Isto, Isso E Aquiles

                     Laerte Antonio

Após As Pétalas...                                                                                      

 

O verme, Rosa, não sabe

da nossa origem divina,

e nos come,

come-nos sem mesuras nem talheres.

 

As estrelas que olharam para nossos pais

só nos viram a nós...

As que nos vêem

por certo já têm olhos de outra cor.

 

Quem se esqueceu de ser feliz

( construir sua ôntica autonomia:

não ser bobo de ninguém )

perdeu o trem e as botas,

e se viu sobre um chão que não era de pétalas...

 

Quem deixou para depois

viu que entre o “de” e o “pois”

só há um espaço virtual —

como aquele

de quem foi pra Portugal

e perdeu o lugar...

Mas, mas...

 

Mas não faz mal...

Ou faz?

Sei não. Depende

da digestão do domingo

de quem faz o sermão

já na segunda-feira...       

 

Só um consolo, Rosa:

após a pétalas,

os espinhos

ficam muito sem graça —

tornam-se vilões solitários...

LA 07/003

 

 

 

 

Geléia De Amora

 

Quando aprendermos a ser honestos

junto àqueles com quem coabitamos,

aí então, quem sabe, até podemos

ser, se não felizes,

ao menos aprendizes.

Nesse atual ( e geral )

estado de malandragem —

é cada um prum lado

e o Diabo em todos

e para todos.

 

É engraçado,

bonito mesmo, veja:

parece até que o mundo

virou um Concurso

de safadeza.

Uma reciprocofagia.

Sim: um comerem-se uns aos outros:

Você bobeou,

vem o cara ou a cara

( com pingolim ou xoxeda ) —

e ó!... Te suja o sonho

com geléia de amora.

LA 07/003

 

 

 

 

Sim, É Preciso...

 

É preciso saber

que o Amor está sempre à porta:

“Eis que estou à porta... e bato...”

Deus o deixou penteadinho,

limpo-limpinho,

feliz da vida

e vestido de luz —

bem ao lado

de toda criatura.

Nós podemos não vê-lo,

como não vemos a história da vida

bem escrita nos átomos da luz —

mas ela está aqui, ali, além:

bem juntinho do amor —

a sua mais antiga testemunha.

 

Entre os fractais da neve

com sua geometria

multiversal —

lá está ele:

com seu jeito de primavera,

nidificando sonhos

com as fibras e frouxéis

de seus gorjeios.

 

Sim, é preciso saber

que o Amor perpassa,

plenifica e transborda

a criação:

é o oxigênio das delícias de ser.

Está em tudo, mas não invade —

o Amor está sempre à porta...

Só entra, se convidado.

Convidado, tinge de céu

as paredes da vida: transformando-as

nas cores e sons que geometrizam

o sonho de Deuspai —

única fonte e realização.

Convidado, entra e ceia conosco...

e seu vinho

se transforma em mais consciência —

a vida renascida mais.

LA 07/003 

 

 

 

               Celinha Filipini-CD                                      

 

Teclas dedilhadas

entre a realidade e o sonho —

frutos maduros ( em alma ),

pingos de estrelas

inseminando chãos,

prenhando escuros

de uma luz niquelada

aqui,

dourada ali,

irial no aquém-além...

Sim: mãos que transubstanciam

pobres metais em ouro,

o escuro em luzes

e faz a argila constelar-se...

( O universo se recria

pelas portas dos fundos

de haver quem o reconstrói:

de haver os que nunca enterraram

os seus talentos...

No que fazemos

está nossa falta de ser.

Deus nos fez o mínimo possível

[diz o conto]

para que nos recriemos o máximo

que pudermos.)

Notas multiversais

de um real em fractais —

no sonho sempre-mais

de horas sedas hiemais-vernais

de nuncas eternizados

por um fazer-recriar

de mãos que sabem

torná-los sempres...

num universo que é amar

entre os desvãos de sonhos inconhos...

e sombraluz ( ferida? ) no glamour

de ( haver ) quem afaga ( entre os próprios dedos )

a beleza-bailarina

na força de transcender-se,

na graça de ultrapassar-se a si mesma

lá entre o branco e o negro

de eterna recriação...

O ser em degraus de ser-se.

Um recontar universos

em falas-sons

de um jeito-brilho:

estrela que se faz amar

na aura-sonho de mãos

a retecer a vida

enquanto Ulisses ( em nós ) empreende o nostos —

sua volta

( por planos e degraus em nós mesmos ),

sua volta

entre humano e sobre-humano.

Estrela que se faz amar

a percutir notas-galáxicas

no dom de personar acalantos florais

e transmutar rudes metais

em ouro-luz de sensações

ecoando em emoções e sentimentos...

............................................................................................

Estrela que se faz amar

revelando a criatura,

feita, sim, de barro —

mas de um barro constelado:

superando-se no que faz

porque inseminada de infinito.

Dedos que sopram

entre o real e o sonho

almas no material... almas

que lhes passeiam entre o branco e o negro...

enquanto ganham

corpos de luz.

LA 08/003

 

 

 

 

Musse De Amora

 

— Pois é, amorzão,

     na falta de amor,

     a gente saboreia

     musse de amora.

     E adora.

     Pior é lamber a seco

     como vaca

     buscando sal

     em cocho que não tem.

 

              — Também acho, meu André:

     pior que nada

     é tudo que já não serve.

     08/003

 

 

 

 

Moinho

 

A realidade,

quando menor que o sonho,

vira bicho raivoso.

