
Sorriso Vertical
Em cada pedra a sua consciência,
em cada coração o seu granito.
Não me faltasse tempo, cara Hortênsia,
lhe faria um poema bem bonito.
Nosso vizinho, o pobre do Benito,
cuja mulher roubaram ( mas nem pense-a
indo-se contrafeita com o dito
que aqui não cujo ) está sem a cujência.
E o pobre, nesse estado tão precário,
ante esse enorme e tórrido problema —
segurando as esferas do seu trema,
o pobre já não pode, solitário,
dar nos batentes do seu caro
)(...
Mas na mente sorri-lhe a cicatriz.
LA 02/002
Mimar-Me Não, Só...
Quero falar-me doce, compreender-me
( meu pai só me falava o pancadês,
nunca jamais podiam socorrer-me —
a não ser nas pancadas de revés...).
Quero, mimar-me não, só esquecer-me
de esquecer de lembrar-me estar de vez...
pra descascar-me e nesse fruto ver-me
com a minha esperança de viés...
Quero depois fugir com a espanhola
que me ensine a dançar a castanhola —
pelada sobre a cômoda do quarto...
Mas nem por isso vou morrer de infarto —
sem antes degustar a tal lasanha
que a Vera faz mexendo com a xiranha.
LA 02/002
Como Diria?...
Não falarei de címbalos e cuecas
aos homens prestigiosos, aos notáveis —
que ponham seus priapos em marrecas
de outras esferas, as imponderáveis...
Também não falarei dessas merdecas
por que se arrastam os ovacionáveis —
é deixá-los com as goelas secas-secas
de fra(n)queza e outras mais cabotináveis.
Não saberão os donos desse mundo
o que se passa no miolo fundo
dos seus a lhes sorrir e se curvar...
Nem aos amarradores de cidades,
conhecidos por suas nulidades:
seu fazer nada além de desfalcar.
LA 02/002
Vacas
Ó vacas, vos ajudo a comer
feno!
Pela Alca a exportar vossos mugidos:
o leite em cujo branco me depeno
para queijos-petecas bem ungidos...
Mostraremos aos gringos retraídos
que o produto da casa é sem veneno:
sem aftosa e outros embutidos —
negócio pra fechar num só aceno...
Vacas de peitos vastos, poderosos —
como os que à noite fazem ulular
brandas mãos clintonando feros gozos...
E vacas que oferecem mil vacinas
para pessoas boas e cretinas —
com mugidos tão fáceis de ordenhar.
LA 02/002
História Em Tom Viés Daquela Inês
Esse batear, é claro, anima o verso
e faz subir a orelha do desejo.
O berro do carneiro era diverso...
e linda Inês, defunta, ia em cortejo.
O amante, o cru, estava no Além-Tejo,
o coração pulsando entre aço pérsio...
tomando o seu chazinho de poejo
que evita pesadelo o mais perverso.
Quando o amado chegou e lhe contaram
a vil morte que fora imposta à morta,
fê-la coroar rainha aos que a mataram...
Bebera tanto o tal, que ao outro dia,
só se lembra de ter comido torta
e ( em sonho? ) degustado a prima Lia.
LA 02/002
Adaptação
Nada, mas nada que não seja nada
sério: sonho plantado de viés,
ou de ponta cabeça, minha amada.
Não és Inês nem gostas de pavês.
Teu papagaio, que falava inglês,
com muito palavrão, muita nonada,
irritou a vizinha ( menstruada )
que o depenou, furiosa, e de revés...
Durango Kid veio duelar
com os ladrões de Bancos do Rincão —
os tais que roubam mas não podem
carregar...
Coitado(!!!)... A máscara cedeu ao
Carnaval...
Botou Faísca na charrete, um bermudão —
e hoje assovia bem ao jeito nacional.
LA 02/002
Ritual Truncado
De mini-saia,
passou cera no chão —
ajoelhada.
Depois subiu na escada,
limpou o lustre...
Ajeitou as cortinas
no seu encaixe lá em cima...
Em seguida catou os cacos
do copo:
abaixada sem vergar as pernas...
Logo mais, trocava a lâmpada:
pediu ( ao patrão viúvo )
lhe segurasse a escada...
À tarde subiu
na jabuticabeira:
mandou-lhe segurar a cesta...
Por fim tomou um banho,
com sabonete de vísceras de ninfas...
cheirando a ervas nervosas...
Enfim sai: roupas só naqueles pontos...
E finas-transparentes
como papel de seda.
Falou-lhe um tchau cínico-cínico...
um até amanhã debochado...
e olhou para o centro maleável
do seu entre pernas —
e riu gloriosa:
ele estava granítico —
mais em pé
que coruja no cupim.
......................................................................................
A voz grossa do marido,
a chamar lá no portão —
derrubou-lhe todo o império.
...........................................................................................
Lembrou-se então da frase
que sempre nos socorre:
Amanhã há de ser um outro dia!
LA 02/002
Transessente
Se achas bom,
finge que é bom,
que vale a pena —
e ousa.
Se julgas bom para ti
e ruim pra ninguém,
não filosofes não —
finge que é bom,
finge que pode,
e ousa.
Ousa e cala.
Aliás, se falas,
perdes a força, a febre, a graça...
Dom e talento
hão de morar
lá no poscênio do ser.
Ninguém deve fazer sombra
entre o que queres e o que sonhas.
Trabalha como quem sabe...
Mantém uma postura calma
de quem sabe, quer e pode —
e então ousa! Ousa calado.
Há que haver
esse saber de lado —
chamado intuição.
