Após As Pétalas...

O verme, Rosa, não sabe
da
nossa origem divina,
e
nos come,
come-nos sem mesuras nem talheres.
As
estrelas que olharam para nossos pais
só
nos viram a nós...
As
que nos vêem
por certo já têm olhos de outra cor.
Quem se esqueceu de ser feliz
(
construir sua ôntica autonomia:
não ser bobo de ninguém )
perdeu o trem e as botas,
e
se viu sobre um chão que não era de pétalas...
Quem deixou para depois
viu que entre o “de” e o “pois”
só
há um espaço virtual —
como aquele
de
quem foi pra Portugal
e
perdeu o lugar...
Mas, mas...
Mas não faz mal...
Ou
faz?
Sei não. Depende
da
digestão do domingo
de
quem faz o sermão
já
na segunda-feira...
Só
um consolo, Rosa:
após a pétalas,
os
espinhos
ficam muito sem graça —
tornam-se vilões solitários...
LA
07/003
Geléia De Amora
Quando aprendermos a ser honestos
junto àqueles com quem coabitamos,
aí
então, quem sabe, até podemos
ser, se não felizes,
ao
menos aprendizes.
Nesse atual ( e geral )
estado de malandragem —
é
cada um prum lado
e
o Diabo em todos
e
para todos.
É
engraçado,
bonito mesmo, veja:
parece até que o mundo
virou um Concurso
de
safadeza.
Uma reciprocofagia.
Sim: um comerem-se uns aos outros:
Você bobeou,
vem o cara ou a cara
(
com pingolim ou xoxeda ) —
e
ó!... Te suja o sonho
com geléia de amora.
LA
07/003
Sim, É Preciso...
É
preciso saber
que o Amor está sempre à porta:
“Eis que estou à porta... e bato...”
Deus o deixou penteadinho,
limpo-limpinho,
feliz da vida
e
vestido de luz —
bem ao lado
de
toda criatura.
Nós podemos não vê-lo,
como não vemos a história da vida
bem escrita nos átomos da luz —
mas ela está aqui, ali, além:
bem juntinho do amor —
a
sua mais antiga testemunha.
Entre os fractais da neve
com sua geometria
multiversal —
lá
está ele:
com seu jeito de primavera,
nidificando sonhos
com as fibras e frouxéis
de
seus gorjeios.
Sim, é preciso saber
que o Amor perpassa,
plenifica e transborda
a
criação:
é
o oxigênio das delícias de ser.
Está em tudo, mas não invade —
o
Amor está sempre à porta...
Só
entra, se convidado.
Convidado, tinge de céu
as
paredes da vida: transformando-as
nas cores e sons que geometrizam
o
sonho de Deuspai —
única fonte e realização.
Convidado, entra e ceia conosco...
e
seu vinho
se
transforma em mais consciência —
a
vida renascida mais.
LA 07/003
Celinha Filipini-CD
Teclas dedilhadas
entre a realidade e o sonho —
frutos maduros ( em alma ),
pingos de estrelas
inseminando chãos,
prenhando escuros
de
uma luz niquelada
aqui,
dourada ali,
irial no aquém-além...
Sim: mãos que transubstanciam
pobres metais em ouro,
o
escuro em luzes
e
faz a argila constelar-se...
(
O universo se recria
pelas portas dos fundos
de
haver quem o reconstrói:
de
haver os que nunca enterraram
os
seus talentos...
No
que fazemos
está nossa falta de ser.
Deus nos fez o mínimo possível
[diz o conto]
para que nos recriemos o máximo
que pudermos.)
Notas multiversais
de
um real em fractais —
no
sonho sempre-mais
de
horas sedas hiemais-vernais
de
nuncas eternizados
por um fazer-recriar
de
mãos que sabem
torná-los sempres...
num universo que é amar
entre os desvãos de sonhos inconhos...
e
sombraluz ( ferida? ) no glamour
de
( haver ) quem afaga ( entre os próprios dedos )
a
beleza-bailarina
na
força de transcender-se,
na
graça de ultrapassar-se a si mesma
lá
entre o branco e o negro
de
eterna recriação...
O
ser em degraus de ser-se.
Um
recontar universos
em
falas-sons
de
um jeito-brilho:
estrela que se faz amar
na
aura-sonho de mãos
a
retecer a vida
enquanto Ulisses ( em nós ) empreende o nostos —
sua volta
(
por planos e degraus em nós mesmos ),
sua volta
entre humano e sobre-humano.
Estrela que se faz amar
a
percutir notas-galáxicas
no
dom de personar acalantos florais
e
transmutar rudes metais
em
ouro-luz de sensações
ecoando em emoções e sentimentos...
............................................................................................
Estrela que se faz amar
revelando a criatura,
feita, sim, de barro —
mas de um barro constelado:
superando-se no que faz
porque inseminada de infinito.
Dedos que sopram
entre o real e o sonho
almas no material... almas
que lhes passeiam entre o branco e o negro...
enquanto ganham
corpos de luz.
LA
08/003
Musse De Amora
—
Pois é, amorzão,
na falta de amor,
a gente saboreia
musse de amora.
E adora.
Pior é lamber a seco
como vaca
buscando sal
em cocho que não tem.
— Também acho, meu André:
pior que nada
é tudo que já não serve.
08/003
Moinho
A
realidade,
quando menor que o sonho,
vira bicho raivoso.
