HOJE É O QUE TEMOS
Laerte Antonio
Textos 03
A velhinha era safada.
Sim, daquelas tais —
guerra é guerra!
LA 01/007
Fez um elogio pra esposa:
Ah, meu bem, não consigo
olhar pra outra mulher
sem me lembrar de você!
LA 01/007
Nada contra.
A mulher que finge orgasmos
é muito generosa —
já que há muitas e muitas
que nem isso fazem.
LA 01/007
Pela amostra da Globo,
Carnaval, este ano,
vai ter bundas menos carnudas —
no ponto,
isto é:
aquelas que cabem nas mãos.
LA 01/007
Passou pela Daspu
e trouxe uns paninhos invisíveis
pra cobrir o jardim
de sua nega.
LA 01/007
Tio Freud me contou
que a mulherada quer
dominar umas às outras
pra ficar
com tudo o que é homem —
e ter orgasmos com gosto
de chicle de bolas
e chiliques de princesas.
LA 01/007
176 balas perdidas em 2006
no Rio
atingiram homens, mulheres
e crianças.
176 as que contaram,
as outras ninguém sabe,
ninguém viu.
LA 01/007
Educação neste país
é algo tão pouco e porco,
que o povo deveria
exigir dos manda-impostos
uma atitude do avesso e contrário
do que ulula a realidade.
LA 01/007
A saúde deste país
está igualmente
tão pouca e porca,
que o povo deveria
exigir dos barbacenas
mais e mais em tudo
e em todos os quesitos
estatutários.
LA 01/007
Cada povo tem o governo que merece
ou cada povo tem do governo
o que este lhe oferece?
LA 01/007
E viva o desexercício
da nossa cidadania!
Um dia a gente chega lá...
Lá é bom,
agradável aos políticos —
porque é um lugar-tempo
que não existe.
A gente chega lá.
LA 01/007
André me disse
que fez doutorado de seus erros
na Universidade da Vida,
e que valeu —
hoje acerta como errava
e erra como acertava...
Mas com os erros
começou a aprender
que assim tem dois mestres —
o que pensava ser acerto
e o que julgava ser erro.
Resultado:
duplo aprendizado —
seu aprender ganhou novos ângulos.
LA 01/007
Os bancos
são como as bacantes gregas —
serviam como a deuses,
mas apenas os que tinham
saquitéis reluzentes.
LA 01/007
De repente,
bem mais que de repente,
foi implacável
a esposa do André:
Ou eu,
ou minha irmã,
ou a empregada, meu querido!
Lhe dou exatos três minutos
para a escolha.
Silêncio...
Estresse...
Angústia...
Calmo. Senhor de si,
André escolheu a sogra —
que sempre morou na casa.
LA 01/007
— Conhece Laura?
— A gente se molhou bastante.
LA 01/007
— E aquela Marilda?...
— Não dá mais.
— Casou?
— Morreu.
LA 01/007
— E Zenilda?
— Em plena rotação
e translação.
LA 01/007
Era bela e sensual.
O chefe cobria-a de elogios,
presentes e licenças...
anos e anos a fio.
Comentava-se na empresa
que se tratava
de chiliques petrarquianos.
Já com o jardineiro
sempre foi generosa —
orvalhadamente hormonal
com tórridos fins de semana.
LA 01/007
Sim:
prudência, canja de galinha
e algum no bolso
não fazem mal pra ninguém —
desde que a galinha
não tenha o vírus
da gripe aviária...
e o tal dinheiro
não esteja com a série
registrada na polícia.
LA 01/007
Se a voz do povo fosse a voz de Deus,
seríamos no mínimo
um outro povo.
LA 01/007
Quanto maior a árvore,
maior o tombo —
e muita lenha
pra qualquer caminhãozinho.
LA 01/007
Em vez do amigo vir à sua casa,
vá à dele,
que ele pára de vistá-lo.
LA 01/007
Amigo é bom
pra beber,
jogar,
falar bobagens,
ir pescar,
avaliar ( não: já não o fazem ).
Daí para trazê-lo a tua casa,
ô cara!
a diferença é a mesma
entre ver bicho na telinha
e na floresta.
LA 01/007
— O luluzinho da madame
nem precisa ser bonito
quando as pernas dela são adoráveis,
não é mesmo, padre?
— Desculpe, André, eu tô pensando aqui
em como vou fazer a Festa do Desterro...
LA 01/007
Médicos (desta vez chineses )
trocam peças novas por velhas
nos hospitais —
pra ganhar uns trocados
e favores.
Se você é pobre,
tome cuidado
com suas peças.
Sucateiam você e fazem
sucatas de luxo andar.
LA 01/007
Por vezes sinto saudade
do que eu gostaria de ter vivido
e só o fiz em sonhos.
Mas se pude viver em sonhos
o que a vida me negou na sua sala,
de jeito algum deixei de viver
o que a vida me negou —
apenas vivi além:
o sonho-mais da vida,
fora do seu salão de festa.
LA 01/007
Rosa era graça entreaberta,
luz fresca a pintar o ar de azul.
Gesto de colibri
sorvendo o ouro da manhã.
Jeito de brisa
correndo sobre as águas...
Rosa era isto: Rosa.
Tão frágil, tão menina,
tão crocante na haste da vida...
Eu menino a abraçava
com infinita ternura,
beijava-a leve leve...
Não podia desfolhá-la
porque não era minha
nem de ninguém:
sim, Rosa era só uma rosa.
Um dia me descuidei
e veio o ventomoço
e a levou —
deixou sobre a grama
a sua maquiagem,
chorou-se toda-inteira
e se foi para sempre —
sua alma se foi com moçovento
pra tão longe e sempre
que Deus nunca que contou
pra ninguém.
LA 01/007
Urubu,
bicho feio de perto,
de longe vira príncipe
com o maior manto azul do mundo
nas costas.
LA 01/007
Quem não chora não mama.