Há que haver esse íntimo
queimor —
que se conhece como
inspiração:
febre da alma,
paixão da carne,
luz do espírito e ...
E há que fingir
que isso é muito importante,
bom e importante.
Sem o fingir,
o barro não se molda
e não se pode alojar o sopro.
Não o sopro que roubas —
o que trazes
em imagem-semelhança.
Aquele que nos mostra
que Deus nos é
e que deseja recriar
o homem e o mundo conosco.
No princípio era o Verbo.
Agora é o Verbo.
Amanhã e sempre será o Verbo.
O germe-potência.
O sentido.
A possibilidade.
O pensamento expressivo
de Deus.
A força transessente
no homem.
LA 02/002
Dentro Do Sonho
Um sacerdote egípcio profetiza
coisas que as múmias ouvem boquiabertas...
E o Nilo é um instrumento ao vento, à
brisa —
um soneto a empurrar portas abertas...
Anúbis dorme à porta...nem precisa
se preocupar com os mortos: tão incertas
são as trevas e as trilhas... quem as
pisa,
pisa as próprias ossadas encobertas...
Alguém ameaça a Esfinge: “Ou já me diz
quem sou, ou canhoneio o seu nariz!...”
Só silêncio, e o sem-graça dessa mó...
A noite, a lua: um riso-cicatriz...
por onde corre a biga de Faraó...
( dentro do sonho) erguendo ouro em pó...
LA 03/002
Engraçado
Engraçado,
um sarro a infelicidade.
Nos faz correr,
lutar, brigar —
pensar que estamos no seu outro pólo,
ou seja, lá do lado da felicidade...
Infelizes, passamos por felizes,
e acreditamos, —
por isso somos nossos sonhos.
Sim: ser feliz dá que fazer —
faz queimar sonhos localizados...
E a alma — essa gulosa —
fica mais despojada
e ( para sobreviver )
começa a filosofar.
Se a filosofia não der,
vem logo a dialética —
e inventa — sem nem um riso —
que a gente é mesmo feliz.
LA 03/002
Canção Sem Voz
Pela varanda uma canção sem voz
bole ainda em resíduos de alegria...
A noite puxa a toalha, e nasce o dia...
Bela manhã: à brisa o seio, o cós...
Profissional dos ares, o albatroz
segue, de lado, a nave para a Hungria...
No cais, alguém chamada por Maria
olha amarga pro céu, e parte, após...
Navios (muitos) surgem no horizonte,
lambem o branco dessa enorme ponte
que nos une com todos os países...
Na varanda a canção dos infelizes
ousa ainda cantar sem voz ou nexo...
E as redes rangem sob o arfar do sexo.
LA 03/002
Pensar Pensado
Pensar é bom pra alguma coisa: é bom
praquele que te manda assim fazer —
refém te faz de ser pensado ao tom,
ao nexo e fim de quem te quer prender
lá dentro de ti mesmo pelo dom(!)
que tens de remoer e remoer
dentro do já remoído ( escuta o som!...)
dessa reprodução do teu remoer...
Bem pensado e sonhado, assim te querem,
(e por si próprio) assim pensado, assim
sonhado —
mediante moldes de te compreenderem...
Pensar é se anular... Diz o ditado
que um pobre burro de pensar morreu,
e que sua alma foi direto ao céu...
LA 03/002
Penser-Pensé-Chez-Etre
Pensar é sensação de liberdade,
e sonho e dom de possibilidade
no fazer do já feito em refazer
criativo que se busca transcender...
Pensar é mais que só plasticidade:
mais que moldar em simples veleidade...
Pensar de lado é re-saber: saber
que é mais pensar quando pensado-em-ser...
Somos mais livres quando — em pensamento —
remoldamos a fôrma do momento
e a enchemos de algo-ser bem mais fecundo.
Pensar é despensar em repensar
um modo que nos há de libertar
da coisa já pensada pelo mundo.
LA 03/002
Ás Vezes Pela Tarde...
Às vezes pela tarde bebo ócio
misturado aos murmúrios do Espraiado.
Lá em cima das palmeiras com seu bócio,
entre as palmas, o vento é masturbado...
Um cheiro doce de uvas, nacarado,
vem lá do meu vizinho, é seu negócio.
Um cachorro a ulular lá no cercado...
Dê-lhe pão quem tiver, e afeto, —
coce-o...
A Kombi do padeiro evém crocante.
Buzina o “estou aqui”, e vende muito, —
o café já cheirava fumegante...
Curtir o ócio é tão bom quanto adiar —
deixar para outro dia ( e bem fortuito...
).
O belo, o bom da vida é se coçar.
LA 03/002
Hora Desarrazoada
O negócio é correr-correr-correr —
fechar os olhos, e correr pro nada.
Sim, nessa insensatez desabalada,
o nexo é nada e o rumo é se perder.
A hora é tola e visa ( a ) arremeter
contra a razão já desarrazoada —
querem de vez castrá-la pela ousada
fórmula de alienar o compreender...
O mundo se deixou cair nas mãos
de um Governo Central... de cuja espada
caem fatias de santos e pagãos...
Os vassalos, na lesa-correria,
transfusionam — de forma insano-agiotada —
seu sangue para a Deusa Economia.
LA 03/002
Fragrância Dolorida
Foram tão rudes essas ruas, tão
torcidas as vielas-corredores...
Tão loucos, sem amor, nossos amores —
que nossos olhos nem se lembrarão
de ter pisado o barro desse chão,
onde bromélias riam suas flores
em gargalhadas das mais frescas cores —
por trilhos do mais-nunca e sim-e-não...
