Isto, Isso E Aquiles
Laerte Antonio
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Queres A Ilha...
Queres a ilha, e para lá te mudas —sem te moveres, pois que é em ti a ilha. Queres a ilha com a qual te iludas a viver uma vida em redondilhas...
Queres a ilha, dom em que te acudas da fúria deste mundo que te pilha a paz de estares por veredas mudas, longe do que se torna em armadilha...
A ilha, ó alma, te represa a vida que deve fluir a continente e mundo — quanto mais ampla mais descontraída...
Inventemos, lá em nós, um horizonte que nos liberte deste vale fundo — façamos de nós mesmos uma ponte. LA 11/003
Penas
Pena: a vida dura um tão nada e um osso cansa de sonhar na generosidade das entranhas da terra.
A gente luta, tem de lutar contra a morte a vida inteira. Tem de sofrer, moer-se, subir em pau-de-sebo, correr atrás e na frente... e ainda tem a obrigação de ser e fazer feliz.
Tem que ser calmo ter paciência um sorriso “bonito” simpatia no rosto engolir sapos e aleluias deixar pra lá achar bom se desculpar justificar e ser legal correto e mil e mil e perdoar a quem nos rouba e usa a nós mais o que temos e...
Pena que às vezes não dá pra cuidar da parte boa — um pouco de preguiça, daquilo que dá prazer ou simplesmente é agradável. Chorar pra quem, se o circo já foi embora e com ele aqueles enormes sapatos e a camisa de bolinhas?
E que trabalho, minha nossa! Que força doida não temos de fazer pra mãos amargas e mesquinhas(!) não depenarem nosso vôo... LA 11/003
Cenário
Outono-Inverno, as árvores estão com os dedos sem seus anéis... Vento levou sua biju... Ventania as descabelou, despiu e vibra violinos no arco de seu corpo... .............................................................. Desnudas, dançam, balançam sonhando — tornando possível a grife da primavera LA 11/003
Perda E Libertação
O repúdio, o abandono, a rejeição... Ou você morre ou vence, ou vence ou morre. Sozinho, já não tem quem o socorre — ou você vence ou morre: é sim ou não.
O repúdio, o abandono, a rejeição... podem levar ao fosso... e a eterno porre... Ao fosso depressivo, ou a uma torre... Você escolhe... Ou à autodestruição.
O repúdio, o abandono, a rejeição podem levá-lo ao choque-desapego: faz ocorrer que se descentre o ego...
E o Outro em você assume a posição: passa o filme, você elabora: entra em sossego — a perda se tornou libertação. LA 11/003
Mais Respeito, Mais Amor-Próprio, Caras!...
Quem decidiu pensar, sonhar por nós?Criticar, escolher por nós? Demos a alguém procuração?! Universidades e seus pós- também os temos, caras! Sim, inclusive aquelas e os do espírito... ............................................................................. Não já seria hora de quem julga deixar de ser bestão? Deixar a paranóia, a frustração... a neurose, a constipação? Sim: medicar-se, sentir-se bem — e só então dar-se ao trabalho? Ou ( por que não? ) mudar de profissão? E, importante: saber que suas fraudes, suas enfermidades-canalhices nós as guardamos para sempre? Sim: detestavelmente para sempre. Abominavelmente para sempre. É hora, caras, de descer das escadarias do céu... De jogar fora o que não presta em vocês e que, aliás, nem é seu... Sim: é hora de se ter bem mais cuidado: estudar pesquisar transler viver joeirar garimpar refazer reinventar... Sim: é hora de vertebrar o talento ou de ir para os diabos! Algo novo começa, caras! Com ou sem vocês. LA 11/003
Acharemos Atalhos...
Acharemos atalhos entre gentecom gente, entre pessoa com pessoa — trocas de sensos-sonhos, de repente feitos razões-delírios pela proa...
Acharemos veredas pela mente e coração do humano, em cara boa, a conversar no instante eternamente pelo fluir da vida que eis... revoa...
Cavaremos em nós sendeiros, trilhos, lá por dentro de sonhos, dons e brilhos que nem sabíamos trazer em nós...
E haveremos de ver, com as faces pasmas, que somos o fantasma dos fantasmas que já assombravam nossos pais e avós. LA 11/003
Só Pensamos No Estilo...
