Escrevivendo

 

              Laerte Antonio

 

              

 

Não seja a tua franqueza

uma arma dada a alguém

que possa te alvejar.

LA 05/007

 

 

Escrever é tão bom

quanto não escrever nada.

O diabo é o espaço em branco

sempre puxando conversa.

LA 05/007

 

 

Sabiá está cantando...

bonito de ouvir-sonhar.

Ah! Se eu fosse um sabiá

te fazia chover notas

macias e aperoladas.

Se bem que, não tendo penas,

te invento a minha poesia.

LA 05/007

 

 

Pensar em minha nega

é melhor que estar com ela...

Se bem que nem sempre isso é verdade.

LA 05/007

 

 

A vida é boa de pernas —

vive a nos dar rasteiras.

LA 05/007

 

 

Penso,

lá vem Descartes.

LA 05/007

 

 

Pensar não distingue,

o que distingue é repensar.

LA 05/007

 

 

Os homens são produtos,

ativa ou passivamente,

do seu sentir-pensar.

LA 05/007

 

 

Há os que sonham e os que são sonhados.

LA 05/007

 

 

No mundo ou se é bola, ou se é taco.

LA 06/007

 

 

A ciência, a moral, a ética,

o sentimento de humanidade,

de justiça e verdade,

de identidade universal

e solidariedade,

além do zelo ambiental —

isto são requisitos mínimos

para o ser humano

continuar sobre a Terra

cumprindo com a tarefa

que tem consigo mesmo,

com os seus semelhantes

e o todo

em diuturno ser-não-ser.

LA 05/007

 

 

A cada dia o seu mal,

a cada noite o seu bem.

LA 05/007

 

 

Prudente é perder com classe

e ganhar com desdém.

LA 05/007

 

 

Os grandes amigos

se visitam quase nunca.

Mas vivem de prontidão.

LA 05/007

 

 

O amor é como o sal, é como o açúcar —

a dose certa é sua longa vida.

LA 05/007

 

 

As mulheres não são para entender,

mas para compreender e amar.

Daqui a pouco elas estarão governando

em massa —

e mostrarão à História

que são da mesma laia:

seres humanos —

mais ou menos perigosos

quanto mais ou menos ressentidos.

LA 05/007

 

 

Melhor que fazer nada

não sei se existe,

já que não fazer nada,

pra muita e muita gente,

é a mais charmosa ocupação.

LA 05/007

 

 

Somos tão diferentes uns dos outros,

que nessas diferenças

podemos até encontrar

aquela tal que a gente

nunca soube que existia...

e então ficar

bobo de encanto.

LA 05/007

 

 

Manca, sim. O amor manca.

Mas a gente nem vê.

LA 05/007

 

 

Marilda era daquele tipo —

maravilhava os homens

e enraivecia as mulheres.

LA 05/007

 

 

Marilda sabia dar um sorriso

em conivência com um tal olhar,

que a gente até se sentia

fazendo amor com ela.

LA 05/007

 

 

O amor é como as joias —

quanto mais falso

mais brilha.

LA 05/007 

 

 

Há amores... e amores.

Como há orquídeas e flores.

LA 05/007

 

 

Como a erva que pouco dura,

o falso amor fenece.

Aliás, já nasce feno.

Já o amor de verdade

não morre nunca —

o tempo, ao contrário do que faz

com as coisas perecíveis,

nutre-o:

quanto mais os anos passam,

mais perenemente verdadeiro

é esse amor.

Esse amor não conhece a morte —
faz parte do nosso eu-consciência.

LA 05/007

 

 

Podermos mudar

é prova de que a bondade existe.

LA 05/007

 

 

Não conseguir o que sonhamos

é, sim, um problema.

Agora, quando a gente consegue,

o problema é diferente.

LA 05/007

 

 

Nossas coceiras e unhas

quase sempre se entendem.

LA 05/007

 

 

Ah! Quantas vezes, princesa,

tive vontade

do seu pão com manteiga,

seus purês e cuscuz.

Mas você nunca,

nunca abaixou a ponte.

LA 05/007

 

 

Satisfação humana é como o horizonte —

recua ao passo que se avança.

LA 05/007

 

 

Ah, cuida, nega, cuida bem das uvas,

e a gente faz vinho dos bons.

LA 05/007

 

 

Sim, eu também não tenho medo

de ter medo.

LA 05/007

 

 

Quanto mais distante, mais perto de você,

já que a distância faz pensar.

LA 05/007

 

 

Você mora nesta saudade

em que eu faço cafuné.

Sim, ficou uma saudade

gostosa de acarinhar.

LA 05/007

 

 

A fé

é o DNA de Deus em nós.

LA 05/007

 

 

LA 05/007

O amor são as nossas sinapses

a urdir de luz os sonhos.

 

 

A esperança é a fruição

do que ainda não se tem na mão.

LA 05/007

 

 

O belo da beleza

é saber que ela existe

porque a sentimos

e a vemos bela.

LA 05/007

 

 

Já fugiu de fantasmas?

Nem eu. Como fugir

do que está dentro de nós?!

LA 05/007

 

 

Sim, saiba tropeçar

e cair

quando estiver fugindo

de belas tentações.

LA 05/007

 

 

Lembra da sua meninice?

Também me lembro da minha.

A gente se lambuzava

de vontade de chupar manga...

e nunca que era tempo delas!

Está lembrada?

LA 05/007

 

 

A vida não lhe pede nada,

apenas que você entenda o impossível.

LA 05/007

 

 

O amor não lhe exige nada,

nada que não seja tudo.

LA 05/007

         

 

Existir é engraçado,

porque não há outra maneira.

Quem faz o existir divertido

achou sua melhor porção.

LA 05/007

 

 

A solitude

é a musa da oficina

que trazemos em nós.

A solidão

é um andar perdido

lá em si mesmo.