O
amor,
se
menor que o desamor,
morre de frio e fome.
Melhor que o sonho
é
a realidade
construída por ele.
Pior que o desamor
só
a vontade de amar
que se percebe sem corpo...
O
tempo é a dinâmica
que filtra a realidade
até o bagaço —
que enfim deixa de ser laço
do
que criou —
e
se desfaz em sonho.
Sim:
um
sonho sempre dentro de outro sonho,
puxando um real após outro real:
reais-realidades —
segundo a sua imagem-semelhança
(
do sonho, pois sim? ),
do
sonho a ontoviajar-se
por veredas de ser.
08/003
Manacá
Quando ela passa
meu corpo e alma
viram um pé de manacá:
todo olhos —
vidrados e sem piscar.
Um
manacá que se finge
possuído pelo vento
e
estica seus braços em flor
para enlaçá-la...
Como não pode,
finge também que é o vento
que lhe derruba lágrimas
bran
cas
bran
cas
s s s s s s s s s s s s
azuis
azuis
sssssssssssssssssss
para ao menos segui-la
com suas pétalas s s s s s s s s s s s s...
agora, sim,
pastoreadas pelo vento
08/003
Prosa E Reverso
Te cantarei em prosa e no reverso
lá
do quadrado da hipotenusa
de
haver luas a andar sem saia e blusa
lá
pelas vinhas de um sonhar submerso...
Submerso nesse ardor que não recusa
o
amor a crepitar em glosa e verso
no
tapete voador desse disperso
viajar em alma que, hoje, pouco se usa...
Te
cantarei o charme despenteado,
se
não no Horto, à beira do Espraiado,
nesse agosto que ulula com os ventos.
Te
cantarei o impávido chulé
que mesmo de sandália ( em sonhamentos )
me
excita espirros como bom rapé.
LA
08/003
Versão Falsa
Quando nos julgam,
fazem, não raro, uma versão
mais triste sobre nós.
Em
geral, as pessoas supõem
saber
quem somos.
E
com uma simplicidade tola
de
quem faz contas
de
mais e de menos —
vão dizendo quem somos:
Que nos conhecem
e
conhecem o que fazemos,
num tom olímpico
de
quem quer ser os nossos deuses...
Certa vez, um escritor bem conhecido,
já
tinha publicado punhados
de
seus infanto-juvenis,
adentrou uma das classes
(
em que eu finalizava uma aula )
para falar com os jovens de sua obra.
Ao
me ver, gastou os pós e cremes
de
seu costume, e apontou-me
para toda a classe, dizendo:
“Este é o grande Fulano!
Não menos maravilhoso
professor que escritor.
Conheço a sua
poesia...”
Entreguei-lhe a classe,
pedi licença, e saí.
Saí pensando:
“Diabos, capetas e assemelhados,
como é que ele conhece
a
minha poesia, se publiquei
um
infinitésimo dela —
e
nunca lhe mostrei a ele ( são inéditos! )
nem a ninguém
o
seu núcleo, os seus arquétipos?”
Com aquela frase falsa,
o
tal escritor
acabara de criar uma versão falsa
do
meu trabalho sério, longo
e
silencioso e solitário.
Sim: muito triste quando alguém supõe
conhecer a nós e o que fazemos.
Uma baita leviandade,
gerando um baita de um mal-estar.
LA 08/003
Conexões
Quando ver é uma porta
para algo mais,
então nos embriagamos
com essa conexão maior.
Ao
perder o caminho,
o
caminhante encontra
outras coisas.
Pode haver um ganho
em
toda perda —
ou
no vice-versa disso.
O
pão que o diabo amassou,
quando não se tem outro padeiro,
pode ser o melhor dos pães.
Sim: uma fome dos diabos
acaba levando a Deus.
Nosso mal
é
pensarmos que o bem
só
tem uma face.
Quando ver é uma porta
para algo mais,
depressa percebemos
que estamos a cavar na luz —
e
luz é ver,
principalmente quando parte
de
dentro para fora...
Sim, luz é conexões
no
momento em que sabemos
que nós é que somos
essas tais relações —
capazes de recriar
realidades
com olhos de ver.
LA
08/003
Um Sempre-Quase
Os
deuses, Musa, têm ciúmes.
Não diga a sua poesia
a
não ser em tom de silêncio:
que só o humano possa ouvir.
Porque a vida, minha Amiga,
não é nada —
nada que não seja tudo.
Deixemos que as abelhas
toquem seus violinos
em
torno às flores alvamente cheirosas
das laranjeiras —
mais nada,
mais nada a nos lembrar de tudo.
Os
ventos sejam o rumo
de
tudo
em
nosso sonho quase nada.
A
vida? Um tudo-nada:
um
sempre-quase.
Viver?
Viver nem seja preciso
quando a vida é bem mais
que momentos de usura.
LA
08/003
Difícil
Por vezes é bem difícil
funcionar neste mundo.
Querem que você não seja quem é,
melhor: querem que você seja igual —
igualzinho ao que renderia a quem
lhe deseja essa igualdade.
Sim, desejam-no diferente
e
igual aos que reivindicam
tal diferença.
.................................................................................
Ah! Este mundo é tão engraçado
como papagaio tentando galar franga
no
quintal,
pois que, aliás, depois se vê:
não se tratava de franga —
mas de frango já nas primeiras escaladas...
e
que acaba por inverter a situação.