 

O amor,

se menor que o desamor,

morre de frio e fome.

 

Melhor que o sonho

é a realidade

construída por ele.

 

Pior que o desamor

só a vontade de amar

que se percebe sem corpo...

 

O tempo é a dinâmica

que filtra a realidade

até o bagaço —

que enfim deixa de ser laço

do que criou —

e se desfaz em sonho.

Sim:

um sonho sempre dentro de outro sonho,

puxando um real após outro real:

reais-realidades —

segundo a sua imagem-semelhança

( do sonho, pois sim? ),

do sonho a ontoviajar-se

por veredas de ser.

08/003

 

 

 

 

Manacá

 

Quando ela passa

meu corpo e alma

viram um pé de manacá:

todo olhos —

vidrados e sem piscar.

Um manacá que se finge

possuído pelo vento

e estica seus braços em flor

para enlaçá-la...

Como não pode,

finge também que é o vento

que lhe derruba lágrimas

bran

        cas

               bran

                        cas                                               

                                            s s s s s s s s s s s s

       azuis

                 azuis

                          sssssssssssssssssss

       para ao menos segui-la

       com suas pétalas s s s s s s s s s s s s...

       agora, sim,

       pastoreadas pelo vento     

08/003

 

 

 

 

Prosa E Reverso

 

Te cantarei em prosa e no reverso

lá do quadrado da hipotenusa

de haver luas a andar sem saia e blusa

lá pelas vinhas de um sonhar submerso...

 

Submerso nesse ardor que não recusa

o amor a crepitar em glosa e verso

no tapete voador desse disperso

viajar em alma que, hoje, pouco se usa...

 

Te cantarei o charme despenteado,

se não no Horto, à beira do Espraiado,

nesse agosto que ulula com os ventos.

 

Te cantarei o impávido chulé

que mesmo de sandália ( em sonhamentos )

me excita espirros como bom rapé.

LA 08/003

 

 

 

 

Versão Falsa

 

Quando nos julgam,

fazem, não raro, uma versão

mais triste sobre nós.

Em geral, as pessoas supõem

saber

quem somos.

E com uma simplicidade tola

de quem faz contas

de mais e de menos —

vão dizendo quem somos:

Que nos conhecem

e conhecem o que fazemos,

num tom olímpico

de quem quer ser os nossos deuses...

 

Certa vez, um escritor bem conhecido,

já tinha publicado punhados

de seus infanto-juvenis,

adentrou uma das classes

( em que eu finalizava uma aula )

para falar com os jovens de sua obra.

Ao me ver, gastou os pós e cremes

de seu costume, e apontou-me

para toda a classe, dizendo:

“Este é o grande Fulano!

Não menos maravilhoso

professor que escritor.

Conheço a sua poesia...”

Entreguei-lhe a classe,

pedi licença, e saí.

Saí pensando:

“Diabos, capetas e assemelhados,

como é que ele conhece

a minha poesia, se publiquei

um infinitésimo dela —

e nunca lhe mostrei a ele ( são inéditos! )

nem a ninguém

o seu núcleo, os seus arquétipos?”

Com aquela frase falsa,

o tal escritor

acabara de criar uma versão falsa

do meu trabalho sério, longo

e silencioso e solitário.

Sim: muito triste quando alguém supõe

conhecer a nós e o que fazemos.

Uma baita leviandade,

gerando um baita de um mal-estar.              

              LA 08/003

           

 

 

 

Conexões

 

 

Quando ver é uma porta

para algo mais,

então nos embriagamos

com essa conexão maior.

Ao perder o caminho,

o caminhante encontra

outras coisas.

Pode haver um ganho

em toda perda —

ou no vice-versa disso.

O pão que o diabo amassou,

quando não se tem outro padeiro,

pode ser o melhor dos pães.

Sim: uma fome dos diabos

acaba levando a Deus.

Nosso mal

é pensarmos que o bem

só tem uma face.

 

Quando ver é uma porta

para algo mais,

depressa percebemos

que estamos a cavar na luz —

e luz é ver,

principalmente quando parte

de dentro para fora...

Sim, luz é conexões

no momento em que sabemos

que nós é que somos

essas tais relações —

capazes de recriar

realidades

com olhos de ver.

LA 08/003

 

 

 

 

Um Sempre-Quase

 

Os deuses, Musa, têm ciúmes.

Não diga a sua poesia

a não ser em tom de silêncio:

que só o humano possa ouvir.

Porque a vida, minha Amiga,

não é nada —

nada que não seja tudo.

 

Deixemos que as abelhas

toquem seus violinos

em torno às flores alvamente cheirosas

das laranjeiras —

mais nada,

mais nada a nos lembrar de tudo.

 

Os ventos sejam o rumo

de tudo

em nosso sonho quase nada.

A vida? Um tudo-nada:

um sempre-quase.

Viver? 

Viver nem seja preciso

quando a vida é bem mais

que momentos de usura.

LA 08/003

 

 

 

 

Difícil

 

Por vezes é bem difícil

funcionar neste mundo.

Querem que você não seja quem é,

melhor: querem que você seja igual —

igualzinho ao que renderia a quem

lhe deseja essa igualdade.

Sim, desejam-no diferente

e igual aos que reivindicam

tal diferença.

.................................................................................

Ah! Este mundo é tão engraçado

como papagaio tentando galar franga

no quintal,

pois que, aliás, depois se vê:

não se tratava de franga —

mas de frango já nas primeiras escaladas...

e que acaba por inverter a situação.