Só pensamos no estilo conhecido,descorado e já quase desumano — no estilo euro-norte-americano de pensar e sentir já induzido...
Um pensar programado e reduzido a pensar o pensado do auto-engano — um enganar-se à frente e atrás do pano: sonhar-sonhado em rumo dirigido...
Necessário buscar com outros povos outros dons e colombos e outros ovos bicando sonhos de outros céus no agora...
Necessário fundir os pensamentos com a sucata de velhos sentimentos e achar uma razão da cor da aurora. LA 11/003
Remissão
Mister remir o tempopelo tempo mais bem vivido. Saber que nos construímos com a matéria do hoje — o ponto de equilíbrio do Ser em sua estrada.
Mister remir a vida no que lhe demos de morte — vermo-nos criadores do nosso próprio destino, pois que entre a mão e o sonho só existe a distância de a coisa ganhar espaço.
Mister remir o humano: desvirá-lo, lá em nós, de seu sonhar de bruços: lembrá-lo de que uma Voz o chama ecoando nos seus passos — sim, uma Voz o chama nas varandas daquela Casa que ele traz dentro de si — e que habitá-la no dia-a-dia é caminhar pela Palavra que dá o sentido de viver. LA 11/003
Boas, Sempre Boas
Intenções que entram, mas deixam lá fora o rabo. Entram com boas maneiras, claro: se não, não entram. E se comportam. E exortam. Instigam. Encorajam. Sim, as intenções são sempre um empurrão, um fazer para ajudar... .............................................................. Intenções perfumadas e muito bem penteadas.
As minhas, as suas, as nossas — são sempre boas intenções, até prova em contrário... ou até nenhuma prova. As intenções se justificam. LA 11/003
Terror
O terror é horrívelporque vem sem avisar, e já está bem antes de todo aviso.
O terror é um cara que veio para ficar. Filho do fracasso social e da polivalente ignorância-maldade — o terror, vírus não-isolado, chacina de muitos, suicídio de alguns — o terror veio para ficar.
O corpo inteiro está doente — de cima-embaixo, de lado a lado. Terroristas e os que eles caçam são células enfermas, células que aumentam — doença terrível de nossos dias. E todos estão doentes: caçadores & caçados, caçados & caçadores, sim: se revezam em X. LA 11/003
Recíproca Alegria
O amor virtual será (quem sabe) eterno, desde que não ocorram apagões... Se se torna factual, o dociterno poderá dissolver-se em virações...
Amor de longe tem um quê de inverno- -vinho-lareira em reverberações... De muito perto, aquele quê de inferno — cobranças pícaras e coações...
O amor é bom enquanto vagabundo — não cobra ou deve: apenas até ama... Quanto mais raso tanto mais profundo.
O amor é bom enquanto autonomia de não se ter por fixa uma cama... mas se saber recíproca alegria. LA 11/003
Será Que...
Será que encontro uma nave no porto que me leve àquela terra onde serei tão feliz que toda infelicidade será pouca para tisnar minha ventura?
Será que te verei do outro lado de seres bela para me libertar dessa doença de me seres única?
Será que um dia, lá em nunca mais te ver, não recupero o meu tempo perdido? LA 11/003
Que Fazer Com Os Fantasmas...
Que fazer com os fantasmas interiores, a subir e a descer pelos porões? Tais criaturas, das quais somos criadores, se alimentam das nossas ilusões...
Jogos por dentro: sonhos de senhores ( reféns de si? ) ou sonhos-evasões dos que querem fazer-se vencedores de si mesmos, do meio e situações?...
Que fazer de ilusões-corpos-fantasmas a não ser entregá-los para a luz que lhes sorva os roubados ectoplasmas?...
Que fazer a não ser pastoreá-los até que a rosa ganhe a sua cruz e virem cavaleiros e cavalos?... LA 11/003
Aba-Pai!
Aba-Pai! nas alturas e funduras de sentir-Te nos poros do meu ser. O cosmo é um glória-a-Ti no aqui-lonjuras de notas-luzes a subir-descer...
Aba-Pai! no por dentro das criaturas e por fora de a graça acontecer. A vida é um canto em cujas partituras és sonho em flor lá em sentido-ser.
