a margem espiral

                     lAERTE antonio

                 parte 3 - final

 

 

Põe Na Boca, Moleque...

 

Põe na boca, moleque, o teu apito.

Vê se gritas, acordas o infinito,

e, em bom tom, diz pra toda a sociedade

que não dá pra esconder tua verdade.

 

Bota raiva na ponta do teu grito,

diz ao mundo que dormes no granito —

ao vento, à chuva, ao frio, à feridade,

ao lixo, aos cães, ao gelo da cidade.

 

Põe a boca no mundo: entra de lança

no sossego burguês e sem-vergonha...

nesse tal de Estatuto da Criança...

 

Interrompe um momento a tua bronha,

a cola, o furto, a falta de esperança...

E grita ao mundo: Ei, rato também sonha!

LA 00/11

 

 

Longe, Bem Longe Da Palavra...

 

Longe, bem longe da palavra incerta —

para além da metáfora e do engrama,

mora meu sonho de encontrar aberta

a porta para arder-me em clara chama:

 

dissolver-me de mim pela deserta

estrada de saber-me lume que ama

a aventura de ser a própria oferta

de uma consciência que se fia e trama —

 

e se destrama e outra vez refia

lá pelo transverbal da criatura

em trilhas de querer e de ousadia...

 

E assim me vou por mim, bem ao compasso

de ser, em cada passo, o eco do passo

de eu ter no próprio Deus minha aventura.

LA 00/11

 

 

O Casamento? Orai Por Ele...

 

O casamento? Orai por ele. A sogra?

Não era assim tão má. Nem já rima com...

Outros tempos ( e belos ). Novas ânsias.

Já o vizinho não olha com arrogância...

 

Se a solidão machuca, do outro lado

dela encontramos a pomada. É só

usar, não com o grampinho da vovó,

mas por um meio digitalizado...

 

Saudades? Só daquilo que não foi.

Melhor o carro, o avião, a Net...

do que o bicho de pé e o tal carro de boi.

 

Será que existe isso de almas gêmeas?

Claro que sim, ué! Só que as duas são fêmeas.

Não fique aí parado: a vida não repete.

LA 00/11

 

 

Viuvez De Semana E Meia...

 

Viuvez de semana e meia já

pode cantar o hino até o final...

Nada de meias-coisas: já não há

tais chiliques de ordem social.

 

Sim, senhor: outros tempos! Hoje dá

pra içar o pano até a região glotal,

isto é: até que o cá se torne lá

por um simples motivo deitical...

 

Não me pense o senhor que estou querendo

transformar o cociente em dividendo,

nem confundir o divisor com o resto...

 

Não, senhor. Não e não. Aliás, me apresto

a reafirmar que nesse tempo mau

tal coisa se resolve a pleno pau.

LA 00/11

 

 

Os Três Poderes

 

A paixão é da alma, a inspiração

do espírito. Entre os dois está o Fado e a Vontade,

isto é: a liberdade e a necessidade —

o humano agir e a sua autocriação.

 

Se a vontade hominal muda o destino,

temos a liberdade construindo;

quando o contrário ocorre ( o desatino ) —

tem-se a necessidade decidindo.

 

Entre um e outro, o homem se suplanta:

os embates têm saldo positivo

na cadeia entre o vivo e o redivivo.

 

Quando um desses poderes se quebranta,

a ponto de desviar o nexo-consciência —

um terceiro intervém: a Providência.

LA 00/11

 

 

Farsa Escrota

 

No boteco da esquina,

um bando de cachaceiros,

em doce fraternidade —

lavam sua honra com pinga.

Esses tais serão o últimos

em cujo comportamento

a ideologia enfiou

terríveis caraminholas —

que foram virando... viraram

tão-só uma farsa escrota

de títeres que ficaram

em bandos e bandos sós

( ilhados em suas cabeças ) —

lá atrás do caminho.

...........................................................

Esses tais ( que delícia! ) hoje lavam

a sua honra com pinga.

LA 00/11

 

 

Maledicência

 

A maledicência é um modo

de — mesmo mentindo —

falarmos a verdade.

Como que nos desesconde:

torna-nos mais verdadeiros.

Durante a sua prática,

podemos ver mais claramente

o que somos.

E tal visão, quase sempre,

é motivo de mudança.

LA 00/11

 

 

Quando O Pranto Me Vinha

 

Quando o pranto me vinha, eu disfarçava

e ele, meio sem graça, não chorava —

ficava com o jeito da vizinha,

que dizia que sim, porém não vinha.

 

E a solidão, que sempre era tão brava,

ora ladrava, uivava ou mordiscava

lá dentro em mim, posto que nem convinha

fazer-lhe: Buuuuuuu!... Ela nem medo tinha.

 

Aí, eu me descia pro quintal

e, jogando gamão com meus fantasmas,

víamos que sonhar deixa sem graça o mal...

 

Víamos que o sorriso como o pranto

moram tão perto que, nas horas pasmas,

os dois ficam com gosto de acalanto...

LA 00/11

 

 

História Antiga

 

Um dia ela chegou com aquelas pernas

que me davam vontade de mamão.

Pediu-me que apagasse as três luzernas

para não machucar nossa função.

 

Agradeci-lhe com palavras ternas

por conduzir-me em tal mineração...

dizendo-lhe que nunca havia visto pernas

que me causassem tanto estremeção.

 

Respondeu-me que os homens somos bobos —

nossos chiliques de ferozes lobos

se domam pelos gestos liriais...

 

Disse-lhe que grilhões de ferro são

muitos mais frágeis que os do coração:

bem mais brandos que aqueles culturais.

LA 00/11

 

 

Era Outra Coisa A Vida...

 

Era outra coisa a vida, o amor, o sonho.

A realidade era outra realidade —

algo de algo que viesse assim inconho

e que só fosse em sua alteridade...

 

Era outro riso ( não muito risonho )

o que me ria atrás da opacidade

que eu julgava um olhar, gesto pidonho,

todo feito de sombra e claridade.

 

Era outra a cor dos olhos, outra a face

por debaixo da máscara de alface

que não durava nunca mais de um dia...

 

Era outra a amada, outra a ousadia...

Tudo e nada: outra coisa sendo-sida...

O sonho, o amor... era outra coisa a vida.

LA 00/11

 

 

Alienação

 

Entre o reflexo e a reflexão,

a maioria fica com o primeiro.

Pensar parece andar por espinheiro,

ou conduzir, quem sabe, a lugar-não.

 

Parece conduzir à perdição

dos que se rolam por despenhadeiro...

Um perder-se entre insânias de um roqueiro

mediunizado de alucinação...

 

Pensar conduz ao medo de se ver,

de topar lá consigo por cavernas

cheias de abismos, bichos por vencer...

 

Pensar nos lucifera de luzernas

que nos queimam, nos tiram a razão...

O normal é viver num aquém-reflexão.

LA 00/11

 

 

Sempre Que Os Vejo...

 

Sempre que os vejo conversando,

pego-lhes uma carona

no vácuo da conversa —

e seguimos vazios até nada.

LA 00/11

 

 

Ver(-Se)

 

Se o ver muda o real,

também existe o ver(-se)

para o masocodegustar-se.

O ver(-se)

tornado doença pura —

eternamente recostado

nos psicodivãs:

a dor tornada

em delícias de doer.

LA 00/11

 

 

 

Quem Caiu, Faz Tempinho...

 

Quem caiu, faz tempinho, foi o mundo,

e o que sonhávamos caiu com ele.

Difícil há de ser repô-lo sobre os pés,

já que isso só depende de confiança —

 

confiança uns nos outros e em nós mesmos:

com isso a gente até que construiria,

não um futuro tolo e ensangüentado —

mas um futuro com felicidade.

 

Caiu, já faz tempinho, aquele sonho

que era a argamassa de entre o material

com que a gente ia erguendo o nosso Nexo.