.....................................................................................

 

Por vezes é bem difícil

funcionar neste mundo

com o combustível

que nos fazem beber.

Com as buchadas de idéias

que nos servem no almoço e janta...

Com os sarapatéis

político-religiosos —

por sobremesa.

Com a pinga com sucupira —

para todos os males,

menos os males do difícil:

difícil de aceitar.

LA 08/003

 

 

 

 

 Nostalgia

 

Transeuntes,

não mais que transeuntes,

filhos do sopro da existência

e da ânsia de viver —

eis o que somos, minha Amiga.

 

Passamos como o vento

e a relva —

somos um conto recontado por nós mesmos.

Um conto cujo tema é o agora,

cujo cenário é o aqui:

o aqui-agora refugindo

pelos poros da vida...

Seu suporte,

sua beleza e verdade

são o momento fluindo por nós dentro.

 

Passamos como as águas

cantando entre as pedras da ribeira

e como calha temos nossos dias.

 

Passamos levando em nossa carne

o sorriso da rosa

que dói em nós

porque sabemos,

sabemos que vem a tarde.

 

A vida é só o que temos,

e o sonho, a fé, a esperança —

nossos melhores companheiros.

 

O amor?

O amor é a estrada

que passa pelas varandas

daquela Casa

de que rolamos...

mas trazemos dentro de nós.

Sua lembrança

é a dor que nos impele

a empreender o nostos:

a volta ao Lar.

LA 08/003

 

 

 

 

Cartesianamente

 

Com uma chuva dessas,

um friozinho afrodisíaco,

este vento alcoviteiro

dizendo coisas na veneziana —

sejamos bem razoáveis,

sejamos bem cartesianos,

minha Amiga:

Somos humanos —

logo, adoramos trepar.

LA 08/003

 

 

 

 

Achas Isto...

 

O nada, amada,

não é tão nada —

pois pode ser

o início de outro tudo.

Logo,

se entre a gente restou nada,

temos chance,

muita chance —

principalmente no fim do dia

que envelhece criando a noite...

Sim: a noite

incucada de estrelas

e martelinhos niquelados

dando em nosso desejo sobre a cama —

entre os grilos e a chuva fina,

a chuva fina e fria

no lá fora dos ventos

despenteando a noite escura...

 

Achas isto nada,

amada?!

LA 08/003

 

 

 

 

A Serviço

 

Ouça o seu corpo,

aprenda a conversar com ele —

o seu corpo

tem muito a lhe ensinar:

seu Eu-Profundo aprende dele,

pois ele desce e vem buscar

o que nos falta —

nossa falta de ser.

Sim, nosso corpo é a sonda

que vem buscar o que nos falta:

descido

aonde nosso Eu-Ente

jamais poderá descer...

Nosso corpo e nosso ego

hão de estar a serviço

do Rei.

LA 08/003

 

 

 

 

Não Tão Altas...

 

Eras as uvas

( lembras? ),

eu a raposa.

Verdes maduras

maduras verdes...

Ou: cheirosas, mas verdes...

maduras, mas azedas...

Até que o Diabo do bom senso

apareceu: “Ô cara! Se estão verdes,

faz conserva pra comer com pinga.

Se maduras: Amassa, homem!

Amassa, come, faz geléia ou vinho.

Mas come, cara,

come de um lado e do outro

do cacho,

come de qualquer jeito:

verdes, maduras,

encruadas, passando,

ou passas

e até passadas...

São uvas, cara!

.......................................................................

Foi então que vi:

não estavam tão altas.

LA 08/003

 

 

 

 

Antiepitáfio

 

Quem gosta de terra é minhoca.

Por mim,

eu não seria bobo

de estar neste lugar.

Sim: eu lhes juro —

jamais estive aqui.

A sombra só existe

quando estamos à luz,

quando esta adentramos, não.

Aqui só tem a casca

de asas que se foram

pouco antes...

Como o trigo

que levaram para o moinho,

como as uvas

cujo sumo já é vinho.

LA 08/003

 

 

 

Ratos Alquímicos

 

Ratos gostam,

adoram queijo suíço

( e assemelhados ).

Aliás, queijo curado,

defumado, zelado

por mãos alpinas —

a tornar as mãos de origem

mais brancas do que a neve...

( Construíram lactodutos,

lactodutos virtuais:

os queijeiros recebem o leite e... )

 

Ratos vistosos,

charmosos, de luxo:

gestos nobres,

trajando finos talhes,

com ares importados

e mimos cosmopolitas.

Ratos degustadores

da vida constelada:

regada a conchavos,

conchegos grupais —

reciprocidades

corporativas:

relações liso-versáteis,

engrenagens azeitadas

sustendo o Circo.

A vida regada,

irrigada,

chovida —

mil e mil regalos:

melhor bebida,

melhor comida,

crocantes fêmeas,

anabolizados machos.

 

Ratos para sempre ratos —

com genes a cirandar,

a viajar genealogias

e a cantar

sua perversa canção...

 

Ratos que não roem a roupa

do rei,

mas a de todo o povo.

Nem comem a comida

do rei,

mas a de toda a gente que trabalha

sob taxas, angústias e impostos...

e medos e enganos e medos e enganos...

 

Sim, ratos que gostam,

adoram empilhar

finos queijos em mãos alquímicas...

aquelas cínicas,

tão cínicas quanto eles

que acenam para o povo

esperanças de esperanças

amanhecidas

e requentadas:

esperanças a lamber,

lamber diuturnamente

suas próprias feridas...