.....................................................................................
Por vezes é bem difícil
funcionar neste mundo
com o combustível
que nos fazem beber.
Com as buchadas de idéias
que nos servem no almoço e janta...
Com os sarapatéis
político-religiosos —
por sobremesa.
Com a pinga com sucupira —
para todos os males,
menos os males do difícil:
difícil de aceitar.
LA
08/003
Nostalgia
Transeuntes,
não mais que transeuntes,
filhos do sopro da existência
e
da ânsia de viver —
eis o que somos, minha Amiga.
Passamos como o vento
e
a relva —
somos um conto recontado por nós mesmos.
Um
conto cujo tema é o agora,
cujo cenário é o aqui:
o
aqui-agora refugindo
pelos poros da vida...
Seu suporte,
sua beleza e verdade
são o momento fluindo por nós dentro.
Passamos como as águas
cantando entre as pedras da ribeira
e
como calha temos nossos dias.
Passamos levando em nossa carne
o
sorriso da rosa
que dói em nós
porque sabemos,
sabemos que vem a tarde.
A
vida é só o que temos,
e
o sonho, a fé, a esperança —
nossos melhores companheiros.
O
amor?
O
amor é a estrada
que passa pelas varandas
daquela Casa
de
que rolamos...
mas trazemos dentro de nós.
Sua lembrança
é
a dor que nos impele
a
empreender o nostos:
a
volta ao Lar.
LA
08/003
Cartesianamente
Com uma chuva dessas,
um
friozinho afrodisíaco,
este vento alcoviteiro
dizendo coisas na veneziana —
sejamos bem razoáveis,
sejamos bem cartesianos,
minha Amiga:
Somos humanos —
logo, adoramos trepar.
LA
08/003
Achas Isto...
O
nada, amada,
não é tão nada —
pois pode ser
o
início de outro tudo.
Logo,
se
entre a gente restou nada,
temos chance,
muita chance —
principalmente no fim do dia
que envelhece criando a noite...
Sim: a noite
incucada de estrelas
e
martelinhos niquelados
dando em nosso desejo sobre a cama —
entre os grilos e a chuva fina,
a
chuva fina e fria
no
lá fora dos ventos
despenteando a noite escura...
Achas isto nada,
amada?!
LA
08/003
A Serviço
Ouça o seu corpo,
aprenda a conversar com ele —
o
seu corpo
tem muito a lhe ensinar:
seu Eu-Profundo aprende dele,
pois ele desce e vem buscar
o
que nos falta —
nossa falta de ser.
Sim, nosso corpo é a sonda
que vem buscar o que nos falta:
descido
aonde nosso Eu-Ente
jamais poderá descer...
Nosso corpo e nosso ego
hão de estar a serviço
do
Rei.
LA
08/003
Não Tão Altas...
Eras as uvas
(
lembras? ),
eu
a raposa.
Verdes maduras
maduras verdes...
Ou: cheirosas, mas verdes...
maduras, mas azedas...
Até que o Diabo do bom senso
apareceu: “Ô cara! Se estão verdes,
faz conserva pra comer com pinga.
Se
maduras: Amassa, homem!
Amassa, come, faz geléia ou vinho.
Mas come, cara,
come de um lado e do outro
do
cacho,
come de qualquer jeito:
verdes, maduras,
encruadas, passando,
ou
passas
e
até passadas...
São uvas, cara!
.......................................................................
Foi então que vi:
não estavam tão altas.
LA
08/003
Antiepitáfio
Quem gosta de terra é minhoca.
Por mim,
eu
não seria bobo
de
estar neste lugar.
Sim: eu lhes juro —
jamais estive aqui.
A
sombra só existe
quando estamos à luz,
quando esta adentramos, não.
Aqui só tem a casca
de
asas que se foram
pouco antes...
Como o trigo
que levaram para o moinho,
como as uvas
cujo sumo já é vinho.
LA
08/003
Ratos Alquímicos
Ratos gostam,
adoram queijo suíço
(
e assemelhados ).
Aliás, queijo curado,
defumado, zelado
por mãos alpinas —
a
tornar as mãos de origem
mais brancas do que a neve...
(
Construíram lactodutos,
lactodutos virtuais:
os
queijeiros recebem o leite e... )
Ratos vistosos,
charmosos, de luxo:
gestos nobres,
trajando finos talhes,
com ares importados
e
mimos cosmopolitas.
Ratos degustadores
da
vida constelada:
regada a conchavos,
conchegos grupais —
reciprocidades
corporativas:
relações liso-versáteis,
engrenagens azeitadas
sustendo o Circo.
A
vida regada,
irrigada,
chovida —
mil e mil regalos:
melhor bebida,
melhor comida,
crocantes fêmeas,
anabolizados machos.
Ratos para sempre ratos —
com genes a cirandar,
a
viajar genealogias
e
a cantar
sua perversa canção...
Ratos que não roem a roupa
do
rei,
mas a de todo o povo.
Nem comem a comida
do
rei,
mas a de toda a gente que trabalha
sob taxas, angústias e impostos...
e
medos e enganos e medos e enganos...
Sim, ratos que gostam,
adoram empilhar
finos queijos em mãos alquímicas...
aquelas cínicas,
tão cínicas quanto eles
que acenam para o povo
esperanças de esperanças
amanhecidas
e
requentadas:
esperanças a lamber,
lamber diuturnamente
suas próprias feridas...
