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Curtos, Nem Sempre Grossos Laerte Antonio textos 1
Tema: Ser Pai Não Basta, É preciso Participar
— Paiê! — Fala, Carlinhos. — A professora falou que caranguejo tem dois pênis, um ao lado do outro — assim ó: como um plugue... — E daí, Carlinhos? — Daí que o bicho é fera, pai! .............................................................................. — E você, Carlinhos, também gostaria de ter dois? — Claro, pai. Bem mais que claro!!! Mas assim ó: cada um como um dos lados de uma mesma pinça... — De onde tirou essa imagem, menino?! — De Dorotéia, pai, que senta bem ao meu lado. .............................................................................. — E você, pai, também não... — Não, Carlinhos. — Sou que nem Galileu: nada de coisas fixas... mas o eixo: o eixo na elipse — e o bailado constelado!... .............................................................................. — Chique, hem pai? — Chique-et-cetera, Carlinhos. Chiques chiliques. LA 06/001
Síndromes
O cara quis rezar de novo, a mulher aconselhou: Deixa uns “watts-f ” pra depois, benzinho, — senão entras em apagão. LA 06/001
Imputa-se-lhe o dedo do suicídio do marido, que amava exclusividades. LA 06/001
Credo Zul...
— Em sociedade é assim: Se você der o nego come, se não der passa vontade, e você capitaliza. — Credo, Zulmira! Você anda romântica... Se você der, o nego come; se não der, pega à força. LA 06/001
— Conhece esta senhora? — Sim, meritíssimo. — E então?! — De um proceder inimputável. LA 06/001
Caboclo meteu a tarrafa. Tirou d’água duas ninfas ( daquelas camonianas! ). Não vendo ninguém do Green-peace nem do IBAMA, — comeu-as. LA 06/001
Dependendo de quem vem, elogio ou crítica nada acrescentam. Mesmo assim, elogio não se despreza. A crítica? Só ajuda os honestos-consigo-mesmos. LA 06/001
Pois É
Só sofremos aquilo que nos permitimos sofrer. Ninguém irá fritá-lo, se não lhe empresta fogo, panela e óleo.
Se o gajo insiste, há de sair com o fiofó fatiado e à milanesa, mas tudo sem violência — pelo desprezo e lúcida alienação... LA 06/001
Mercovertigens
Em subterrâneos, sob os pés do mundo, fareja-se uma agenda socialista para um centro universo de governo. Em termos exotéricos, isto se chama Globalização. Tal sentimento traz em si o integrismo de uma liberdade e de modos de vida que são nem mais nem menos que zumbis identitários — restos de naufrágio ante o riso da era do Mercado. LA 02/001
Mas Nem Por Isso...
Ah, o por dentro das pessoas!... Ver de longe ou de soslaio, tudo bem — mas de perto... Ver de perto machuca. Fica-se com medo, com medo de si mesmo... ........................................................................ Toda relação duradoura é um caso de cegueira avant la lettre, mas nem por isso infeliz, nem por isso menor que qualquer outra coisa. LA 02/001
Quem Será...
Se não-ver-não-saberlhe são felicidade — dê graças a Deus, meu velho, por não ver e não saber... Aliás, meu caro, o bom, o belo só o são — pelo seu não durar... Isto é: até que o ver e o saber sejam vistos e sabidos não assim tão bom e belo... ....................................................................... Se o coração não vê nem sabe, quem será quem pra lhe passar a ilusão de ver-saber por um ângulo infeliz? LA 05/001
Lembrete
A ciência discursa-explica —de autocorreção em autocorreção. A religião consola — de fé em fé, de esperança em esperança. E em ambas, a verdade é o quanto o homem pode suportar.
Que o saldo disso tudo não seja o riso, mas a beleza de se esperar, viver e ser — mas todos com dignidade. Se isso é possível? Para muitos e muitos o significado de humano está nesse dia. LA 06/001
Paradoxo
Em geral não nos faltauma capacidade arguta, terrivelmente lúcida, de julgar friamente os outros. Lúcida capacidade intimamente unida a um não enxergarmos — incrivelmente nada — do que acontece conosco. LA 06/001
Cena
Pés descalços pelas ruas. Pés de crianças. ......................................................... A tarde dói no céu de agosto.
O vento chicoteia fantasmas usando ramos e folhas.
Poeira, muita poeira ( devíamos ser mais humildes...).
E a tarde dói, não na tarde — mas lá em mim bem dentro. LA 06/001
Exclusão Criminosa
O fato de só poucos se servirem do que a vida oferece ( em primeira e segunda naturezas ) é o que há de mais criminoso — e deve-precisa-urge tornar-se insuportável: cada vez mais insuportável esse estado de coisas. Que assim seja! LA 06/001
SEM DIGNIDADE, O HOMEM É UM ANIMAL QUE ESPANTA. LA 06/001
Não poucas vezes, amada, ficamos entre a cruz e a estrada. Se amor gosta de amar, gosta igualmente de viajar... LA 06/001
Não confundir amor com amoras, que sei: adoras. Nem com as uvas verdes — apesar de cheirosas... LA 06/001
Vadiagem
Lembra quando a gente fazia amorcom a simplicidade de um selvagem e a calma de um gambá, sob a ramagem do ingá, numa inocência furta-cor?
Lembra, Joaninha? O céu da noite em flor... você tão lisa ( em horas de friagem ) como um peixe entre as mãos... A paisagem amaciada de lua e de torpor...