 

Para reerguê-lo só no dia em que

recobrarmos o crer de nossas mãos

que acreditavam no construir de todos.

LA 00/11

 

 

Farei De Vime Uma Gaiola...

 

Farei de vime uma gaiola, e nela

hei de guardar não só as nossas penas

como os cantos no pé de beringela

que ave alguma cantou, nem nas verbenas.

 

Montaremos depois na mesma cela:

a cavalgar por chãos, terras morenas,

entre o cheiro e o verdor da pimpinela —

o vento a flufluar suas avenas.

 

E cansados de tanto fazer nada,

( se bem que não fazer tem seus fazeres ) —

iremos pra cabana abandonada...

 

Faço fogo, abro um vinho e — se quiseres —

fazemos, refazemos, tresfazemos...  coisa e tal...

Tornamos a fazer... do começo ao final.

LA 00/11

 

 

 

Quando Chegasse Então...

 

Quando chegasse então o fim final,

eu bem que adoraria estar fodendo.

Mas, se não for possível, não faz mal —

então hei de lembrar-me de eu fazendo...

 

Trepadas que eram, mas que acabaram não sendo,

mister cumpri-las ainda com mais sal

que aquelas que não eram: com adendo

a explicar-lhes o tom bem mais feral...

 

Levantar todo o tempo não fodido —

e apresentá-lo à vida: olha, mãe,

quanto prazer tolamente não-sido!

 

Permiti-me, Babu, fazê-lo ser

com chiques e fricotes: facultai

que esse tempo se torne em tempo de foder.

LA 00/11

 

 

Se Os Lados Não Te Servem...

 

Se os lados não te servem, que fazer?

Um bom lugar, não raro, é sobre o muro.

Sobre ele, há os que esperam o futuro

e os que se jogam dele pra morrer.

 

Mas ninguém chora ou ri, só buscam ver

como é que é a queda: se o seu baque é duro

e quebra mesmo a cara, e se é seguro

como não precisar... ou ser sem parecer...

 

O mundo sempre apreciou os francos,

e incentivou muitíssimo a franqueza...

Adora os paraplégicos e mancos.

 

O mundo ama o pobre: a boa gente...

Ama os fracos, detesta o homem de agudeza

e abominavelmente inteligente.

LA 00/11

 

 

 

Andar, Andar, Andar...

 

Andar, andar, andar num chão que se desfaz...

Andar, andar até acabar o mundo.

Andar, andar, andar como o segundo

anda nas horas sem olhar pra trás.

 

Andar, andar tal como um ladravaz

fugindo de si mesmo e vagamundo —

sonha por inventar algo capaz

de fazê-lo invisível, mas fecundo...

 

Andar, andar, andar até que a estrada

se torne a antichegada da jornada

feita de fins-começo e de chegar-partir.

 

Andar, andar, andar até que a andança,

em seu pé após pé, perca a esperança

de se encontrar de frente... e se matar de rir.

LA 00/11

 

 

Sinto Uma Dor Que Me Faz Rir...

 

Sinto uma dor que me faz rir... um dó

de mim, que arranco e deixo de raízes

pra cima, enquanto invoco chafarizes

que me lavem da mágoa e do seu pó.

 

Rá-rá, Babu! É preferível só

( e com mulher, Babu! ) do que felizes

êxtases zens a sós... Que diretrizes

se têm quanto ao coçar do fiofó?

 

Nenhuma: pois coçar reclama unhas,

mas unhas que conheçam as mumunhas

da velha e antiga arte de coçar.

 

Mas de que mesmo a gente cogitava?

Ah, já me lembro: a gente merditava

sobre o rir que, de tanto, faz chorar.

LA 00/11

 

 

 

 

Atiro O Anzol E Fisgo...

 

Atiro o anzol e fisgo semantemas.

Com eles me debato ao fundo e à flor

das minhas águas: vão criando temas

que se tecem de um rubro predispor.

 

Tudo parece claros transfusemas

de realidades mil a se interpor —

espiando por postigos de poemas

que vão ganhando corpo de viajor.

 

Lanço, então, minha rede na enseada

que retorna rasgando de pesada...

A vila toda come peixe e pão.

 

Volto, depois, às minhas águas muitas,

num marulhar em alma-coração —

rebuscando fisgar ovas fortuitas.

LA 00/11

 

 

Se A Solidão Não Dói...

 

Se a solidão não dói, não é da boa —

não acrescenta nada ao ser-pessoa.

Nem traz em si a esperança de remédio —

é ponte que quebrou, mora no tédio...

 

No morno tédio. E se auto-apieda à toa —

a ouvir o próprio dó, a própria loa...

E que fazer nesse sentir-se nédio

a ter por porta só o próprio assédio?

 

Ponte quebrada, a solidão é impasse

bem na divisa entre ser e ser-se —

na divisa impossível de se ver...

 

A solidão ( da boa ), em seu doer,

já traz a força para elaborar-se —

o combate, a ousadia em transcender-se.

LA 00/11

 

 

 

Père Lachaise

 

Daqui escuto o ressonar branquinho,

o sono chique lá do Père Lachaise...

E olha que existe o marulhar marinho —

águas e águas: oceano em sudorese,

 

entre nós, minha amada, e o sono lindo

daqueles que o Lachaise acaricia

com fama, glória, heroísmo e ousadia —

um sono-sonho: lindo ( quanto infindo? ).

 

Infindo em seu sonhar que se transcende

e de beleza e glória se reacende

por entre o pó e aquilo que não morre.

 

Um sono-sonho que, descalço, corre

e com os pés sujos de pó e astros —

deixam lá dentro em nós eternos rastros.

LA 00/11

 

 

 

Se Eu fosse Um Velho...

( O Velho E O Mal )

 

Se eu fosse um velho e fisgasse um peixe

maior do que o meu barco —

ah, eu ( também ) não me largava

de segurá-lo!

Lutaria com ele enquanto Deus

me desse força e tutano

( e por que não também colhões

iguais aos desses velhos marrudinhos

a quem só esses tais ainda lhes restam

com uma metáfora,

saudosa metáfora ao meio? ).

 

Lutaria esquecido,

esquecido de mim,

esquecido de tudo

e assim ( não sei por quanto tempo...

quem dera pela eternidade! )

nem me daria pela vida

e suas manhas e mumunhas...

suas frescuras orvalhadas...

suas delícias improváveis...

suas xotices crocantes...

Sim, senhora: em não a vendo,

( não vendo a vida lá fora ),

isto é: vivendo já sem viver-me

( e nem sabendo...) —

a vida deixa de frescura

e a gente pode ser feliz —

mesmo já sem bengala

a procurar

pelos buracos da vida.

........................................................................

E assim de pescaria

em pescaria

a gente até nem se via

a escrever O Velho E O Mal.

LA 00/11

 

 

A Pior Desgraça Humana...

 

A pior desgraça humana, certamente,

seria o homem tornar-se um ser eterno.

Isto, sim, lhe seria o grande inferno,

a desgraça maior, mais inclemente.

 

Se em sua miserável condição,

se no seu cheiro de mortalidade

sua arrogância e perversidade

não podem encontrar suportação —

 

Quanto mais arrogante e insuportável,

quanto mais desgraçado e miserável

não fora o homem feito um imortal?

 

As coisas só são belas neste mundo

por terem o seu outro lado oriundo

de santa Diretriz providencial.

LA 00/11

 

 

 

 

Ouvi Umas Risadinhas...

 

Ouvi umas risadinhas pelo quarto...

Vozes crocantes de crianças...

Cliquei a luz:

As minhas meias

corriam uma

atrás da outra...

 

Sim, estava na hora de lavá-las.

LA 00/11

 

 

Não Sei Aonde Me Levam...

 

Não sei aonde me levam meus sapatos.

Geralmente não sei, e os deixo ir —

maciamente a desviar de ratos,

bueiros abertos, camas de faquir...