Aba-Pai! no pensar-Te-em-sentimento confluindo em sentir-Te-em-pensamento em razões-sensações de amar-Te e ver-Te...
Aba-Pai! no saber-Te em minha essência lá no jardim a abrir-me em consciência de conhecer-me em Ti e conhecer-Te. LA 11/003
Anoitecendo O Amor...
Anoitecendo o amor, resta o fantasma em forma de carência ou de saudade... Também a estrela morta ainda pasma com sua alma de luz e suavidade.
A luz é o fruto de uma atividade que já não é, o afeto é ectoplasma de alguém que fortalece a entidade — pois cada um se cria o seu fantasma...
que corre atrás de si e vice-versa, e esse cara não gosta de conversa — vê-lo de frente é o modo de solvê-lo...
Mas ele volta... e, novamente, temos de encará-lo e fazer-lhe do cabelo uma peruca em que nos disfarcemos... LA 11/003
Uma Nova Utopia
O mundo precisa urgente dos ardores e frescores ( monte azul visto ao longe azulizante... ) de uma nova utopia. Sim: dos cremes, dos sais, dos sonhos, dos delírios, dos tiques e chiliques de uma nova utopia — sob cujas varandas amarrar o burro da esperança, tomar uns goles, falar bobagens a sério, trabalhar, estudar, fazer-criar: loucura normal, coçar os mimos e sonhar o futuro.
O mundo está doente — um Hospital Global. Enfermo, o mundo está enfermo de Economia, e esta está blefando no pôquer ( muitas cartas na manga ), no pôquer com a democracia: dois “ias” que não “vão” porque são mentira e blefe — melhor: são os fantasmas de um sonho que já acordou e só deixou remela...
O mundo precisa urgente de um outro “ia” que o tire da apatia ( dessa chatice de morrer, desse tédio de matar ) — uma nova utopia, novo tesão que dê seu empurrão para viver mais uma bela ilusão — uma bobagem qualquer sublime, realidádiva que dê coceiras, calafrios no ventre e no espírito: uma invenção porreta, alguma coisa pai-d’égua, algum bogorodó da alma, em divinos tremeliques — estimulado ( quem sabe ) por um chip-cupido em tom fungo-vocal do tenor ao soprano... Algo tão bom, coisa tão boa, que ( no começo ) dê até disenteria de tão bom e diferente. ......................................................................... Vamos lá, mundão velho, — só uma nova utopia! Mas atenção: que dê pros lados de toda a gente e venha e siga pela via da alegria. LA 11/003
Coitado!
O amor? Escafedeu-se. Coitado! Não agüentou — tanto de um lado como de outro exigiram-lhe demais. Sim: muito demais da conta. Coitado! Debandou, desertou — foi fuzilado: normas da guerra...
O amor? Mas que amor?! LA 11/003
Sem Perder-Te
O equilíbrio é o melhor dos pontos. Só o deixes naquele vai-e-vem de apanhares a fruta... Tão-logo roubes o irreal, volta depressa para o chão. Sim: ousar é preciso, mas de ousadia em ousadia — sem perder-te de fazê-lo ou perder-te de não fazê-lo.
O equilíbrio é o descanso das asas... Mas assim que te refaças, ousa outra vez o salto para os lados do teu sonho.
Em todo ofício o meio-termo existe: o quase é bem humano... Só não existe a arte sem o ousar. LA 11/003
Osso Por Osso
Pensamentos coveirosadoram exumar. Montam lindos esqueletos: osso por osso — deliciosamente, osso por osso, habilidosamente, vértebra por vértebra.
Pensamentos coveiros adoram exumar o passado. Sim, exumam o cheiro alheio, enquanto o tempo com um sorriso cínico, charmosamente debochado ( ampulheta após ampulheta ) — o tempo vai enterrando os donos de tais pensamentos na vala dos duplamente mortos. LA 11/003
Acróstico
No imaginar você, Organizo o meu sonho no ar — Rosto de brisa e pétala, olhos Macios ( entre o céu e o mar...) Afagando distâncias entre quatro mãos...