Lembra como era bom pensar em nada a não ser na seguinte furunfada e em outra e outras sucessivamente —
por dias, meses de vagabundagem? Depois findou ( após durar eternamente ) a nossa inesquecível vadiagem. LA 07/001
Decreto
Ninguém chamará o cônjuge de tarado,sem antes certificar-se de que tarado é a ... Nem ao outro de comedor ou boiola — sem antes pedir perdão pelo que fez sua mão, sua boca, sua genitália ( há poucas, bem poucas horas ). Nem a ninguém de burro, sem antes saber que a nobreza do burro o mataria de vergonha. Fica proibido tirar o poeira do fiofó ou da xireca nas igrejas, nas ruas, praças, hospitais, velórios... Proibido igualmente canibalizar nas procissões, filas de banco, salas de aula, creches e similares. O cônjuge do vizinho só poderá ser solicitado quando quem o faz esteja há quatro terríveis longas horas sem fazer amor. E já que se precisa de proteínas, ninguém haverá de trocar suas trepadelas por chocolatinhos, gomas de mascar, pirulitos etc.
PS. Foder é coisa séria e o melhor que temos em sociedade. Somos, portanto, pela sua nunca-jamais banalização.
PS. do PS. Este entrará em vigor na data de sua publicação, na qual (reiteramos) sexo fica intimado a ser coisa séria, serièrrimíssima: qualquer contravenção (sempre inafiançável) levará o de-cujando ao pau pelas varas da Justiça. LA 07/001
Da Série Poemas Sonsos ( 18 )
Quem quiser vir para a margem — aproveite, venha já, ou não vai achar lugar.
Para ser um marginal há uns certos quesitos ( assim como pra pertencer à elite ): assunção de perdas-ganhos ( ou vice-versa ); apropriação de um como halo ( de loucura? ) e concessão aos donos e notáveis daquilo tudo que, por descuido, ( eles, os donos e notáveis ) não tenham ainda levado para casa ou transformado em dólares nos “paraísos” criados pelos seus iguais — onde — sem dúvida — vivem, saboreiam delírios e estarão amarrados para sempre...
Sim: venha logo, ou não terá lugar-tempo ( há um tempo para tudo, lembra? ) pra ser um marginal por opção, um excluído por convicção.
Venha, enquanto há tempo, e saiba: não haverá exibicionismo — tal escolha e convicção se darão lá no centro do seu ser: nas recâmaras do coração. Há de ver-se, então, como inúmeros: um excremento... Sim: uma excrescência — mas que não vende ao mundo o dom de sentir-pensar-viver — um merrrr..., mas um merrrrr... que não abre mão: jamais ser pensado e vivido pelo “glamour”, pelo “charme”, pelo visgo do mundo. E desse modo ( sem que talvez ninguém o saiba ) automarginalizado-e-excluído, mas atuante ( porque consciente ) — bos- ( para o mundo ) -ta —, viverá, mas com menos vergonha de ser homem. LA 07/001
Less Is More
Menos é mais, quando mais diz ou revela menos — não permite ao vedor ou ao leitor adivinhar a sua própria fantasia — que há de ser de soslaio: captando a coisa pelas penas ou pelo vôo...
A graça então se concentra, a beleza ganha corpo, a verdade não precisa ser demonstrada — o pouco se torna tudo e se veste de poema — menos é mais que suficiente. LA 07/001
Muito Perto
Nossa sofisticadasimplicidade, nossa arrogante humildade — por vezes nos convencem de que deveras são simples e humilde. É que de tanto pregá-las para os outros chegamos a pensar que as temos. E assim com tudo mais de que pensamos dispor. .............................................................................. Não nos podemos ver, talvez, por estarmos muito perto de nós. LA 07/001
Noites De Apagão
Candelabros houvesse acenderíamosnaquela hora vil, desvertebrada de bela, suave luz que tenderíamos a apagar só na última transada...
Suas velas, por certo, trocaríamos pra escaparmos do escuro, em avivada vontade de fazer o que amaríamos se realizasse em tripla ejaculada...
Em vindo os apagões, logo tratávamos de ir pra velha cama em que estalávamos toda a floresta em seu gorjeio glabo...
“Velas, velas, amor! — a noite é longa... Deita, deita-te urgente, sem delonga — a penumbra arde mais que um candelabro”. LA 07/001
Particular Balanço
Marx? Um belo engano. Um sonho honesto (enquanto era sonhado). Freud, mais que a lanterna no cinema — luz subterrânea: todos os filmes são nós-mesmos... Joyce, um orgasmo seco de doer.... Mas relinchante... relinchante orgasmo. As vanguardas? Um final de gargalhada. ....................................................................................... O mais, além de futuro-do-pretérito, deverá ser hoje, hodierno-hoje: bastante hoje-após-cada-manhã.
O homem? O homem haverá de conseguir... com os direitos de sua inteligência, mas esquecida de intelectualizar, de dialeticar...
O homem não se perdeu, só não se lembra de seu rosto... Por isso anda quebrando todos os espelhos. Sua razão há de lembrar-lhe que o seu coração sabe o caminho. Sim: o homem precisa achar em si o caminho de sua casa, onde o espera, não Penélope a retecer, mas a felicidade que ele foi inventando — mas nunca viu. LA 07/001
Quantos Passos?
Do turvo ao torpe quantos passos?Laços e laços pelo caminho. Intenções enrodilhadas... No olho do remoinho o vento anda descalço. Do turvo ao torpe quantos passos?