Apesar da fragrância dolorida
de flor hermafrodita, mas caída, —
toda loucura tem seu lado belo:
navegar sem a ajuda de astrolábio...
sossegar entre os dedos e o martelo...
durar bem mais o riso do que o lábio.
LA 03/002
Tinha Um Jeito De Rosa...
Tinha um jeito de rosa ao vento forte...
Em suas mãos um cheiro de alecrim.
E sabia que o amor tem sul e norte,
e a par das ambrosias, seu capim.
Tinha um perfil de vôo no seu porte...
e a voz crocante como um alfenim.
Sem assestar, olhava, e de tal sorte,
que em alma via mais, olhando assim.
Tudo o que lhe passasse pelas mãos
ganhava brilho e jeito de poesia —
pérolas, pedras a preencher desvãos...
No sorriso despia a alma toda —
como roseira que depois da poda
vem para fora de si mesma, e espia...
LA 03/002
Nivelamento
Canalhas e canalhas e canalhas —
é só isso que somos, ou bem mais?
Muito feno, capim. Sim: muitas palhas
de esperanças queimando sociais.
Dias feitos escuros, mãos canalhas:
“Fiat Umbra!” E acham naturais
escuridões sociais em rumos gralhas,
indo pro brejo, e rindo carnavais...
Horas futeboleadas: de avestruz...
Ópios bundas, TVs fornicantantes —
algumas com espaços pra Jesus...
É gente transformando-se em gentalha
que vai reproduzindo debutantes
e nivelando tudo ao nível de canalha.
LA 03/002
Derrubada E Reconstrução do Templo
Os galos, Pedro, não têm mais futuro —
têm ido pra panela de pressão:
comem-se-lhes até os ossos... Juro:
deles não sobra o pé nem o esporão.
Seus cantos —congelados sobre o muro
do tempo— dálias os esconderão.
Que te atormenta, Pedro? Ainda é escuro...
Nossa fraqueza é nossa salvação.
Madalena onde está? E João, Tiago,
onde andarão, em clima tão aziago,
tão cheios de fraqueza e de vergonha?
Correram ante o desabar do sonho, —
sua esperança desacreditara...
Mas algo se dará: e a nada se compara.
LA 03/002
Os Palhaços E Os Pilatos
O certo?
É apenas a incerteza
que nos ditam como certa.
Fora bom investir
na desrazão da razão —
quem sabe teriam mais razões
os sem-razão.
Quem sabe então os homens percebessem
que os palhaços
escolheram serem palhaços
por terem vergonha
de serem chamados de homens sérios....
....................................................................................................
O certo? O verdadeiro?
Queira Deus um dia os palhaços
se dignem nos ensinar
como viver esses dois.
Por ora a gente “vai indo”
entre as in (que se há de fazer? )
certezas
e as in ( quem é que pode com o
cinismo dos Pilatos? ) verdades
de coisas dadas como certas
e verdadeiras.
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Mas nunca,
nunca deixaremos de ousar
a possibilidade
do certo,
nem a necessidade
do verdadeiro —
muito menos de lutar
para que a Sociedade
não nos dê como desaparecidos...
LA 03/002
Perto, Bem Perto...
Saberás que corri atrás do Amor,
como o pastor atrás de sua ovelha —
aquela tresmalhada ( nova ou velha ),
a que mais necessita o seu dispor.
E sempre em busca de seu resplendor,
eu me ia sonhando ( assim de esguelha...
),
qual garimpeiro sonha a gema, e a espelha
no anseio de tocar o seu fulgor.
Pessoas e pessoas conheci,
páginas mil e mil li e reli —
até que uma criança ( ao lado ) balbuciava
— plena, completa — o seu “papai-mamãe”: o
Outro,
e lhes correu aos braços como um potro...
Foi então que apreendi o que buscava.
LA 03/002
Poema Em Blocos Sem Argamassa
Graças a Deus
o essencial nunca foi dito.
Se o fosse
negaria divinamente o ser.
Ser e Universo
terão de ser dois lados em um —
para a vida ter sempre razão,
já que entre parecer e ser
mora a liberdade de existir.
Todo ser que respira
está fadado a inflorescer
do escuro para a luz
( de um escuro que não se vê
para uma luz que há de ser vista ).
Ter idéias é fácil,
o difícil é parir-se outro,
e libertar-se de si.
Só quando o pensamento se vertebra
( e morre )
é que a larva voa, sem ossos,
e sem lembrar em nada
os seus rastejos.
Conformai-vos,
e virareis coisas
pensadas
e sonhadas —
friamente pelos donos.
Uma loucura que dá medo
é a da normalidade conformada —
o andar em círculos pela floresta...
Se te pareço doido,
não te gabes —
a gente até que pode
repartir o prejuízo.
LA 03/002
Pego A Caneta...
Pego a caneta e me pergunto: Qual
assunto fora superior a nada?
Meus olhos lembram uma grande estrada
e meus passos por ela bem ou mal...
O silêncio jamais é trivial,
a não ser quando brilha em alma errada...
O dizer pode ser uma nonada —
lhufas de açúcar e zero de sal.
Os meus passos ( lembrava ) por um chão
apodrecido e antiverbal. Nenhuma
palavra ou gesto, nem amor sem mão...
Que frase ou verso fora mais que nada?
Aquilo que mostrasse — dentre bruma —
uma das rosas da mulher amada.
LA 03/002
Gênese
Todo poema
é um gume de luz
extraído
de um infinito de sombras.