Conforme a teta
não dá mesmo coragem de chorar.
LA 01/007
A imposta majestade
fez muitos reis.
Pobre da gente pobre
que os teve!
LA 01/007
Entre a chibata e a lei
está o lombo do pobre.
LA 01/007
Esquartejar um homem,
espetar sua cabeça num poste
e espalhar seus pedaços pela estrada —
não é isto praticar o terrorismo,
um terrorismo desbragado e tão hediondo?
Pois é.
O terrorismo tem a idade do homem.
LA 01/007
Marina era fresca como as manhãs de maio.
Uma loucura de simetria.
Uma bromélia carnudinha,
paparicada
por colibris e borboletas...
Seus peitinhos bicavam o vestido.
Quando mudei do Largo
ela devia ter uns onze anos.
Nunca mais a vi. Mas a sua figura
ficou esvoaçando-me,
sim, para sempre esvoaçando-me.
LA 01/007
Rosa,
uma lembrança quentinha,
um jardim, um sorriso.
Rosa ficou em mim pra sempre —
uma pétala caindo...
LA 01/007
Há Quanto Tempo...
Há quanto tempo entre a palavra
e o que preciso dizer! —
muito mais para mim
que pra você,
que nem me lê.
Há quanto tempo aqui
no haver esta sala
mando e-mails pra mim
para o outro lado das águas
sobre as quais eu caminho!
Há quanto tempo cheguei
em pensamento
e aqui me espero
numa nave que traga
o meu corpo e bagagem!
Há quanto tempo me encontro
entre essa luz que ora me encanta
e com certeza me vem
dos sonhos que o universo
já viveu faz bem mais tempo!
LA 01/007
Entre a palavra e o outro
os cactos podem florescer
e a solidão
apaga o seu rastro sobre a areia
LA 01/007
Seu rabo de cavalo
chicoteava-lhe o pescoço
enquanto ela corria
( colibri-potra-andorinha-brisa )
entre o verde relinchante dos pinheiros...
LA 01/007
A caminho
do cemitério de elefantes,
me esforço com alegria
por ir abrindo mão do mundo,
me livrando dos seus visgos-enganos
e finalmente de mim —
isso enquanto aprendo a rir.
A rir,
não de mim nem de ninguém:
um rir intrasitivo.
LA 01/007
— O mundo vai acabar.
— Ah, é?
— Pastor falou que tá no fim finzinho.
— Ah, é?
— Pastor jurou que não demora.
— Ah, é?
— Vai acabar por causa da pouca vergonha.
— Ah, é?
— Também por causa da maldade
e da injustiça.
— Ah, é?
— Pastor asseverou que Deus
leva com Ele os bons,
joga no fogo os maus.
— Ah, é?
— Pastor deu graças pelo fim do mundo,
assim a gente vai tudo pro céu.
— Ah, é?
LA 01/007
A sociedade que se nivela por baixo
torna-se, a curto prazo, marginal —
com príncipes a lhe jogar barro
na cara
com seus fonfonzinhos de ouro e prata,
cheios de xotas de diamantes.
LA 01/007
O Estado brasileiro não cabe no seu PIB.
Tão culpando a Previdência! Faz tempo.
Manjou o bicho que vai sair desse mato?...
LA 01/007
Não basta ter duas pernas
e um jardinzinho ao meio,
é preciso que os fluidos
se engrenem.
LA 01/007
A empregada tinha um piercing,
mas tão engraçadinho,
que seu patrão ( viúvo )
brincava com a língua
o dia inteiro.
LA 01/007
Era tanto pedigree,
que seus dedos e furos inflamavam
se as jóias e assemelhados
não fossem de real grife.
Um dia, por uma fatalidade —
dessas que descem do além,
num de seus giros pelo mundo,
foi estuprada
por um marujo bêbado
e fedido como um gambá.
E ( pasmem! ) deu-se o milagre:
daí por diante
nunca mais em sua vida
em circunstância e forma alguma
lhe inflamou coisa nenhuma.
Sim: uma espécie de vacina.
LA 01/007
Terra e céu, terra e céu...
terra e céu, terra e céu... —
o cara viajava eternamente,
ia e vinha aero/dinamica/mente
agarrado em cada lado
das ancas
macias, brancas
da namorada
ajoelhada sobre o verde
enluarado
do campinho de futebol.
Viajavam pensando
que não havia ninguém
do outro lado
fazendo a mesma coisa —
devagar, devagarinho.
LA 01/007
Com a literatura e poesia
consegui manter-me vivo
nos dias maus
e atravessar o escuro
de alguns túneis da minha vida.
Lendo e escrevendo,
livrei-me de muitas armadilhas
do mundo
e de mim mesmo.
Pude mudar, pela vontade,
muita coisa do meu destino.
Pude livrar-me
de ser pensado e sonhado
pelo mundo.
Além do que, aliás,
ler-escrever
sempre me deu muita alegria,
que é força.
LA 01/007
Cascas Vazias
Quando menino
olhava demoradamente
as cascas vazias de cigarras
agarradas às árvores do quintal.
Aquilo nelas que cantava
e que fazia amor devagarinho...
já não estava.
Eram bonitas ( eu pensava ),
tão bonitas...
E, olhando suas cascas rachadas nas costas,
eu me perguntava encantado
e doendo lá em mim:
Seu canto
e as suas asas bordadas
para onde eles foram?
Aí ( dentro desse silêncio )
eu sentia a poesia
que há na vida por existir a morte
e que há na morte
por existir a vida.
E eu percebia de lado
que vida e morte
é um mais além
em forma de brinquedo
( que foi dado a nós-crianças ):
sim, as duas um só brinquedo,
uma só brincadeira
( cósmica )
de mostra-esconde, mostra-esconde...