......................................................................
Sim, ratos que não roem roupas:
roem os sonhos das pessoas —
sonhos que eles matam no ninho...
cujo materializar-se
eles pilham-empilham.
Sonhos que se vão tornando
em
frios, frígidos fantasmas
a
rolarem soltos no ar...
Sonhos tornados calafrios...
Sonhos brancos e balofos,
tão brancos e balofos como a neve
que eis... derrete-escorre
como sorvete em mãos de criança...
.......................................................................
O
mais? Nem mais nem menos: aquele
tradicional teatro
de
uma só peça em cartaz
gerações após outras:
Teatro de
Impunidade
LA
09/003
Com Que Direito?
Com que direito, ó mundo,
tu
me comeste o mel,
só
me deixaste os favos
e
me mandaste às favas?
Com que direito?
Sobre a tua plataforma
de
canalhice,
com que direito, ó mundo,
pretendes ser feliz?
LA
09/003
Sempre Nos Dás, Ó Vida...
Sempre nos dás, ó vida, sobre o belo
da
hora, a outra parte de gozá-lo:
bem entre o róseo e o azul, o amarelo —
seu veneno e o desejo de prová-lo...
O
dom oposto tem o seu martelo
na
ingênua permissão de degustá-lo...
A
beleza a cortar-se no cutelo
da
incompletude a oferecer regalo...
Sempre nos dás o belo e a dor nos dedos
de
colhê-lo entre pétalas e espinhos...
Dás-nos a paz e as rendas de seus medos.
Dás-nos o sonho e a louca realidade —
em
generosidades de mesquinhos
dons da mentira a se tornar verdade.
LA
09/003
Endireitando Veredas
Só
depois de sonhado e re-sonhado,
o
real se traveste realizado —
pastoreia, atual e nascituro,
o
passado e o presente com o futuro...
Futuro que é presente em seu avesso,
avesso de um começo-recomeço
que tem lá no passado redivivo
o
sentido de um sonho sensitivo...
E
aí é que se encontram os afluentes
desse tempo que gera delinqüentes
pra devorar seus próprios frágeis filhos...
Dessa roda de tempos só saímos
quando lá por nós mesmos resumimos
num só caminho nossos vários trilhos.
LA
09/003
Poder Do Mito
Para
José de Nazaré
( In mythum )
E
aí, José?
Querem te deletar,
te
botar na lixeira
de
nossos ciberdias?
................................................................
Enfim, ó veros céus! —
o
nosso Nazaré
não foi e é
ou
é o que não foi?
Tinha pasto e tinha boi
o
nosso Foi-não-foi,
ou
só mirrada vaca
de
que ordenhava
alvos mugidos
para molhar o pão dos seus?
E
aí, ó veros céus! —
então não foi
este que agora é
o
nosso Nazaré?
Acaso o mito
é
menos verdadeiro
que quem o narra,
ou
seja: nô-lo planta
no
imaginário —
que regamos e adubamos
gerações após outras?
Se
não foi, —
tarde demais:
pela força
de
negá-lo-afirmá-lo,
acaba de virar mito
o
nosso Nazaré.
Foi!...
Não foi!...
Foi!...
Não foi!...
Foi!...
Não
foi!...
........................................................................................................
Podemos cassar a ave
a
que demos as penas?
Mas como nos livrarmos
da
sombra do seu vôo,
se
agora é nossa alma?
Entre “foi” e “não foi”,
claro que é —
já
virou nós o Nazaré.
PS:
José de Nazaré é, ou teria sido ( daí a controvérsia ) o fundador de Casa
Branca, SP.
LA
09/003
Falta De Ser
Tudo é efêmero.
Mas, quando o efêmero é divino, —
há
de ser sempre eterno.
Divino pela verdade.
Eterno pela beleza.
Sim: o efêmero,
sendo a porção do tempo
que mais amamos, —
é
talvez saudade de nós mesmos
no
que nos há de faltar.
Ah! A nossa falta,
sempre a nossa falta
de
ser.
E
que fazer,
se
o sonho é sempre ser?
LA
09/003
Ratos
Ratos gostam,
adoram queijo suíço.
Aliás: queijo curado
e
zelados por mãos invisíveis.
Ratos de gravata
e
terno cinza.
Ratos degustadores
da
vida constelada:
melhor uísque,
melhor caviar,
crocantes fêmeas.
Ratos que não roem a roupa
do
rei,
mas a de todo o povo.
Nem comem a comida
do
rei,
mas a de toda a gente que trabalha,
sob taxas, angústias e impostos.
Ratos gostam,
adoram (em)pilhar queijos
na
Suíça.
Sim, ratos não mais
roem roupas:
roem os sonhos das pessoas —
sonhos que eles pilham
e
empilham na nívea terra
que engole o sonho
do
povo que trabalha
e
espera.
LA
09/003
A Não Ser...
Você pegando a realidade
a
unha
com a esperança de férias
e
a fé jogando boliche
lá
onde amor é o anfitrião —
arrotando cerveja
e
tomando alvos glóbulos
para abrandar a depressão —
você então que mais quer,
senão não querer nada disso?
Que mais quer
a
não ser nada
que seja realmente nada?