Sua substância
é a matéria escura —
noventa por cento existente,
convidada a transitar
para os dez por cento
do que já se tornou em luz.
Chispa ousada,
atravessa o insondável
e vem parar materializada
neste lado de cá —
trazendo o irreal do real
a musicar o sonho
tornado coisa de ver
pelos olhos da arte.
LA 03/002
Sob Medida
Que fazer com idéias ressoladas,
pensamentos recauchutados,
sonhos, esperanças reciclados
e jornais amanhecidos?
Nada.
Nada a não ser deixar rolar
( politicamente rolar )
enquanto o mundo gira
com as suas loucuras,
cucuias e beleléus.
Os que diziam que estava tudo certo
estão vendo que não estava —
ou melhor: confundiram o seu “pathos”
com as omeletes da vovó.
E que fazer, Gertrudes,
num mundo de coisas feitas
e refeitas?
Sim: que diabo fazer, minha cara,
se o mundo compra feito,
e gosta?
Consumidoidos adoráveis,
os homens comem, bebem
o mundo feito e refeito
bem à sua medida.
“Griffe”
para os mamíferos de luxo.
Lixo pros miseráveis.
Ou, bem à antiga:
circo
para as massas,
sarau
para as elites.
............................................................................
E que fazer, Gertrudes,
se comprar feito é bem mais fácil?
E tanto, que quem compra a coisa feita
vai se tornando à sua imagem-semelhança —
vai virando os pensamentos,
os sonhos, as fantasias dos outros:
computadamente vai se tornando
a vontade dos outros —
dentro de uma liberdade
que é escravidão elegre,
uma chique, glamourosa
escravidão
alegre.
LA 04/002
“Big Brother Brasil”And
Others
Olhem: estamos aqui,
nós existimos.
Ver já não “enche barriga”—
precisamos ser vistos
para que o mundo saiba
que nós estamos aqui.
Sim, a nossa identidade
é sermos vistos.
O nosso não morrer
é nos tocarem com os olhos.
Nosso não desaparecer
é virarmos história —
qualquer uma, contanto que história.
.......................................................................
Olhem depressa:
se não nos vêem, —
não existimos.
A flor que não é vista
não se torna os olhos
que a poderiam ver, —
não vira gente.
A luz que não é vista
não ilumina o sonho
de sentir que se é amado.
Olhem nós aqui!
Ver confirma a existência
e nos lava do medo
de não ser.
Olhem: nós somos de verdade,
podem pegar-nos com os olhos,
com os ouvidos —
a nossa solidão tem cor e voz.
Escutem como ela uiva, ulula
e vocifera igual, idêntica: tal qual a
sua...
Sim: como a sua, a de todas as pessoas
a guardarem os cacos de velha louça —
tirando-os das mãos cegas de apressados
garis...
LA 04/002
“It’s Now Or Never”
Tino, coragem —
pensem, queimem o cérebro,
e escolham.
“It’s now or never!”
É ano de renovar.
Quem sabe
não faz a hora?
Pois, então, ousemos saber,
e — sabendo — façamo-la!
..................................................................
Confiemos em nosso faro
politizado:
é nossa a hora e a vez —
de novo
temos em nossas mãos a mudança
dentro da hora mais que
feita.
....................................................................
Quem sabe espera acontecer?
Não, não espera ( que esperança! ).
Quem sabe faz.
Ou não faz?
— Fa-a-a-a-a-a-z-z-z-z-z-z-z!...
Então, façamo-la
sobre o instante mais que feito.
........................................................................
Não é preciso mudar?
Sim: é preciso mudar —
para tudo, mas tudo mesmo,
continuar a mesma coisa...
A mesma coisa de outro jeito.
...........................................................................
“It’s now or never!” —
como dizia Manuel
a cantar(i) para sua Maria
enquanto chovia pedra
com muitos raios a cair(i)
toda noite
naquele exíguo alpendre...
LA 04/002
Não Era
Não era aquilo,
nem era isto —
mas a fraqueza de Aquiles
calcada em nós.
Nós? Nem éramos ninguém...
Só tínhamos o amor
( que era brumas )
e um dia virou cinzas
no fogo de um poente.
Um bom amigo orou
para que ele renascesse...
Mas como? Não tinha na alma
o mistério glorioso da Fênix.
De sorte que tal afeto,
sem poder ser isto
nem aquilo,
foi Aquiles
na ponta de uma seta
de Páris —
um guerreiro fanfarrão
e sem caráter:
o escárnio boiando no vinho.
LA 04/002
Claro Que Sin...
Claro que sinto medo.
Sobretudo de o Quixote em mim
deixar de ser o cavaleiro andante,
o “louco”—
e eu tenha de me perguntar:
e agora, o que é que faço(?) —
onde encontro algo melhor
do que a minha loucura?
Claro que sinto medo
de serem as rosas ( que finjo não ver )
queimadas pela solidão
e não me restarem senão as pedras (
primeiras )
que me atiraram com a arrogância
de quem anda esquecido de si mesmo...
Claro que sinto medo
de perder a coragem
de continuar a ser covarde —
fugindo da programação
reprodutivista de imbecis
felizes da vida
de serem escravos alegres
de uma liberdade
com camisa-de-força.
Claro que sinto medo
de deixar de ter medo
de não ter medo —
e ser usado
contra mim mesmo
e a favor
dos donos e notáveis.
Claro que sinto medo
de ver que Aldonça
não é a princesa Dulcinéia,
e mesmo assim não perca o encanto
que há de — desencantado —
me devolver
ao caminho que hei de construir
passos após passos —
e “louco”
dessa loucura santa
que liberta o homem de si mesmo.