Brincadeira que dói e encanta,
e tanto,
que a gente tem que brincar
( isto é: cantar-chorar )
do melhor jeito que puder —
mesmo porque estamos reféns
desse auto-engano —
longe daquele doce canto:
a deliciosa inconsciência
das cigarras.
LA 01/007
— Tem visto a Inês, Marli?
— Não, e já faz tempo.
— Então não soube do escândalo, menina?!
— Não. Pode contar.
— A Inês deu a maior sova na Odila
( a Odila do Décio, o fazendeiro... )
porque esta, na saída da pizzaria,
beijou o namorado dela
no rosto e na boca.
Um Deus nos acuda.
Foi punhados de cabelos de cá,
chutes e dentadas
de lá,
unhas cortantes dos dois lados,
até que a Inês meteu a boca
num dos peitos da Odila — e... mastigou!
Meniiiiina! um caso pra Pitanguy...
.........................................................................
— É, Marilda... o que é que nós não fazemos
por um pinto de grife!?
LA 01/007
Pra fazer bem uma coisa,
comece com o pé direito
( ou com o esquerdo ),
contanto que não escorregue —
que pise direito.
LA 01/007
Naquela noite fria,
transida de chuva fina,
me acheguei tímido
à tua casinhola...
e tu me agasalhaste,
minha nega,
a noite inteira!
Quem dá ao desabrigado
dá a si mesma.
LA 01/007
Toda confeccionada em couro de anta
( um assunto para o IBAMA ),
a MOS-PPE
( Mochila-Sutiã
Para Peitos Exuberantes ),
já sucesso em meio mundo,
é produzida — para nosso orgulho —
pelos índios ( prata da casa )
da tribo dos Quelomamá.
LA 01/007
O poeta é uma espécie
de intérprete público
da realidade.
Quando diz “eu”,
está dizendo “nós”.
O poeta é o espelho
do leitor.
Por isso mesmo é que certa
categoria de homens
tem mais é que detestar
a poesia.
LA 01/007
Quando vejo na coisa a coisa,
é porque a poesia em mim
anda doente.
Então, como o cachorro,
me aquieto... deitado,
deitado lá em mim
até sarar
pelo jejum das coisas.
Depois volto a escrever —
depois que as coisas
não se parecem mais com elas mesmas...
Torno a ver a alma das coisas
por um ver de lado o que está de frente...
ou por detrás o que está de lado —
por um saber que sobe aos ombros do saber...
Aí sei que estou poesia,
isto é, que vejo as coisas
em seu vôo no espaço-tempo.
LA 01/007
Futilidade angustiante,
essa que devora a sociedade
que a busca afugentar
com veleidades maiores.
Nosso início de século
ou milênio
parece que perdeu a aparelhagem
( interior ) que lhe dava rumo.
Nosso relacionamento perde
a cada dia o encanto
de conhecer o outro —
o sentido de caminharmos juntos.
Chegou ( para muitos ) o tempo
de os homens não adorarem,
nem no monte nem no templo,
mas no coração,
porque Deus é espírito e verdade
e assim importa
que Ele seja adorado:
em espírito e verdade.
Na sociedade dos poetas mortos
fugiremos por nós dentro
e nos refugiamos na noite
sob pontes e bosques
para lermos ( escondidos ) uns aos outros
o sentido,
a lucidez que há em sermos loucos.
LA 01/007
Belo, magnífico sentir e ver
aqueles dois homens a caminhar
com Cristo já ressuscitado
( sem que eles soubessem
nem o reconhecessem )
pela estrada de Emaús.
Seus olhos, desenganados,
só O viram,
sim, só O reconheceram
pelo modo
de Ele partir o pão...
....................................................
Comeram juntos maravilhados,
e logo que Ele se vai,
um dos homens diz ao outro:
Enquanto Ele nos falava pelo caminho
ensinando-nos a respeito da Escritura
sentíamos arder o nosso peito...
LA 01/007
Rosa era linda,
fofa,
esplêndida —
de uma ternura ciclâmen
que fazia arrulhar endorfinas
e patinar neurônios...
Sim, Rosa era um queimor:
cabeça, tronco, membros
e mucosas.
Os dedos floresciam
só de vê-la ou imaginá-la,
e quando dedilhada sobre os lençóis
virava um mundo de pétalas,
sim, pétalas que murmuravam
em rotação, translação e elipses
e suspiravam coisas
de bichinhos virtuais.
Rosa tinha o cheiro morno
daquelas vinhas
de Cânticos dos Cânticos.
Sim, Rosa era um jardim inteiro
tão belo quanto sempre chovido.
LA 01/007
Tive muitos amigos
que me diziam estar em busca
da perfeição.
Que molecagem!
Nenhum deles percebia
que, se um dia a atingisse,
estaria roubado —
sem futuro,
melhor: sem ter aonde chegar.
O homem não precisa de perfeição,
mas de acordar de si mesmo.
Sim, na parábola do Éden
acordou para fora de si...
Agora há de fazê-lo
para dentro de Deus nele.
LA 01/007
— Eu sempre te tratei como irmã,
Marina,
sempre te respeitei,
sempre...
— Pois não devia...
não devia, André.
Tudo tem sua hora —
depois evapora.
LA 01/007
Na mocidade,
tive um amigo zen —
calmo, tranqüilo, atlético.
Sobretudo sereno.
Tipo capaz de perdoar sorrindo
um crocodilo,
uma onça, a um bandido
que lhe triturasse a irmãzinha,
ou o pai
ou a mãe.
O perdão,
a serenidade,
o autodomínio em pessoa.
Lembro que certa noite
teve uma dor aguda
e no outro dia
lhe estavam tirando o apêndice...
Deu um show,
precisaram amarrá-lo
para a anestesia
sob berros de “não quero morrer,
não quero morrer, não quero...
..........................................................”
Logo veio pra casa,
e não menos que logo
estava bom: reassumira
seu jeito zen.
LA 01/007
Auto-Homenagem
Hoje, levantei-me pródigo —
prestei-me uma auto-homenagem:
agraciei-me com o título
de Barrão do Espraiado.