LA
09/003
Só No Desamor
Amor? Só no tatame.
Arranja um cão que te ame,
e
dá graças a Deus —
já
que entre os teus
é
só porrada
e
mágoa represada.
Amor? Só no desamor.
O
mais...
Quem é que falou que tem mais?
LA
09/003
Bem Fumegante
Tá tenso? Vá visitar
os
jardins suspensos
da
Babi.
E
aproveite —
frite uns bolinhos com ela,
e
saboreie-os
com cafezinho fresco,
bem fumegante.
Depois? Depois você vê
se
o mar está pra peixe...
LA
09/003
Angústia
A angústia
dá
sentido e rumo.
Sentido para quem vem do dia
ter como fim a noite
e
a noite ter como fim
a
luz.
A
angústia
é
como a sombra
e
a luz —
uma precisa da outra
para ver que a vida
são as duas.
A
angústia
é
sempre as vésperas
de
nos livrarmos dela.
Não nos enganemos
pensando um dia
ficar sem ela.
A
angústia é um modo
de
pensar que sabemos
porque a vida nos bate tanto.
LA
09/003
Livre
Um
dia lhe telefonou:
Estou muito doente,
preciso de sua mão.
Dela ouviu:
Procura um médico!...
.............................................
Então peça ( lhe disse ) que me venha
a
minha filha...
Dela ouviu:
Você não tem filha,
os
loucos não têm ninguém.
Descobriu ( por si mesmo )
que era só,
que o homem é só —
mas não tão só
que não possa enfeixar suas forças
e
somar-se ao momento —
somar-se maior
que o desamor dos outros...
e,
assim, ousar —
ousar não precisar
a
não ser de nada:
e,
nada tendo, estar completo,
completo de não desejar —
livre do mundo,
das pessoas,
de
si.
LA
09/003
E Sei Por Quê!
Maior que as anotações de Freud,
maior que todas as análises,
maior do que os sapatos do arlequim —
sempre foi, minha Rosa,
(
e sei por quê! )
meu amor por você.
O
que sentimos a dois, minha Rosa,
é
bem maior que todas as tolices
que os donos das ciências
têm balbuciado aos pobres ventos...
Nosso Espraiado, Rosa,
tem a música das esferas.
Tem cantos, brisas, gorjeios
e
os ventos frescos e amigos
que tangem liras, violinos
lá
no por dentro em nós...
O
nosso sonho, Rosa,
tem a magia das coisas que não morrem nunca:
igual àquelas plantas
que vicejam entre as pedras
à
espera da primavera
para explodir em flores e cores.
LA
09/003
Tarde-Noite No Pinheiral
Tarde mulata, ardendo em primavera,
desenha rendas sob a ramaria...
O
pinho vai goteando a sua cera
sobre a alfombra amarela e bem macia.
Um
bem-te-vi, ao longe, pia e espera...
Repica o pio e canta, e outra vez pia...
Longe, um pio de angústia reverbera
na
luz que migra no findar do dia...
No
céu, sem mancha, a noite é toda olhos...
Pelos pinhos, o vento, entre refolhos,
sopra bem morno e roda os seus piões...
E
todo o pinheiral prepara o tom...
murmurando, ondulando em orações —
eternamente entoando os tons do On-On-On-On-On-On...
LA
09/003
As Tranças Não...
Quem sabe se eu viesse com o vento,
não pegasses carona em eu querer-te...
e
iríamos num vôo que se converte
em
luz pela beleza do momento...
Quem sabe no momento de saber-te
a
outra parte em mim de um bom intento,
não visses com o próprio sentimento
que é tola dor esse virtual de ter-te...
Desse momento em diante, me abririas
a
janela do quarto... e jogarias,
as
tranças não, a senha a teu porteiro:
“Deixe mais um entrar, não tenha medo,
mande-o esperar ( sentado ), caro Alfredo, —
pois este é meu marido, e bom banqueiro.”
LA
09/003
Fast Food love
Um
amor pós-moderno e bom de amar:
um
relacionamento fast food...
Nada de telefone ou outro grude
que lhe deslustre o brilho de fungar.
Amor alternativo a transonhar
o
sonhado que quase desilude...
Amor a prenunciar a desvirtude
de
uma virtude que eis... recobra o ar...
Vertical riso a aureolar bilau...
Pés bem no chão: “bichô, bichô; pau, pau”.
Engolido com o fogo do flambado.
Amor sem nenhum tempo de ser lido...
Bebido antes de desarrolhado...
Tão-já comido quanto descomido...
LA
09/003
Rugindo
Se
as Veras
não forem veras,
nem verões,
ou
ao menos sinceras
(
ah, quem nos dera! ),
a
gente então espera,
em
tardes-solidões...
Sim: espera
pelas primas
(
nem sempre veras )
em
meio às heras
dos casarões.
Em
meio às heras
(
sozinhidões )
dos casarões
que nem são mais:
senão quimeras
em
tons jamais,
sonhos florais
de
primas
veras
(
e até sinceras ),
lá
nos porões
de
lembrá-las:
rugindo como feras...
LA
09/003
Façamos!
Após tantos purês,
ainda nos toca
virar batatas.
Mas antes, meu amigo,
(
e amiga, sim: e amiga ) —
antes que tal fenômeno se dê,
a
gente faça chover muito!