O basilisco não faz barulho nas folhas secas... O que deixa gemer por falta de justiça deve valer o bicho da carniça. Do turvo ao torpe quantos passos? LA 07/001
Temos de nos livrar de nossos assassinos — as nossas ruminações... Lembrá-las, bem de soslaio, e de tal modo indiferente, que mais pareça esquecê-las. Lembrá-las com um fio de água caindo sobre elas... LA 07/001
Figuras
Pelo mais mínimo problema, o presidente os levava ( o ministros ) para a mesa quadrada. Ali, se ninguém solucionava, era porque não se queria — pois tinham quatro saídas: três a mais que uma mesa redonda lhes permitia. Mesmo assim, o povão jamais foi mais feliz que nos tempos em que as figuras geométricas ainda não decidiam na boa vontade dos homens. LA 07/001
Um Caso Paralógico
Teodoro Dela Rua Filho, serviçal do Municipal ( após uma noite constelada pelos colares de diamantes mais caros de todo o País ), — achou, entre a passadeira vermelha e a presilha do degrau, — uma xiranha com cara de fim de festa: fastio das luzes... e louquinha por um cachorro-quente.
O pobre homem pegou-a como a um tesouro místico... beijou-a logo acima do clitóris ( sim: achou-a completa! ), levou-a para o barraco e — com infinito amor — pregou-a numa tábua-de-passar... e a pôs debaixo da cama. ................................................................... Y asi pasaba las noches: quando a patroa dormia, ele passava roupa a noite inteira, gemendo orgasmos de Primeiro Mundo. LA 08/001
Agora...
O diabo é que agora, a um bom pedaço do caminho, elas se revelaram impiedosas opositoras — ressentimentos em carne viva... Fizeram dos corrimãos bordunas, e outras armas. E agora? Agora já sabemos. LA 08/001
Tira-Gosto
Ela adorava colhões de boi, com muita cebolinha e salsa. Tinha orgasmos de segurar nas pernas altas do mordomo enquanto — lentamente — os degustava com talheres os mais nobres. LA 08/001
Pois É
Atirou no que viue acertou no que não viu, e olha que não era tiziu — mas seu amigo que caía baleado na alcova escura.
Tinha ouvido a esposa gemer sob alguém que não era ele — apontou nela, e acertou Clóvis — o pastor que os freqüentava, e que lhes batizara todos os seus três filhos.
Enfermeiro chefe, chamou rápido uma ambulância, enquanto lhe estancava a jugular com a ponta de três dedos... O médico mostrou que era bom — o amigo ( degustador ) escapou: não-obstante um pulmão lesado, o escroto rasgado ( a bala fez globo da morte... ), sendo que se alojara no cérebro, e ele na cadeira de rodas.
Após alguns meses, o enfermeiro e a mulher do pastor casaram-se, enturmaram os filhos e, para espanto dos lingüistas, — foram visivelmente felizes. LA 08/001
70%
Esquentes não, amor. Somos 70% de água. Esquentes não. Se te evaporas, viras nuvem: não colhes mais amoras ( aos domingos à tarde ) pelos pastos — montada no pescoço do Carlão ( cavalo que leva o nome de seu patrão ). LA 08/001
Lá E Cá
Entre a Sorbonne, o Louvre e a Cidade-Luz — aprendera certos brilhos: não comia nem se deixava comer a não ser à luz de velas. No Brasil, se acostumara com a maciez crocante da penumbra e com o romantismo dos semi-apagões. LA 08/001
Parapsico-econômico
Igual a microorganismos, O Totalitarismo Econômicoopera invisível — provocando febres e amputações em todo o corpo mundial. Parapsico-econômico, endêmico e por trás do poscênio, — dita o Script para que seus atores façam representar e — sobretudo — reproduzir. Seus atores são brabos capitães-do-mato — com nomes conhecidos e distribuindo ( com o maior descaramento ) condições-lugares de cidadania, de vilania, de favelania, de ruania et ceteranias.
Seus “ismos”e “ias”, isto é: seus intelectuais de manobra — cuidam de reinventar a cada dia discursos que O justifiquem como deus único e vivo, e de modo algum responsável pela Miséria — aliás: Pobres? Sempre os tereis...
Enquanto isto a sociedade se dissolve ( o Estado foge para seus paraísos... deixando o povo nas mãos dos Napoleões ) — cada indivíduo ( num chão qualquer ) vira um pagador de impostos e taxas para Alguém Invisível, que recebe e quer mais. E a vida canta ensandecida, não mais à beira-caos — mas feita caos: um mar geral de banalização, enquanto deus-Mercado conta com a fé de todos os améns.
Y así pasan los dias... E toca ajeitar o prefixo neo (grego!) aos eternos “ismos”e “ias” das explicações dos arrivistas.
Por isso, Godofredo, (é o nome do meu cão) é que nem as pernas boas de tango estão mais dando conta da dança. LA 08/001
Tecno-erótica
Comprou uma máquina de fazer amor,e chamou a vizinha para experimentarem. Veio tão depressa que deixou o marido no meio do que faziam... e, para não dar a volta, — pulou o muro. Durante algumas yugas e várias eternidades, o consorte ficou se segurando ( com as duas mãos muito cheias ) — enquanto ouvia os gritos, os gemidos como de montanha-russa... Dali a uma, duas, três horas... a mulher voltou ( pelo portão ) — esbraguilhada, os olhos esbugalhados: seguros pelos aros negros de olheiras elipticamente descolando... Se jogou no sofá e ( antes de dormir ) disse ao marido ( que ainda tinha as mãos cheias ): Termina o que começou, amor, termina, e me faz uma janta bem acebolada — enquanto durmo até a tarde fazer bico. LA 08/001
Tempo Escuro
Tenho tantas lágrimas pra chorar, que a empregada me pediu deixasse para sexta-feira — dia em que ela lava a cozinha e a área. Disse-lhe que falava sério. Também eu — respondeu-me — falo sério patrão. E aproveitou-se de meu estado chuvoso para pedir aumento, uma blusa que julgou eu não fosse mais usar, mais uma mesa de centro em que, na véspera, eu derrubara cerveja e molho. LA 08/001
Dolo Cultural
Xiranha é bom. O diabo é a dona dela. Há que se rever esse dolo cultural — injetar-lhe na veia boa dose antiviral. Xite, ô minha! Homem nenhum é de ferro. Preferível dar um nó. LA 08/001
Era Só Ele Beber...