LA 04/002
As Asas Não...
O desencanto
há que ter seu encanto —
um novo timbre de realidade,
um sotaque de quem diz
vendo a coisa por dentro
ou pelo seu esconso.
Entre a pétala e o espinho
cabem todos os sonhos
dos bem-me-queres.
Todo o rosa-grená dos sentimentos
pousados — sem o saber —
no visgo dos afetos-desafetos:
na certeza-incerteza
que faz o humano iluminar-se
em sua vocação de abismos
e aventuras de píncaros.
O desengano
tem lá seu lado humano:
novo corpo em outros panos...
O dizer pelas rêmiges
de seu vôo
nem sempre lembrando as asas
que sustentam o rumo
entre aqui e não se sabe onde —
um lugar interior ( mas para fora do sonho
)
desconhecido das retrizes.
Sim: as asas não,
nem o seu vôo —
mas sua sombra,
a sombra
que não molha nem suja.
LA 04/002
Quero
Quero ladrar consigo, cães sardentos,
Sentir-lhes o abandono, a fome , o frio —
vocês que têm de humano os sofrimentos,
de canino o sem margem desse rio...
Quero falar consigo, pedras, — lentos
antidiscursos, calmos, sem o cio
da canalha social e dos tormentos
que ela fabrica e espalha mil e mil...
Quero coaxar consigo, saparia:
“Comprou?” “Comprei.” “Por quanto?” “Não
sei.” “Com-
prou?...” Quero coaxar a solidão.
Quero coaxar contigo a sinfonia
dos empurrados para o lixo com
risos, risotas como um rés ladrão.
LA 04/002
Profecia
Que sinais e finais estão escritos
nos subterfúgios desses tempos maus?
Essas águas terão por certo vaus,
essas rochas terão os seus grafitos...
Olha os bárbaros ( ! ) vindo com seus
gritos
de muitos gumes: raios, mísseis, caos...
( A elite adiará os seus saraus,
o povo engolirá os seus apitos... )
Os arlequins receberão as hordas, —
peidarão pó-de-arroz na sua cara,
cuspirão fogo e andarão nas cordas.
E morrendo palhaço por palhaço,
os seletos, a fidalguia rara,
fugirão numa nave para o espaço.
LA 04/002
Os Olhos E O Coração
Vê se escutas o que teus olhos
dizem ao teu coração,
e o que responde o coração
aos teus olhos.
Os olhos enchem o coração de querer.
Este lhes diz
que ver não é ter,
nem ter é ser...
e querer — sem o saber-ousar —
jamais fecunda o sonho.
Os olhos ficam
a seduzir o coração,
que é fraco:
“Vai, meu velho!”
E o bobo vai,
e cai —
cai no buraco,
que é fundo, —
mas não se acaba o mundo...
Os olhos fazem a festa,
soltam os rojões...
O coração?
Corre atrás das varetas.
Muitas vezes os olhos
contam coisas terríveis
ao coração.
É que os olhos são xeretas,
e, às vezes, até perversos.
LA 04/002
Nossas Penas
Pagar o pato?
Todos pagamos.
Com ou sem “pathos”, —
nós pagamos o pato
desde os primeiros
até os últimos
de nós,
bípedes implumes.
..................................................................
Sim: porque esse pato
não se leva fiado...
É pagá-lo ou pagá-lo.
Pato-“pathos”, pato-“pathos”—
todos pagamos por ele
com nossas próprias penas
de bípedes implumes.
LA 04/002
Canções
São tristes as vozes que cantam.
Cantam para acreditar
que são o que cantam.
Se a canção não é alegre,
cantam para lembrar
a infelicidade
que podia ter sido feliz.
Se a canção é alegre,
cantam-na para dizer ao coração
que é assim que ele a deve
fingir-sentir —
reinventando venturas
em que a felicidade
nem precisa ser feliz.
As canções prendem
e libertam —
mas sempre amarradas
ao fio entre prender
e libertar.
Com elas
podemos sublimar o que foi,
reviver culpas
ou restaurar velhos sonhos.
LA 04/002
O Melhor Do Pior
O amor, amiga,
é o melhor do pior em nós —
o maduro da inexperiência,
o sublime da insensatez.
E para conhecer seu território,
o amor viaja.
Se você fica sem esse melhor do pior,
vai virar filósofa estóica,
ou metafísica em geologia...
ou então uma pobre feminista
que acabará soterrada
pelo pior do melhor —
com um sorriso pós socrático
e o cinismo pelado de Diógenes
que trocou suas roupas e sanidade
por ficar numa barrica
com uma lanterna procurando um homem...
Dizem ( quem me disse isso foi meu
vizinho, Humor, )
que um dia tropeçou
e virou ( sem querer )
a lanterna para si...
E então morreu ( de vergonha não... )
morreu ninguém sabe do quê.
E o melhor do pior
não é tão pouco assim,
amada.
Mas algo que sempre encanta
o velho desengano —
igual alguém que dissesse:
“Quebrei as pernas esquiando,
mas ambas se recobraram
porque convalesci esquiando.”
Ou então:
“A cobra, que graças a Deus,
me mordeu,
não era venenosa —
mas valeu-me uma licença
de quinze dias:
foi quando ganhei algum dinheiro —
então pude desquitar
e conhecer Glorinha.
Foi aí que pude provar
o melhor do pior que há em nós.
E em meio a tanta desventura,
fui feliz gloriosamente —
aprendizado — é claro —
de minha Glória.”