LA 05/007

 

 

Quando moço dava graças a Deus

por minha vida ser difícil.

Hoje, acho engraçado

ter pensado daquele jeito —

tanto que Deus me perdoou

e agora a minha vida é fácil,

gostosamente fácil.

Mas entendo: quando a luta é braba,

precisamos inalar ares de super-homem,

senão não conseguimos

nosso pedaço do mamute.

LA 05/007

 

 

O rico? Não raro é odiado.

O pobre, desprezado.

O médio, invejoso

em relação ao primeiro,

e arrogante com o segundo.

LA 05/007

 

 

Não jogue fora seus neurônios —

esqueça os que não gostam de você.

LA 05/007

 

 

Não comamos o fruto

da árvore da ciência

(daquela que está além do humano) —

este fruto é de ódio.

LA 05/007

 

 

Entre uma coisa e outra,

fiquemos com a que dá prazer

e só nos cobra o riso.

LA 05/007

 

 

Hoje nos visita

Sua Santidade

o Papa Bento XVI.

Muito carinho do povo,

que o recebe com amor

e muita fome de espírito.

Emociona

ver tanta fome,

não de justiça humana, —

fome de salvação.

Lembra a Bíblia:

“... Abraão creu em Deus

e isto lhe foi imputado

para justiça.”

Sim, emociona ver

como ainda é espinhoso

o sentimento do mundo

nos corações

ao lusco-fusco da verdade.

Como as pessoas necessitam

de que alguém lhes faça marulhar

as águas da fé,

do amor

e da esperança.

LA 05/007

 

 

Tudo tem um sentido relativo

e um sentido maior —

este cabe a cada um descobrir.

LA 05/007

 

 

Dia da Consciência Humana —

31 de dezembro.

( Deve ser esse o dia,

já que está tão refugada.)

LA 05/007

 

 

A arte é uma maneira de musicar

a beleza e a verdade.

LA 05/007

 

 

Um dia o dia da Consciência Humana

haverá de ser todo dia.

LA 05/007

 

 

As raças haverão de se calar —

deixarem-se tragar pelos tempos

e renascerem Humanidade.

Sim: o homem velho deve morrer

para nascer o novo.

LA 05/007

 

 

Tiremos nosso espírito da masmorra

pelo simples lembrar

que estamos numa marcha evolutiva

que deve se tornar (em tudo

e a todo o tempo) consciente.

LA 05/007

 

 

Nem herói nem bandido,

apenas gente com gente,

mas nem por isso displicente.

LA 05/007

 

 

Se você sabe que pode —

começou bem sua obra.

LA 05/007

 

 

Se você conhece um pouco de tudo

e quase nada de você —

seu conhecimento é subtrativo.

LA 05/007

 

 

Por fora,

vivemos todos

em liberdade

condicional.

Por dentro,

a liberdade

é do tamanho

do nosso ser-consciência.

LA 05/007

 

 

Sem o caos,

como teríamos renovação?

Sim, por dentro e por fora,

em nós e no universo

o caos é pai do recriar.

LA 05/007

 

 

Os deuses são da mesma natureza

dos homens,

que os pariram

de seus pânicos e temores,

suas angústias e necessidades.

Sim, em seus pavores e medos,

os homens

precisavam de protetores

terríveis e poderosos

a quem recorrer

para enfrentar seus monstros e rivais,

para matar, vingar, vencer as guerras

e serem protegidos e abençoados.

Sangue em sacrifício é o que pediam

tais entidades criadas pelos homens,

portanto, à imagem e semelhança do homem —

sem que se desconfiasse do processo-personas...

E assim os homens

trocaram sua condição de pais

para a de filhos humilhados e subservientes

de geração em geração

que, burilando o seu autoengano,

vão descobrindo o Espírito Criador —

que era antes de tudo, e é hoje e no futuro,

sem imagem, sem corpo ou entidade:

Espírito e Verdade, Alguém Pessoal,

Interpessoal, Universal,

Consciência Cósmica Onipresente:

Amor.

Deuspai, não visto, mas sentido e intuído,

dom-graça-inspiração,

alegria constante e força companheira,

presença em flor nas sensações dos que O aprenderam

a amar e a viver com Ele no seu coração:

sim, amá-Lo em espírito e verdade —

bondade e paciência sem fim,

deixando ao ser humano o seu mais pleno arbítrio

e as Suas leis a reger da gota d’água às galáxias,

da ameba ao homem.

Deuspai, o Sonho-Quem

que no homem soprou Suas virtudes —

passando-lhe a imagem-semelhança:

e o trabalhar unidos: Deus e o homem —

de Deus é o Sim,

do homem, a ousadia e a obra.

LA 05/007

 

 

A verdade é sempre do tamanho

que o homem pode suportar.

LA 05/007

 

 

O mesmo homem que mede a distância dos astros,

que faz cálculos da luz a atravessar os tempos,

que constrói aparelhos para computadorizar

seus estudos sobre o macro e o micro —

este mesmo homem não desenvolveu lá em si mesmo

aparelhagem alguma, nem sentidos nenhuns

para ver em si mesmo uma consciência a viajar-se

acasalada com o tempo que a enriquece e que a sublima,

nem muito menos desenvolveu olhos de ver

Deuspai em suas sensações e alegrias

ou sabe que a viagem que mais importa

é a interior: realizada lá no seu ser-consciência

enquanto Deus o é e o está ensinando

a conceber a luz e parir-se no sonho

que, acordando,

o traz de volta para Casa.

LA 05/007

 

 

Em vez de procurar entender a si mesmas

( em primeiro lugar ),

as pessoas querem entender

a vida, Deus, o universo,

os buracos de vermes do tempo...

LA 05/007

 

 

Sim, o caminho do meio

é sempre o mais seguro

e o do amor, o mais curto.