 

Sobre as calçadas ou por entre os matos,

gostam do mesmo modo de seguir.

Não apreciam é pisar nos gatos

quando enrolados lá em seu dormir.

 

Como estás vendo, são bem comportados,

cavalheiros até, sempre engraxados,

cadarços enlaçados e impecáveis.

 

Um dia irão a Roma ver o Papa.

Não gostam de galochas nem de capa...

Pra quem não sabe: são insubornáveis.

LA 00/11

 

 

Humanóides

 

Os nababos, Babu, são bons de rabo:

se fartam com o bocado que é dos outros.

São bípedes mimados e de luxo —

seu ego vive cheio de “Eu mereço!”...

 

Os nababos, Babu, pilham-empilham —

São um tipo senil de consciência:

sua fome é maior do que seus olhos —

uma serpente a devorar o mundo.

 

Os nababos, Babu, são molequinhos

que vêem as coisas como seus brinquedos —

são todos seus, só seus, somente seus...

 

Os nababos, Babu, são usineiros:

fazem de gente a hominose: uma farinha...

e do que existe: fazem coisas suas.

LA 00/11

 

 

Engraçado, Babu...

 

Engraçado, Babu, que é a vida: quando

buscamos, não achamos; quando achamos,

já nem buscamos... e, assim, todos vamos

buscando-não-achando-e-achando-não-buscando...

 

Outras vezes, Babu ( não compreendo... ):

nos é dado, mas nós não aparamos,

e escorre como a areia que pisamos —

tocamos, temos... porém, não sabendo...

 

Pior, Babu: se a gente pede bis,

a vida já desvia o olhar sem piedade...

como a dizer: Não deu pra ser?... Pois fosse!

 

Quando ainda bem moço, era feliz,

mas nem ligava. Hoje, a felicidade

procuro, e ela me faz beicinhos de cu doce.

LA 00/11

 

 

 Que Bom: Tudo O Que É Bom...

 

      Que bom: tudo o que é bom

                        faz mal.

      Sim, isto é bom —

      pois faz sobrar a todos

      um pouco desse bom —

      que — sendo pouco —

      já não faz mal.

 

    Deolin-n-n-n-dá-á-á-á-á-á-á-á-á!...

      LA 00/11

 

 

                     Menina De Beijo Bom...

 

      Menina de beijo bom,                   

      com sabor de araçá,

      sabe qual seu maior dom?

    Esse olhar de manacá.

      LA 00/11

 

 

Engraçado: A Gente Nunca...

 

Engraçado: a gente nunca é feliz

com o que tem na mão, ou bem à mão...

Quer sempre o que está longe do nariz

ou dividido entre alma/coração...

 

Se tem no cálice licor de anis,

então prefere pinga com limão.

Há de querer banhar-se em chafariz,

chamando ao bom chuveiro caretão.

 

O existente não sendo suficiente,

busca futuros do inexistente...

Troca papos e leros por divãs...

 

E na angústia da nunca-atualidade,

põe o que pode ser felicidade

na esperança sem mãos dos amanhãs.

LA 00/11

 

 

Cinza, Nos Prometiam...

 

Cinza, nos prometiam dias cinza

( lembram? ) e o povo, às lágrimas, aos urras,

o bolso e as mãos repletos de esperança,

delirava ante a faixa à tiracolo...

 

E, de fato, a partir do outro dia,

iam empacotando o ouro e o azul

dos dias, a trancá-los em cofrinhos

invisíveis que tinham pelo mundo.

 

O povo, assim entregue nas mãos cruas

e sanguinosas dos dominadores,

come-descome-come o pão do Diabo.

 

E nesse céu de ouro e azul ( que sobejavam ),

na ex-Floresta ( que tantos cobiçavam ) —

o povo vê realmente cinza e cinzas.

LA 00/11

 

 

Claro Que Os Sinos Dobram...

 

Claro que os sinos dobram para nós

e em cada um de nós, numa cadeia

de ressonâncias-corpos, ampla e cheia, —

de pulsão em pulsão, de entrós a entrós...

 

Afiada como a lâmina do algoz,

evidente que a morte erice cada veia

de cada criatura que lhe ateia

fogo à lembrança... e adentra um sentimento-nós:

 

todos num só navio com mil portos

de embarques-desembarques-vivos-mortos —

cada-um-é-o-navio-e-cada-um...

 

E há a hora e a vez de cada vivebundo

provar o insólito sem par algum —

frente a frente consigo: só e moribundo.

LA 00/11

 

 

Muitas Vezes Nos Negamos...

 

Muitas vezes nos negamos

a ver o óbvio —

desejaríamos ele não fosse

assim tão lavado, tão futilmente lúcido...

chão de recicladora de vidro —

um sem conta de caquinhos

eriçados, multicores,

perfurante-cortantes —

mas bonitos de se ver...

 

Só a partir do momento

que o vemos ( o óbvio ) e o assumimos —

é que verificamos

que a sua feiúra

tem até muito charme —

e aceitamos o não-ser-aquilo... da vida.

LA 00/11

 

 

Animal Racional...

 

Animal racional pela metade

( se tanto ) satisfeito: é isso o homem?

Sei não. Só sei que a alma é insaciedade —

é abismo de abismos que se comem

 

e se metabolizam na consciência

de não haver sequer trivial satisfação

( aí entre, talvez, o riso como ciência

de aplacar a insaciável ambição ).

 

Animal racional trazendo a morte

pendurada na angústia: é isso o homem,

sem cão nem mão ou nada que o conforte?

 

Sei não. Só sei que o homem é bem mais

que a grandeza ou os males que lhe assomem —

o homem é sempre mais que o homem e seus ais.

LA 00/11

 

 

 

Dor De Corno Ou De Ouvido...

 

Dor de corno ou de ouvido, qual dói mais?

Sei não. Mas esta tem remédio; aquela...

remediada está. Chá de canela

dizem que é bom pra sensações gripais.

 

( Namorei certa moça [e isso já faz

algumas trocas de moedas...] bela

como o sonho não ter erisipela,

que me dizia: “O amor é como antraz...” )

 

Nunca entendera o que ela me queria

dizer naquele gesto de ironia —

pois que tinha o atrasmente celestial...

 

Não sei por quê, mas quase me esquecia:

a moça era enfermeira e, por sinal,

casou-se com o dono do hospital.

LA 00/11

 

 

Tinha Os Atrases Tão...

 

Tinha os atrases tão hidaulizados,

que o doutor-fazendeiro, mal a viu,

roubou-a do marido e, qual tiziu,

recobria-a de cantos pulipiados...

 

E passavam-se os dias, vertebrados

e erigidos dos sais daquele sonho

de quanto mais pidonho mais inconho —

dias profícuos, lento-trabalhados...

 

Mas... a musa do lar evém da Europa!

E agora?!!

                 Ele pegou mulher e roupa

e pessoalmente as ( fez questão ) leva ao marido.

 

Este a recebe muito comovido,

e brada à vizinhança, ao céu, ao vento

que a oração lhe salvara o casamento.

LA 00/11

 

 

Banimento

( Ou Hedonismo Hodierno )

 

De mim esconde a morte, ó Virgem Santa,

livra-me de pensá-la ou de lembrá-la,

seja-me tão constante o ignorá-la

tal como a pedra ignora almoço e janta.

 

Viver de forma alienada, e tanta,

que a realidade seja desprezá-la,

e a voz do mundo seja muda, e a fala

seja tão clara como a de uma planta.

 

Lancem-se os corpos lá no mar profundo...

e a idéia clássica de cemitério

seja de vez varrida deste mundo.

 

E o carpe diem seja o eterno lema,

tendo a ventura como claro emblema —

viver seja isto-agora em riso sério.

LA 00/11

 

 

O João De Barro Explode...

 

O joão de barro explode em gargalhadas.