Falava muito mal do amigo pra patroa —que era um babaca, um baita de um putão, estando mais pra rosas em botão que pra macho que pega, ajeita, e arpoa!
Um desquitado, um manso, um coisa à toa... Um fracassado: homem de paixão!... Um vencido, um nanico, um sim-e-não... Algo mais pra cachorro que pessoa.
Sim: um desenganado, um corno, um merda... ( A sua esposa, muda como pedra, ia ouvindo... enquanto ele arrematava ):
E pra desgraça, o André ( nosso Andrezinho! ) tem-lhe os olhos, o andar, o jeito... a voz até!... Um acaso que muito machucava. LA 08/001
Entre Dois Mourões
Todos sabem que os homens são iguais: não valem nada. O que bem poucos sabem é que — sem eles — as mulheres ( claro, sei que as exceções são salutares... e muitas ) iam ter de criar em seus quintais asnos, jegues e mulos, aliás: sobretudo dois muares — os sempre amados burros e as tais bestas de carga — todos pagos ( muito bem pagos ) com uma espiga presa entre dois mourões. LA 08/001
Incapazes
Tens de te libertar dos teus algozesque te amam para si... porque se sentem, talvez, algo maior do que se mentem a um tempo que se fingem áureas vozes...
Hás de vê-los, tão-logo te freqüentem a casa, o corpo, a alma em seus ferozes enganos, a fingir os seus entroses no bem, embora contra o bem intentem...
Aos que te querem amarrado aos “ismos” de seus ideológicos cinismos — é salutar sabê-los descarados...
E logo se verão desenganados quanto ineptos e tolos: incapazes — tão incapazes quanto contumazes. LA 08/001 Operação-Carrapato
Jeitoso tirarei seus carrapatos —um por um com a pinça feita de unhas... Os das partes pudendas, — vários tatos exigem: outras artes e mumunhas...
São bichos sensuais e sem recatos, a permitir aos dedos façam cunhas pra adentrarem o esconso dos relatos da carne em suas dobras e pupunhas...
Com calma tirarei esses bichinhos até dos lábios da frondosa ilhota — mas com jeito virtual, não com espinhos...
Te aliviarei do ardente comichão e buscarei inusitada rota — fazer amor do avesso do tesão. LA 08/001
A irmã Mais Velha Da Demo
Para os lados da Cleptocraciaé que os ventos vicejam e azulizam vinte e seis horas por dia. Seu aproveitamento éolo-elétrico acenderia todas as lâmpadas do mundo, — razão por que tais mãos sejam apreciadoras do escuro — assim quase não são vistas em seu remoinharem para sua casa o que é de todos.
Irmã mais velha da Demo, a Cleptocracia moureja fiel e assídua com horas-extra e jetons, reuniões extraordinárias, propinas-para-aprovar, auxílios-necessidades ( inventados pelas manhãs ) e coisas que só Deus sabe.
A Cleptocracia irá até quando A Demo do Demo quiser. LA 08/001 Isso É Bom
Pastou como Nabucodonosor, não por ter ofendido a Deus: por ter nascido onde nasceu: ter sido um excluído dos bens terrenos e qualquer favor.
Pastou sobejos, mastigou bolor. Sapos? Sim: engoliu-os bem cozidos, com maionese, crus, maldeglutidos — pastou o mundo e o incluso desamor.
Não teve como não pastar, nem arma... Pastar na vida foi seu dom, seu carma — e de pastar pagou seu dízimo ao pastor.
Já um nutricionista linha dura disse-lhe que capim, fibras, verdura, sapos: tudo isso é bom, apesar do sabor. LA 08/001
Caso Da Torre
Construiu de cabeça para baixoa sua torre de marfim. E a deu à esposa que depressa compreendeu — um viver de morcego: cabisbaixo.
E assim dependurada como um cacho, jamais sua consorte o convenceu a vir morar em baixo, ao lado seu: beberiam de um mesmo e só riacho...
Ela estaria no último aposento e ele no primeiro, caso a torre tivesse o antigo posicionamento...
Como não tem, ganhou a liminar pra ir morar na base: o último andar... Ocorre, porém, que, ao chegar lá, vê a torre desvirar... LA 08/001
Descostura
Que muralha de noite nos separaque não tenha uma escada que a transponha? Ninguém viu uma face mais risonha do que aquela que trama, insana e rara.
Que fúria ao nosso Instante se igualara, se ninguém nota o quanto ele enfronha e nos esconde sua ladra tara atrás de sua cara sem-vergonha?
Se o galo, Pedro, já cantou três vezes, não adianta matá-lo: o problema está todo ele em ti, — nos teus reveses...
Prometeste não mais pecar... Se tu renasces, Madalena, não poderei beijar-te as faces — nem fazermos jamais nosso transema... LA 08/001 História
Fora bom, se pudéssemos amarantes de nos doer por não fazê-lo. Escalpelar fantasmas... Do cabelo fazer perucas pra nos disfarçar...