......................................................................

Sim, ratos que não roem roupas:

roem os sonhos das pessoas —

sonhos que eles matam no ninho...

cujo materializar-se

eles pilham-empilham.

Sonhos que se vão tornando

em frios, frígidos fantasmas

a rolarem soltos no ar...

Sonhos tornados calafrios...

Sonhos brancos e balofos,

tão brancos e balofos como a neve

que eis... derrete-escorre

como sorvete em mãos de criança...

.......................................................................

O mais? Nem mais nem menos: aquele

tradicional teatro

de uma só peça em cartaz

gerações após outras:

Teatro de Impunidade

LA 09/003

 

 

 

 

Com Que Direito?

 

 

Com que direito, ó mundo,

tu me comeste o mel,

só me deixaste os favos

e me mandaste às favas?

Com que direito?

 

Sobre a tua plataforma

de canalhice,

com que direito, ó mundo,

pretendes ser feliz?

LA 09/003

 

 

 

 

Sempre Nos Dás, Ó Vida...

 

Sempre nos dás, ó vida, sobre o belo

da hora, a outra parte de gozá-lo:

bem entre o róseo e o azul, o amarelo —

seu veneno e o desejo de prová-lo...

 

O dom oposto tem o seu martelo

na ingênua permissão de degustá-lo...

A beleza a cortar-se no cutelo

da incompletude a oferecer regalo...

 

Sempre nos dás o belo e a dor nos dedos

de colhê-lo entre pétalas e espinhos...

Dás-nos a paz e as rendas de seus medos.

 

Dás-nos o sonho e a louca realidade —

em generosidades de mesquinhos

dons da mentira a se tornar verdade.

LA 09/003

 

 

 

 

               Endireitando Veredas

 

Só depois de sonhado e re-sonhado,

o real se traveste realizado —

pastoreia, atual e nascituro,

o passado e o presente com o futuro...

 

Futuro que é presente em seu avesso,

avesso de um começo-recomeço

que tem lá no passado redivivo

o sentido de um sonho sensitivo...

 

E aí é que se encontram os afluentes

desse tempo que gera delinqüentes

pra devorar seus próprios frágeis filhos...

 

Dessa roda de tempos só saímos

quando lá por nós mesmos resumimos

num só caminho nossos vários trilhos.

LA 09/003

 

 

 

 

Poder Do Mito

 

Para José de Nazaré

( In mythum )

 

 

E aí, José?

Querem te deletar,

te botar na lixeira

de nossos ciberdias?

................................................................

 

Enfim, ó veros céus! —

o nosso Nazaré

não foi e é

ou é o que não foi?

 

Tinha pasto e tinha boi

o nosso Foi-não-foi,

ou só mirrada vaca

de que ordenhava

alvos mugidos

para molhar o pão dos seus?

 

E aí, ó veros céus! —

então não foi

este que agora é

o nosso Nazaré?

 

Acaso o mito

é menos verdadeiro

que quem o narra,

ou seja: nô-lo planta

no imaginário —

que regamos e adubamos

gerações após outras?

 

Se não foi, —

tarde demais:

pela força

de negá-lo-afirmá-lo,

acaba de virar mito

o nosso Nazaré.

 

Foi!...

                                             Não foi!...

       Foi!...

                                                          Não foi!...

             Foi!...                                                

                                                                       Não foi!...

........................................................................................................

Podemos cassar a ave

a que demos as penas?

Mas como nos livrarmos

da sombra do seu vôo,

se agora é nossa alma?

 

Entre “foi” e “não foi”,

claro que é —

já virou nós o Nazaré.

 

 

PS:

José de Nazaré é, ou teria sido ( daí a controvérsia ) o fundador de Casa Branca, SP.

LA 09/003

 

 

 

 

 

                 Falta De Ser

 

 

Tudo é efêmero.

Mas, quando o efêmero é divino, —

há de ser sempre eterno.

Divino pela verdade.

Eterno pela beleza.

Sim: o efêmero,

sendo a porção do tempo

que mais amamos, —

é talvez saudade de nós mesmos

no que nos há de faltar.

Ah! A nossa falta,

sempre a nossa falta

de ser.

E que fazer,

se o sonho é sempre ser?

LA 09/003

 

 

 

 

Ratos

 

Ratos gostam,

adoram queijo suíço.

Aliás: queijo curado

e zelados por mãos invisíveis.

 

Ratos de gravata

e terno cinza.

Ratos degustadores

da vida constelada:

melhor uísque,

melhor caviar,

crocantes fêmeas.

 

Ratos que não roem a roupa

do rei,

mas a de todo o povo.

Nem comem a comida

do rei,

mas a de toda a gente que trabalha,

sob taxas, angústias e impostos.

 

Ratos gostam,

adoram (em)pilhar queijos

na Suíça.

Sim, ratos não mais

roem roupas:

roem os sonhos das pessoas —

sonhos que eles pilham

e empilham na nívea terra

que engole o sonho

do povo que trabalha

e espera.

LA 09/003

          

 

 

 

A Não Ser...

 

Você pegando a realidade

a unha

com a esperança de férias

e a fé jogando boliche

lá onde amor é o anfitrião —

arrotando cerveja

e tomando alvos glóbulos

para abrandar a depressão —

você então que mais quer,

senão não querer nada disso?

