mas um modo lúcido-indolor
de te relacionares
com os homens e as coisas.
O sentimento há de pensar, enfim,
tudo quanto a razão há de sentir.
E ambos, um só, em coesão afim,
já não consigam mais se dividir.
Sensivelmente arrazoado, ao fim,
o sentir deverá, então, se abrir
ao sentiente pensar que, em seu intuir,
sabe pensar-sentir assim e assim...
E toda a nossa multi-aparelhagem
há de enfeixar-se e agir numa unidade
que realize o real em equipagem.
E a nossa humana essencialidade,
num processo de auto-reciclagem,
há de transpor a sua humanidade.
LA 00/09
Que Coisa Foi Mais Rosa, Ou...
O beijo que não houve, o olhar de espanto,
o sonho que acordou cheio de orvalho
nos pés que conheciam bem o atalho?
A rosa desfolhou, Vera me disse,
bem antes do frescor e da ledice
de haver um sonho entre a primavera
e o rastro de beleza dessa Vera.
Para um anão frustrado o mar contou
a história do marujo que emprenhou
mil sereias, e tinha um metro e pouco...
A rosa, o vento a violentou. A alma,
o amor a entediou. E o Nexo? Calma!
Volta já, foi tomar água de coco.
LA 00/09
parecia um gigante das Mil e Uma...
Manso como um gato de sofá.
Calmo igual ao preguiça.
Festivo como quermesse de santo padroeiro.
Paciente feito o jegue.
Amigo que nem rabo de vira-lata.
Funciolo criava cabras.
Já tinha tido vinte e três...
Mas o pobre não tinha sorte:
seus amigos, parentes e vizinhos
( e até gente de longe )
vinham lhe roubar o leite,
provar da carne.
Vinham à noite.
Funciolo tinha um sono de pedra.
Quando ia ordenhar,
elas berravam que ele já tinha feito...
Como não se lembrava,
ficavam os Ditos pelos ditos.
E assim foi —
Molhou a boca a muita gente
( dizem que até do patrão ).
Muitas vezes sonhava
que ajudava na ordenha...
A muita mão desajeitada e torta
ensina ( ele era sonâmbulo )
ensinava como ir e vir
até que enchesse o balde.
Funciolo era muito amado,
gostado e querido aonde é que fosse —
com seu riso de permitir
e sua boca de dizer sim.
Aliás, as únicas vezes que dizia não,
era quando sua mãe aconselhava:
Se mecê num come carne
nem bebe coisa branca —
abre a porta do aprisco, home,
e deixa o que num é seu ganhá o léu-mundéu!
Aí ele ajeitava a boca
e depois de algum tempo respondia
( respondia firme ):
Não!
Nas festas do Bumba,
ele era sempre o boi.
E assim foi Funciolo —
o que tinha o não-seu
e o que foi sem nem ser.
LA 00/09
Esperava Encontrar-Te...
que sentia na minha mocidade.
Para isso esperei que viesse o estio
e esse gelo cantasse em liberdade...
Que esse caminho longo e tão sombrio
ganhasse relva e morna suavidade.
Voltasse ao bosque o brilho fugidio,
e a vida fervilhasse em claridade.
Mas não: aquele frio não passou.
Encontrar-te escondeu-se atrás de “um dia”
que o próprio tempo racionalizou...
Minh’alma descobriu, um tanto pasma,
que ela própria era aquele bom fantasma
que devia ser minha companhia.
LA 00/09
Aqui, Sim, Está Bom...
e a um tempo circulando no que existe.
A realidade é triste como um chiste
que o patrão nos repete, sabichudo.
Os segundos são lisos como alpiste
e o tempo é só um pássaro bicudo
a ouvir de seu avô, velho sisudo,
rotas de vôos e ser, a alma em riste...
Aqui, sim, está bom: estou morrendo
com a doce ilusão de estar vivendo
um dia a mais entre viver-morrer...
Na árvore, ao lado, canta um sabiá...
e seu canto é tão limpo de saber,
que não-saber é o só saber que há.
LA 00/09
Provem Do Pão, Do Vinho...