O vento passa erguendo a saia verde

das laranjeiras novas, replantadas...

Uiva de saia em saia, e após se perde...

 

A manhã são mil seios nas ramadas,

usando sutiãs azuis que o vento

mostra ao abrir os ramos em lufadas,

gemendo e fecundando em sonhamento...

 

Mais longe, o canto esparso das ceifeiras

se mistura com o sol e as laranjeiras —

e a cantilena ajuda a suavizar

 

o calor, os espinhos, as canseiras,

o salário aviltado... E o vento, a uivar,

morde o rosto das moças a cantar.

LA 00/11

 

 

 

 

Jeito Zen

 

Dançai, gente! Dançai-dançai. A cada

mudança cambial: dançai-mudai —

tal qual a orquestra mundial vos vai

tornando a dança mais globalizada.

 

Dançai, e conservai equilibrada

a vossa e-loucura-sã... Dançai.

Dançai, senão peteca vossa cai...

Dançai, mas preservai a alma aquietada!...

 

Conservai vossa louca sanidade

com muita bossa e zen-serenidade —

sem perturbar a paz do vosso ser...

 

É assim que vos querem, gente amada:

cada vez mais feliz com a tarada

da vossa vida, — entre zen ser e ter.

LA 00/11

 

 

 

jazz

 

Mediunizado de si mesmo, o jazz

reconta no ar a realidade, inventa

( já reinventando ) em via, ora nevoenta,

ora diáfana, — da cabeça aos pés...

 

Sim: da cabeça aos pés ou, de viés,

em recriada estrada sempre isenta

de termo-fim que, aliás, só acrescenta

( em espirais ) ao meio, ao alto, ao rés...

 

O sofrimento, o riso, o improviso:

o improviso, o sofrimento, o riso —

alumbres cancionados de anjos-luz...

 

Liberações de sonhos-sonhamentos

de sentimentos-coisas-pensamentos —

automediunizados fluindo a flux...

LA 00/11

 

 

 

Calma, Meu Velho! Calma...

 

Calma, meu velho! Calma, coração.

Se te partes de amor, me enterras todo.

Assovia uma valsa, encontra um modo

de mudar esse réquiem em canção.

 

Réquiem?!! Pois sim: viremo-lo do avesso —

aquele com um fim sem um começo...

Pode morrer o que nunca nasceu?

Claro que não! — diria seu Abreu.

 

O que é, o que é: É exigente pacas —

pois quer do rosto a simpatia e o suor,

e quase sempre acaba em duas macas... ( ? )

 

É ele mesmo!, e se assemelha à asma:

pior do que ela só o seu fantasma...

O coração? É sempre de menor.

LA 00/11

 

 

Uma Lembrança Má...

 

Uma lembrança má foge a cavalo...

Vai pro diabo ( infeliz! ) que te carregue!

Teu próprio pai te execre e te denegue

por noite negra de corisco e estalo.

 

Esporeia teu luto! E cavalgá-lo

te seja a pena que jamais sossegue!

O teu galope a parte alguma chegue —

a não ser a veredas de iniciá-lo.

 

Chicoteia o teu ódio! E, de feri-lo,

te aumente a longa desesperação

no coração sem paz, jamais tranqüilo!

 

E basta ( creio ) para se notar

que a vida, sem recíproco perdão,

não terá luz, nem pés de caminhar.

LA 00/11

 

 

Se A Beleza E A Verdade...

 

Se a beleza e a verdade

se encontram possuídas

uma da outra —

então nosso sentir-pensar,

nosso fazer-criar

estarão cheios da glória

de alumbrar-se

daquilo em nós que não morre.

 

A verdade-beleza

são os sais do sonho

a esgalhar-se

pela árvore da vida.

Nossa mortalidade

só não pára na morte

porque o Verbo de Deus

é a encarnação daquelas duas.

Sim: o Universo,

a matéria ( biopsíquica )

está prenhe do sonho

do Espírito de Cristo.

LA 00/11

 

 

 

Falta, Uma Fal...

 

Lealdade...

escrita sobre o pó

de uma grande mesa

numa casa fechada há muito.

 

A pessoa que a zelava

não sabia absolutamente ler —

por isso apagava sempre

aquelas letras

que não sei quem desenhava.

Apagava tão facilmente

assim como faz o vento

com um rastro de réptil

em árido caminho.

 

Um coração alérgico

aos silogismos da esperança.

Um arrepio ao pó

de lugares fechados —

silêncios-ácaros-fungos...

Um cheiro sensual-mortal.

Falta, uma falta de...

Um redoer mascado

pelo lembrar.

LA 00/11

 

 

 

Mais vale uma xota ao lado

do que mil te prometendo.

LA 00/11

 

 

 

    Saudade dói?

    Dói e lateja.

LA 00/11

 

 

 

Vamos Dançar, Amor...

 

Vamos dançar, amor, vamos dançar

a valsa vienense sobre um poste.

Quem sabe o velho tédio desencoste

e vire um mu charmoso e vá pastar,

 

correr, pastar, correr e relinchar,

correr, correr e, em seu correr, emboste

trilhas por onde nosso olhar se mostre

pasmado ante seu pinto a balançar...

 

e a fazer rir a nossa velha angústia

que com um certo jeito até deguste a

cena em seu aprazível picaresco...

 

Senão a valsa, amada, — serve um tango.

Senão comigo, — com o orangotango,

desde que o bicho, amor, não seja fresco.

LA 00/11

 

 

 

Transpôs ( A Idéia ) A Vau...

 

Transpôs ( a idéia ) a vau do pensamento,

e aguardou entre a praia e não saber-se

o terreno de esplêndido momento

para a semente em árvore fazer-se.

 

Árvore poderosa de um intento

que não nasceu em mim, mas do tecer-se

dos inúmeros fios do argumento

que há de ter o seu lúcido interesse

 

de erigir-se em factível edifício

onde estudo, pesquiso e aprendo o ofício

de recriar-me para transcender-me.

 

Ofício em que morrer é o de somenos...

e o fazer não é coisa de pequenos.

Ofício em que viver é ser em ser-me.

LA 00/11

 

 

 

No Entanto, Temos De...

 

No entanto, temos de levá-la a sério

( a sociedade ) até à gargalhada —

ir-lhe mostrando o ranço deletério

e o ar de meretriz glamurizada.

 

No entanto, temos de levá-lo a sério

( o amor ) até o mais lúcido deboche —

cocote antiga de barroco broche,

cujo caldo engrossou o cemitério.

 

Também levar a sério a amizade

que juntamente com a fidelidade

sempre legaram o mais belo riso...

 

Levar a sério a pobre da vizinha

que de tanto ficar sozinhazinha —

acabou por perder todo o juízo.

LA 00/11

 

 

 

De Vez Em Quando Assenta-Se...

 

De vez em quando assenta-se ao meu lado

um amigo esotérico e ex-aluno.

Daí decorre um papo acebolado

com carne de mamute e sola de coturno...

 

E piora o cardápio: um ensopado

de cobras-sapos-ratos: caldo bruno —

fumegante no prato, e já empurrado

boca a abaixo... sabor inoportuno...

 

Fico a rir de nós dois, observando

como é fácil falar: ir fabulando

coisas em que se quer acreditar...

 

Nossa pobreza sempre se desviando

de a Deus, a nós e ao próximo amar —

como ponto de todo começar.

LA 00/11

 

 

 

Entra No Ritmo De Uma...

 

Entra no ritmo de uma canção

qualquer, meu coração, e solta a franga!

De preferência, uma canção de tanga,

sambando solta em sem-vergonhação...

 

Dengues de Cama-Sutra, coração, —

lisos, leves: de alguém chupando manga

com aqueles fiapos de xandanga —

fininhos, claros em pentelhação...

 

Frescuras, arrepios e pulsões

em horas sedas, cheias de lisuras,

de segundas e quartas intençoes...