Ah! Muitas, muitas chuvas:
brancas, negras e mulatas —
com respingos apaches
e
temporais da China...
Sim, muitas, muitas chuvas
com o prensar de muitas uvas.
Tantos purês
e
batatadas,
pra virarmos tubérculos!
Pasmos e sujos,
cobertos de chocolate...
com um sorriso sem graça,
de
pedra.
Sim, façamos,
façamos todos:
e
façamos com charme!
Só
depois,
viremos batatas.
LA
09/003
Até Que Um Dia...
Ele? Vidrado sempre.
Ela não. Só o amava ( amava? )
de
viés...
Isto é: entre a pipoca, o milho
e
o cheiro de pamonha...
...............................................................
Ele queria
(
queria sempre ),
ela fazia doce,
em
casa,
e
salgados para fora.
E
assim...
Assim foi e refoi,
sem que ninguém soubesse
se
o berro
(
sim: berro...
Depois te conto... )
era de bode ou boi...
.........................................................................
E
assim foi ( eu dizia )
e
refoi,
até que um dia (!)
ele abriu bem o olho, e viu!...
..........................................................................
Viu o que mesmo?
Viu que estava velho.
LA
09/003
Depois De Depois
Lista comprida,
a
das nossas frustrações
cá
no país da esperança.
Da
esperança que aprendeu
a
lamber nossas feridas
e
a adiar para amanhã.
Esperança que sabe
ser heroína sem nenhum caráter...
Esperança amanhecida —
pão de ontem: duro de roer.
Sim: esperança de esperanças —
sempre para amanhã
e
depois de amanhã,
melhor: para depois de depois...
num círculo de mesmices
e
semprices
de
empedrada eternidade.
Esperança padejada
com o fermento do cinismo —
e
passada ( crocante, bem quentinha )
às
mãos de santa Ingenuidade
que a vai molhando na caneca
das mentiras mecanicamente ordenhadas...
Que a vai molhando nos mugidos
da
antemanhã
para amanhã e depois... Sim: sempre
na
roda dos amanhãs,
nas cavilosidades do futuro...
Esperança clonada
para lamber as feridas
de
nossa vida esperançada.
LA
10/003
Manhã Chorona
Veja,
se
você telefonasse,
eu
abriria um túnel no vento
e,
com a chuva na face,
eu
chegava num momento
(
com um jeito de picolé ),
chegava até você.
Você veria:
meu sorriso lhe diria
(
com a minha alegria )
que não importa a chuva fria
nem o mugido nevoento
do
vento —
sim: você, convencida,
veria,
num gostoso sem porquê,
que eu estar com você
me
é o melhor desta vida.
Mas não,
você não telefona...
E
esta manhã chorona
vai fria por mim lá dentro,
fria e fina,
beliscada pelo vento...
Fria como alegria
do
avesso...
E
eu sabendo que podia
(
desde o começo )
ter você como intento
e
terapia.
LA
10/003
De Mais
Não tenho nada nem ninguém
por este mundo
de
assombrações terríveis.
Sim, além da ilusão de ter
um
pouco do seu amor,
não tenho nada,
nem mão que me ofereça
nenhum licor na caminhada.
Quando nos encontramos,
no
ar,
num dos fios da grande teia —
então tenho a ilusão
de
ter um pouco
dessa iguaria de luxo
comida pelos poros do sentir,
lambida com a língua universal
que nos encasula o sonho
de
não sermos tão sós.
Logo ao lado desse fio,
procuramos paredes
que nos vejam conversar
as
emoções da carne
na
alquimia dos hormônios —
dos hormônios transerógenos
dos delírios ancestrais.
Por vezes você fala
naquele que a julga dele.
No
medo de sua mão matar-nos
por nos darmos o prazer
que de maneira alguma
seria dele...
Por comermos de parceria
uma fatia
do
pão que a vida tem de mais,
mas que, no caso,
é
uma receita de nós dois.
LA
10/003
Terceirizações
Casaram apaixonados,
mas logo terceirizaram
o
amor.
Trocaram-se em X
(
que nem pneus de carro )
com os vizinhos do sobrado.
E
não é que não deu certo?
Quinze dias depois:
quatro andarilhos —
cada qual por um lado.
Aí
foram instruídos
por um jovem-sábio casal
(
que não moravam sob mesmas telhas )
a
fazerem sexo fast food —
furunhamentos e sumimentos:
comer e descomer
e
— na próxima refeição —
mudar menu, acompanhante
e
restaurante.
.............................................................................
Aí, sim, conseguiram
não conseguir:
nada surtiu efeito —
coisíssima nenhuma deu certo.
.................................................................................
Comemoraram a grande estilo.
Sim, festejaram
comendo amendoim.
..................................................................................
Mas não desistiram —
foram procurar Chinchaicum,
filósofo-iluminado-zen,
abeberado nos licores de Chimim,
que após vinte e dois anos
lhes revelou:
“Podem partir, Irmãos, podem partir —
deixem suas doações prometidas,
e
podem partir:
nada mais há para aprenderem...”
—
Mas, Mestre, Santo Guru,
ainda não aprendemos nada!
— Por isso mesmo, Amados, —
nada era tudo ( hi, hi, hi!...)
o que deviam aprender.
Estão prontos para a vida.
Vão e passem para o mundo
esse vinho do avesso
mil vezes sacrossanto
que de nós bebericaram
(
hi, hi, hi!...).