Fazer hoje, mais tarde recordar — sem frustrarmos o tempo nem perdê-lo: provar do bom, do indizível e do belo... Sim: antes de sentir saudade, — amar.
Então será bem plácida a saudade — saudade saboreada de memória: saudade que é lembrar sem ter vontade.
Saudade que é bem mais lembrar a história, sem querer revivê-la, história que há de ser tão mais bela quanto mais inglória. LA 08/001 Rir
Ra-ra-rá! A risada desopila. Seja fazendo amor, seja no Banco, para quem xinga ou ora em fé tranqüila — rir é bom, mas um riso de tamanco...
Rir da vida, do amigo, do inimigo, da honestidade ou desonestidade. Rir do próprio nariz, do próprio umbigo, da desventura ou da felicidade.
Rir é bom, porque rir nos desconcentra e nos põe na mais vária sintonia — a do gato que late ou cão que mia.
Ra-ra-rá, fariseu! Por que não entra?... Rir da espera, do ganho, do prejuízo... Rir de tudo, inclusive rir do riso. LA 08/001
Bela
Belacomo a passividade, a alienação ante o tirano — ela passa sobressaltando olhares que se coçam e dramatizam no mental.
Bela igual a covardia computada na hora da humilhação, no acme da tocaia preparada — ela atravessa a rua e entra no consultório de seu médico, e é a primeira a ser atendida da enorme fila que espera, sentada e em pé.
Queres ver lá dentro? Então olha: na saleta do “eletro”, a bela quarentona põe-se nua numa bandeja feito banana sem a casca — que o doutorzinho, baixo e bundudo, grotescamente feio ( mordendo de lado a língua ) — vai comendo e fungando como porco com o cocho cheio... ............................................................................. Logo em seguida, o homenzinho lhe assina os papéis do Banco — fiando-lhe mais um empréstimo. E bela, como não confiar — ela sai, leve e feliz, semelhante à estudante que acabasse de tirar a nota com aquele professor que capitaliza o seu nome fazendo a sua disciplina a mais difícil do colégio — leve-livre-feliz, e formada dias antes do Natal. Com as sensações dessa estudante — ei-la ( bela ): atravessa a rua do seu cardiologista e se dissolve entre as pessoas — sorrindo para os outros como se o mundo todo — subitamente — a compreendesse e amasse. LA 08/001 Prece
Nos dê o Senhoruma tão boa morte, e bela de fazer grande inveja aos inimigos. Amém. LA 08/001
Poema Para Inimigo...
O mundo é um velho putoque vive com uma velha puta — bem mais velha que ele. Nada contra. Mas não é proibido saber que os dois ainda não são o que são. LA 08/001
Agosto De 2001
Agora — de repente — somos nada:aposentados e a virar sucata, no meio de uma sociedade aguada, que nos vê como aquela vil barata...
Nos vê e trata como coisa-lixo, uma excrescência, um corpo morto, um bicho atirado ao lixão da humanidade, e em compostagem com a hilaridade...
Crise, crise: energética e argentina... Mas não se espante não, ó Josefina, que eles dizem que a coisa vai passar...
E se dizem que “sim”, é porque “sim”. Gente boa: não há de nos lograr — só nos quer com nariz e jeito de arlequim. LA 08/001
No Bar
— Aves são dinossauros, seu Mané! Dinossauros são aves. Coisa mais louca, né? Taqui ó: na Folha de hoje. Dizem, seu Mané, que é só montar no DNA de uma ave — dar marcha à ré na evolução, e a gente se vê na cacunda de um dino!... — Eta baiteza de idéia porreta, minha Nossa! —grita a mulher do Mané, uma cearense arretada, formada em Pedagogia e lecionando desde nunca.
— Baseado, seu Mané, baseado nessa sabença, vou ver se pego carona no DNA de uma gorila até chegar ao ovo que “ia” gerar o nosso... Então, ó Manezão: como ele! Como ele cozido, com pinga. ......................................................................................... — Raios! Se me comes de fato esse malfadado ovo — não te cobro mais uma só pinga pelo resto da vida! LA 08/001
Desejo
Uma franga jurássicahá de ter coxas e peito estupefacientes... Quero comer uma franga jurássica — com pena e tudo LA 06/001
Diretrizes E Bases...
Faz tempos e desvergonhas que a deseducação é o que houve-há em auges que se suplantam. Deseducamos sempre que “educamos” em nome de alguma coisa. Só educaremos quando ensinarmos a não saber. O que as emoções significam é o início do aprender sem lesões: a liberdade não-ferida, a felicidade sem lágrimas. O mais é morte, e o negócio é correr e chegar antes... O mais é vida, e o segredo é não pretender sabê-lo. LA 08/001
Enroladamente
Estava sempre enrolada, a cabeça espiralmente enrolada, pescoço, ombros enrolados: um enrolado em roscas — bem afro, caindo em caracóisssssssssssssssssssss em caracóisssssssssssssssssssssssssssss LA 08/001
Blusa Ruiva
Aquele português cuja mulher lhe mandou ( lembra? ) dar uma pintada no portão... daí a duas semanas telefonou à consorte dizendo que lhe estava mandando um amigo para que ela lhe cedesse sua peruca que — pelo tamanho do moço — parecia lhe encaixar perfeitamente, pois que ele estava muito precisado: devia treinar seu uso e manejo para representar um drama joco-sério em sua Companhia... ........................................................................................... Quando o cônjuge chegou à tarde, não preciso contar-lhe, inteligente leitora, como é que os encontrou: na ponta da mesa — ele, principalmente, com uma coisa ruiva da cabeça ao pé... LA 08/001
Visita Em Vídeo
Coração bombeando medo. Latidos de luz fria. Sensações siderúrgicas fagulhando termuras.