 

Uma canção com todas as solturas,

mil fricotes, chiliques e frescuras —

cantada em três ou quatro impostações.

LA 00/11

 

 

Se O Que Dói Se Apieda...

 

Se o que dói se apieda do que dói,

acaba doendo uma dor dobrada —

existe o pé que anda pela estrada

e aquele que em andando a constrói.

 

Ao delicado, o mundo vem e o mói.

O ressentido tem a mão atada:

sua mágoa lhe torna a vida em nada —

repleta do seria que não foi...

 

Sim: toda frustração será cobrada

com juro, correção, coisa inventada

e fantasmas com frio a fazer bu-u-u-u-u-u-u!...

 

E aquele que não cai na gargalhada,

direto cai no bico do urubu —

que então começa por comer-lhe o cu.

LA 00/11

 

 

 

A Beleza Dos Lírios...

 

A beleza dos lírios amarelos

sobe, mais uma vez, por finas hastes.

Vede-a: não é a mesma que apreciastes,

ano passado, com os mesmos zelos?

 

Não é a mesma beleza que ofertastes

entre versos, cartões os mais singelos —

brotada dentre o chão e o sonho em elos

de sombras-brilhos que tão forte amastes?

 

A terra de setembro os vê brotar,

assídua, pontualmente ano após ano —

bem mais humanos que outros vegetais...

 

Olhos que os vêem costumam perguntar

se entre tanta incerteza e certo engano

verão mais um setembro em tons liriais.

LA 00/11

 

 

A Torre De Marfim

 

A torre de marfim caiu. Matou

( se não erro ) o último nefelibata,

sepultado bem entre um democrata

e velha china que se envenenou.

 

Dizem que o tal da torre nem notou

que ela inclinava como um acrobata...

nem aceitou salvar-se na gravata

que a vizinha, bom grado, lhe achegou...

 

O gajo ( contam ) foi-se porque quis —

e até esboçou um gesto de feliz

quando virou pro canto ao expirar.

 

Falam que alguém tentou negociar

o material da torre de marfim,

mas que eis... virou sapatos de arlequim.

LA 00/11

 

 

 

Canção Para Elisa

 

Por que esperar por quem não vem? Ansiar

pelo gosto da angústia de esperar?

Melhor não fora, nesse desespero,

dizer que te amo, mas que não te quero?

 

Por que fingir que estás quase a dobrar

a esquina onde plantei o meu olhar?

Por que fingir, se sei não ser sincero

esse não te querer, enquanto espero?

 

Manhas do coração a disfarçar

( com vergonha de si? ) o que seria,

entre o vento e o areal, seu chafariz?

 

Manhas cansadas desse andorinhar

fingindo não ser água a água fria

em que se banha o seu feliz trissar?

LA 00/11

 

 

Vivo A Escrever Só Para Ver...

 

Vivo a escrever só para ver se passo

por debaixo do pêndulo... e me safo

da tirania desse descompasso

de passado e futuro. E já me estafo

 

no agora ter de desvendar o baço

dessa realidade que engarrafo

como a um gênio ( veado ) lá do espaço,

e agora preso, sem o verbo e o bafo.

 

Escrevo para ver se esse futuro,

que finge vir de frente ( ou sobre o muro ) —

me venha então maduro pelas costas...

 

E, assim, possa remir o meu passado —

não deixá-lo pisar, desmemoriado,

seus bichos, suas taras, suas bostas.

LA 00/11

 

 

 

Redundâncias Saradas...

 

Redundâncias saradas e rotundas,

exuberâncias, curvas, reentrâncias,

seios aeróbicos, sovadas bundas —

lanças-reentrâncias-mil-exuberâncias.

 

Calipígios orgasmos e jucundas

xotas marulham satisfeitas ânsias...

E a noite é só latejos e ganâncias

de cópulas agônicas, facundas.

 

Cosmopolita ardência, fúria-zorra —

vai jorrando e escorrendo um mar de porra

pelo globo terráqueo em coaxos guapos...

 

As estrelas, com cara de cocote,

já vão fechando os olhos... e o decote...

Cai para um terço o coaxar dos sapos.

LA 00/11

 

 

Uma Semana No Caribe

 

Insalivei meu verbo, e ninfas vieram

servir-me abacaxis, mangas e pêras —

vertebrei os meus sonhos e quimeras,

comendo coisas várias que me deram.

 

E dessa mordomia provieram

outras: todas sem máscaras nem ceras...

Sim, todas muito táteis, reais e veras —

ensinaram-nos tudo o que aprenderam.

 

E eram tantas as coisas que nos davam,

tão generosamente nos tratavam,

que essa estada deixou saudades-queixa...

 

Dentre as filhas das águas, uma havia

que me pedia (  atrás da luz do dia )

lhe rachasse bem lento o “)(” da ameixa ...

LA 00/11

 

 

 

Um Amigo É Demais...

 

Um amigo é demais( nem precisava

tanto ), mas, se tiveres um amigo,

guarda-o, conserva: rega, estaca, escava...

Dizem que é bem melhor que um inimigo.

 

Se bem que o inimigo até nos lava

e abre os olhos: previne do perigo...

Já com o amigo a gente até deprava:

dá-lhe as costas ( ! ), julgando-se ao abrigo.

 

O inimigo é o eterno desafio

para nós e ele próprio: o pobre lio

entre amarmos a Deus, ao outro e a nós.

 

É claro que a amizade desengana —

falta-nos fenda... falta-nos entrós...

Amigo ou não: é condição humana.

LA 00/11

 

 

Meus Pés Têm Os Grilhões...

 

Meus pés têm os grilhões da gravidade,

mas minhas mãos voejam de lugar

em lugar, como sombras de ave que há de

atravessar os mitos desse mar.

 

Tanto entro em ira como em piedade.

Ouço estrelas madames a cantar

sua traição, sua infidelidade,

e/ou sua vontade de esmagar...

 

De minhas mãos também percebo o medo

de fazerem o mal ou serem molestadas...

medo de resvalar no cimo de um penedo...

 

Meus pés? Medo do escuro, cobras, fosso

de elevador e estradas bloqueadas...

Meu espírito? É calmo esse moço.

LA 00/11

              

 

 

Andavam Por Aí...

 

Andavam por aí, tranqüilamente, —

passo fofo, descalço, cor de vento,

disfarçados por trás do pensamento —

atrás do nosso medo adolescente...

 

Andavam por aí, sem dor de dente —

sem desemprego algum e sem tormento.

Tinham por vezes, cor de sentimento

ou se mimitizavam de silêncios...

 

Eram antigos, velhos companheiros,

sempre leais e nobres escudeiros —

a sonhar realidades imortais...

 

Assíduos companheiros de jornada,

fazendo da esperança a sua estrada —

mudando pedras em canções triviais.

LA 00/11

 

 

Oh-la-lá! Quanta Angústia...

 

Oh-la-lá! quanta angústia nesse mundo.

Não fôssemos de circo, minha musa,

já tínhamos levado nas oclusas

o que jamais negou Monge Rotundo.

 

Antigo, Zefa, como andar na fiúza

dos outros, é confiar por um segundo

no insalivado lero desse mundo.

Faltando camisinha, usa-se a blusa.

 

Bom é não confiar nem no papai

que passa pra mamãe o que esta santa

também pode passar para papito.

 

Vai, musa Zefa, vai pentear teu ócio, vai!

Esquentes não. A vida é isso pra mais tanta...

Cantes não. Sopra aqui: toca esse apito.

LA 00/11

 

 

 

 

Poetizar O Banco...

 

Poetizar o Banco tem seus sais...

A loucura também tem poesia:

o roubo, o luxo, a fome, a anomia

são bem patéticos, — portanto iguais

 

a todas as demências desiguais

aos poemas econômicos do dia:

os demônios da pan-economia

com suas intenções virtuais-fractais...