( Olhem: é barrão com dois “rr”,
e não barão. Isto em virtude
de ter havido aqui muito barro...)
Por se tratar de um título
nobili... isto é, plebiárquico,
presumo casa-branquense algum
ficará com inveja
e por isso não se oporá.
Assinado:
Laerte Antônio,
Barrão do Espraiado
LA 28/01/007
Hoje é o que temos.
Hoje é o dia
que o Senhor fez —
de Suas mãos
o colhemos.
Alegremo-nos nele.
Sim, a alegria
nos seja o nexo,
o sentido da vida.
A alegria,
que não precisa
de motivo —
porque é graça,
é ser a ser-se
em sonho-mais —
é aquele além
lá entre o bem
e o mal:
aquele mais
no Sonho-Quem
em nós.
Hoje é o que temos.
Agindo nele,
remoldamos o passado
e plasmamos o futuro —
pelo querer,
pelo ousar
no hoje-agora.
A palavra no hoje
redime o ontem
e favorece
o agora e o amanhã.
No que é bom para nós
e ruim pra ninguém —
vivamos, saboreemos nosso dia!
LA 01/007
Se digo,
sobrevivo,
não ao tempo —
mas a mim mesmo
pelo tempo.
Se digo,
me sobrevivo
pela palavra
a organizar-me
o caos em cosmos,
o andar por sobre as águas
enquanto ajudo o amor a pescar
peixes que há
e os que não há.
Dizer
para sobreviver
ao desamor do amor —
a sua flor mais bela
e ciosamente cultivada.
A seus assíduos enganos,
tão belos,
tão belos quanto humanos.
E pé na estrada,
que os bárbaros vêm vindo,
os bárbaros vêm vindo!
Agora precisamos,
não de dizer, mas correr:
correr para sobreviver.
LA 01/007
Mais profecias
e mais apocalipses.
Falta de papá e água.
Seca e fome
para bilhões,
em decorrência
daquele tal de efeito estufa,
que vai bronzear ainda mais
aqueles bumbunzinhos,
deixando-os parecidos
com uvas azulonas...
E crocantes,
crocantes como pão francês.
E saborosos,
saborosos como ravióli.
Sim, como vocês já sabiam,
todas as coisas
têm o seu lado bom —
é só virá-las.
LA 30/01/007
O tal de efeito estufa
( segundo ambientalistas )
ajuntará mais brasas sobre a China,
a Europa e os Estados Unidos.
Engraçado, né? —
os três comandantes do momento.
Faz pensar.
LA 30/01/007
Não é só Madonna que capitaliza
nome e fama
a usar Jesus
como pano de fundo —
mas todos aqueles que não têm talento
para chegar à fama sem escândalos.
LA 01/007
Se um dia fores a Londres, minha rica,
não deixes de visitar-me
lá no ‘Pepino Erótico’ —
te espero insalivado.
LA 01/007
Pra você, minha Rosa,
não mando flores,
mas vasos.
LA 02/007
Quanto a você, Esmeralda,
lhe apresento o jovem Aurélio,
que é ourives.
LA 02/007
A solidão
é boa enquanto ateliê —
deserto que batiza a fogo.
LA 02/007
Bandidinhos de leite,
novos-novinhos
( um deles até de menor )
arrastaram um menino
( preso ao cinto de segurança )
por quilômetros e quilômetros
dentro da cidade do Rio.
Segundo testemunha,
um deles,
após o crime de lesa-humanidade,
ao ver a vítima em frangalhos,
usou seu fino humor:
“Parece Judas malhado...”
É!...
Pois é!...
É!...
LA 09/007
Se maldade não tem idade,
a punição correta
também não deve ter.
O momento que vivemos
é uma situação de exceção.
A exclusão social
está colhendo o que plantou.
De um lado,
os mamíferos de luxo —
a concentração da riqueza.
Do outro lado,
os empurrados para o lixo —
a repartição da miséria.
Ladrões e criminosos de grife
não são punidos nunca —
nas leis que eles-mesmos fazem
deixam brechas, túneis e portas
tal como em suas mansões...
E o pior: tais bandidos e bandidas
lecionam em tempo integral
a impunidade
e — com o farto material didático
de seus exemplos de vida —
hoje dão testemunho ( mais do que nunca )
de que o crime é o melhor negócio.
Sim, testemunham para aqueles
a quem negaram escola
e um lugar na vida
que o crime, o roubo, a perversidade compensam.
Aliás, tais mamíferos de luxo
e filhinhos da mamãe
ensinam aos pobres e miseráveis
os requintes da perversidade.
E são bons mestres —
seus alunos aprendem rápido
e por espelho sem nenhum enigma.
LA 09/ 02/007
Parece que no momento
cada bandido se esforça
por ser um mais cru
que o outro
na prática de seus hediondos.
LA 02/007
Já que são os filhos do povo
que matam os filhos do povo,
essa história de idade penal
bem que mereceria um referendo —
sim, um manifestar-se pelo voto.
Mas isso não bastaria —
é preciso mudar o modelo,
o modelo de sociedade.
LA 02/007
Recentemente, uma astronauta,
engenheira de vôo
( da NASA ),
raptou sua colega,
também astronauta,
para matá-la —
já que ambas disputavam
o mesmo homem:
o astronauta chefe da equipe.
Engraçado...
minha cachorra
também detesta cachorras
que lhe venham paquerar
seus machinhos.
LA 02/007
— Quem é o homem —
uma espécie de lobisomem
ou de lobo do homem?
— Não sei, padre, não sei,
mas isso é bem antigo:
“Homo lupus hominis.”
— E também em espécie, caro André:
“Sacerdos lupus sacerdotis”.
LA 02/007
Um escriba
é o que liba
o vinho diário
de sua vinha
de palavras.