Belo esse adivinhar, Esse montar uma imagem Resvalando no sonho — Ternura a despetalar-se Orvalhando lonjuras que sua voz vai Ligando e fazendo o Invisível ter um perfil — Nebuloso por fora e Iluminado no imaginar você. LA 15/10/003
Quem É Que Me Levou...
Quem é que me levou o que eu não tinha?Pois, se tivesse, não me levaria... Seu nome era Natárcia, era Maria, ou roxo arrulho, só, bem à tardinha?...
Não sei, não lembro... Parecia pinha que ao meu Natal já não enfeitaria... Sim, nenhuma alegria já traria, nem já seria nada que espezinha.
Já que eu não tinha, então não me levaram... Sim: tão-unicamente carregaram algo que era de quem o carregou...
Resta-me agradecer a quem levou o que não era meu, nem nunca foi. Tava mais pra andorinha que pra boi... LA 11/003
Diferença
Ser senhor ou escravoé o quanto podes. Sim: uma vítima da sorte, ou senhor do teu destino. A escolha é tua, e mora em teu fazer-criar.
Em teu querer-ousar fazes o ambiente. Sem o querer nem o ousar — serás “feito” por ele. Prestidigitador ou marionete — aqui está a diferença entre quem quer e age e a mente sem vontade.
A mente voluntária e ousada que observa atentamente o ritmo dos seres e das coisas e aprende a sincronizar seus passos com os degraus da vida — consegue transitar para cima e para baixo: construiu para si o seu saber ser livre entre as balizas da realidade. LA 11/003
Que As Saudades Arrulhem...
Que as saudades arrulhem cor de amora, mas tenham modos mais civilizados — não palitem os dentes nem ( na hora de dormir ) usem franjas ou babados...
O mugido da vaca já descora no lembrá-lo lá em tempos tresmalhados... Da vaca a mastigar azuis e prados junto à infância a correr longes-agora...
Parece que foi ontem... Ontem não: há pouco-pouco, estávamos sorrindo, alisando esperanças entre as mãos... ................................................................................... Graças a Deus que o lindo, quando findo, nos mostra que foi lindo por não ser mais que ter sido apenas não-saber. LA 11/003
Se Mostras...
Se mostras, este brim se me arrebenta... e o pano é caro, a calça é importada: pois vinda de Paris ou de Granada ou de outra qualquer terra nadeguenta....
Se me tocas, a roupa está suarenta, muitas vezes, quem sabe, até molhada... Com fome, vais comer macarronada — à maneira italiana: bem sangrenta.
Se bebes, vais beber do melhor vinho: em taças-seios com amora e espinho... até a tarde descer e enlouquecer...
Se queres, vais fungar a noite inteira até que fiques dura sobre a esteira — plugando o anoitecer no amanhecer... LA 11/003
Se Eu Lhe Beijasse A Alma...
Se eu lhe beijasse a alma àquela hora, iria me dizer que sou um bruxo... e isso me fora, Glória, um quase luxo que vivo, há muito tempo, a jogar fora...
Tenho bebido do licor da aurora que lhe brota das faces qual repuxo... Sim, ao beijá-la sinto esfriar-me o bucho e o brim que, cá embaixo, quase estoura.
Não podia beijá-la àquela hora... Agindo assim, você sempre me explora, fazendo ( mais que eu posso ) lhe pagar...
Não podia beijá-la àquele instante — podia arrebentar qualquer barbante... e cair a barraca de sonhar. LA 11/003
Angústia
Amor e morte têm seus conúbios: seus encontros a partir da 0h. E viva a morte. Ou melhor: Seja a morte eterna noite de constelado amor.
Sim, a morte sempre entre a mão e o sonho. Angústia deambulante ( lá por nós dentro ) que o ser leva consigo a espinhá-lo entre a carne e a consciência — a consciência feita carne.
A dor de saber. Os calafrios da esperança sustentada pela fé permeada pelo amor.
Constante? Só a angústia nos entrepassos que a vida ( jangada entre a fúria e a pedra ) quer conscientes.
Por mais que lembremos Cristo ter morrido uma morte vicária por nós — a nossa hora sem ponteiros dói como não saber rir: rir esse riso trans-coisa — rir até descentrar nosso ego dessa angústia que, por certo, Deuspai já tem nas mãos desde sempre. LA 11/003
Fio Do Conto...