LA 05/007

 

 

O humor é como a humildade —

ajuda a abrir caminho.

LA 05/007

 

 

Com o tempo você sobe ou desce

com a mesma naturalidade,

até porque subir ou descer

só depende do ponto em que você está.

O mesmo vale para cair e levantar.

Sim, com o tempo, cair e  levantar

já não faz rir nem chorar —

lhe serão coisas da vida.

Se você sobe, ganha o prêmio:

palmas, elogios (até dos inimigos).

Se dá com os burros n’água, recebe as vaias

e o desprezo, mas sereno e já sabendo

que o maior dom da vida

é justamente as suas situações

durarem sempre pouco.

LA 05/007

 

 

A uma certa altura,

viver é bem divertido.

LA 05/007

 

 

Há brisas de alegria

num coração que sabe ser criança.

LA 05/007

 

 

O macaco? Se eu fosse evolucionista,

acharia uma honra

descender de bicho tão simpático.

Se fosse criacionista,

eu o acharia muito parecido

com muitos de nossos atos.

LA 05/007

 

 

Se não crês no amor,

azar teu,

que podias fingir que ele existe

e saboreá-lo gostosamente,

como o faz

a maioria das pessoas.

LA 05/007

 

 

O mundo só pode nos engolir

quando a gente o engole antes.

LA 05/007

 

 

Veja o que fazem os homens:

Na palavra honorários

está o termo honra: honor

para dar a impressão

de que aquilo que recebem

é de um fazer mais digno.

Bem sintomático, não?

Claro:

a interdependência vital,

que une os homens e as coisas,

não pode ser sentida

por quem ainda não tem

aparelhagem de senti-la.

LA 05/007

 

 

Sem consciência de humanidade,

viver é uma bobagem.

LA 05/007

 

 

Também os filhos de clãs e feudos

não se aposentam —

emeretizam-se:

emérito cabedal

que continua a vender as luzes

( e a força e o brilho )

de suas neuronoias.

LA 05/007

 

 

Quem tem valor

deve mostrá-lo em obras —

e não em conivências.

LA 05/007

 

 

Sim, há os que não fazem

e não deixam fazer,

não entram

nem deixam entrar.

LA 05/007

 

 

Para os que se refugiam nos fins dos tempos,

viver já é estar enterrado.

LA 05/007

 

 

Confesso que já me acostumei com a vida,

por isso aprendi a não ter pressa.

Ou como diria um bom romano:

“Festina lente”(apressa-te devagar).

LA 05/007

 

 

Pra duas coisas

não se deve ter pressa —

para morrer

e para pinxotar.

LA 05/007

 

 

Entre você e o mundo,

seja como o navio —

que vive e singra nas águas,

mas sem deixá-las entrar.

LA 05/007

 

 

Muita efusão

torna a amizade tóxica.

LA 05/007

 

 

No que se refere à vida,

chegamos sempre depois

e saímos sempre antes.

LA 05/007

 

 

Se a vida é dura,

a morte é o quê?

LA 05/007

 

 

Se não crês em Deus,

azar teu,

que não tens com quem falar

nas tuas longas noites brancas.

LA 05/007

 

 

O rato roeu a roupa do rei,

o tempo roeu o rei.

Tempo-rato, rato-tempo...

a nossa vida é vento —

mas um vento gostoso

de que, sensatos, extrairemos

muito aprendizado e gozo.

LA 05/007

 

 

Mariana lembrava

aquele doce de leite

en-ca-ro-ça-di-nho...

de se saborear

com colherinha niquelada.

LA 05/007

 

 

Ninguém precisa, Hafiz,

entender de bissetriz

nem chamar-se Beatriz

pra ser feliz.

LA 05/007

 

 

Para quem arde em fome

um pirulito é um banquete.

LA 05/007

 

 

As pessoas não se importam conosco,

nós é que fazemos um juízo errado.

LA 05/007

 

 

Quanto menos visitas os amigos

tanto mais a amizade se prolonga.

LA 05/007

 

 

A indiscrição torna quase impossível

viver com as pessoas.

LA 05/007

 

 

É bom não confiar em amigos,

não porque sejam maus,

mas pela própria natureza humana.

LA 05/007

 

 

Sem a música

teríamos bem menos companhia.

LA 05/007

 

 

A nossa natureza

é bem semelhante à dos nossos amigos —

portanto,

não exijamos muito de ninguém.

LA 05/007

 

 

Nosso tempo nos ordena:

Porás grades sobre muros altos

e sobre elas

pontas multifarpadas

e sobre estas

arames eletrificados.

Blindarás carros, portas e janelas.

Farás um esconderijo eletrônico subterrâneo:

ciber-esconderijo

dentro da tua casa.

Implantarás no corpo chips dígito-verbais

de interpassagem

do macro ao micro

e vice-versa: qual neutrino.

Só não colocarás câmeras e alarmes

naqueles lugares íntimos

de sair e de entrar.

Terás tantos seguranças quantos forem

teus cães carrascos,

teus tigres matadores,

teus lobos carniceiros.

Usarás colete blindado

sobre colante-corpo-inteiro,

também blindado.

Trabalharás, transitarás

e te comunicarás

tão-somente via Web.

E por último, meu filho:

nada de pânico —

já vai surgir aí a pílula

de invisibilidade idiossincrásica:

cada qual se fará invisível

segundo a sua natureza.

LA 05/007

 

 

Vá toureando seus bichos.

Alguma chifrada é normal.

LA 05/007

 

 

Organiza, decide a tua vida.

O que fizeres

seja bom para ti

e ruim para ninguém.

Um coração decidido,

um espírito reto.

O mais... o mais é viver

do modo que quiseres —

estando bom pra ti

está bom para Deus.

LA 05/007

 

 

A vida é um filme

que você faz para você

e a que assistirá sozinho —

lá em você-consciência.