O escriba é alguém
que sempre-sempre
vai existir —
graças à sede
desse licor,
licor cósmico
do Verbo.
LA 02/007
O sono,
essa trégua da vida,
está a me empurrar
para a cama.
Boa-noite.
LA 02/007
Trabalhar,
estudar,
disciplinar-se,
organizar-se,
persistir —
isto é para bobos?
A sociedade
faz parecer que sim.
LA 02/007
O mundo? Sifu o mundo!
com seu jeitão furibundo.
LA 02/007
Rio de Janeiro
é mais, bem mais que um sonho.
O avesso desse sonho
são os seus arredores.
Essa dicotomia
( hilária até )
gerou uma loucura.
Uma loucura vívida,
demais da conta vívida.
LA 02/007
Sexo é bom,
mas... sexo é por demais bom.
LA 02/007
Melhor que sexo,
só mais sexo.
Melhor que isso,
só um pouquinho mais.
LA 02/007
O maior perigo do homem
será sempre o seu pinto.
LA 02/007
A subjetividade,
como o Universo,
está em expansão.
Tentar segurá-la
é abraçar-se com explosões.
LA 02/007
Em aparência
tudo pode estagnar-se,
menos a consciência.
E podemos notar
entre os desvãos do tempo
( viver é bom por isso )
a consciência coletiva
mudando...
Sim: podemos vê-la mudando.
E não há armas nucleares
nem odres tão reforçados
que segurem esse vinho novo.
Isso é reconfortante
e faz toda a diferença —
ou seja, podemos até crer
que o ser humano tem jeito.
LA 02/007
O Sonhável
é aquela parte possível
e impossível das coisas —
faz haver a esperança.
LA 02/007
Sentir pena de si mesmo
é limitar-se —
pedir ao inimigo
que ore por você.
LA 02/007
Agora,
só pensava em mulheres.
Também fizera todo o seminário
( até às portas da ordenação )
pensando ter dado um nó górdio
no desejo.
LA 02/007
Dos bichos à nossa volta
em geral nos livramos.
Dos que trazemos em nós dentro
só nos livramos
com ajuda e discernimento.
LA 02/007
Sabermo-nos doentes
é o primeiro passo para a cura.
Cura que será proporcional
à nossa maior ou menor presteza
em buscarmos ajuda.
LA 02/007
Quase sempre evitamos
um cara a cara com nós mesmos —
porque isso dói.
Mas uma hora temos de fazê-lo
pra transformarmos o auto-estorvo
em realização.
LA 02/007
A Palavra lava,
flui como a água viva
por alma-coração
e irriga e cura
toda a angustura
que nos usura
o ver amplo e sem ângulos —
o viver que preenche
nossa falta de ser.
LA 02/007
Fez tanto doce,
que o pretendente
de há muitos anos
enveredou-se para outra
mais bonita e mais moça.
Quando soube, ligou brava:
“Homem não presta meeeeeeessssssmo!!!...
Você já me esqueceu, André?!
Teve a coragem
de me esquecer?!!”
E ouviu:
“Esqueci não, Fulana,
esqueci não. Quando Esmeralda
me torce com aquela chave inglesa...
vezenquando ainda lembro de você”.
LA 02/007
É isso aí, minha nega.
Nada como o amor
quentinho,
crocante —
servido fumegando.
O mais...
não liga não,
é pão amanhecido
com água.
LA 02/007
Forquilha tem que ser ajeitada,
senão machuca o pé.
Quem já chupou jabuticaba sabe.
LA 02/007
Era tão sério,
que fazia os tolos rirem.
Tolos?!
Sim: perdiam seu tempo rindo —
que é uma maneira
de aplaudir do avesso.
LA 02/007
Por vezes somos tão egoístas
que nos sentimos um monte
( de merda não ): um Everest.
Mas logo vamos murchando,
vem a outra parte: um abismo
em que nos despenhamos
lá por dentro de nós.
Sim, o ego faz flutuar,
mas também é martelo.
LA 02/007
Ela amava os versos do poeta.
O diabo é que queria
tê-los em casa
juntos com ele.
Queria lê-los
enquanto o poeta a lesse.
Resultado: foi sarau
aqui,
sarau ali —
a dar com pau.
LA 02/007
Quando o padeiro vinha
com sua buzina crocante,
dourada,
quentinha —
Rosinha esperava por ele
( que entrava esguio como um corisco )
já com o café fumegante,
enquanto a sua irmã,
junto à Kombi,
atendia bem devagar
à freguesia em longa fila.
LA 02/007
Só pagamos impostos
porque são impostos.
E as taxas?!
As taxas nos machucam
como se fossem tachas.
Ai, dos descalços!
LA 02/007
Há os que pagam o pato.
Outros o pato e o vinho,
mas repartem o motel.
LA 02/007
Conforme o meio
paga-se o pathos
sem pena.
LA 02/007
Remédio para cornitude
é riso e humor.
E, claro, não levá-la mais a sério
é a doce,
pacífica,
adorável vingança.
LA 02/007
Mulher ( normal ) que se preza
dá bronca.
Dá resposta à altura.
Dá satisfação
ou satisfações.
Dá beliscão.
Dá pontapé.
Dá alegria.
Dá bode.
Dá briga.
Dá mordidas.
Dá força.
Dá porrada.
Dá beijinhos.
Dá espetáculo.
Dá dó.
Dá medo.
Dá bola.
Dá prazer.
Dá o que sonhar.
Dá carinho.
Dá crédito.
Dá amasso.
Dá chamego.
Dá exemplo.
Dá de beber.
Dá de comer.
Dá de mamar.
Dá chance.
Dá barraco.
Dá âmimo.
Dá tristeza.
Dá tragédia.
Dá o que pensar.
Dá bolo.
Dá o que fazer.
Dá testemunho.
Dá com gosto.
Dá motivos.
Dá nó.
Dá castigo.
Dá cadeia.
Dá trabalho.