 

A estrutura do mundo está amarrada

ao jeito de pensar-sentir-fazer

que recria a estrutura estruturante...

 

O homem construiu-se uma louca estrada —

aquela que se perde em ser de ter...

Não sabe ser caminho-caminhante.

LA 00/11

 

 

Ser-Ter

 

Os donos, os dominantes,

por através dos séculos,

foram — jeitosamente —

engendrando, na cultura,

ideológica oposição

entre ser e ter.

Você viu no que deu

e no que está dando —

isto é, parece

que a Astúcia tem vencido.

 

Para o homem poder agir

no mundo

e desenvolver a sua aparelhagem

hominal-volitiva —

ele precisa do binômio

ser-ter:

ser, o viajante;

ter, a viagem, —

em duas palavras:

corpo e moral.

 

Este milênio entrante

vai cobrar ao homem

o que pertence ao homem —

gritando-lhe ao ouvido

que o cinismo já não cabe.

LA 00/11

 

 

A Boca Rósea, Ágil...

 

A boca rósea, ágil, fresca, alegre —

muito de asa, de flor, de vôo e sombra —

sonho a se materializar, entregue

ao ar, entregue ao ar... gizar de pomba...

 

E eis esse mesmo rosto: lábios, dentes

em gestos e meneios: olhos, queixo,

faces, cabelo, voz, riso, pingentes —

tudo montando o eixo-semblante, o eixo...

 

em cujo entorno forma-se a aura, o clima,

o magnetismo pessoal, o ar,

toda a expressão: o glamour, essa enrima...

 

Um todo belo-raro-salutar:

beleza desfolhando luz e graça,

charme chafarizando em plena praça.

LA 00/11

 

 

Por Que Será, Senhor...

 

Por que será, Senhor, que nos deixaste

com essa falta sempre em falta? Um vão

impreenchível em alma-coração:

um doer, um autodoer, um sempre-engaste...

 

Será que desse jeito nos criaste —

com essas dores-insatisfação,

pra que do próprio mal que nos legaste

a dor fosse um não-sim... um não-sim-não?

 

Graças Te damos, Pai, que esse vazio

tem entre nós um escarlate fio —

sempre sustido pela Tua mão.

 

Misericórdia, e não o sacrifício!

A alegria, Senhor, nos seja o ofício

a dar-Te glória e achar satisfação.

LA 00/11

 

 

Soneto? E Por Que Não?

 

Soneto? E por que não? Se tem a cara

de quem faz, há de ser engraçadinho.

A menos que nos dêem outro caminho,

então abjuro em nome da preclara...

 

Dentre os tais da lixeratura, um cara,

de glorioso nome, fez beicinho

pro soneto, dizendo que finara

com fulano de tal, um seu padrinho...

 

Fez previsões, profetizou os bons,

disse quais eram maus e meios-tons...

Chamou de engraçadinhos uns, tarados

 

outros. Errou: dez anos desmentiram

seus chiliques e tudo o que previram.

Era um homem de dons enrodilhados.

LA 00/11

 

 

Não Obstante...

 

A vida é uma loucura de improviso,

em que os sensatos sempre lutarão

( com toda a nossa alma e coração )

para mudar o sofrimento em riso.

 

Já foi bonito até perder o siso...

confundir sentimento com razão,

e achar maior razão na emoção...

Mas não faz mal vevência com juízo.

 

Morrer de amor foi belo, e de aventura.

Foi honroso o duelo e elogiada a loucura.

Glorioso ser herói e estar-se por um triz...

 

Hoje acabou tal graça. E o melhor mesmo

é não trocar o rumo pelo esmo

nem coisa alguma pelo ser feliz.

LA 00/11

                         

 

O Meu, O Teu, O Seu...

 

O meu, o teu, o seu...e quanto ao mais,

que nos ajude Deus. Não foi assim

que se viveu, se vive nos anais

e nos nasais desde começo-fim?

 

Foi sim. E é assim, será assim: os ais

dos pobres que se curem com capim...

sua fome que vá plantar batatas,

calcem seus pés o chulé do arlequim.

 

É assim, e não se abre: é maktube,

é ideologia, é norma lá do Clube...

é coisa aceite e quase sem juízo...

 

Mas o mundo já vê, mesmo entre os brutos,

que o que foi posto em leis e em estatutos

é preciso expandir-se em bens e riso...

LA 00/11

 

 

O Mundo Quer Queimar-Te...

 

O mundo quer queimar-te as fantasias

e te fazer vestir o seu fardão.

Em geral quer trocar-te as utopias

por um viver que diz ter pé-no-chão...

 

Até as tuas santas alegrias

de seres um “calhorda” ou “covardão’’

quer mudar-te, — insinuando-te “logias“

que te façam um novo “cidadão”...

 

E haja ...lhões pra tais ideologias

ouvirem com paciência-rejeição,

fazendo as virtuais analogias...

 

Haja-os! pra perguntarmos ao Patrão:

Jogamos fora as nossas coesias —

e o que nos dás, além de um bem grandão?

LA 00/11

 

 

 

Felicidade, Morte...

 

Felicidade, morte, e tudo é vida —

que nada cobrará pra ser vivida,

senão o preço justo da ousadia

de viver com coragem cada dia.

 

( Por saber que a vingança da alegria

sobre o luto é torná-lo em melodia

de vida: antes que a rábula atrevida

do pó faça do beijo uma ferida. )

 

E que fazer, senão acreditar

que, embora seja tudo uma mentira,

é na verdade que o mentir respira?

 

Que mais fazer, senão querer ousar

enquanto a própria vida nos confira

a graça diária de perder-ganhar?

LA 00/11

 

 

Com certeza, o gato mia

porque não sabe latir.

LA 00/11

 

 

A Roupa Suja Já...

 

A roupa suja já apodreceu.

Se lhe lembramos a sujeira , é que

em nós ainda a conservamos, e

não a roupa que já desvaneceu.

 

Foram-se a roupa e o rato que a roeu

dentro do tempo, e o tempo também se

foi para outras prateleiras de

giros outros... e um outro os sucedeu.

 

E, no entanto, a lembrança inda está suja —

como o agouro do pio da coruja...

que só fez mal a quem no agouro creu.

 

A lembança está suja, e pra limpá-la —

só a água da graça a depurá-la:

gotejando no vaso fariseu.

LA 00/11

 

 

OLIGOQUETO’S

 

Era um especialista: olhava, e pofe!

Só lhe escapava mesmo o tipo bofe...

esse que serve aos tímidos e ao pobre,

e ( por que não? ) ao decaído nobre.

 

Olhava, e pofe-pofe! Degustava,

e não coisa qualquer, mas de áurea cava —

coisa de formigar, deixar boboca,

de dar chilique e muita água na boca.

 

Olhava, e pofe! Enfiava na fieira.

Tantas, segundo alguns, que até fariam

correr cortinas de uma rua inteira...

 

Y Assí pasan los dias... Pofe! Pofe!

As estações e os anos também se iam...

E os pofes!, pofes! se tornaram pufffffff...

LA 00/11

 

 

Sua vida foi difícil: era um homem

abominavelmente inteligente.

LA 00/11

 

 

Um dia ela virá,

e, jogando-me num buraco,

me tirará deste abismo.

LA 00/11

 

 

Se O Vento Não Gerar...

 

Se o vento não gerar as ventanias,

o poeta não fizer os seus poemas,

o padre não rezar as litanias,

a terra não construir as suas gemas;

 

Se o mar não florescer as ardentias,

a luz não marchetar seus novos temas,

nem reinventarmos outras alegrias

que sejam nossa força e estratagemas;

 

Se o amor deixar de ser o desafio:

a água potável de um infindo rio;

a fé não for o já termos chegado

( embora ainda estejamos deste lado ) —

então nossa esperança, companheiros,

não será nossa paz, nem seremos herdeiros.

LA 00/11

 

 

O Homem Carrega As Suas...