Braços de arame, beijos de pedra.
Em-tudo-dentro-e-fora — mil e mil olhos. Loucuras eletrônicas a acompanhar a loucura. Em nada ( e a um tempo em tudo ) angélica essa hiper-real Los Angeles — cidade do muito longe e do perto demais... Elo do material e do virtual, do trágico e do sublime. Rosto global. LA 06/001
Se Não Sabe...
Se não sabe o que está fazendo, coce alguma das partes ( por ex.: os ombros, as costas ). Os pígios nunca(!) nem seus antípodas. Ou... olhe bem para o tempo — como quem vai filosofar... Apenas olhe e não diga nada... Olhe outra vez, mais outra... e jamais diga nada, a não ser alguma coisa oracular com aquela incensada ambigüidade ainda orvalhada com a saliva de finória pitonisa. Alguma coisa surreal — já dissolvida no ar milésimos de segundo antes de ser articulada...
Se não sabe o que está fazendo, deve fazer não-fazendo — isto é, fazer que faz ou fazer-desfazendo: fiar-desfiando, como aquela Penélope.
Se não sabe o que está fazendo, tem de — pelo menos — fazer bem devagar: como o aluno que está de ouvido no sinal e de olho no professor...
A quem não sabe o que está fazendo, uma boa notícia: vocês ( que não sabem o que fazem ) são muitos, muitos mesmo. Portanto, devagar no seu fazer... Devagar, que logo termina o seu mandato ou cargo ou profissão — e vocês se aposentam. “S’imbora!” E serão “convidados” a dar aulas nalguma Universidade ( que charme! ), onde irão passar aos jovens tudo aquilo que nunca souberam, mas que — glamourosamente — sempre estiveram fazendo. LA 08/001
Açucenas
A noite sempre trazseus gemidos de vento, seus ladridos de libido — liberação afrodisíaca lá dos escuros do Id.
Vagam almas de princesas suspirando doloridas por todas as nossas veias. Moças do povo também vagam desfolhando bem-me-queres sobre nosso desejá-las.
Entre almas e pernas ( envernizadas de sol ) — claro que preferimos o que é mortal: açucenas dolentes — amor e morte. LA 08/001
Conselho De Pai Velho
Esquente não, Eulália. Guarde a calma, —o pai a aconselhava assiduamente. Esquente não, que pode virar nuvem... Somos quase só água... Cerca de 80% de água, minha cara! Por isso mesmo, filhota, mantenha o nível da caixa — a bóia no ponto certo, nenhum calor excessivo...
Sabe, Eulália, na vida a gente tem de aprender a engolir sapos com aleluias e até pregos com pedaços de orelha de martelo....
Relacionar-se é bicho feio — entre a onça pintada e o carrapato miudinho. A gente anda de orelha em pé e a coçar entre o couro e o cabelo... Há olhares que são facas, sorrisos que são coveiros... Sentimentos blindados e palavras de esteira... com intenções, é claro: fidalgas e santas.
Comer o pão com o suor ou com o sorriso do rosto — não sei, menina, o que é pior. Talvez só mude nisso: a primeira é maldição antiga, a segunda é maldição moderna.
Esquente não, filhona. Chegue nunca ao risco vermelho... Não viu nossa vizinha? Subiu! Evaporou bonito. Quando o marido viu, a pobre já não era — o homem só achou suas sandálias e — bem no meio delas — duas perucas: uma triangular e a outra elíptica... Chamou o compadre pra confirmar, e dele ouviu para crer: É isso mesmo, André: as duas são da Lazinha — mesmo porque essas coisas o tempo faz doce para comer, vai deixando de lado no prato... ....................................................................................................
Esquente não, Eulália, que a vida não remonta a vida, nem rebobina a sua bela comédia. LA 08/01
Ures
A morte venhaquando eu esteja alhures, e cá não encontrando quenhures — só leve ( em suas mãos vazias ) sua mortalidade outrures. LA 08/001
Mortais, Bem Mais Mortais...
Mortais, bem mais mortais que o homem, só os seus casamentos, alianças e amizades. Esses tais morrem antes, ou vegetam de viés — morrem em alma. Por isso, tantos zumbis, tantos cascões astrais sendo levados pelo vento... mortos, há muito tempo mortos.
Mais mortal do que o homem — só a sua palavra. LA 09/001
Unha E Dedo
Não morrerei pela verdade. Também não pela beleza. Mas pretendo renascer, fazer-me nova criatura — por amor da verdade e da beleza: unha e dedo da vida. LA 09/001
Endorfinadamente
Sem o humor, o riso, a gargalhada — a gente é quase nada: só uma coisa trancada.
Endorfinada, serotonizada — a vida é algo mais: dom assumido e agradável. Sim, um bom hábito, André, é aprender a rir de tudo, mas de tal modo que rir não seja ridicularizar — senão dar a tudo a importância que tudo tem: poder tornar-se riso, riso bom — porque autolibertador.