LA
10/003
Apenas Transeunte
Saída do vento,
vestida de teu sonho roto —
de
que é que mais precisas,
alma rebelde,
além de seres transeunte?
Muitos de teus fantasmas
já
não mais te conhecem,
nem aqueles diabos velhos,
velhos e ridículos,
que sempre te ameaçavam...
Os
que esperam pelo fim do mundo
devem estar com a cara
de
quem levantou a saia errada....
E
toca arranjar sempre uma outra data...
Muito sem-graça: seus espelhos os mostraram
sem máscaras: o fim chegou-lhes,
sim, lhes chegou a eles
e
não ao mundo, que prospera
como o cão após a sarna.
Não poucos de seus amigos,
rota princesa,
se
trumbicaram por aí —
pilharam-empilharam demais da conta,
inclusive adposidades,
“oses”, “nóias”, e “ias”...
Sim, não tiveram tempo
de
gozar o sonho roubado aos outros...
Dá
graças a Deus,
alma de vento,
alma rebelde,
alma andarilha.
Alma gulosa de mentiras
e
vaidades.
Gulosa das delícias dos enganos...
Pelo menos não represaste a vida —
deixaste-a fluir...
Nem tuas mãos estão reféns de sangue...
Nem da carniça
coberta de jóias e panos raros...
Nem já seguram o esterco deste mundo.
Saída do vento,
vestida desse sonho podre,
aonde vais assim, rota princesa,
acaso vais dançar ao compasso
das Sinfonias das Esferas?
........................................................................
Após o porre, minha amiga,
segue em frente, e lembra sempre:
És
apenas transeunte
dentro do Sonho que te sonha
e
quer-te um dia transcendida
por ti mesma.
LA
10/003
As Rosas São Eternas
Nosso Espraiado corre pontual:
pouco, mas sempre.
Corre tranqüilo, minha Rosa.
Até aquela pinguela ( lembra? )
ainda existe ( em toda a sua
adorável flexibilidade... ).
Sempre refeita ( estico o olho e a vejo... ),
pois dá o que lembrar... Há tantas décadas,
já
nos era uma máquina perfeita
em
alegres-aeróbios exercícios...
Por vezes eu a vejo, minha Amiga,
na
tenuta de um sorriso —
congelo a imagem
e
a fico saboreando na memória...
É
por isso que as rosas são eternas
e
os espinhos apenas os seus servos.
Tudo se foi, minha Rosa,
até os ventos já são outros...
As
tardes já não têm o gosto das amoras
nem a boca suja de manga...
Nem a camisa de bolinhas do arlequim
já
nos baralha os olhos de alegria...
Tudo se foi,
inclusive você, cara Menina...
Sim: o que ainda teima
são fiapos agarrados aos arbustos
vergados sob um vento forte...
..............................................................................
Mas quem pode roubar de nossa vida
as
delícias em flor da mocidade
que saboreávamos no mesmo prato?
LA
10/003
Amor Dos Bons
Amor assim barato,
quase a preço de nada?
Ah! Por essa bagatela
só
se ama no boato,
ninguém mais se refestela.
Por esse preço
só
couro de botina
chutando o poste da esquina...
ou
camurça refugada.
Amor assim barato
só
no contrato
de
apaixonados ontens...
Mas amor pós-moderno
deixou de ser eterno.
Amor dos bons, coisa rica,
botina de pelica —
não é que custa caro,
é
pra quem pode ter o raro.
Saiba o senhor, doutor,
também saiba a doutora
que amor dos bons
tem seu bom preço
e
virtual endereço.
LA
10/003
Herança E Novo Rumo
De
tudo o que nos pilharam
o
que é que mais nos dói?
Certamente nossas perdas
de
induções culturais,
inculcações ideológicas
e
biológicas —
aquilo que a família,
a
sociedade e as leis
nos disseram que era nosso...
...................................................................
Os
que conseguem sobreviver
a
tais logros sociais —
esses conseguem transcender-se,
reorganizar-se
e
restabelecer a rota
sem capotar nessa traiçoeira,
nessa terrível curva
de
ser-não-ser...
Sim: restabelecer
o
rumo-sentido-finalidade
que, através da vontade
(
mais as três Pérolas do reino... ),
agora imprimem à sua vida.
A
caminhada então é bem mais livre:
entre sucumbir e vencer,
pôde ser construída
uma estrada interior de liberdade.
Essa estrada ( de espelhos ) nos mostra
quem diziam que éramos...
e
quem, agora, nos vemos
na
oficina de um hoje
consciente de ser
argila a remoldar-se
e
constelar-se.
LA
10/003
Muitas Vezes Queremos...
Muitas vezes queremos que algo fosse —
não aceitamos que não tenha sido...
E
nesse falso livro, nunca lido,
folheamos uma história que dá coice...
É
semelhante a disfarçar com a tosse
algo que exagerou no sustenido...
Ou
que a gente pecou por não ter crido
que aquilo era pecado: algo tão doce...
Queremos porque-sim: porque queremos
que o não-sido nos fosse uma ventura
maravilhosa e que jamais tivemos...
Que o não-sido nos fosse o acontecer
de
algo que, por não ser desde a procura,
devesse acontecer sem nunca ser.
LA
10/003
Há-Desavendo
“Eu nunca vou te esquecer...”