LA 05/007

 

 

Você só pode sacar

o que investiu.

LA 05/007

 

 

Nosso primeiro erro na vida

é nos preocuparmos

demasiadamente em errar.

LA 05/007

 

 

Um de nossos problemas

é sempre querermos ensinar.

LA 05/007

 

 

Aconselhamos paciência,

mas temos pressa.

LA 05/007

 

 

Os que nos mandam aprender a viver

será que eles já aprenderam?

LA 05/007

 

 

Se você precisa de rotinas

para achar sentido nas coisas —

então já sabe o que é bom para você.

LA 05/007

 

 

Se precisa do novo em aventuras

para aplacar-lhe o desassossego —

então já sabe o que é bom para você.

LA 05/007

 

 

Se precisa tão-só do suficiente

para viver-crescer-organizar-se —

então já sabe o que é bom para você.

LA 05/007

 

 

A vida é bem maluca.

Talvez, por isso, o hospício

sempre fez parte dela.

LA 05/007

 

 

Sendo cego, o amor

nem atina com seus rivais

andando pela casa —

desde que usem tênis macio.

LA 05/007

 

 

Se um dia o amor se cansar,

ponha-o num spa, que logo, logo

volta-lhe a força e o tesão —

aí vocês se divorciam.

LA 05/007

 

 

Triste não é mudar o amor,

mas não se ter amor para mudar.

LA 05/007

 

 

O amor? Esse cara anda estressado —

nunca tirou férias.

LA 05/007

 

 

Há a guerra dos sexos

porque os dois lados se amam muito:

um não vive sem o outro —

e tudo gira saborosamente

em torno dessas charmosas loucuras.

LA 05/007

 

 

Machismo e feminismo

nasceram siameses.

Ninguém arrisca separá-los

porque qualquer desses dois bobos

faria muita falta.

LA 05/007

 

 

Incendiados de libido,

o amor é um desarranjo em nós.

Saborosas doidices.

Enganos de chocolate.

Logros com gosto de pistache.

Mentiras perfumadas,

celulares entrecortando

conversas aveludadas.

Temos que madurar pra ver

que essas loucuras foram o que houve

de mais delicioso em nossas vidas.

LA 005/007

 

 

O amor é bem capaz

de passar pelo fundo de uma agulha

e desprezar as delícias do céu.

LA 05/007

 

 

A distância entre a amizade e o amor

é uma bela história

que foi preciso se inventar.

LA 05/007

 

 

Enquanto o amor reza,

ofegante,

os cães ladram.

LA 05/007

 

 

O amor pode fazer sapatos

andarem nas mãos do dono.

LA 05/007

 

 

O amor é uma cabana

construída dentro de um castelo.

LA 05/007

 

 

Amor prudente

não traz o guardachuva.

LA 05/007

 

 

O tal primeiro amor

é só o primeiro quadro que pintamos —

sim: de modo algum o mais belo.

LA 05/007

 

 

O amor é aquela casa

que se constrói no coração

e em que se teima em ser feliz.

LA 05/007

 

 

Enquanto o amor faz estalar o estrado

os gatos miam arranhando a noite.

LA 05/007

 

 

Se não podemos mudar as coisas,

pelo menos fruamos gostosamente

os seus intervalos.

LA 05/007

 

 

Os homens não odeiam

os pequenos e fracos.

LA 05/007

 

 

Quem lhe confia segredos,

angústias, sonhos, traições

não é por certo seu amigo —

mas alguém que o confunde

com um padre ou psicólogo.

LA 05/007

 

 

O amor é especialista

em nos mostrar as coisas

como elas não são.

LA 05/007

 

 

Sim, o amor vê gente

em roupas no varal...

e vê fantasmas nus,

de carne e osso.

LA 05/007

 

 

O amor faz diamantes virar vidros

e faz de vidros belos diamantes.

LA 05/007

 

 

Se a vida é uma vela,

que ela queime

sem pingar em nossas mãos.

LA 05/007

 

 

Se não te acho com meus olhos,

te procuro com a memória.

Lembrar-te é bom

como dizer à infância em nós

que sua mãe já está chegando...

foi comprar doces, comida, coisas bonitas...

e eis que já está voltando...

Sim, lembrar-te é bom

como sentir o sol pela manhã...

Bonito como o céu de maio

todo florido em azul...

Lindo como colher flores silvestres

com duas pernas a correr na frente...

Excitante como a brisa no inverno...

Fascinante como os namorados

que fazem suas saudades

transarem por e-mails.

E belo, eternamente belo

como a beleza de te amar.

LA 05/007

 

 

Saber fazer durar nossos empenhos —

isto é que mostra de quem eles procedem.

LA 05/007

 

 

Devemos lutar nas adversidades

e nas diversidades.

Naquelas,

para sobreviver.

Nestas,

pra não morrer.

LA 05/007

 

 

Herdamos o medo de nossos pais

e dos que nos queriam castrar a infância.

LA 05/007

 

 

Sosseguemos!

 

Os negros fiquem sossegados —

todos os brancos

vão virar negros.

 

Os brancos que sosseguem —

todos os negros

vão virar brancos.

 

Tal só não se dará

com nossas mães —

para que cuidem de nós

com amor,

com muito amor,

e nos ensinem coisas

que vivam aqui e além

do arco-íris.

LA 05/007

 

 

A vida não é brinquedo,

não é uma bobagem —

a vida é muito mais que cor da pele,

tamanho, formas, chiliques.

Cada um nela tem

o que lhe é bom ter.

Cada qual nela está

em busca do que lhe falta.

A vida é muito mais

do que o nosso mesquinho não-saber.

LA 50/007

 

 

A pessoa ressentida

é sempre alguém pequeno.

LA 05/007

 

 

Perdoar é superar-se.

LA 05/007

 

 

Não perdoar é estar amarrado.