Que mais quer

a não ser nada

que seja realmente nada?

LA 09/003

  

 

 

 

Só No Desamor

 

Amor? Só no tatame.

Arranja um cão que te ame,

e dá graças a Deus —

já que entre os teus

é só porrada

e mágoa represada.

Amor? Só no desamor.

O mais...

Quem é que falou que tem mais?

LA 09/003

 

 

 

 

 

Bem Fumegante

 

Tá tenso? Vá visitar

os jardins suspensos

da Babi.

E aproveite —

frite uns bolinhos com ela,

e saboreie-os

com cafezinho fresco,

bem fumegante.

Depois? Depois você vê

se o mar está pra peixe...

LA 09/003

     

 

 

 

Angústia

 

A angústia

dá sentido e rumo.

Sentido para quem vem do dia

ter como fim a noite

e a noite ter como fim

a luz.

A angústia

é como a sombra

e a luz —

uma precisa da outra

para ver que a vida

são as duas.

A angústia

é sempre as vésperas

de nos livrarmos dela.

Não nos enganemos

pensando um dia

ficar sem ela.

A angústia é um modo

de pensar que sabemos

porque a vida nos bate tanto.

LA 09/003

 

 

        

 

 

Livre

 

Um dia lhe telefonou:

Estou muito doente,

preciso de sua mão.

Dela ouviu:

Procura um médico!...

.............................................

Então peça ( lhe disse ) que me venha

a minha filha...

Dela ouviu:

Você não tem filha,

os loucos não têm ninguém.

 

Descobriu ( por si mesmo )

que era só,

que o homem é só —

mas não tão só

que não possa enfeixar suas forças

e somar-se ao momento —

somar-se maior

que o desamor dos outros...

e, assim, ousar —

ousar não precisar

a não ser de nada:

e, nada tendo, estar completo,

completo de não desejar —

livre do mundo,

das pessoas,

de si.

LA 09/003

 

 

 

 

E Sei Por Quê!

 

Maior que as anotações de Freud,

maior que todas as análises,

maior do que os sapatos do arlequim —

sempre foi, minha Rosa,

( e sei por quê! )

meu amor por você.

 

O que sentimos a dois, minha Rosa,

é bem maior que todas as tolices

que os donos das ciências

têm balbuciado aos pobres ventos...

Nosso Espraiado, Rosa,

tem a música das esferas.

Tem cantos, brisas, gorjeios

e os ventos frescos e amigos

que tangem liras, violinos

lá no por dentro em nós...

O nosso sonho, Rosa,

tem a magia das coisas que não morrem nunca:

igual àquelas plantas

que vicejam entre as pedras

à espera da primavera

para explodir em flores e cores.

LA 09/003

 

 

 

 

Tarde-Noite No Pinheiral

 

Tarde mulata, ardendo em primavera,

desenha rendas sob a ramaria...

O pinho vai goteando a sua cera

sobre a alfombra amarela e bem macia.

 

Um bem-te-vi, ao longe, pia e espera...

Repica o pio e canta, e outra vez pia...

Longe, um pio de angústia reverbera

na luz que migra no findar do dia...

 

No céu, sem mancha, a noite é toda olhos...

Pelos pinhos, o vento, entre refolhos,

sopra bem morno e roda os seus piões...

 

E todo o pinheiral prepara o tom...

murmurando, ondulando em orações —

eternamente entoando os tons do On-On-On-On-On-On...

LA 09/003

 

 

 

 

As Tranças Não...

 

Quem sabe se eu viesse com o vento,

não pegasses carona em eu querer-te...

e iríamos num vôo que se converte

em luz pela beleza do momento...

 

Quem sabe no momento de saber-te

a outra parte em mim de um bom intento,

não visses com o próprio sentimento

que é tola dor esse virtual de ter-te...

 

Desse momento em diante, me abririas

a janela do quarto... e jogarias,

as tranças não, a senha a teu porteiro:

 

“Deixe mais um entrar, não tenha medo,

mande-o esperar ( sentado ), caro Alfredo, —

pois este é meu marido, e bom banqueiro.”

LA 09/003

 

 

 

 

Fast Food love

 

Um amor pós-moderno e bom de amar:

um relacionamento fast food...

Nada de telefone ou outro grude

que lhe deslustre o brilho de fungar.

 

Amor alternativo a transonhar

o sonhado que quase desilude...

Amor a prenunciar a desvirtude

de uma virtude que eis... recobra o ar...

 

Vertical riso a aureolar bilau...

Pés bem no chão: “bichô, bichô; pau, pau”.

Engolido com o fogo do flambado.

 

Amor sem nenhum tempo de ser lido...

Bebido antes de desarrolhado...

Tão-já comido quanto descomido...

LA 09/003

 

 

 

 

Rugindo

 

Se as Veras

não forem veras,

nem verões,

ou ao menos sinceras

( ah, quem nos dera! ),

a gente então espera,

em tardes-solidões...

Sim: espera

pelas primas

( nem sempre veras )

em meio às heras

dos casarões.

 

Em meio às heras

( sozinhidões )

dos casarões

que nem são mais:

senão quimeras

em tons jamais,

sonhos florais

de primas

veras

( e até sinceras ),

lá nos porões

de lembrá-las:

rugindo como feras...

LA 09/003  

 

 

 

 

Façamos!

 

Após tantos purês,

ainda nos toca

virar batatas.

Mas antes, meu amigo,

( e amiga, sim: e amiga ) —

antes que tal fenômeno se dê,

a gente faça chover muito!