 

O homem carrega as suas fantasias

lá em sua intenção de ser feliz.

Pirografa a jornada de seus dias,

e segue herói, com sua flor de lis...

 

Leva as suas secretas alegrias

que ele, só ele, sabe belas: de um matiz

que lhe reflete n’alma as ardentias

desse mar que é ele mesmo por um triz...

 

Leva na sua carne constelada

as canções que aprendeu por sua estrada

e as caras ilusões, seu jogo interno.

 

Só ele sabe, num alumbre eterno,

o que é sonhar dentro do Sonho: o que é

o seu amor, sua esperança e fé.

LA 00/11

 

 

Vês Quanta Dor Mesquinha...

 

Vês quanta dor mesquinha e desgrenhada?

Muita aflição no humano coração —

embates desiguais: luta acirrada

por ter e ser, mas quase sem noção...

 

Como em tempos quaisquer: uma nonada

de vida a gerar tanta inquietação —

sempre a riqueza muito concentrada,

sempre a pobreza em vil repartição...

 

Que nada disso te enfraqueça. Antes,

te escudes com diploma e profissão —

nunca te alcance a mão dos dominantes.

 

A Deus, ao próximo e a ti mesmo: saiba

teu ser o que lhes deve. Em ti não caiba

senão as mãos de ousar-te a recriação.

LA 00/11

 

 

Nos Dezembros Molhados...

 

Nos dezembros molhados, goteando

nas latinhas cantando nas goteiras,

os olhos no sem forro das cumeeiras,

aos bocejos, o sono ia chegando.

 

Minha avó, as histórias recontando,

sentada ao lado, bem na cabeceira,

ia contando contos de sereias,

até meus olhos fossem se fechando...

 

Navios, velas, bochechudas velas,

fúrias do mar, rochedos com fantasmas...

iam-me desfilando em grandes telas...

 

Quase transpondo o sono, ouvia o tom pidonho

de suas orações em italiano ( pasmas )

que ela trouxera lá detrás do sonho.

LA 00/11

 

 

Falava Sempre A Sós...

 

Falava sempre a sós seu pensamento,

rodeado de macia solidão.

Ouvindo-o, vinha-lhe o presentimento

de que a saída estava bem à mão...

 

Saída para ser um só intento

com ele ( o seu pensar ) em oração

verbo-litúrgica de confluimento

de todo o ser com sua relação...

 

E, assim, poder passar do centro aos flancos

gozando acesso a outras realidades —

como de suas águas aos barrancos...

 

Ora emerso, submerso e já reimerso

pelas gamas de um lúcido Universo —

no humano de canais-humanidades...

LA 00/11

 

 

Um Silêncio De Ardósia...

 

Um silêncio de ardósia... além do vento

mulato sobre areias de um deserto —

que o mental recriou num pensamento

a cavalgar um grito em campo aberto.

 

Lembrança beduína, em tom isento

de medo, a andar por céu a descoberto...

A morte sempre à vista: longe e perto...

A ousadia a zombar do sentimento...

 

Pegadas de saudade no por dentro

do sonho de provar-se bem mais forte

que a fraqueza a querer-se como centro...

 

Um silêncio entre notas de uma flauta

alevantando najas entre a malta

que ama os laços que a vida tem com a morte.

LA 00/11

 

 

O Mar É Um Som Longínquo...

 

O mar é um som longínquo rebramindo

nas células de toda criatura —

a lembrança de dias refluindo

já transmudados em consciência pura...

 

A bênção das estrelas permitindo

a vida se sonhasse nascitura,

num processo tão belo quanto infindo —

por entre a sombra e a luz, buscando altura.

 

Ecoando fundo entre geleiras-fráguas,

há em nós o marulhar de muitas águas

nesse ôntico-sonhar de pai-oceano...

 

Da fera ao homem, da ameba à ave —

a vida vai do humano ao sobre-humano...

da embarcação de tronco à astronave.

LA 00/11

 

 

Mantém O Bom Humor...

 

Mantém o bom humor, André: o bom

humor. Reinventa a cada dia o riso,

o riso sobretudo de improviso —

prático-tático, esse cujo dom

 

é ser liso, macio e de bom tom:

um riso que não cause prejuízo,

nem jamais comprometa, — haja siso

em tal riso, nem cerda, nem raiom...

 

Um riso que não seja gargalhada...

mas não deixe de ser uma porrada

no sem cara de azeda situação.

 

Um riso que realize sã catarse...

assim como um orgasmo a degolar-se

sem muito tremelique e gemeção.

LA 00/12

 

 

Lançar, Lancei O Anzol...

 

Lançar, lancei o anzol, mas não fisguei

coisa alguma de suas intenções.

A pobreza das nossas relações

era maior do que quem vive em torno ao rei.

 

Quieto, no mesmo poço, me fiquei

à espera de alguns clássicos puxões...

mas foram só visões de sensações...

Pescar, pesquei. Pegar, nada peguei.

 

Enfiei a vara no barranco, à espera...

Boa sombra. Deitei, dormi. Sonhei que era

o boto que emprenhou Mariazinha...

 

Fiquei feliz da vida até a hora

que Mariazinha me chamou: “S’imbora!”

Na varinha de espera, — uma tainha.

LA 00/12

 

 

Ri, Não Muito, Que...

 

Ri, não muito, que destramela... e cai...

e vais precisar dele mais que o riso.

Há em rir um ponto quase que indiviso —

bem entre a razão, que é nossa, ou de Rai-

 

mundo. É o lado-catarse que te atrai,

ou o aspecto-vingança ( a que não viso )

do riso? Ou ( sabe Deus ) os dois? O piso

( aqui ) é bem cediço... engana e trai.

 

Quem ri por último... ? Sei lá, alguém

já disse que só ri depois. Concordo.

Mas o rir pelo rir faz muito bem.

 

Tenho um parente magro, que era gordo...

Que fez? Escola: Rir Até Cair...

Pra ele, rir foi bom, e até faz rir.

LA 00/12

 

 

 

Intuição E Lógica...

 

Intuição e lógica —

os dois únicos recursos

com que o homem tenta explicar

a natureza.

Ocorre que a natureza

é sempre mais complicada

que sua explicação.

Daí tudo servir

apenas por uns tempos.

Ou seja:

a coisa dobrada

só se desdobra

de dobra-em-dobra-entendimento.

LA 00/12

 

 

 

Pero No Mucho

 

Não somos felizes

( sabemos ) —

mas sempre vale a pena

encontrarmos um modo

de fingirmos que o somos.

..................................................

Com a morte a tiracolo,

e com tantas aflições —

que nos resta

a não ser nos apegarmos

às doces mentiras da verdade?

LA 00/12

 

 

Advér...

 

Um dia...

Ah, um dia!...

Esse advérbio

é o lado piedoso

da vida.

LA 00/12

 

 

Os Pensamentos Oxidaram...

 

Os pensamentos oxidaram todos —

chacotas se tornaram, vis apodos...

Pobres, podres idéias, tão velhinhas, —

foram para o museu das carochinhas.

 

Padre Lalau comeu a confessante:

muda, pequena, de marrom, crocante...

Sim: gostosa, macia como malte, —

uma estátua de puro chocolate.

 

Deu os bombons para a vizinha Dora,

disse-lhe que viria em outra hora...

Saiu com a boca cheia de batom.

 

Outros os tempos, outros pensamentos.

Outra coisa é que dói: não mais os sentimentos...

Lalau achou o batom cheiroso e bom.

LA 00/12

 

 

Falou Para A Mulher...

 

Falou para a mulher que ia à esquina —

comprar panela boa: Autolavina.

A mulher esperou seis anos...

                                                Lá um dia,

ei-lo com uma menina e uma tal Maria...

 

Disse à mulher que aquele dia... ( em tom de amante )

fora levado como traficante:

seis anos preso! E hoje, saindo, ( veja a sina! ) —

topa com a irmã ( irmã de pai... ), mais a menina...