Se nunca riu de si mesmo, então faça: ria largo e gostoso. Desaforo só os outros poderem rir de você. LA 09/001
Loucos Abismos
Absalãofoi duro com seu pai. Preso entre galhos pela pujante cabeleira, foi morto por Joabe com três dardos no coração. Zur e Hur morreram pela espada, tal como Balaão — o cínico profeta, que confundia a verdade, e aquele que, se abençoasse, estava abençoado... se amaldiçoasse, amaldiçoado estava... Aquele cuja mula ( com voz humana ) o advertiu de sua insensatez... Balaão confundia a Palavra — não entrava nem permitia entrar... ............................................................................ Não é difícil encontrarmos Balaões e Balaões pela vida — tentando substituir-nos o caminho de sob os pés por seus loucos abismos. LA 09/001
Hora Construída
Ah, veja, minha Zefa, o que nos construíram: estamos empobrecendo e apagando!... Será que nas proporções lá entre o “sim” e o “não”, conseguiremos, minha cara, não ir para a cucuia ou para “a casa do chapéu”?
Sei não, Zefa. Sei não. Vamos aproveitar e rir, rir e coçar — enquanto nos deixarem fazê-lo.
Só nos restaram, minha velha, o nosso riso e coceira. ........................................................................ Lembremos um ao outro que a hora que nos construíram é de ver e gargalhar — pra não chorar. LA 09/001
Fomes
Come-descome-come... Meu Deus, e essa fome?!
Ante-mal-bem-pós-come — quem souber de melhor tempero não nos vá usurar o nome.
Come-recome-come — e esse desejo poroso, poroso igual pedra-pome: fomes por dentro da fome. LA 09/001
Y Así...
Quando um deles assumia, já prometia ( lembra? ) dias cinzentos... A gente então aplaudia e nem achava que a esperança iria se resfriar na chuva... Sim: a gente se achava lido, “politizado” e entendido das coisas... Auto-suficiente para...
Y así pasaban los días... E os nossos sonhos se vestiam de saco e se sentavam sobre cinzas... Esperavam absolvição pelo pecado de a gente falar latim um pouco acima e abaixo do Equador.
Y así pasaban los días... E a gente discutia política, economia, geopolítica e outros “ismos” e “ias” — vendo colégios nomearem aqueles que prometiam dias cinzentos...
Y así pasaban los días... Depois, mandaram-nos votar — viramos eleitores ( renascidos de nossas próprias cinzas... ). E passamos a eleger homens que se diziam outros, mas que nos prometiam aquelas mesmas promessas — dias cinzentos...
Y así pasaban los días... E aí é que nós vimos — cinzentamente visto, que tanto quanto nossos cães e gatos — tanto assim nós sabíamos votar... Vimos também que nossas esperanças morriam de pneumonia dupla — tão-sempre a aguardar na chuva, sob céus inventados e bem da cor do chumbo... E os dias — carrancudos — se vestiam, cinicamente, se vestiam ( os empossados sempre em semiluto ) de novos dias cinzentos.
Y así pasan los días... O céu esbanjando azul, nossa esperança na chuva e nós vivendo sempre e ainda — dias cinzentos. LA 09/001
Vivo Ou Morto
Os povos ricos, quase o G-8 em peso, fazem rodar sua esteira sobre a fome, sobre os farrapos, os aleijados, sobre as crianças, os órfãos, sobre a desgraça de um povo, cujo arsenal tem-lhe a imagem-semelhança — gargalhadas de ferrugem. Sua miséria, juntada ao do Talibã, é de gente que ri — porque o extremo da desventura faz rir. Um povo a quem viver-morrer é um hífen com a indiferença — tão miseráveis foram feitos. Quando têm milho, comem com seus muares. Quando não têm — comem capim. Suas crianças pastam — literalmente pastam. E não são animais — são pessoas pessoas: tal como os belos filhos, as lindas filhas do mundo.
E o chefe desse pool bélico ( que tem a cara de uma tábua de peroba ao sol e à chuva por mais de meio século... ) disse — com riso paranóico — que vão lutar de-va-ga-ri-nho... A gente entende: como quem faz amor bem lentamente, a empurrar, ao máximo, o tempo em seu instante-orgasmo.
Motivo desse mata todos: prender um homem — uma semente de mostarda ao vento, aos vendavais por um país de geometrias alucinadas. Tal semente, demonizada, justificará o extermínio saboreado aos poucos — paranoicamente aos poucos — de todo o Estado daqueles a quem morrer é tão bom, tão belo quanto viver o é para os seus matadores — os notáveis, os donos, os mamíferos de luxo do planeta. LA 09/001
Até Que...
Candelabro acendi nos apagões, lamparinas, lampiões, também candeias, velas a óleo, a gás... Forjei carvões, queimei um pobre armário e três cadeiras.
Isqueiros acendi, soltei rojões, pus fogo até em sapatos, velhas meias; fiz arder um estrado e dois colchões, estalar, no galpão, nobres madeiras.
Cento e dez guarda-chuvas da ex-patroa... panos de prato e toalhas, roupa boa, com pijamas e cuecas fiz arder.
Mas qual! Só fumo e escuro... Até que Dulcinéia, minha vizinha, e eu tivemos uma idéia: plugar o anoitecer no amanhecer. LA 09/001
Medo Do Medo
Tens medo de ter medo, minha Rosa?Isso é bom. Agora, medo do medo — tenhas não, e o medo vai embora.
Fantasma covarde, o medo sempre se vai quando se olha de frente para ele... Se bem que o medo tem seu lado bom: quem julga saber o que será está, no mínimo, ninando um belo engano. LA 09/001
A Natureza E O Homem
A natureza cria e transforma,o homem cria e destrói. Na primeira, há um processo de criar, crescer, madurar e recriar(se) — a vida em seus ciclos e reciclos, segue em geometria de luz. Já o homem se apropria da natureza — desarmoniza seus componentes e com eles destrói a própria natureza.