Provem do pão, do vinho e mel silvestre.
Provem desse horizonte que relincha
por veredas dos ínvios, no campestre,
ladeando corgos aonde a rã se pincha.
Provem dessa beleza que eis... esguicha
de frescos sonhos de mural rupestre.
Dessa chuva de azul que desce e espicha
sobre o lombo da serra o trote eqüestre...
Provem desse infinito no finito,
dessa harmonia no íntimo do grito
que a gerou cheia de suavidade.
Provem dessa alegria que é tão forte,
desse viver que traz em si a morte —
dessa morte agarrada à eternidade.
LA 00/09
Bimbalha O Verbo Aqui...
amplo, emprenhando o ventre da amplitude...
e vai criando formas a que alude
com o sopro dos sais do seu maná.
Tal como o vento vem, o vento vai —
agora sobre a areia e já no açude,
agora sopra suave, agora rude —
o vento é como o Espírito do Pai.
Trabalham até hoje Pai e Filho,
pelo elo do Espírito trabalham —
dão luz à estrela, ânimo ao tomilho...
É tudo um vir-a-ser num já ter sido,
um reviver por entre o ter vivido —
em ramos de ontem que por hoje esgalham.
LA 00/09
Se Dois E Dois São Quatro...
são só um verso em línguas neolatinas
a dizer nada ou todas as divinas
comédias deste mundo e suas leis.
É lógico, Marli: dois e um são três,
mas translógico é o nosso envolvimento
ter sua base sólida no vento
que guiava um navegante qualquerês...
Os homens passam-nos lições de casa,
mas a vida nos diz que as suas penas,
além de penas, podem ser-nos asa...
O coração vive pensando asneiras
que a razão sente serem tão-apenas
as coisas vistas de outras mil maneiras.
LA 00/09
Olimpíada(s)
vontade de ser mais da raça humana:
é esse ir ainda além da Taprobana —
é esse acreditar, e suplantar(-se).
É essa pulsão de ser: ultrapassar
em si o que outros, em divina gana,
já mostraram possível: sobre-humana
luta de transcender e superar(-se).
É a carne constelada, é a natureza
deixada para trás como destino...
alumbrada de Sim no ser a ser-se...
É esse quê, essa chispa de divino
que arde no homem, e o leva a transcender-se.
Ainda Bem Que A Página...
nenhum traçado ou pauta, uma só linha,
nem engrama, nem cifra, verso ou glosa,
nem emblema ostentando rubra rosa.
Nada. Apenas a página continha
o branco do sulfite e da entrelinha
( mental ) de alguma idéia desejosa
de ganhar corpo-luz, em verso ou prosa.
Foi então que peguei uma caneta,
e vendo fora o vento que passava,
vi que era a mesma voz que em mim falava —
posto que, de mim fora, era um cometa
e, por mim dentro, era um feliz momento
que queria morar num pensamento.
LA 00/09
Adelaide Cruzou A Perna...
abrigando, com charme, a ameixa preta
que há pouco/pouco, experta, trabalhara
em suas piruetas e caretas...
( Nova e muito bonita, ela chegara
lá de cima... faminta e analfabeta.
E percebeu que, em meio à gente avara,
só tinha, de valor, a ameixa preta. )
Perguntou ao cliente se queria
dar mais uma... ou se ela já podia
ir lavar-se...
E se foi, pé ante pé...
Recebeu duas notas do turista.
Deu uma para a “Gorda”, a economista...
e correu comprar pão, leite e café.
LA 00/09
Como O Saci...
é o momento. Eu explico ( pois você,
com certeza, não mora no meu tempo... ):
é que fomos vendidos, todos nós.
Venderam tudo quanto em casa tínhamos,
e os gringos e neogringos cá vieram
pra nos vender mais caro o que era nosso —
e ficamos vendidos e comprados.
Para sempre comprados sem fiança,
para sempre vendidos para os ricos —
até os genes: vendidos e comprados.
De modo, meu senhor, que não sabemos
nem mais de latitudes-longitudes...
Vendidos e comprados, — no Mercado.