Terás sonhos divinos no divã, e terás pesadelos dos diabos — te verás entre párias e nababos nessa noite que és, nessa manhã...
Lá por degraus, porões de ti, em sã ou doente consciência, entre farrapos de ações-tempo puxando mil fiapos de passado, presente e de amanhã...
Essas teias são tu e tua estrada que constróis com teus pés nessa jornada perpassada de vias esquecidas...
Da arca ( que tu és ) irás tirando coisas novas e velhas: adormidas... e achas o fio do conto e vais te achando... LA 11/003
Agosto
E esse vento nas árvores desnudas?( Outono, bocejando, as desfolhou. ) O vento musicando as horas mudas por caminho em que ainda não estou...
O vento, nessas horas sabichudas, diz coisas de que nunca conversou... e assovia suas canções carnudas no pinho em cuja agulha se espetou...
Clitoriando desejos cor de amora, afaga todo verde, toda a flora, e se vai, e relincha esverdeado...
Semeia o morno sêmen pelo prado e prepara, com suas mãos de cera, as novas coleções de primavera. LA 11/003
No Mesmo Copo...
Nos lábios tinha um ar de Mona Lisa, tinha no olhar um tom de halloween... Era assim minha trágica Marisa: lia Shakespeare, e ia lá pelos seus “teen”...
Eu? Sei lá quem eu era... Se soubesse, jamais escreveria um só verso: não teria problemas com o universo nem com este meu ser em sobe-desce...
Marisa era tranqüila como a rosa, eu, muito inquieto, assim como os espinhos... Marisa era feliz. Eu, uma glosa
de elegia ondeando em tom de pinhos com o vento soprando onnnnnnnsssssss... em verso e prosa... Tomávamos num copo dois caminhos... LA 11/003
Jamais Te Beijaria...
Jamais te beijaria, ó Mona Lisa, nem que tu me pedisses de joelho. Nem por dentro de um sonho por espelho ousaria transpor essa divisa,
essa libido a escorrer precisa nesse desprezo pelos homens: relho sobre o falo... e um zumbir de escaravelho num silêncio que sabe aonde pisa...
Esse sorriso-luz, por mais se esconda entre as sombras, é riso de quem sabe fazer do nada o dom de quase tudo.
Jamais te beijaria, ó Gioconda! Pois devo permitir que me desabe esse mistério que me é paz e escudo? LA 11/003
Aeróbia Musa
Ah, Musa, se te pego! Espera só! Tu andas inspirando o meu vizinho, — deixas-me só: jogado aqui sozinho e levas a outro o teu borogodó!
Um inverno inteirinho sem xodó!... Sim, putona! me negas teu carinho pra trocá-lo por mais um bocadinho de pano, endosso, brilho, pão, boró...
Pensando bem, sua putona, fazes bem em servires a muitos de uma vez... Diz o adágio: Tem um o que dois tem.
Sim, fazes muito bem, aeróbia Musa, saber de português, economês e do quadrado da hipotenusa. LA 11/003
Outros Tempos
Sentidos emaranhados, pensamentos inúteis: vaidade das vaidades com bobagens sublimes. Sinistras vaidades — um gargantear solerte e vagabundo. ....................................................... Cadê os homens que iriam mudar o mundo com o pensamento? Falavam lá, bem lá de cima das escadarias do céu. Sabiam tudo, respondiam a todas as perguntas, e formulavam outras — claro: bem mais profundas, e maiores: holístico-maiêuticas... Suas frases de efeito ainda ecoam na memória — enfermas e filosóficas, tentando garimpar até alguma poesia... Muitos deles blasonavam que isto, isso e Aquiles estavam mortos — inclusive, é claro, Deus. Sim, Deus estava morto. E explicavam a frase, e tão jeitosamente a explicavam, que mesmo os não-ateus acabavam entendendo sua profundidade. Tais homens fizeram maravilhas, seus livros ( e alguns deles ainda nas lides ) haverão de fazer muito mais nada: seus sentimentos enrodilhados ainda chocam nas charmosas cabecinhas muitos filhotes com a língua bífida... Um tempo bem arrogante. LA 11/003.