LA 04/002
Sacras Bromélias
Adulterofilia é bom, chique de bom —
ainda mais se misturada à cruz,
ao místico glamour, ao sacro tom:
à dupla cruz-tesão, que tanto induz...
Pedófilos, adúlteros, que som
de cantochão priapesco vos seduz
e leva a esse erótico bombom
que se abre aos violinos dos frufrus?...
Vosso ardor tão molhado de libido,
pedindo sempre um outro sustenido
a ejacular bromélias sensações...
Fornicações e prevaricações
são coisas tão gostosas ( não, senhores? )
—
que as condenais em cínicos ardores.
LA 05/002
Ainda E Sempre
Ainda e sempre,
o amor
em seu glamour
tirando cartas da manga
e tendo as suas Glórias
e Vitórias.
Ainda e sempre,
o amor
a tirar coelhos da cartola,
e os amantes fingindo
vê-los
e gostar deles.
Ainda e sempre,
o amor —
mortalmente sensual
ou simplesmente brincando
de morto chique-charmoso
( cheirando muito bem ) —
sim, o amor:
bom de bolso
e de bunda.
LA 05/002
O Vocativo Mais Belo
O mundo se desfolhe,
não nas cores do arco-íris,
mas naquelas de graças-rosas,
de dons-ternuras,
de bênçãos-pétalas
sobre sua cabeça,
sua alma,
seu ser inteiro:
sobre toda Você.
Você que é todas Elas —
vivas ou já ‘encantadas’:
força que entra pelos olhos,
ou lembrança —
feita de alegria e entusiasmo
entre a diástole e a sístole
de um pulsar abençoado
que ilumina o não sermos tão sozinhos...
Seja Você quem for —
Você é aquele dom
que dá sentido à vida,
e a torna suportável.
Voz que ( presente ou não )
fala sempre conosco.
Mãos que
têm o céu entre os dedos.
Olhos que
nos agasalham de bondade.
Boca que nos abençoa
e encoraja.
Você pode ajudar o humano
a quebrar os limites:
a diminuir a maldade
e a ignorância —
tudo o que separa e apequena.
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Deus a abençoe, e a torne
o elo-força que une a vida,
que retira barreiras —
e salta do “meu” para o “nosso”,
num vocativo uníssono
e ungido de ternura:
Mãe!
LA 05/002
Mais Que Um Legume
Mandou ao vizinho protestante
um punhado de certa vagem,
com o bilhete:
Fulano,
O povo chama
este simpático legume
de orelha-de-padre.
Mastigue bem,
e sem dó.
LA 05/002
Aí Você...
Não adianta rastejar por ela,
nem quebrar lanças
ou abrir a carteira...
Ela sempre acontece
num cosmo complicadíssimo —
como que procurando ser...
Aí você tem
e experimenta ( sempre gratuito )
o milagre —
você sabe o que é
felicidade.
LA 05/002
Eras A Longa Estrada...
Eras a longa estrada que eu moldava
com as penas de um sonhar tornado asa.
Pensar em ti era te ter em casa,
em alma-coração eu te esperava...
Sobre tortuosa escrita Deus mostrava
que o primeiro, não raro, é o que se
atrasa...
e o mais feliz o que menos se apraza:
lugar e tempo mudam como a lava...
Nossos dedos em si possuem as chaves
que vão abrir a porta do mistério
que mostra, por nós dentro, naves-aves...
E o faro, o rumo, o instinto de voltar,
tudo na intuição de um só critério:
nas mãos de Deus podemos descansar.
LA 05/002
A Grande Elipse
Seremos papagaios por bom tempo,
depois seremos antas, gramofones...
penas de pombos, vísceras de clones,
jabuticaba, verso, movimento.
Seremos tempos maus, recolhimento,
primavera depois, correr de pôneis...
Manhãs de sol, tardes de paz, noites
insones...
As estrelas cairão num calmo desalento...
( ainda bem que em sonhos ). As estrelas
são amigas daqueles que de vê-las
se encantam, sentem cheiro de infinito...
Depois sucederá o Apocalipse,
e a vida há de tornar-se a grande
Elipse...
Mas Deus nos ouvirá a prece e o grito.
LA 05/002
Loucas E Poucas
Tenho comido mais capim que o rei Nabuco,
mas nem por isso perco o meu tesão.
Tesão, Leôncio?! Sim: esse maluco
ser feliz sem ter lá muita razão.
Antigamente, um relógio Cuco,
pra quem casava, era uma obrigação.
Hoje, casar ( tirante parvo lucro... )
nem é considerado muito são...
Exigências têm hora. Essa felicidade
( pra que não fique muito cara ) deve ser
saboreada em meio à infelicidade...
Sim: suja, já mordida de outras bocas:
o prazer de um prazer noutro prazer...
Tais coisas, afinal, são loucas... E bem
poucas.
LA 05/002
Medida Provisória
Cada estátua possua o seu risco de pombo,
todo homem possua a sua esposa,
cada mulher converse atrás do biombo
e governe dinheiro, casa e a glosa
de todas as razões de dar o tombo
no traste que lhe entope a xiranhosa
toda noite e feriados, e no lombo
carregue a pecha de pessoa ociosa...
Cada mesa contenha azeite português,
toda cadeira agüente seu freguês,
cada xota coaxe enluarada...
Todo corno retire as suas guampas,
já os lixos possuam suas tampas...
Cada esposa se sonhe enviuvada.
LA 05/002
Os Bárbaros Vêm Vindo
Se é para o bem de todos, diga ao povo
que absolutamente nada digo,
a não ser que também possuo umbigo
e me vivo coçando ovo por ovo.