LA 00/09
Eu Vi A Multidão...
erguendo ao rei as suas mãos vazias —
têm a sua alma presa por atilhos
de não compreenderem os seus dias.
Mais frágeis que as alfaces e os tomilhos,
sua vontade sofre de abulias,
seu não-ousar se torna em empecilhos
para construir as próprias alforrias.
Não tendo uma vontade que transmude
a realidade, prendem-se ao destino...
( O homem precisa armazenar virtude.)
De títere ao homem de vontade —
eis a meta do abúlico ao divino:
de fé em fé, de verdade em verdade.
LA 00/09
Subiu À Sua Torre...
( não pensem que se trata de um poeta ),
de lá se arroga chispas de profeta
e veste seus sapatos de arlequim.
Nesse transe de gênio e serafim,
soube dosar o sério com o pateta,
o corno-sempre-manso com o atleta,
o jogo de xadrez e o bimbolim.
Escreveu uma tese metafísica
defendendo a veadagem e a tísica,
a sodomia e o asseado telecouto.
Também foi inventor de uma engenhoca
com pênis, vulva, mãos, ânus e boca —
coisa de esfarelar xota e biscoito.
LA 00/09
e dava formosas rosas —
ela então as repartia
com os amigos do esposo.
Deu-as muitas e muitas —
repartindo-as sempre/sempre.
Voltava amiúde desfolhada,
por vezes, sem nenhuma pétala,
nem o mínimo grelo.
Logo a roseira secou,
ficaram os espinhos.
Tentou ainda reparti-los —
ninguém os quis.
O marido nunca a deixou —
esperava por primaveras
escatológicas,
com rosas que cada consciência
terá florescido em si.
O esposo transmudou
as rosas que lhe negara
no desejo alumbrado
de rosas que nunca morrem,
nem são jamais de ninguém —
pela felicidade
de quem já não as precisa.
LA 00/09
estão ali na barra,
dentro da nossa memória —
caravelas e negreiros.
Urros, gritos, vivas... Ouves?
São os gritos de festa
dos negreiros e caravelas —
esses tais, passado tanto tempo,
aprenderam que em primeiro lugar
estão os prazeres da carne,
do adiamento, da negligência,
o sempre para depois —
para o hoje só esbórnia,
a requintada safadeza.
O trabalho? Para ontem.
Os Colombos e os Cabrais
não são mais aqueles —
pau de primeira,
isto é: carvalho
nas naves deles.
Negreiros e caravelas
cruzam os mares
em silêncios modernos:
muito furunhamento,
muita pinxotação:
tal como sempre.
LA 00/09
O Que Há Sob Esta Máscara...
eu estar sempre outro ao retirá-la —
por isso eu a carrego nessa mala...
para fingir que nada afim nos há.
Fingimos um aqui e outro lá...
Assim, se um dia alguém de mim tirá-la
e tiver jeito para desvirá-la —
há de ver-nos um só: de lá e de cá.
De tal maneira nos entranharemos,
máscara e rosto de tal modo nos seremos,
que de nós sobrará só a unidade.
E nessa bela inconsutilidade —
ela/eu, eu/ela: juntos nos iremos
para os lados da nossa identidade.
LA 00/09
Que bruxuleio é aquele sobre as vagas?...
Serão os sonhos-dons de algum marujo
que, bêbado de rum e de santelmo,
conversou anjos de fazer inveja?
Serão os eus fantasmas que restaram,
andando sobre as águas e colhendo
( cada um com uma cesta sob o braço )
estrelas, astros, frutos de luar?
Que bruxuleio é aquele que vem vindo
com os pés florescendo portos fartos
de pernas, seios, ventres, vinho, amores?
Que corpos bruxuleantes são aqueles,
impregnados do brilho de ardentias
e do sonho de todos os marujos?
LA 00/09
Pelo Lado De Cá...
Pelo lado de cá era o jardim,
onde eu tinha comido aquele fruto...
Já o lado de lá não tinha o astuto
enrodilhar por um só não ou sim.
Mas mesmo discernindo-os, mesmo assim,
não me quis arriscar com o contributo
que a intuição nos desdobra... e, resoluto,
fui pela margem interior de mim.