Dá a entender.
Dá demão.
Dá desfalque.
Dá show.
Dá o que falar.
E, finalmente,
( o que você estava esperando ):
dá e dá e dá que dá...
Sim, sobretudo, —
dá a boceta.
LA 02/007
No dia dos namorados,
mandou à sua ex
uma carta malcriada
com a foto de uma enorme mão
com o dedo do meio erguido....
e a coroa de um abacaxi.
A irmã da ofendida
( campeã de karatê diversas vezes )
foi visitá-lo...
Dali a meia hora
o médico de plantão
teve de operá-lo
para extrair-lhe lá debaixo
a tal coroa
de abacaxi
mais um sapato
de bico muito fino.
LA 02/007
Fez regime,
emagreceu.
Mas a balança
continuou
marcando o peso antigo.
Chamaram o jesuíta,
o tal de parapsicólogo,
que, num zupt!,
deu na cabeça do mistério
( com seu sotaque charmoso
da língua de Calderón dela Barca ):
“El peso de la consciencia!”
Falou e disse. E ponto,
ponto final.
Aí, alguém da platéia,
mais sensato,
pediu que pesassem
separadamente
o indivíduo
e a cadeira-de-rodas.
Fim do mistério:
haviam colocado chumbo
no fundo da cadeira.
LA 02/007
A mulher queria cortar
o pingolim do marido.
— Coitado, Eulália! Coitado!
Mas por que, minha amiga?
Juras que não mais te apetece?...
— Não é isso não, Hortênsia,
é que o safado
tem trabalhado demais pra fora.
— Mas só por isso, Eulália?!
— Não, Hortênsia,
o problema é econômico —
Joãozinho gasta mais da metade do que ganha
com suas fungadas avulsas.
— Ah, bom! Ah, bom, Eulália!
Isto é mesmo muito grave
e contra o PIB —
concordo:
é investimento delinqüente
mexer em xotas alienígenas.
Mas daí para cortar, minha amiga,
isso não!
Dá um nó, beliscões,
joelhaços, mordidas,
remédios pra derrubar...
mas cortar, Eulália, isso não!
Aliás, vamos e venhamos —
cá pra nós e bem baixinho:
não é esse o nosso bem maior?
LA 02/007
Democracia
é como o amor —
uma bosta.
Mas a melhor que há.
LA 02/007
André nunca foi dado a conjunções carnais
fora do tálamo.
Mas sua prima ( convenhamos! )
é ( muito mal comparando )
duas colunas de um éden
que Adão nenhum deixaria
para a terra comer.
LA 02/007
Na mocidade
achamos eternos nossos sonhos
e os vivemos como se fossem:
muita paixão em tudo o que empreendemos,
principalmente no amor.
Um sentimento de podermos tudo.
E isso nos faz realmente fortes
e invencíveis ( secretamente lá em nós ).
Sim, sonhamos, ousamos, realizamos.
Fazemos das dificuldades
maneiras de nos suplantarmos.
Estamos em busca daquilo que nos falta...
claro que não vamos achá-lo nunca,
pois que a nossa falta é falta de ser.
A vida no-lo vai mostrar mais tarde...
Isto é, se trabalharmos muito ( em nós ) para isso.
De sorte que a mocidade
é o fruto que comemos na madureza
da nossa vida.
LA 02/007
Quando se viram,
foi aquela fusão.
E a partir daí
não fizeram mais nada —
só amor.
Chamaram padre,
pastor,
espírita,
xamã,
feiticeiro,
bruxa...
Não adiantou —
só faziam amor.
Fizeram novena,
procissão,
jejum,
ofertas,
promessas...
Não adiantou —
só faziam amor.
Aplicaram-lhes duchas:
frias,
geladas,
quentes...
Não adiantou —
só faziam amor.
Chamaram bispos,
exorcistas,
pais-de-santo,
ateus,
parapsicólogos,
bruxos...
Não adiantou —
só faziam amor.
Foram buscar suas mães,
seus pais,
seus irmãos,
seus primos,
seus amigos...
Não adiantou –
só faziam amor.
Chamaram o papa.
Papa não veio.
Chamaram o Dalai Lama.
Dalai não veio.
Chamaram 007,
e o cara: nem te ligo.
Chamaram Madona,
que também não veio não.
Mas aí ( pasmem! ), aí sim,
adiantou —
pararam de fazer amor.
Perguntados por que desta vez pararam,
responderam que o desprezo é muito duro —
por isso o amor acabou.
E como eram cientistas
conseguiram sintetizar
pílulas de desprezo —
para os que aspiram à castidade
e aos sexistas compulsivos.
O que lhes rendeu
o Nobel de antidependência
do vício de furibundezas,
isto é, de compulsão furibunda.
LA 02/007
O melhor do amor
é a sua febre.
Quando esta passa
toma-se um belo banho
e sai-se em busca de ar fresco.
LA 02/007
O melhor da mulher
é ser mulher.
Quando perde esse dom —
só praticando rapel.
LA 02/007
Aquelas inglesas sardentas
são muito boas de escalar...
O mais difícil é descer.
LA 02/007
Conheci uma espanhola
que no meio da função
estalava a castanhola
e gemia uma canção.
LA 02/007
Sim: as feias que nos desculpem,
ou saibam compensar —
as que são feias de frente
que sejam belas por trás.
LA 02/007
Mais uma vez carnaval.
Um luxo,
que explode em luxos.
Uma só massa
( de consciência? )
que se masturba
devagarinho,
devagarinho
esticando, esticando orgasmos
LA 02/007
Mais uma vez carnaval.
A carne floresce e canta
e cobre-se do pólen
de feminezas.
A carne canta.
LA 02/007
Opiniões,
que nem pinhões —
você os cozinha e come
e logo mais descome.
LA 02/007
Religiões,
que nem mamões —
você os descasca e come
e logo mais descome.
E assim vai
de fome em fome.