Se quiser omelete, então, lhe provo
que ovos de corruíra ( que consigo )
são os melhores e não há o perigo
de virose e que tais: nenhum estorvo.
Diga ao povo que vou pra lua. Não
para esquivar-me de meus compromissos...
mas porque tenho lá grande missão:
não seremos de modo algum omissos,
eu mais cem mil ( que com meus filhos vão
)
estaremos jejuando e em constante oração.
LA 05/002
Tribulação
Tempos descivilizados.
Estados
já não mais territoriais —
mas aerizados,
isto é: virtuais.
Estados-favelas,
Estados-elites
e Estados-panos-mornos.
Todos descivilizados.
Muitos planetas-terra,
muitos mundos. Muitos.
Barbarização do humano —
dominação da terrível Moneta
num clima de real terror ubíquo.
( Num momento pós-Estados,
o mundo será guerrilhas.
O “Mal”não será algo fora,
mas fenômeno interno.
O mapa mundial
será chamado
de áreas de “distúrbios”.
Tanto a mão “high-tech”,
quanto a do pau e a do facão
ou a do homem-bomba —
não dá para saber quais desses monstros
são os piores.
Tempos barbarizados
( dentro de casa e fora ) —
o humano tornado lixo,
a vida banalizada.
Tempos igualizados
pela tribulação.
LA 05/002
Mal Bom
Tudo muito engraçado: em eu menino,
o gibi era coisa excomungada.
Lê-lo era vil, ou coisa de Aretino...
Vergonhoso. No mínimo, nonada.
Vi-ci-a-va...
e era coisa de cretino:
deixava preguiçoso, —um zero-nada...
Era um sorvete sob o sol a pino —
só sobrava o pauzinho e a mão roubada...
Ler gibi era para vagabundo.
Professores admoestavam pais:
“Tirai os filhos desse hediondo mundo!!!”
Tiravam, e desciam-lhes o pau.
Tempo passou. Gibi não era um mal...
.....................................................................................
O mal é pretendermos ser formais.
LA 05/002
Isto Ou Aquilo
Entre ser ou não ser,
tomamos um cafezinho —
e esperamos a chuva
passar
( e a semente brotar,
ou não ).
Se ser for,
então é.
Se ser não for,
então não é, uai!
E entre ser ou não ser,
a gente tem o que fazer —
nada.
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Ou se quiser fazer —
a gente senta
e se coça as esferas
ou o sorriso vertical,
não é Rosinha?
LA 05/002
Lotus Pharaonica
Até hoje, senhores,
Faraó & Cia. ( peladões )
tomam banho
neste pedaço-aqui do Nilo.
Muitos videntes ( kardecistas )
os vêem, senhores,
e conversam com eles...
......................................................................
— Caro cicerone,
e quanto a seus escravos,
os videntes não os vêem?
— Os escravos... ah, sim, os escravos
não são vistos ... é que...
é que não sabem ( ainda ) lidar
com o hectoplasma
para poderem se materializar...
...........................................................................
Vejam o lótus, senhores,
esse é o famoso Lotus Pharaonica...
A sua flo...
LA 05/002
De Compadre Pra Compadre
( À Beira-Rio )
Esquente não, compadre,
que o miocárdio late.
E os amigos,
olhando a Van cor de cinza:
“Coitado! Vai ver que tomou uma sopa
de levanta-defunto
com arrebenta-pedras
e se deitou em cama nova...
Ou: Foi somar as contas e ....
Ou: Endossou pro genro...
Ou: Descobriu que o doutor
avaliava para a sua esposa...
............................................................................
Coitado! Vai comer chocolate
e ter aquela disenteria
que deixa o cara
como sulfite comido por ratos...”
Esquente não, compadre,
que nada vale a pena
do nosso travesseiro...
que, aliás, nem tem mais pena.
—
Vai um gole?
—
Dois, compadre!
Esquente não,
que você pode sifur rapidinho,
enquanto o mundo charmosamente
vai transformando mentiras em verdades...
Esquente não,
que lhe dá logo um treco... assim como um
menstruozinho
na pienal... e você vira
pretérito-imperfeito:
era-foi...
E os amigos,
de olho no embrulho de madeira:
“Coitado! Vai ver que pegou a patroa
ensinando ianomâmi pro vizinho
e — para não atrapalhar —
saiu pé-depois-pé ( de fasto ) e ...
despencou da escada...
( igual àquela da novela ).
Ou: Atinou que não fora o boletim do neto
que assinara,
mas o endosso pra filha mais velha
do aluguel ( por três anos )
de um apartamento em Ipanema”.
Ou:
...............................................................................................
—
Deu, compadre! E assino embaixo.
—
Pois então, compadre, esquente nunca.
Alá a vara, alá: tá puxando... fisga logo!
É bagre: puxou boiola e fofo, é
bagre...
Isso, compadre, mostre
o bicho pro bornal....
.....................................................................................................
Pois, então, compadre,
voltando à vaca mal-ordenhada:
esquente nunca.
Consorte furunhou-extra?
Pois furunhado está!
...............................................................
Filho fumou, cheirou?
Pois sim, pois sim:
vamos buscar ajuda.
.......................................................................
Padre fugiu com a moça?
Sorte dele,
e pena que não foi com filha nossa!
Mais vale um padre que assume
que mil e mil sumidos.
.........................................................................
Pastor desmunhecou?
Entre a alface e o brócolis
a escolha é do freguês.
.................................................................................
Prometeram, e never-nunca?
Tudo normal:
o contrário é que assustaria!