LA 05/007

 

 

E veio o medo

( bilhões no mundo o cultivam ),

um medo quase escudo,

um medo quase dom,

diria até — delicioso:

um medo que alivia

os sonhos e os cansaços —

medo misericordioso

de apocalipse,

de fim de mundo:

sim, medo,

medo catarse,

mesclado nas delícias

de fim extremo

( é assim que o cultiva o mundo ).

LA 05/007

 

 

Os muito pobres vão pegando

um mal-estar do ser humano.

LA 05/007

 

 

Se buscamos um sentido,

ele precisa ter sentido.

LA 05/007

 

 

Não se esqueça:

Ria sempre,

e bastante —

não só dos outros.

LA 05/007

 

 

Sempre emprestava a Deus

em suas caridades.

LA 05/007

 

 

Amar demais o trabalho,

refugiar-se nele

é estar nos braços

de alguma coisa terminada em “ia”.

LA 05/007

 

 

Quem não sabe ser feliz com o suficiente,

por certo a vida não lhe será agradável.

LA 05/007

 

 

Estava André a afogar o bípede,

quando eis que mão intempestiva,

estranha quanto infeliz,

lá da rua,

lhe torpedeia a porta!

Olhou pro belo lago,

e este lhe diz,

já bem a marulhar:

Acaba de matá-lo! Acaba,

acaba... Com esse bicho

não tem oito,

sim, não tem oito —

só oitenta.

Obedeceu sem hesitar:

e foi estrangulando-o,

devagar, devagarinho —

até tê-lo estiradamente

morto-minguante,

minguante.

LA 05/007

 

 

Um dia pensarão que estou caído

na estrada, na rua, no parque... Mas não —

era só minha capa.

LA 05/007

 

 

Onde há muita pompa e luxo,

ao lado ou dentro

existe muita miséria e doença.

LA 05/007

 

 

Vamos vendo nos outros

exatamente aquilo,

aquilo que queremos ver.

LA 05/007

 

 

Um dia pensarão que morri,

mas não —

só troquei de morada.

LA 05/007

 

 

— Se todas fossem, minha nega, iguais

a você,

ah, minha nossa, que tédio!

— Acha mesmo, amorzão?

— Sim, como é que eu poderia

fazer amor só com você,

mas cada vez mais variado —

toda vez mais diferente

e original —

a ponto de algumas vezes

trocar-lhe o nome?

A diferença é linda:

faz de uma coisa

punhados,

variedades dela.

E isso não custa nada, nega, —

só se usa a imaginação,

que não custa nem dói.

Ah, se pudéssemos todos

e todas,

minha nega,

se pudéssemos todos

ser um —
como a consciência de cardume!

Aí nem se precisava

extraviar-se em pensamentos.

Até os moralmistas

iam gostar.

LA 05/007

 

 

Ah, aquela Marilda!

Marilda colecionava.

Sabia, conhecia,

e como conhecia!

Conhecia e se fartava.

Saudade

do seu sorriso hormonal,

do seu olhar guloso.

É bem provável

que já tenha mudado

de sua fase de móbile

para aquela tal imóvel.

LA 05/007

 

 

Sim, o tempo a enterrou, mas bem depois

de ela ter enterrado

devagar e de-li-ci-o-sa-men-te,

com líricas fungadas,

os homens “interessantes”

de seu romântico rincão.

LA 05/007

 

 

O que a boca diz sinceramente

os olhos sabem que é mentira.

LA 05/007

 

 

Em geral “exigimos” que nos digam

exatamente só aquilo

que queremos ouvir.

LA 05/007

 

 

Ferido o orgulho,

a vaidade se rebela.

LA 05/007

 

 

Os amantes que se visitam

fingem ser bem mais felizes.

LA 05/007

 

 

O fato de nunca termos feito,

minha amiga,

é que gerou essa delícia

eterna

lá num raro teria-sido.

LA 05/007

 

 

Sim, o tempo guardou as delícias

da musse que não fizemos —

de sorte que fazê-la hoje

seria até pecado.

LA 05/007

 

 

O vento passa louquinho

com as suas orelhas

de abanar fogo.

É já que vai chover,

comadre.

Sim, vai chover, minha comadre,

vai chover. Entra pra dentro,

vamos tomar um cafezinho

enquanto Alzira, a minha nega,

não vem.

LA 50/007

 

 

 Ah! Era bom quando ela vinha.

A gente parecia ponte pênsil.

LA 05/007

 

 

A embaixatriz matou-se

com um bilhete alfinetado à blusa:

Cansei de ser expletivo

da vaidade humana.

LA 05/007

 

 

Sorri aos que te odeiam,

finge-te forte aos inimigos

e ( de porta fechada )

chora perante Deus.

LA 05/007

 

 

A mais bela maturidade

de uma pessoa

é aquela verdinha

de sua infância.

LA 05/007

 

 

Em grupo,

a loucura é mais visível.

LA 05/007

 

 

— Que diabo, Rosa!...

— Que foi, padre?

— Ainda tenho meio copo de vinho,

mas seu marido já vem vindo...

Se ele me vir saindo,

diga-lhe que sou um empresário

bem sucedido —

fabrico berrantes.

LA 05/007

 

 

Lembra, nega, quando passávamos

um longo tempo sem nos vermos?!

A gente parecia um chafariz.

LA 05/008

 

 

Amantes rimam

com diamantes,

mas tudo pode acabar

em bijuterias.

LA 05/007

 

 

Tuas mãos deixam bonito

o esmalte de suas unhas.

LA 05/007

 

 

Mandei-lhe pensamentos passeriformes

cantar, hoje, à sua janela.

Você pode não tê-los visto,

mas eles estiveram aí.

Você pode não tê-los ouvido,

mas eles cantaram para você.

Feliz aniversário!