Vá Que Um Dia Meu Verso...
Vá que um dia meu verso se machuque, como é que então irei dispor de muque pra continuar a empurrar meus dias em direção a novas alegrias?
Se o pobre precisar usar muleta é bom que também use uma palheta para que o sol não lhe cozinhe essa, que às vezes tem um cérebro: a cabeça.
Que entre em gostosa ( então ) convalescença, tenha muita, muitíssima paciência até que fique além da conta bom —
e jamais se machuque novamente ( compre um barco e se dê como presente... ) e escreva, que escrever é orgasmo e dom. LA 11/003
O Cais Que Estava Ali...
O cais que estava ali, já não está... Mas deu certo... porque o meu navio partiu já faz bem tempo, foi na frente... antes, bem antes de eu o construir.
Tu te lembras ( ou não? ) do meu silêncio que te dizia que eu iria embora... e levaria, apenas levaria comigo nada ter para levar...
Te abraçava em palavras e no olhar sempre que tinhas frio ou tinhas medo: as noites demoravam a passar...
Depois soube que tinhas ido embora... Tinhas tomado aquele meu navio... Mal sabias que vinhas para mim... LA 11/003
Esta Brisa Indo E Vindo...
Essa brisa indo e vindo pela salatem o perfume bom de quando vinhas e iluminavas em um tom de opala essas varandas com o grená das pinhas...
A tua ausência e as saudades minhas é uma voz que descanta e logo cala... entre o aroma de sonhos que trescala pelos luares de maduras vinhas...
Tudo passou com tanta suavidade e ao mesmo tempo tal velocidade, que até se pode resumir num “oi!”
Uma saudade calma, uma saudade que olha linda, sorri e docidói... Saudade a saborear o que se foi... LA 11/003
Lembrança Pênsil
Solilóquio do tímido Espraiado —marulha na ternura de escutá-lo...Brisas, pássaros correm abraçá-loem vozes de um coral sinfonizado.
O vento ergue do chão velhos fantasmas que correm com seu corpo de poeira... Gargalha o joão-de-barro na mangueira... Ouça: os ramos ( sem folhas ) sofrem de asma...
Rendas de sombra pelo chão... A alma das coisas, com seu corpo de silêncio, espia... A brisa acena em cada palma...
Harpas eólias entre as ramas pandas de um sonho manco... uma lembrança pênsil: Você, fantasma a andar pelas varandas... LA 11/003
Estética Do Humano
Sim, são irmãos, você e o violino —uma estética só, uma estesia: tão bela como a rosa ao sol a pino, quanto as sombras se abrindo em novo dia.
Sua alma traz e guarda aquele tino que é mais que dom, um eco de poesia... Dom a passear descalço em chão divino — a correr orvalhado de ousadia...
uma vez que, sem ela, há o perder-se e com ela o ganhar-se em ser e ser-se: a vida é viagem dentro de outra viagem...
Por isso, pra fazer o caos em margem, é preciso que a prática do engano vá se tornando estética do humano. LA 11/003
Paciência!
Quanto mais se muda, amorzão, mais igual a gente fica. Quanto mais se conversa, menos se entende. Quanto mais se conhece, menos fica sabendo. A vida em volta da mesa dissolve muitas cadeiras...
Que fazer? Preferir made in China. O relacionamento “inflável” é uma solução pacífica, e barata... Mas qual a graça de fazer guerra só? Nada é perfeito.
O que faltava era aprender a amar o desamor — coisa que já se fazia, mas assim sem perceber: assim de lado, de modo quase inconsciente... Agora que se aprendeu que pra aprender primeiro a gente desaprende — agora, sim, minha cara, a gente vê que a vida tem soluções de baixo custo...
Desanime não, amiga, — a irrealidade é mesmo assim: sempre bem mais terrível que a realidade. Dê o braço a torcer não: quando não tem jeito de acertar — fica a incerteza pelo certo e o certo pelo provável, isto é: sem querer a gente acerta.