Era isso que o amor
tinha pra lhe
dizer.
Você ouviu,
na
hora não deu pra rir,
nem xingar...
e,
amorável, o amor se foi.
Sim, se foi para sempre —
para sempre voltar.
Para sempre voltar
a
fim de sempre poder ir.
Amor adora idas e vindas...
Ou
nunca terá sido amor.
Amor adora brincar de não ser
para ser disfarçadamente
de
verdade.
E
vive em cima do muro,
sentado: com uma perna
de
cada lado —
afagando vertigens
com os dedões dos pés...
O
curioso no amor
é
sempre ser o que não é.
Ora amando-de-desamar,
ora desamando-de-amar.
E
por ser como o tempo
é
que o amor
é
danado de bom:
ora frio ora quente
ora úmido ora aguado
ou
seco de doer...
Amor que esquece fácil,
fácil se lembra.
O
melhor do amor,
e
aqui não paire dúvida
nem disco voador:
é
o seu desamor,
e
não o seu chulé.
Tenho dito?
Não: tenho amado
e
desamado.
LA
10/003
Rumo De Casa
Lá em não sermos
é
que nos dói
o
que nos falta.
E
é essa falta
que temos de ir suprindo —
até nos darmos
(
por nossas mãos-de-Deus-em-nós )
a
ôntica autonomia sendo
identitário ser em sermos:
senha sonhada e transonhada
na
palma da mão da vida —
no
sonho sempre ressoprado
dentro do barro a constelar-se:
a
vida a essencializar degraus
em
nosso destino e rumo,
rumo daquela Casa em nós.
LA
10/03
Lenora Rediviva
Lenora, “nunca mais”? Ou sempre-sempre?...
Quem poderá dizer, pobre Lenora,
que a plumagem trevosa dessa hora
não lhe permita a doce luz contemple?
Lenora, e nossos sonhos voando dentre
a
mocidade e o azul...? Onde, Lenora,
foram parar tais sonhos cor de amora?...
Ou
“Nunca Mais” os grasna em negro ventre?
Sim: onde aquela treva crocitante
encontrará repouso após o instante
em
que a esperança anula o “nunca mais”?
E
quem não tremerá quando Lenora
ressuscitar daquele escuro-outrora
para o charme da luz sobre os vitrais?
LA
10/003
Esquente Não
Não se incorpore,
nem ore
por breviário
de
guru ou vigário.
Suma, e apareça
sempre outro: cresça.
Cuidado com o amigo,
idem com o inimigo.
Tudo o que é bom, amiga,
não tem segunda via,
nem a vida se rebobina.
Aprendamos a extrair do umbigo
orgasmos fungados com surdina —
sem, pois, nenhum perigo
nem suores de mais valia.
Ame, e faça sem medo:
sem mais nenhum segredo.
O
mais são ululâncias
de
altas desimpotâncias.
LA
10/003
Buchada Com Forró
E um bode tocará violino
para que a felicidade
exista
e
o amor experimente,
sim: deguste
a
desventura venturosa
de
saber que tem vivido incólume
da
realidade
que tenta degolar seus sonhos
ou
mandá-los para a câmara de gás
(
hoje: injeção letal ) —
depois que um arlequim os faça rir:
lembrar a sua infância e gargalhar.
Claro: um bode tocará violino
até que lhe comam o bucho
com cachaça acalentada
com música de forró.
Depois amor vai jogar bolinhas
na
corola dos lençóis.
Mas, sim: ao outro dia enviará flores
com um cartão lindíssimo —
porque suas metáforas
terão de dois a três sentidos,
mas os três muito gentis.
Agora eu lhe agradeço
por ter chegado até aqui...
e
antes que você vá por lá
e
eu por ali,
acho bom lhe dizer que sim:
que existem bodes
que tocam violinos...
e
que o amor faz até
curiosas traquinagens —
muitas pessoas vivem juntas
a
vida inteira
na
ternura cinza tirante a bege
de
nunca se terem amado.
Mas comem muita buchada,
e
tomam muita cachaça,
e
dançam muito forró —
que a elite lhes prepara.
LA
10/003
L2
E = ---------
Q
Se ela tem um rosto
que você não esquece,
você vai ter que voltar lá
e
lhe dizer:
Ou
me ajuda a esquecer você
ou
me diz que seu me lembrar
é
bem mais que me lembrar...
Então, sim: juntamos
eu
não poder esquecê-la
com o seu mais que me lembrar —
e
teremos a equação:
L2
E = ---------,
Q
onde:
esquecer está para lembrar
como lembrar para querer —
se
bem que em brincar de esquecer
é
que estão os méis
de
lembrar de esquecer.
Sim, o coração tem equações
que os matemáticos não resolvem.
LA
10/003
Mais, Bem Mais Quilate
Reaja, cara, reaja.
Sinta raiva, muita raiva —
mas não se mate.
Sim, reaja, sinta raiva,
tome mate —
roa as unhas
e
pense que é chocolate,
mas não se mate.
Ou
então tome seu mijo,
seu mijo com solidão —
mas matar-se, se mate não.
Sim, reaja, sinta raiva,
chute o próprio tomate,
ou
a vagem, minha amiga, —
mas matar-se, não se mate.
Nada presta assim tão muito
que lhe valha o matar-se.
Ah! Reaja, sinta raiva,
tire as calças,
|