.....................................................................................
Nem com Viagra?
Pois pra que serve isto ó: ... e
isto-aqui: ...?
........................................................................................
O filho não é seu?
Pois finja ser. E agrade à esposa:
“Até o pipi é igual ao meu,
já percebeu, benzinho?”
.........................................................................................
A amizade acabou?
Arranje uma de proveta!
................................................................................................
A mentira prevalece?
Sim: hoje, amanhã e toujours.
.................................................................................................
O mundo vai acabar?
Oração e/ou cerveja,
e bastante!
......................................................................
S’imbora, compadre! Começou a ventar.
O jeito é enrolar as varas.
Rio com vento é que nem coquete:
um marulhar, um farfalhar gostoso,
um globo da morte nas órbitas...
mas agraciar que é bom, não agracia:
pinxota no ar com falos-olhos...
Mas fornecer que é bom!?... Só pra quem
não tem dó
do olho da cara,
ou até da cara inteira:
cara$.
Cara$ too much!
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LA 05/002
Canjas E Canjas
Pedro sonhou: comia Gabriela
com pena e tudo, e sua irmã Joana,
esta também com pena: igual àquela —
e nunca soube qual mais bela e insana...
—
Ah, meu Deus, esse Pedro! — dona Estela,
sua mãe, repreendia sua gana:
Tornou-se meu menino um bom sacana,
faz travesseiros com a pena delas...
De fato, prosperou a sua empresa:
ante seu belo e raro travesseiro,
toda a região se lhe tornou freguesa.
Matéria-prima nunca lhe faltou,
pois fornecia para o mundo inteiro
as penas das mulheres que canjou.
LA 05/002
Tão Longe E Tão Ao Lado...
Aqui tudo tão longe e tão tocável —
o lembrar-te até deixa digitais,
não em tua janela e seus vitrais,
mas nos teus dotes de um amar amável...
Sim: deixa as suas marcas e sinais,
por uns tons do longínquo ao apalpável —
por um modo até pouco imaginável:
deixa impressões no amor e nos seus ais...
Aqui tudo tão longe e tão ao lado...
A vida... o que oferece além da dor
que sabe virar gáudio deslumbrado?...
Sim: se ela deixa a dor doer, também
deixa a alegria se entediar... Um sol se
pôr
de cá, mas não de lá... num longe-aquém.
LA 05/002
Pombos, Pedras E Homens
Pombos e mármore.
Pombos e bronze.
Pombos e pedras.
As estátuas gritam
em seu silêncio indignado:
pinceladas anônimas,
telas não assinadas.
Homens e pedras.
As pedras já não suportam
tantos segredos selvagens —
quem ajeitar o ouvido para elas
ouvirá outras histórias...
Histórias em que a mentira
é dona da verdade.
Histórias em que a verdade
é retirada das mentiras.
LA 05/002
Resguardo
Se me amarram ao mastro, fera Circe,
posso até resistir a teu encanto.
O ouvido tapo pra fugir-te ao canto...
Passo da orelha para baixo o piercing...
Os marinheiros manterão atados
meu corpo, mãos e pés no grande mastro...
Não terei meus sentidos encantados
nem teus bruxedos vão deixar-me rastro.
Pensarei em Penélope que tece
de dia e, em vindo a noite, já destece
para a espera ser luz de um novo dia...
Assim vou reservando para a amada
( que tece e esquece... e fia e
desconfia... )
os megatons de homérica trepada.
LA 04/002
O Vigário E Seus Pés
Pés sem donos... ei-los
descendo a avenida...
Uma vez por semana
desciam a avenida
esses tais pés sem donos —
gesto ante gesto,
esgueirando-se pelos postes,
pelos canteiros
e meios-fios...
Pés macios e leves
como o sonho que teciam...
Os moleques, quando os viam,
já gritavam:
Paiê! Mãeê! Rosinha vai ter visita...
De fato, padre Gerúsio,
esguio feito uma foice
( e sempre à paisana ),
evinha levitando...um pouco atrás
( atrás dos próprios pés... ) —
evinha liso, tão sombras...
evinha tão ensaboado...
evinha tão sem carne e osso,
que nem ouvia dos meninos
aquela frase maquinal:
“A bênção, padre! A bên... A...”
... até que seu Botelho
ralhava com os guris:
“Diabo de fedelhos insistentes!
Deixem o homem cuidar
de suas bélgicas e holandas
e de que territórios mais quiser!...
Ora vejam se isso são horas
de encher o pobre do homem!...”
.......................................................................
De fato, Rosinha era dessas
que os homens desfolham rezando...
Sim: rezando
( e mordiscando as palavras entre os
lábios... )
pra continuar desfolhando...
E era tão refolhos,
tão petaluda a danada,
que no outro dia
a empregada tirava da cama
punhados e punhados de pétalas...
de todas as cores.
LA 05/002
Fiador De Senhoras
Quem foi que te levou a paz daqui,
daqui do coração, quem a levou,
assim tão displicente, e a carregou —
longe do admoestar do bem-te-vi?...
Era tudo o que tinhas, e a roubou,
assim como quem pega de um pequi
e morde e cospe e joga pro Saci —
que nem estava ali... Quem se apropriou
desse bem que era teu? Era o teu tudo —
tua alegria, o olhar que te aquecia
quando em alma fazia um frio-algia...
Quem espermatizou tua corola,
vestindo branco, baixo, o olhar sanhudo —
fiador de senhoras —, um gabola?
LA 01/003
Quem não aprende a rir, compadre,
se phode.
LA 01/003
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