LA 05/007

 

 

O cara se sente tão mal

que marca data pro fim do mundo.

LA 06/007

 

 

Quando eu for pro beleléu,

te espero, nega, no céu —

a menos que não vás pra lá.

LA 06/007

 

 

Eram mãos que abrilhantavam

quaisquer anéis,

e pernas que adornavam

quaisquer saias.

LA 06/007

 

 

Quem vê cara

vê coração e tripa.

LA 06/007

 

 

Marido bom é o que volta pra casa.

Esposa boa é a que não entende,

mas compreende.

Tenho orado a Santo Antônio

por uma mulher assim.

Sim, para estas,

tem-se que entrar na fila —

não existem à pronta entrega.

LA 06/007

 

 

Quando ele trocava de carro,

corria ver o amigo —

sim, só para falar um “oi!”

LA 06/007

 

 

Ela atravessava a rua,

bela como saber-se assim.

Nossos olhares se roçaram...

mas foi o suficiente —

beijafloramo-nos no ar

LA 06/007

 

 

Você deixou esta saia

a mais bonita que já vi.

LA 06/007

 

 

Frederico, o Fredinho,

visitava o amigão do peito

e sua linda esposa

ao menos três vezes por semana.

Uma amizade assim,

diziam os vizinhos,

é coisa rara.

LA 06/007

 

 

Um cônjuge que foge não abandona —

deixa o outro livre dele.

LA 06/007

 

 

Sem alegria, viver é pecado.

LA 06/007

 

 

A alegria somos nós

de bem com a vida

e libertos das nossas miudezas.

LA 06/007

 

 

Em geral, querem nos mudar...

Mas não sabem que, se o conseguissem,

serviríamos ainda menos

para o que querem de nós.

LA 06/007

 

 

Nossos limites são para serem ultrapassados

e não para construirmos um pódio sobre eles.

LA 06/007

 

 

Um minuto para somar a consciência

à Consciência Humana —

todos os dias

das onze e cinquenta e nove

ao meio-dia.

LA 06/007

 

 

A adversidade nos dá força

para construirmos degraus e patamares

por fora e por dentro de nós.

LA 06/007

 

 

Procuro ser melhor do que a mim mesmo

sem desfazer do que fui e do que sou.

LA 06/007

 

 

Triste, terrível:

hoje a violência se tornou gozo

entre todas as classes sociais.

A violência tem uma forte libido.

LA 07/007

 

 

A impiedade vai matando a alma.

LA 06/007

 

 

Afins geram afins —

aqui e além.

LA 06/007

 

 

O homem é o que ele tem no coração.

LA 06/007

 

 

Quem adotou a mentira

dificilmente criará a verdade.

LA 06/007

 

 

Há uma mão no final do seu braço

com que você deverá contar.

LA 06/007

 

 

Se você sabe do que é capaz,

o mundo pode falar o que quiser.

LA 07/007

 

 

Se a chinela não lhe serve,

lembre que por aí

anda muito pé descalço.

LA 07/007

 

 

O amor é como o fogo —

haja lenha!

LA 07/007

 

 

Frase ecologicamente incorreta:

Haja lenha!

LA 07/007

 

 

Se as belas pernas

não são a alma do circo,

ao menos são seu corpo.

LA 07/007

 

 

Palavras ensaboadas

com o tempo descoram de sentido.

E quem as pronuncia

fica vazio,

deliciosamente vazio.

LA 07/007

 

 

O mundo late, berra, ruge, mia

sob a batuta da economia

a executar a sinfonia

dos coniventes dominós.

LA 07/007

 

 

Não esqueçamos:

hoje é o dia

da Consciência Humana.

LA 07/007

 

 

Era um cara bem profundo.

Escrevia, pensava tão profundo,

cada vez mais profundo,

profundamente profundo,

profundo...

até que um dia —

não veio mais à tona.

LA 07/007

 

 

Meu amigo Sofósio ponderou:

Se Deus criasse Adão e três mulheres,

o nosso pai primeiro nem pecava —

enquanto as três se arrancavam as melenas,

painho Adão dormiria

gostosamente preguiçoso

que nem Macunaíma.

LA 07/007

 

 

Os grandes intelectuais

têm uma bunda de ferro.

LA 07/007

 

 

Devagar, pega leve,

cara.

Bravatas e bazófias

pra quê?!

Vem a vida, te dá um chapéu...

e passa a bola

para quem ela quer.

LA 08/007

 

 

Uma das delícias do amor

é ser ele cego

do olho que lhe convém.

LA 08/007

 

 

Há os “vim-fiz-sumi” —

vêm, fazem e somem

rápido-rapidinho,

mas deixam um belo rastro.

LA 08007

 

 

Nossa maior decepção,

aliás, ruína,

seria podermos ler

na mente das pessoas.

LA 08/007

 

 

— Que horas são?

— Agora é hora

da Consciência Humana.

LA 08/007

 

 

Claro que a realidade

é como a vemos.

Assim não fosse, nega,

que graça que teria

a estupidez geral?

LA 08/007

 

 

Muitos se preocupam em ter amigos.

Nunca vi ninguém preocupado

em ser amigo.

LA 08/007

 

 

Nossos sonhos e alvo,

sendo o que nos apraz,

nos dão alegria e força,

de sorte que assim nos livramos

do que o mundo nos quer impingir.

LA 80/007

 

 

Quem disse que seria boa

a oportunidade perdida?

LA 08/007

 

 

O lado mais belo do amor

é ele se reinventar a cada dia.

LA 08/007

 

 

Em alguns casos,

temos mais dó do cachorro

do que do cego.

LA 09/007

 

 

Sabendo que posso me matar,

sinto-me mais à vontade

para zelar por minha vida

e vivê-la com um sentimento

de ungida preciosidade.

LA 09/007

 

 

Fazer-se de desentendido

faz tropeçar a arrogância.