 

    Não podiam ficar na rua, Rooosa!

Contei com sua alma generosa...

até a situação, meu bem, mudar...

......................................................................................................

Bígamo, tinha até boa harmonia:

bem cedo, a esposa ia trabalhar...

a menina ia à escola, e ficava Maria.

LA 00/12

 

 

 

Um amor sujo de pena,

maculado de dó —

coisa triste sentir isso

por alguém que nos é especial.

LA 00/12

 

 

 

    Tenho cara, Rosa, de sem-teto?

    Isso não. Mas de SP, ah, isso tem!

    SP?!

    Sim, amor: sem peruca...

LA 00/12

 

 

 

Se Comes-Bebes-Vestes...

 

Se comes-bebes-vestes-moras-te-divertes

o que não podes, amorzão, pagar,

e nunquissimamente te convertes

à realidade do óbvio a ulular —

 

então, ninfa do pó, então eu canto,

canto e recanto, desde seu começo,

canto e descanto aquele “Não mereço

você”... todo banhado em riso-pranto...

 

Será que o amor é aquilo que se sabe

imaturo na hora que lhe cabe

ser arguto... ou mais tolo do que insano?

 

Se é isso, há que deixá-lo ser humano...

Não graves, minha santa, os teus anéis,

que poderás perdê-los nos bordéis.

LA 00/12

 

 

Para Glorinha ( Cinco Aninhos )

 

Espantei jataís e borboletas

em torno ao rosto teu, e extraí méis

com que adocei as ágeis piruetas

de um coração em seus fiéis enlevos.

 

Tais favos degustei com as paletas

com que tracei florais nos capitéis

das colunas que aparam as caretas

rechonchudinhas como carretéis...

 

Menina, eu espantei os beija-flores

que bebiam de tuas tenras faces

a doçura rosada e de outras cores...

 

Espantei as abelhas que queriam

arrebatar-te para um céu que fazes

haver para mil olhos que te espiam.

LA 00/12

 

 

 

Criogenia

 

Pobres homens e seus (em)pilhamentos,

sua vida tornada em gana fria —

um amontoar de pós na ventania,

um ajuntar de palhas entre os ventos.

 

Pobres criaturas em seus vis tormentos —

jamais vencendo o muro da teoria,

seu desespero as leva à criogenia —

confundem vida com congelamentos...

 

Por onde passam deixam a exalar

seu triste cheiro de mortalidade —

não transcenderam sua humanidade...

 

Carregados de plúmbea densidade,

como aprender a ir-voltar: saltar

de um lado ao outro da Realidade?

LA 00/12

 

 

Pensado Por Finórios...

 

Pensado por finórios, possuído

por palavras que tornam impossível

ao homem desprender-se do terrível

processo-de-pensar-já-induzido...

 

Teúdo no pensar, bem manteúdo

no que dizer, deixando ao indizível

e aos sábios todo o lado intelegível

das coisas: “Jamais ser um sabichudo!”...

 

Deixar à classe-dona decidir

o que falar, o que sentir, a que sorrir...

e suas dores ( entre os seus ) balir.

 

E ouvir-ouvir-ouvir ( mas sempre mudo ):

saber ouvir! Ouvir sempre sisudo...

Querem-te assim: teúdo e manteúdo.

LA 00/12

 

 

 

Pensar Sempre Foi Crime...

 

Pensar sempre foi lesa-instituições.

Ousas ter pensamentos? Ousa leve —

pensar já traz em si fogueira e neve...

e mil excomunhões e prevenções.

 

Te oferecem a escada e os corrimões

e o roteiro gentil que, presto e breve,

te mostra o que se deve e se não deve

dizer, fazer, gostar... quais sensações

 

sentir, quais orações orar... e como

e de que jeito e pose e quando e quanto

fazer amor... e qual o infame tomo

 

não ler, não ler... e quanto riso e pranto

rir e chorar... e quão piedoso e terno

deves saber viver em céu-inferno.

LA 00/12

 

 

Se Em Tua Mão Me Desses...

 

Se em Tua mão me desses a escolher,

Babu, entre a verdade ou a beleza —

esta filha do Belo, com certeza,

houvera de bem mais me apetecer.

 

Não só por ser quem é, mas por trazer,

Babu, dentro de sua natureza,

a filha do Real em toda a realeza —

a beleza-verdade em gêmeo ser.

 

Se uma nos faz ter olhos remolhados,

a outra nos faz o coração arder —

cada uma é um lado com dois lados...

 

Mas mesmo assim, Babu, dessa unidade

eu faria questão de poder escolher

da verdade-beleza a beleza-verdade.

LA 00/12

 

 

 

A Vida Bateu Nele

 

A vida bateu nele.

Uma alma depurada,

feito doce de tacho:

a madureza dos frutos

e o fogo

a depuraram —

doce de tacho,

solto em si mesmo:

a vida leve,

autometabolizada

em alegria-esperança

a palmilhar o chão —

mas solta,

solta em si mesma.

LA 00/12

 

 

O Amor, Nhá-Zefa...

 

O amor, Nhá-Zefa, para ser feliz,

não se leva pra casa: que entristece,

e não sendo feliz, nem por um triz,

o pobre então definha e até falece.

 

Amor para ser bom é como um “S”:

sinuoso, e livre ao lado, acima, embaixo...

Sombra, escapole apenas amanhece...

Doce, se tira antes de esfriar o tacho...

 

Amor, pra ser bom mesmo, amesquece.

E sobe sobe sobe... e logo desce

por uma outra rua, outro endereço.

 

Amor, pra ser porreta, só existe

enquanto enquanto, e nem por isso é triste —

amor dos bons adora um fim-começo.

LA 00/12

 

 

 

Não, O Amor Não Se Foi...

 

Não, o amor não se foi,

só foi dar uns retoques...

Voltará novinho de humano:

cheio de uma saudade

orvalhada do sonho

de nos querermos sempre —

não importa que diferentemente,

e diferentes:

importa nos querermos sempre,

num sempre que jamais é muito tempo

porque um sempre que não se mede —

um sempre-amor.

 

Não, o amor não se foi,

só foi dar uns retoques...

Virá cheio da verdade

que faz arder o coração...

e repleto da beleza

que deixa os olhos molhados.

LA 00/12

 

 

Reconto

 

Segundo Fábio Josefo,

João ( São João ), o evangelista,

teria morrido longevo.

Naqueles tempos,

ia-se ao templo três vezes ao dia.

João, já bem velho e doente,

era levado em charola

pelos discípulos. Já no templo,

punham-no sentado bem à frente.

À sua hora de falar,

só dizia uma frase,

que repetia

de duas a três vezes

( sempre a mesma ):

“Filhinhos, amai-vos uns aos outros!”

Os discípulos, acostumados

àquelas suas palavras

( de seu tempo de moço )

que sempre garimpavam

o ouro dos céus,

um dia ousaram perguntar-lhe:

“Mestre, o senhor, que nos fazia

preleções tantas e tão inspiradas,

que nos ia buscar belezas-verdades

a nos adentrarem por todos os poros,

por que agora, amado Mestre,

só nos repete esta frase:

“Filhinhos, amai-vos uns aos outros?!”

...................................................................

João teria lhes respondido:

“Primeiro, porque isto é uma verdade.

“Segundo, porque, se vós fizésseis apenas isto,

seria suficiente.”

LA 00/12

 

 

Se Não Vivermos...

 

Se não vivermos

o cristianismo pelo afeto,

dificilmente poderemos

compreendê-lo

pela razão.

O homem não renascido

( não metabolizado pelo pão

e vinho simbólicos )

jamais encontrará o caminho

do seu coração criança.

Sem esse coração,

não se compreende

a linguagem do reino:

nem a verdade da beleza,

nem a beleza da verdade.

E é nesse momento

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