LA 02/007
Noites de gala
e galação —
se bem que não é só isso
o carnaval, mas também:
noites de gala
e galação.
LA 02/007
A mulher é aquela parte
do gênero humano
que deixa os homens atontados
e as mulheres espantadas.
LA 02/007
O amor encanta,
ataranta
e acalanta.
Depois espanta.
LA 02/007
Quarta-feira de cinzas
às 12h30
o Brasil pára 10 minutos —
lembrando o assassinato
hediondo-pavoroso
do menino
Hélio Fernandes Vieites.
..........................................
Não, o País não parou.
Faltou quorum.
Não valeu a intenção.
LA 19/02/007
Bendito o amor
que quase não existe,
mas mesmo não existindo
se torna a melhor parte
do que não temos.
LA 02/007
O carnaval brasileiro
é uma loucura
de criatividade
e beleza.
É a primeira coisa séria
que temos,
a segunda é o futebol.
LA 02/007
Juliana Paes no sambódromo
estremeceu geral —
entre plumas em que predominava
o azul,
ao vergar-se até embaixo,
ante os jurados,
descobre a retaguarda... isto é, abençoa
para sempre
( enquanto houver retinas e memórias )
os olhos masculinos
com seus cósmicos pígios.
Sim: valeu a pena ter olhos.
LA 02/007
Sabe-se de sobejo
porque as mulheres se detestam.
Só não se sabe
por que é que também não gostam dos homens.
LA 02/007
Você diz que é filho
de não sei quem
e que sofreu bastante,
foi humilhado
e fubecado.
Eu também, meu caro,
sou filho de não sei quem,
sofri bastante,
fui humilhado
e fubecado.
Não seria sensato
( e saudável ), meu caro,
deixarmos pra lá
o que não prestou,
vencermos o ressentimento
e construirmos uma outra história?
É só o que nos resta, cara.
O mais é doença sem vacina —
papo de egos leprosos
lá nas cavernas da rejeição.
LA 02/007
Que pena!
O decote já não existe.
Está na raça humana
o prazer de predizer.
LA 02/007
Saudade dos tempos
que a mulherada
deixava adivinhar!
LA 02/007
Eu tive a felicidade
de ser feliz
dentro da infelicidade —
de ter sido um moleque
com o coração valente.
Sou forte
porque fui um menino forte.
E isso é graça.
E essa graça me basta.
LA 02/007
Hoje é o que temos, minha nega.
Ontem é banana podre,
amanhã banana verde.
Hoje é o tempo maduro.
LA 02/007
Confia em Deus, minha amiga.
Confia em ti.
Trabalha e estuda.
Sê paciente contigo.
Saboreia o teu hoje.
O mais
escorre como a chuva
pelas calhas dos teus dias.
LA 02/007
Se a nossa infância e juventude
fossem tratadas com o mesmo empenho
com que tratam o nosso carnaval,
certamente nossa terra
seria tão respeitável quanto feliz.
LA 02/007
Aprendemos muito tarde.
Mas isso é bom —
não temos tempo
para desforras.
LA 02/007
Precisamos sincronizar
nossa vida exterior
com a interior ligada
ao Espírito de Deus,
aí vemos que Ele nos é
e que as nossas passadas
têm o endereço da empatia
com o que é bom para todos.
LA 02/007
Logo logo, minha nega,
havemos de fazer amor
só de pensar em fazermos amor.
Claro que isso também
chamarão de adultério,
mas ninguém mais
se sentirá corno/a.
E o coito será tão antigo
como andar a pé.
LA 02/007
Não, o mundo não pára.
Que me perdoem os egoístas,
e os amantes —
o mundo conta a nossa história
e continua
dando as suas muitas voltas.
LA 02/007
O possível
e o virtual
é o nosso novo mundo.
Outros ângulos de ver
geram o ver-em-revisões —
a transformação do entendimento
pelo não nos conformarmos
com a realidade,
mas com o nosso sonhá-la sempre outra:
o ver-intuir em mutações.
LA 02/007
As delícias do social
são sempre proporcionais
ao nosso compará-las
com nossa solidão.
O que inventamos
entre e como pessoas
nos dá a bela sensação
de que somos felizes —
não importa se deveras o somos
ou não.
Se entre mim e o outro
os desvãos se preenchem,
isso é mais que bastante
para saborear o que nos falta.
O melhor das coisas
é o seu ser possível
ao menos enquanto sonho.
LA 02/007
Era magra, tão magra,
que na primeira noite
o marido nem a viu.
Na segunda, já a percebeu...
Na terceira, conseguiu.
Sim, o gajo a rachou ao meio.
LA 02/007
O bom dos nossos inimigos
é que eles não se revelam,
assim nem sabemos que os temos.
LA 02/007
O bom do desamor
é que ele já foi amor
e, lá no fundo,
continua à disposição.
LA 02/007
Tony Blair retirou hoje
parte de suas tropas do Iraque.
O homem da terra de Jack, o Estripador,
já viu que não tem tanta tripa assim
para ensacar tanta lingüiça
com carne inglesa.
Os invasores ( faz tempo ) vêem
que sua guerra
tem a culatra de vidro.
LA 21/02/007
Cada parafuso
com sua porca,
cada porca
no seu chiqueiro.
LA 02/007
Nada como um dia atrás do outro:
assim vão fazendo troca-troca
à luz do sol e das estrelas.
Quanto aos da extremidade
que não desanimem —
terão o seu quinhão
quando a ciranda se fechar.
LA 02/007
O amor é hoje insumo
irrelevante.
Nós, os bípedes implumes,
finalmente aprendemos
que o sexo é bem melhor.
LA 02/007
Quando o carnaval
“acaba”,
temos os infinitos
do futebol —
assim continuamos a ser sérios.
LA 02/007
Agora temos santo,
prata da casa —
Frei Galvão. Alguém que entenda
nossos tiques e chiliques.