LA 09/007

 

 

Trabalho é bom, mas o descanso

é ainda pra lá de bom.

LA 09/007

 

 

Repouse, coce os mimos

e goze o dia que o Senhor lhe deu.

LA 09/007

 

 

Mal acabamos de escrever,

o texto voa de nós para sempre.

LA 09/007

 

 

Lembremos: cada momento

é momento de Consciência Humana.

LA 09/007

 

 

O amor comum é isolamento,
exigido dos dois lados.

LA 09/007

 

 

Claro, pode ser feia...

mas tem que ter no charme

aquele pizz-pulsão.

LA 10/007

 

 

Se você tranca o amor,

ele escapa quando quer.

Se você o deixa livre,

então já está livre.

LA 10/007

 

 

A beleza da vida nos é dada

em seus noventa e nove por cento

pelo nosso beato não saber.

LA 10/007

 

 

Chorar para as pessoas enfraquece,

mas chorar para Deus nos fortalece.

LA 10/007

 

 

Doces mentiras,

saboreadas com competência,

viram verdades.

LA 10/007

 

 

Muitas vezes trocamos

bom senso por loucura

e provamos para nós mesmos

que isso foi muito bom.

LA 10/007

 

 

Mente-se tanto

que se acaba acreditando

no que se mente.

LA 10/007

 

 

Mente-se tanto

que se morre pela mentira

aos sons de capciosos hinos.

LA 10/007

 

 

Uma jabuticabeira

ainda moça

com colares e colares

de esferas lustrosas e negras.

LA 10/007

 

 

Entre sonhá-la e querê-la

vai o amor pisando as uvas

do seu capitoso vinho.

LA 10/007

 

 

Todo ano, entre outras coisas,

é ano da Consciência Humana.

LA 10/007

 

 

Nem precisamos mais de vaca.

Várias empresas

de laticínio

estão fazendo leite

pra nóis.

Fórmula:

água (óxido de diidrogênio),

soda (hidróxido de sódio)

e água oxigenada (peróxido de hidrogênio).

Nem Deus sabe há quanto tempo

a gente vem comprando e consumindo

essa coisa branca laboratorizada

que pagamos caro, muito caro

e ingerimos como leite.

O senhor ministro,

branquinho como ricota,

disse que ficássemos sossegados —

temos um dos melhores leites

do mundo.

LA 20/10/007

 

 

Enxergamos e compreendemos

o que mais nos convém.

LA 10/007

 

 

Nosso amparo espiritual

é do tamanho

que acreditamos ter.

LA 11/007

 

 

Amor anda muito caro.

Mas dizem que o genérico

está tão bom

que o outro nem faz falta.

LA 11/007

 

 

Adoro mulheres brabas.

Gosto de vê-las

quebrando a cara

dos amigos e vizinhos.

LA 11/007

 

 

A cara do ministro

parecia uma fatia

bem grossa

de marmelada.

LA 11/007

 

 

Seu clitóris era lindo —

parecia uma careta

de cajuzinho do campo.

LA 11/007

 

 

Pescando traíra e bagre

Sofósio explica ao André:

Perereca, seu moço,

tem um coaxo engasgado.

Tanto canta na vala

quanto canta no pau.

LA 11/007

 

 

Minha amiga tinha mais anéis que dedos,

por isso carregava alguns

numa correntinha ao pescoço.

Seus psicólogos

( sim: tinha vários ),

como Galileu,

olhavam-na em elipses.

LA 11/007

 

 

Todo mês é mês

da Consciência Humana.

LA 11/007

 

 

Só sabendo o que em nós não é bom

é que podemos alcançar o melhor.

LA 11/007

 

 

Quando a teoria

já não para de pé,

muda-se um poucochinho

o ângulo da dialética —

e prossegue-se.

LA 11/007

 

 

Amor à primeira vista não quer dizer

que dure até a vigésima olhada.

LA 11/007

 

 

Coisa dura é ter que rir

para agradar —

já que o riso ensaboado

conserva as aparências.

LA 11/007

 

 

A fertilização in vitro é romântica,

já que o mundo tem gente

vazando pelo ladrão.

LA 11/007

 

 

O inútil e o fútil

são um mesmo e só tesão —

o fútil e o inútil,

só muda a posição.

LA 11/007

 

 

Era tão boa,

tão bela,

tão perfeitamente feminina,

que o padre nem a deixava ir à igreja —

ia lá.

LA 11/007

 

 

O primeiro amor é o primeiro quadro

de qualquer galeria.

LA 11/007

 

 

Tudo caminha bem,

mesmo quando

nos parece o contrário.

LA 11/007

 

 

Por bom que tenha sido,

o passado

é café requentado.

LA 11/007

 

 

Penteamos os cabelos,

pingamos colírio,

passamos filtro solar,

lustramos os sapatos...

O coração, coitado! nem ligamos

com o que sente ou pensa na vida.

LA 11/007

 

 

O amor é um gênio —

finge ser o que finge.

LA 11/007

 

 

O segredo

é irmos nos adaptando

e aprendendo sempre —

assim sobrevivemos

a quaisquer meios e tempos.

O que somos realmente

só nós e Deus sabemos.

LA 11/007

 

 

Em geral, pregam-nos mudanças

porque do jeito que somos

já não está servindo

ao que querem de nós.

LA 11/007

 

 

Quem gosta de mandar

deve saber obedecer.

LA 11/007

 

 

O homem não soluciona —

modifica.

LA 11/007

 

 

Todas as teorias

estão doentes de incertezas.

Portanto, muito cuidado —

deixe que o tempo

mastigue-as bem,

depois você engole.

LA 11/007

 

 

Uma teoria

é apenas uma picada

na borda de uma floresta infinda.

Para chegar-se ao ponto,

muitos enganos,

desenganos,

lutas e sagas —

muita aventura.