Ah! Muitas, muitas chuvas:

brancas, negras e mulatas —

com respingos apaches

e temporais da China...

Sim, muitas, muitas chuvas

com o prensar de muitas uvas.

 

Tantos purês

e batatadas,

pra virarmos tubérculos!

Pasmos e sujos,

cobertos de chocolate...

com um sorriso sem graça,

de pedra.

 

Sim, façamos,

façamos todos:

e façamos com charme!

Só depois,

viremos batatas.

LA 09/003

 

 

 

Até Que Um Dia...

 

Ele? Vidrado sempre.

Ela não. Só o amava ( amava? )

de viés...

Isto é: entre a pipoca, o milho

e o cheiro de pamonha...

...............................................................

Ele queria

( queria sempre ),

ela fazia doce,

em casa,

e salgados para fora.

 

E assim...

Assim foi e refoi,

sem que ninguém soubesse

se o berro

( sim: berro...

Depois te conto... )

era de bode ou boi...

.........................................................................

E assim foi ( eu dizia )

e refoi,

até que um dia (!)

ele abriu bem o olho, e viu!...

..........................................................................

Viu o que mesmo?

Viu que estava velho.

LA 09/003

 

 

 

Depois De Depois

 

Lista comprida,

a das nossas frustrações

cá no país da esperança.

Da esperança que aprendeu

a lamber nossas feridas

e a adiar para amanhã.

 

Esperança que sabe

ser heroína sem nenhum caráter...

Esperança amanhecida —

pão de ontem: duro de roer.

Sim: esperança de esperanças —

sempre para amanhã

e depois de amanhã,

melhor: para depois de depois...

num círculo de mesmices

e semprices

de empedrada eternidade.

 

Esperança padejada

com o fermento do cinismo —

e passada ( crocante, bem quentinha )

às mãos de santa Ingenuidade

que a vai molhando na caneca

das mentiras mecanicamente ordenhadas...

Que a vai molhando nos mugidos

da antemanhã

para amanhã e depois... Sim: sempre

na roda dos amanhãs,

nas cavilosidades do futuro...

Esperança clonada

para lamber as feridas

de nossa vida esperançada.

LA 10/003

 

 

 

 

Manhã Chorona

 

Veja,

se você telefonasse,

eu abriria um túnel no vento

e, com a chuva na face,

eu chegava num momento

( com um jeito de picolé ),

chegava até você.

 

Você veria:

meu sorriso lhe diria

( com a minha alegria )

que não importa a chuva fria

nem o mugido nevoento

do vento —

sim: você, convencida,

veria,

num gostoso sem porquê,

que eu estar com você

me é o melhor desta vida.

 

Mas não,

você não telefona...

E esta manhã chorona

vai fria por mim lá dentro,

fria e fina,

beliscada pelo vento...

Fria como alegria

do avesso...

E eu sabendo que podia

( desde o começo )

ter você como intento

e terapia.

LA 10/003

 

 

 

 

De Mais

 

Não tenho nada nem ninguém

por este mundo

de assombrações terríveis.

Sim, além da ilusão de ter

um pouco do seu amor,

não tenho nada,

nem mão que me ofereça

nenhum licor na caminhada.

 

Quando nos encontramos,

no ar,

num dos fios da grande teia —

então tenho a ilusão

de ter um pouco

dessa iguaria de luxo

comida pelos poros do sentir,

lambida com a língua universal

que nos encasula o sonho

de não sermos tão sós.

 

Logo ao lado desse fio,

procuramos paredes

que nos vejam conversar

as emoções da carne

na alquimia dos hormônios —

dos hormônios transerógenos

dos delírios ancestrais.

 

Por vezes você fala

naquele que a julga dele.

No medo de sua mão matar-nos

por nos darmos o prazer

que de maneira alguma

seria dele...

Por comermos de parceria

uma fatia

do pão que a vida tem de mais,

mas que, no caso,

é uma receita de nós dois.

LA 10/003

 

 

 

 

Terceirizações

 

Casaram apaixonados,

mas logo terceirizaram

o amor.

Trocaram-se em X

( que nem pneus de carro )

com os vizinhos do sobrado.

E não é que não deu certo?

Quinze dias depois:

quatro andarilhos —

cada qual por um lado.

 

Aí foram instruídos

por um jovem-sábio casal

( que não moravam sob mesmas telhas )

a fazerem sexo fast food —

furunhamentos e sumimentos:

comer e descomer

e — na próxima refeição —

mudar menu, acompanhante

e restaurante.

.............................................................................

Aí, sim, conseguiram

não conseguir:

nada surtiu efeito —

coisíssima nenhuma deu certo.

.................................................................................

Comemoraram a grande estilo.

Sim, festejaram

comendo amendoim.

..................................................................................

Mas não desistiram —

foram procurar Chinchaicum,

filósofo-iluminado-zen,

abeberado nos licores de Chimim,

que após vinte e dois anos

lhes revelou:

“Podem partir, Irmãos, podem partir —

deixem suas doações prometidas,

e podem partir:

nada mais há para aprenderem...”

    Mas, Mestre, Santo Guru,

ainda não aprendemos nada!

          — Por isso mesmo, Amados, — 

               nada era tudo ( hi, hi, hi!...)

               o que deviam aprender.

              Estão prontos para a vida.

Vão e passem para o mundo

esse vinho do avesso

mil vezes sacrossanto

que de nós bebericaram

( hi, hi, hi!...).