Assim o brasileiro
pode pedir que seja campeã
sua escola de samba
ou campeão
o time por que torce
ou que vá pro paredão
do Big Brother Brasil
essa ou aquela pessoa.
Eta, nóis! que agora temos
até santo de casa
para sérios pedidos.
LA 02/007
Aqui, abaixo do Equador,
o tempo é um sorriso zen.
Aqui,
ninguém se preocupa
com Saúde,
Educação
nem Previdência.
Aqui, abaixo do Equador,
o tempo
coça o saco e boceja.
LA 02/007
Os dois enfeites da vida —
me diz Habib
com seu riso tilintante —
são os filhos e o dinheiro.
LA 02/007
O tesão do homem cai
quando há uma inflação
de peitos e de bundas.
LA 02/007
Se a mulher não deixa um pouco
pra adivinhar,
tudo o que mostra
a gente já sabia,
isto é: tem um sabor de tédio.
LA 02/007
Quando menino, me lembro
que André, também menino,
queria que eu o ajudasse
a dar um pau no Papai Noel...
Sim, uma sova no “bom velhinho”
( de cabo de vassoura )
por não nos dar coisa alguma
ao passo que outras crianças
exibiam presentes do gorducho
no dia vinte e cinco
do último mês do ano.
Quando crescemos
lembramos várias vezes
daquele nosso plano...
E ríamos, ríamos bastante —
não daqueles dois meninos,
mas da sociedade humana.
LA 02/007
Ou desentortas os teus grilos,
ou eles continuarão te espetando
dentro da tua noite.
Há pessoas
que não amanhecem nunca,
isto é, nem sabem que a manhã existe.
LA 02/007
Bem-te-vi cantou-dedou,
dedou-cantou,
esgoelou,
mas foi rebate falso —
não tinha visto nada não.
LA 02/007
O tempo
tem suas extremidades.
Quem se apressa come cru,
quem demora come azedo.
LA 02/007
A vida é uma pitanga,
senão passada,
passando.
Por isso mesmo
deve ter um sentido urgente.
LA 02/007
Perdoa ( agora ) a ti mesmo
e aos teus inimigos.
Perdoa agora, que depois
já não tens lábios nem língua.
LA 02/007
Aproveita a coceira.
E coça coça coça coça coça...
Depois do comichão,
aí então te lembras
de teres te coçado —
saboreando de memória.
LA 02/007
Goza o teu dia
do jeito que puderes.
Não precisas ter dinheiro,
nem status,
nem muitas bobagens
para gozar o teu dia.
Goza-o pelo gozo
de estar vivendo
e poder rir,
poder chorar —
poder dizer “oi!”
ao que passa,
abençoar
e lapidar os teus momentos.
LA 02/007
Dá graças pela graça
de poderes
ser um cachorro vivo
ao lado
de tantos leões mortos.
LA 02/007
Dá graças por não teres
a não ser o suficiente.
Senão serias
mais um milionário bobo —
desses que pagam
trinta milhões de dólares
pra ficarem uns minutos
em órbita
para terem depois o que contar
aos mamíferos de luxo
pelos salões do mundo.
LA 02/007
Dá graças por haver a Graça,
e faz de tudo pra viver
sob as suas enormes asas.
LA 02/007
A melhor pele é a nossa.
Se invejamos
é só por não saber
que somos bobos
por gastar esse tempo
com coisas que igualmente
não prestam.
LA 02/007
Muitas vezes queremos
o tal do reconhecimento.
Aí então está na hora
de assentarmos de frente
com a nossa pessoa
e lhe dizer umas verdades...
Mais ou menos assim:
Escuta aqui, seu olhif ad atup,
ajev es arudam!
LA 02/007
Vaidades e vaidades,
só vaidades.
Mas o que há melhor que elas?
LA 02/007
Mulheres e mulheres.
Que perigo vale mais a pena?
Que delícia contém mais calorias?
LA 02/007
Hoje acordei tranqüilo
como um bicho
que não sabe que vai morrer.
LA 02/007
Os tempos estão maduros.
Não é preciso nem ventos
pra derrubá-los.
LA 03/007
A arrecadação tributária
atinge em 2006
38,8% do PIB —
com os barbacenas
Tiradentes nenhum pode.
LA 03/007
Ela cobrava em dólar,
mas era compreensiva —
fazia fiado.
LA 03/007
Já Marilda,
que era mais cara,
fazia em duas,
até em três vezes.
LA 03/007
O padre a visitava
quando o marido não estava.
O cara era evangélico.
LA 03/007
Depois da tempestade, Noé,
vem o enxurro.
Por isso, homem de Deus,
quem não tem arca
sifu
ou vai pra ilha Buubu.
LA 03/007
Pois é.
Às vezes nem é,
mas nem por isso
a gente deixa de correr
de fantasmas que não são.
LA 03/007
Pois é, seu Mané,
é sempre muito favo
pra pouco mé.
LA 03/007
Gosto muito de ler
filosofia zen —
sempre aquele sorriso
que diz exatamente
o que cada um de nós
quer ouvir.
LA 03/007
Tudo o que não tem sentido
é muito lindo,
tanto é que logo procuramos
lhe arranjar um.
LA 03/007
André sempre me dizia:
Admire as belas,
mas case com uma feia
ajeitada.
LA 03/007
De fato,
se é belo o que tens,
hão de querer roubá-lo
ou enchê-lo de porra.
LA 03/007
Era tão ajeitadinha
que a natureza
já a fizera
com um travesseirinho
atrás.
LA 03/007
O padre estava tão cheio
de vê-la assim tão safadinha
e ao mesmo tempo apavorada
com a labaredas do inferno,
que sempre a tranqüilizava:
Não precisas vir todo dia, Ofélia.
Deixa ajuntar um bom punhado
e de dez em dez dias tu me vens,
me dizes quantas...
e te absolvo.
LA 03/007