Confesso que em chegando tive acesso
ao Grande Arquivo, e sem aquele preço
que nos dizem se paga ao consultá-lo...
Vi que eu era o caminho e o caminhante
( pois que existia só em eu tocá-lo...) —
e que a via é um fluir do viandante...
LA 00/09
Onde O Rosto Da Amiga...
chorando o despudor da luz despida?
O mar é sons de formas calorosas
pelo estio da carne renascida.
As cadeiras vazias e saudosas
nas varandas caladas. Onde a vida
que gargalhava coisas tão gostosas
naquela gente há pouco... reunida?
Os fantasmas que andam pela casa,
as lembranças que vivem por nós dentro
são sonhos só, frustrados ou vividos.
E teimam em doer, são doloridos
até que os convoquemos para o centro —
como a aceitar que a vida é mesmo asa.
LA 00/09
Setembro Em Sol, Azul...
faz fervilhar as folhas em lufadas
que correm pelo verde abrindo estradas
de luz em víride tremulamento...
Setembro traz de volta o sentimento
de uma vida em pujanças renovadas —
cores-luzes-calores em revoadas
de contos-cantos: charme-sonhamento...
Setembro nidifica, e ensaia o canto...
O sabiá capricha no acalanto...
e a vida é um bronzeado de libido.
Setembro vem dizer aos corações
que há muito sonho para ser vivido —
transformado em prazeres e canções.
LA 00/09
quem já segurou cabra.
Todos?!?
É bem por isso
que os sabichudos andam fartos:
bebem o leite,
comem o queijo,
a ricota ( que é diet ),
lambem a manteiga —
e todos os et cetera.
E vocês?
Vocês ficam com os berros.
...........................................................................
E por que foi, seu Dito,
que o senhor nos mandou
erguer a mão esquerda?
— Porque é a mão contramão.
LA 00/09
O Olhar Daquela Estranha...
sempre finge me ver na contramão.
Um dia ando de fasto, e a desfeliz
vai ficar com o olhar na minha mão...
Quem sabe, afoito, eu lhe pergunte, então,
por que é que traz aquela flor de lis
( sempre em surrealista floração )
entre o meu coração e seu nariz...
Talvez crie coragem, e pergunte
o que é que tem a ver um transeunte
com seus sapatos temperamentais...
Também lhe peço não pensar jamais
que dois olhares nunca poderiam
dizer-se o que mil olhos se diriam.
LA 00/09
Quem Sabe Um Dia Pego...
e vou te visitar, amor, na lua.
Ali te vejo em corpo e alma ( que a tua
pessoa esteja ) e o ardor te venha à tona.
Diligente, me mostras toda a zona
onde os velhos amantes têm a sua
vinha de sonhos e a inconsciência nua
e algo crua de alguém que se apaixona.
Então, Berene, ambos satisfeitos,
fazes-me trabalhar-te os feros peitos:
lavo-os, engraxo, encero: deixo-os prontos
para a hora de contar-te os belos contos
que aprendi com um velho monge lama...
Então, amor, a gente quebra a cama.
LA 00/09
Badalados, Bem Mais ...
eram todos os filhos dos notáveis.
Nosso gosto e vingança — formidáveis —
era vê-los, nas provas, suplantados.
Poderiam ter bolsos recheados,
amizades e charmes desfrutáveis,
tapinhas, tratamentos invejáveis —
mas, como alunos, — sempre superados.
Nós, os pobres, de raiva é que estudávamos...
Era o lema: vencermos ou vencermos.
Notas mais altas não: jamais deixávamos.
Nossos estudos eram redobrados...
Amizade/amizade... mas perdermos?...
Não! Tínhamos de vê-los superados.
LA 00/09
Ouvir Aquela Música...
um quê a lhe calçar os frágeis pés...
Era como ter algo que lhe vinha
dizer pra não sentir-se assim tão rés...
Sempre a ouvia ( a vender, madrugadinha,
sua verdura...) A música, de viés,
lhe vertebrava o dom que lhe mantinha