LA 10/003

 

 

 

Apenas Transeunte

 

Saída do vento,

vestida de teu sonho roto —

de que é que mais precisas,

alma rebelde,

além de seres transeunte?

 

Muitos de teus fantasmas

já não mais te conhecem,

nem aqueles diabos velhos,

velhos e ridículos,

que sempre te ameaçavam...

 

Os que esperam pelo fim do mundo

devem estar com a cara

de quem levantou  a saia errada....

E toca arranjar sempre uma outra data...

Muito sem-graça: seus espelhos os mostraram

sem máscaras: o fim chegou-lhes,

sim, lhes chegou a eles

e não ao mundo, que prospera

como o cão após a sarna.

 

Não poucos de seus amigos,

rota princesa,

se trumbicaram por aí —

pilharam-empilharam demais da conta,

inclusive adposidades,

“oses”, “nóias”, e “ias”...

Sim, não tiveram tempo

de gozar o sonho roubado aos outros...

 

Dá graças a Deus,

alma de vento,

alma rebelde,

alma andarilha.

Alma gulosa de mentiras

e vaidades.

Gulosa das delícias dos enganos...

Pelo menos não represaste a vida —

deixaste-a fluir...

Nem tuas mãos estão reféns de sangue...

Nem da carniça

coberta de jóias e panos raros...

Nem já seguram o esterco deste mundo.

 

Saída do vento,

vestida desse sonho podre,

aonde vais assim, rota princesa,

acaso vais dançar ao compasso

das Sinfonias das Esferas?

........................................................................

Após o porre, minha amiga,

segue em frente, e lembra sempre:

És apenas transeunte

dentro do Sonho que te sonha

e quer-te um dia transcendida

por ti mesma.

LA 10/003

 

 

 

 

As Rosas São Eternas

 

Nosso Espraiado corre pontual:

pouco, mas sempre.

Corre tranqüilo, minha Rosa.

Até aquela pinguela ( lembra? )

ainda existe ( em toda a sua

adorável flexibilidade... ).

Sempre refeita ( estico o olho e a vejo... ),

pois dá o que lembrar... Há tantas décadas,

já nos era uma máquina perfeita

em alegres-aeróbios exercícios...

 

Por vezes eu a vejo, minha Amiga,

na tenuta de um sorriso —

congelo a imagem

e a fico saboreando na memória...

É por isso que as rosas são eternas

e os espinhos apenas os seus servos.

 

Tudo se foi, minha Rosa,

até os ventos já são outros...

As tardes já não têm o gosto das amoras

nem a boca suja de manga...

Nem a camisa de bolinhas do arlequim

já nos baralha os olhos de alegria...

Tudo se foi,

inclusive você, cara Menina...

Sim: o que ainda teima

são fiapos agarrados aos arbustos

vergados sob um vento forte...

..............................................................................

Mas quem pode roubar de nossa vida

as delícias em flor da mocidade

que saboreávamos no mesmo prato?

LA 10/003

 

 

 

 

Amor Dos Bons

 

Amor assim barato,

quase a preço de nada?

Ah! Por essa bagatela

só se ama no boato,

ninguém mais se refestela.

Por esse preço

só couro de botina

chutando o poste da esquina...

ou camurça refugada.

 

Amor assim barato

só no contrato

de apaixonados ontens...

Mas amor pós-moderno

deixou de ser eterno.

 

Amor dos bons, coisa rica,

botina de pelica —

não é que custa caro,

é pra quem pode ter o raro.

 

Saiba o senhor, doutor,

também saiba a doutora

que amor dos bons

tem seu bom preço

e virtual endereço.

LA 10/003

 

 

 

 

 

Herança E Novo Rumo

 

De tudo o que nos pilharam

o que é que mais nos dói?

Certamente nossas perdas

de induções culturais,

inculcações ideológicas

e biológicas —

aquilo que a família,

a sociedade e as leis 

nos disseram que era nosso...

...................................................................

Os que conseguem sobreviver

a tais logros sociais —

esses conseguem transcender-se,

reorganizar-se

e restabelecer a rota

sem capotar nessa traiçoeira,

nessa terrível curva

de ser-não-ser...

Sim: restabelecer

o rumo-sentido-finalidade

que, através da vontade

( mais as três Pérolas do reino... ),

agora imprimem à sua vida.

A caminhada então é bem mais livre:

entre sucumbir e vencer,

pôde ser construída

uma estrada interior de liberdade.

Essa estrada ( de espelhos ) nos mostra

quem diziam que éramos...

e quem, agora, nos vemos

na oficina de um hoje

consciente de ser

argila a remoldar-se

e constelar-se.

LA 10/003

 

 

 

 

Muitas Vezes Queremos...

 

Muitas vezes queremos que algo fosse —

não aceitamos que não tenha sido...

E nesse falso livro, nunca lido,

folheamos uma história que dá coice...

 

É semelhante a disfarçar com a tosse

algo que exagerou no sustenido...

Ou que a gente pecou por não ter crido

que aquilo era pecado: algo tão doce...

 

Queremos porque-sim: porque queremos

que o não-sido nos fosse uma ventura

maravilhosa e que jamais tivemos...

 

Que o não-sido nos fosse o acontecer

de algo que, por não ser desde a procura,

devesse acontecer sem nunca ser.

LA 10/003

 

 

 

          Há-Desavendo

 

“Eu nunca vou te esquecer...”