Ao infringir a “razão implícita”, o homem tiraniza e destrói. LA 10/001
Meio De Uma Conversa
Os nossos meios, minha prima, são honestos. Não apenas honestos: são sensatos — só nosso objetivo é safadão... Mas entre safadeza e sensatez, até que dá para ficar com as duas. Há safados sensatos e sensatos safados. — Tendo dinheiro (diz minha vizinha), os dois vão bem... Seu marido a olhou com a ar de temporal ( era pastor pentecostal ) e ela logo assumiu ares de honesta — sensatamente honesta. LA 10/001
Morituri
Me empresta, Hafiz, a tua burca, que vou lá fora da caverna buscar daqueles pães que os deuses nos despejam lá das nuvens sobre o chão recheado com bombons...
Os deuses nos são bons, Hafiz ( Júpiter os ilumine com muitos de seus raios! ). Os deuses nos são bons: montaram vasto frigorífico — engordam, matam com luvas de água limpa... A consciência para sempre justificada.
Me empresta, Hafiz, a tua burca, que os terroristas licenciados estão jogando pãezinhos de São Blair embrulhados com lindas bombas... Lindas e inteligentes.
Cuidemos, minha amiga, do Bruxo não ( ah, quem nos dera!... ), mas do bucho, que é o órgão que mais humilha o ser humano. Enchamos, minha amada, o bucho com o creme dessas bombas. E cantemos, Hafiz! Cantemos, junto com as nossas crianças, o canto do Desengano — atrás temos a morte, à nossa frente o morrer.
( Se lhe restasse esperança, que esperança, ó você, lhe sobraria em meu lugar? ) ................................................................... Ave, ó Mundo Apoltronado, os que vão morrer te saúdam! LA 10/001
Quieto...
Ele telefonava pra ex-mulher, quando o marido da vizinha regressava. Era brava a ex-esposa, muito brava... Mas... bem pior comer com a mão que com colher.
Sim: jabá, quando bem feito, sequer se humilha por filé chorando sobre brasa... Se bem que é bem melhor não se ter outra casa que a do amigo, se (é claro ) ele não estiver.
E assim, entre sua-ex e a dos amigos, ia coçando tanto mais umbigos quanto mais seus amados viajavam.
O diabo é que à medida que cresciam as crianças mais e mais se pareciam — e os olhares, que as viam, se espantavam... LA 10/001
Fax Da Amada
Olhe, meu Bin: sei que não vive com os antolhos do mu, nem com a ingenuidade do mimoso caga-sebo lá das plagas de Cabral, mas mesmo assim, meu Bin, quem ama cuida: para o seu maior bem, não deixe que o trasladem — só sobraria ossama, ou talvez náden.
De sua amada, Binbina — pê-da-vida com sua burca desde menina. Alá o guarde e o vá tornando antimíssil, meu sapeca!
PS Não se esqueça de seu banho ( de bombas não ) — aquele normal-mensal. De seus paninhos macios... e de trocar as cuecas. ........................................................................... Com saudades, aguardo-o para aquele carneiro assado, regado a Coca-Cola, Pepsi & Crush,que você tanto ama — apesar de Osama. De sobremesa ( e matinê ) — um vídeo bem pornô, que ganhei de um piloto loirinho como uma espiga...
Mais uma vez, salamaleque! Um beijo bem na ponta do seu avantajado ( a noite está de chuva...) nariz. LA 10/001
Pragamatismo
À pragmática liberale neobeiral chovendo no global — a essa prática pragmática tão volitivo-voluntariosa, tornada fé ou possibilidade de objeto já tocado e feito realidade — será preciso — diuturnamente — com insistência perguntar: A que preço tal Sonho-Coisa tem funcionado? Quem tem arcado com seu sucesso? Quanto custará aos povos amarrados aos seus cordéis? Quantos mais serão excluídos, quantos mais robotizados por seu script-roteiro — nas mãos reprodutivistas dos escravos alegres que fazem funcionar essa Máquina Pragmática mascarada de liberdade? Sim: até quando seremos escravos da “nossa” liberdade? LA 10/001
E Agora, Sancho?
Que faço agora, Sancho? Agoraque vejo todo o meu fazer inútil? Agora que já não posso combater com meus fantasmas... Sancho, que faço agora?
Que minha “triste figura” já não mais me socorre... Sancho, que faço agora?
Agora que Dulcinéia é só o avesso de um sonho... Sancho, que faço?
Agora que não sei o que realizo com meu fazer de tantas penas... Sancho, que faço agora?
Agora que somei à dos marginais a minha calma esperança... Sancho, que faço agora?
Agora que o meu ideal teve a coragem de mostrar-se nada... Sancho, que faço agora?
Agora que aceito o mundo como essencialmente injusto... Sancho, que faço agora?
Agora que já não me importa se o meu fazer se esgota ou não em si mesmo... Sancho, que faço agora?
Agora que me vejo entre dois tempos: um em que creio, outro em que descreio, e ando colecionando convicções jamais convictas... Sancho, que faço agora?
Agora que vejo que os tempos só têm fim dentro dos fins de si mesmos... Sancho, que faço agora?
Agora que estou mais lúcido que o brilho do meu fazer inútil... Sancho, que faço agora?
— Senhor, só faças quando o fazer pareça melhor que o não-fazer: uma louvável inutilidade. LA 06/001
Mastucidade
A diferença entre os doisé uma questão de maturidade e astúcia. A mulher dá, e fala que não deu. O homem não come, e fala que comeu. .............................................................. Se um dia o homem deixasse de ser bobo, o sexo perderia sua beleza ladina, sua graça cabotina e a disfarçada propina. |