LA 11/007

 

 

 

Teorizar é ousar.

Sem essa base-força,

não há começo.

LA 11/007

 

 

O bom discípulo

fareja o aprendizado —

sábios e tolos,

situações favoráveis e contrárias,

tudo pode ensinar

a quem está conscientemente disposto

a aprender e organizar-se.

LA 11/007

 

 

Quando há obsessivo apego no amor,

ele começa a desamar.

LA 11/007

 

 

Falando-se nas entrelinhas,

geram-se as linhas

e a tinta

que vai pintando a boca das palavras.

LA 11/007

 

 

Morrer de pé

é igualmente morrer.

LA 11/07

 

 

Será que alguém já viveu sem medo?

LA 11/007

 

 

Se o homem abusar

da bondade de Deus,

por certo se prejudicará.

A paciência divina é infinita,

mas há leis que fazem cumprir

os desígnios da Vida.

LA 11/007

 

 

Quem sabe um dia

alcançamos viver o que somos.

LA 11/007

 

 

Somos ingênuos na infância

e desvão seguinte.

Somos tolos na adolescência.

Petulantes na mocidade.

Insensatos na meia-idade.

Passamos por prudentes

( melhor fora: tímidos )

na idade branca.

E nunca,

nunca dá tempo

de aprendermos a viver.

LA 11/007

 

 

Tanto nas convicções como nas mentiras

vejo a verdade correndo perigo.

LA 11/007

 

 

Os pobres sempre pagam

o pato ( que não comem )

e o vinho ( que não bebem ).

LA 11/007

 

 

Se tu me amas, fá-lo

bem devagar —

ninguém venha a escutar

um só estalo —
sussurrava-lhe Marilda

naquela frágil caminha

no quarto enorme

(com pessoas ressonando) —

tudo escuro como tiziu.

LA 12/007

 

 

O amor que nunca saboreou loucuras

não sabe degustar

as deliciosas doidices da razão.

LA 12/007

 

 

Viver é um tesão,

mesmo porque a vida

está sempre com aquela

sainha-abajur —

pedindo que se lhe troque a lâmpada.

LA 12/007

 

 

Reze contra as tentações do amor,

seus amavios e trapaças,

seus jogos e seduções.

Porém, não reze tanto,

senão tais males

jamais lhe vão acontecer.

LA 12/007

 

 

Coberto até o pescoço,

lá da cama saboreei:

Um sabiá acordava

a aurora

com infinito,

aperolado carinho.

LA 12/007

 

 

O homem só começa a crescer em humano

quando deixa abrir lá em si

a consciência

da Consciência Humana.

LA 12/007

 

 

Ah, imagina, nega! Apenas

quebramos o galho.

Mas se houver uma lima

pra amolar o machado —

derrubamos a árvore.

LA 12/007

 

 

O humor,

o riso,

a ironia,

o trocadilho,

a brincadeira,

o ridículo —

são para os saudáveis.

LA 12/007

 

 

Niemeyer

escreveu com concreto

sua mitopoesia.

Mostrou que o cimento

pode também viver

sua utopia —

sem precisar descrer

do deus das formas.

Niemeyer

recriou em cimento

a sua mitoinfância —

nume a mediunizar

o homem genial

que é.

Seus mitopoemas

são declamados

pelo tempo.

Honesto consigo mesmo,

os anos foram depurando

sua pessoa

até aquele ponto humano

em que o homem sente em si

a humanidade inteira

e se transcende sorrindo,

solvendo-se em calma e luz.

Deus abençoe, senhor Niemeyer,

seus cem aninhos de cimento armado.

LA 12/007

 

 

Quase sempre as pessoas,

quando vivem muitos, muitos anos,

despregam-se dentro de si mesmas

(como o caroço de algumas frutas)

e brotam para o outro lado das coisas —

transcendem-se:

já vivem além de si mesmas —

lótus que vem da noite à luz,

nascido com o pé no lodo

e a corola a transbordar

do sorriso de Deus.

LA 12/007

 

 

Três cheiros bem domésticos:

o café sendo coado,

a goiaba sendo apurada

e o pão assando.

LA 12/007

 

 

Pois é.

Tem dia que de noite é assim.

Feliz Natal,

cambada!

E um 2008

com muito amor no bolso.

LA 12/007

 

 

A Marilda?

Me disse que só se ajunta

com homem de P maiúsculo

e bolso RECHONCHUDO.

LA 12/007

 

 

Um partido

só se lembra do seu credo

quatro minutos após ser eleito

o dono do trono

pelo qual fez o diabo.

Exagero? Pode ser que sim.

Quem quiser

acrescente uns segundos

aos tais quatro minutos.

LA 12/007

 

 

No amor tudo é maior,

inclusive nossa burrice.

LA 12/007

 

 

Na estrada para o fim

nos lembramos muito de nossos pais

e daquela casa que eles nos emprestaram.

Tudo ganha um sabor de pão da infância,

um cheiro daquela goiabada

feita em tacho de cobre.

Temos lastro bastante

para conversarmos com eles frente a frente

e sabermos que não sabemos.

Isto é, vemos que eles estavam certos,

mas que fizemos muito bem

em não concordar com eles.

Gostamos deles, os amamos,

mas nos sentimos outra gente,

tal como são outros os nossos filhos,

outros os nossos netos.

Na estrada para o fim

percebemos que o tempo

são portas que se abrem e fecham

na casa em que Deus nos pôs

e que ficou dentro e fora dela...

e que nos sendo ( Deus nos sendo ),

também estamos,

sim estamos dentro e fora de tudo

e que, como Ele, também somos tudo.

Na estrada para o fim

caminhamos sempre para um começo —

um fininício cruelmente belo.

LA 01/008

 

 

Solenidade,

formalismo,

academismo,

cenho duro —

coisas para os enfermos.

LA 01/008