Era isso que o amor

tinha pra lhe dizer.

Você ouviu,

na hora não deu pra rir,

nem xingar...

e, amorável, o amor se foi.

Sim, se foi para sempre —

para sempre voltar.

Para sempre voltar

a fim de sempre poder ir.

 

Amor adora idas e vindas...

Ou nunca terá sido amor.

Amor adora brincar de não ser

para ser disfarçadamente

de verdade.

E vive em cima do muro,

sentado: com uma perna

de cada lado —

afagando vertigens

com os dedões dos pés...

 

O curioso no amor

é sempre ser o que não é.

Ora amando-de-desamar,

ora desamando-de-amar.

E por ser como o tempo

é que o amor

é danado de bom:

ora frio ora quente

ora úmido ora aguado

ou seco de doer...

 

Amor que esquece fácil,

fácil se lembra.

O melhor do amor,

e aqui não paire dúvida

nem disco voador:

é o seu desamor,

e não o seu chulé.

Tenho dito?

Não: tenho amado

e desamado.

LA 10/003

       

 

 

 

Rumo De Casa

 

Lá em não sermos

é que nos dói

o que nos falta.

E é essa falta

que temos de ir suprindo —

até nos darmos

( por nossas mãos-de-Deus-em-nós )

a ôntica autonomia sendo

identitário ser em sermos:

senha sonhada e transonhada

na palma da mão da vida —

no sonho sempre ressoprado

dentro do barro a constelar-se:

a vida a essencializar degraus

em nosso destino e rumo,

rumo daquela Casa em nós.

LA 10/03

 

 

 

 

Lenora Rediviva

 

Lenora, “nunca mais”? Ou sempre-sempre?...

Quem poderá dizer, pobre Lenora,

que a plumagem trevosa dessa hora

não lhe permita a doce luz contemple?

 

Lenora, e nossos sonhos voando dentre

a mocidade e o azul...? Onde, Lenora,

foram parar tais sonhos cor de amora?...

Ou “Nunca Mais” os grasna em negro ventre?

 

Sim: onde aquela treva crocitante

encontrará repouso após o instante

em que a esperança anula o “nunca mais”?

 

E quem não tremerá quando Lenora

ressuscitar daquele escuro-outrora

para o charme da luz sobre os vitrais?

LA 10/003

 

 

 

 

Esquente Não

 

Não se incorpore,

nem ore

por breviário

de guru ou vigário.

 

Suma, e apareça

sempre outro: cresça.

Cuidado com o amigo,

idem com o inimigo.

 

Tudo o que é bom, amiga,

não tem segunda via,

nem a vida se rebobina.

Aprendamos a extrair do umbigo

orgasmos fungados com surdina —

sem, pois, nenhum perigo

nem suores de mais valia.

 

Ame, e faça sem medo:

sem mais nenhum segredo.

O mais são ululâncias

de altas desimpotâncias.

LA 10/003

 

 

 

 

Buchada Com Forró

 

E um bode tocará violino

para que a felicidade

exista

e o amor experimente,

sim: deguste

a desventura venturosa

de saber que tem vivido incólume

da realidade

que tenta degolar seus sonhos

ou mandá-los para a câmara de gás

( hoje: injeção letal ) —

depois que um arlequim os faça rir:

lembrar a sua infância e gargalhar.

 

Claro: um bode tocará violino

até que lhe comam o bucho

com cachaça acalentada

com música de forró.

Depois amor vai jogar bolinhas

na corola dos lençóis.

Mas, sim: ao outro dia enviará flores

com um cartão lindíssimo —

porque suas metáforas

terão de dois a três sentidos,

mas os três muito gentis.

 

Agora eu lhe agradeço

por ter chegado até aqui...

e antes que você vá por lá

e eu por ali,

acho bom lhe dizer que sim:

que existem bodes

que tocam violinos...

e que o amor faz até

curiosas traquinagens —

muitas pessoas vivem juntas

a vida inteira

na ternura cinza tirante a bege

de nunca se terem amado.

Mas comem muita buchada,

e tomam muita cachaça,

e dançam muito forró —

que a elite lhes prepara.

LA 10/003

 

 

 

 

 

           L2

E = ---------

           Q

 

Se ela tem um rosto

que você não esquece,

você vai ter que voltar lá

e lhe dizer:

Ou me ajuda a esquecer você

ou me diz que seu me lembrar

é bem mais que me lembrar...

Então, sim: juntamos

eu não poder esquecê-la

com o seu mais que me lembrar —

e teremos a equação:

 

                  

 

 ­­­­­­­                                    L2

                            E = ---------,   

                       Q

 

onde:

esquecer está para lembrar

como lembrar para querer —

se bem que em brincar de esquecer

é que estão os méis

de lembrar de esquecer.

Sim, o coração tem equações

que os matemáticos não resolvem.

LA 10/003

          

 

 

 

Mais, Bem Mais Quilate

 

Reaja, cara, reaja.

Sinta raiva, muita raiva —

mas não se mate.

 

Sim, reaja, sinta raiva,

tome mate —

roa as unhas

e pense que é chocolate,

mas não se mate.

Ou então tome seu mijo,

seu mijo com solidão —

mas matar-se, se mate não.

 

Sim, reaja, sinta raiva,

chute o próprio tomate,

ou a vagem, minha amiga, —

mas matar-se, não se mate.

Nada presta assim tão muito

que lhe valha o matar-se.

 

Ah! Reaja, sinta raiva,

tire as calças,