E tchau! que vou chegando. Tempo e gente (e vem chuva!...) não foram feitos pra se entender. Ainda bem. ........................................................... Coragem! E paciência! Daqui por diante — faremos tudo direitinho por entre as veredas tortas da vida. LA 11/003
Velhíssimo Tema
Lidando com o que vemos e não vemos, dispomos da fazenda e, fazendeiros, fazemos-desfazemos-refazemos — em feitos façanhudos e faceiros...
Semeamos, plantamos e nem temos em mente que seremos os ceifeiros de tudo o que deitamos nos canteiros... Plantamos, semeamos e esquecemos.
E fruímos: colhemos, vindimamos: os frutos da fazenda saboreamos — dádivas entre humanas e divinas... ..........................................................................
E aquele chão ali?... Olhamos com esforço: é pedra, é ponta, é espinho... E o vemos nosso. Tomara que estejamos de botinas! LA 11/003
Kafka E Borges
Lá na textura de sua alma, uma poesia constantemente dolorida, mas constante poesia. Uma ternura que respira ampla e tem uma beleza que olha de lado pra ser mais leve — sim: beleza-leveza, sonho aberto em flor — um perfume cósmico: uma carícia prévia, um acalanto anterior... Um magnetismo cheirando a amarelo e cinza — galvanizando o ambiente: um movimento para fora, tal como o lírio brota em setembro lá do fundo da terra para dizer em suas pétalas que veio da matéria escura...
Lá nos recôncavos de sua alma o vento desfolha dálias de três cores — e todas doloridas como a poesia que vem de lá — constantemente dolorida, mas constante poesia. LA 11/003
Lia E Raquel
Raquel não se importava... mas Lia amava Jacó. Preparava-lhe chás, chás de mandrágoras... e disputava com Raquel ( que era — ao contrário dela — mulher linda ) para deitar-se com ele.
Raquel tinha de lhe dar José... ( era a mulher do Destino ). Lia adorava dar-lhe amor ( era a mulher deliciosamente só mulher ). LA 11/003
Um Clique
De repente chegaa idade do não-dá-mais-tempo. Engraçado, a gente fica ubíquo — está aqui e igualmente lá... O aqui, que é um pouco, um resto, e o lá, que é infinito: um portal da ante-sala para a sala do nosso estarmos indo...
E como dói, quando a vida nos diz que não dá mais tempo! ( Percebemos, de lado, que ri de nossos planos...) Olhamo-nos por fora, por dentro, tateamo-nos... e sorrimos impotentes, impotentes e sem-graça — dolorosamente sem-graça. E entre aqui e lá a distância é um clique — o apagar de uma luz. LA 12/003
Ocupado
Sou o que compareceu na vésperae hoje se esqueceu de estar para falar das saudades de amanhã. Sou o que ( como a mulher que atende ) no momento está ocupado. Semelhante tal mulher, no momento não atendo porque estou atendendo ao que a vida quer de mim.
Leio-escrevo. Lendo, ouço. Escrevendo, falo. Escrevivendo, sou tadas as coisas. Sim: vou contando para mim o que já me contaram — mas não deu para entender... ( Quem quiser aproveite: essas coisas que conto para mim têm todos nós. Se não tiverem todos nós, a mim também não me têm. ) Quem quiser que aprenda que o essencial não se aprende a não ser consigo mesmo.
Que mais querem de quem não esteve na véspera? Se quiserem saber das coisas, indaguem ( ou leiam ) os donos do Circo. Eles lhes dirão inclusive o dia, a hora, o... em que Deus nasceu, bem como quando morreu — deixando o homem e a mulher em Seu lugar. LA 12/003
Erro/Acerto, Acerto/Erro
Erramos, minha Rosa. Erraremos até acertar. Depois de acertar — tornaremos a errar para — caprichando no erro — suplantar o anterior: acertar menos erradamente, errar mais acertadamente — até que acerto e erro virem degraus um do outro: as duas faces de um rosto, os dois lados de uma coisa que nem deveria ter lados... Sim: erraremos até o erro, cansado, mudar-se em algo que, provisóriamente, é acerto. ................................................................. Quem sabe um dia a gente não aprende a errar acertadamente? LA 12/003
Patético
Há uma culpa, Rosa, uma culpa original por estarmos vivos — que, aliás, morrer não faria menor, antes só nos livraria do prazer de carregá-la... E isto é o patético, ( Rosa! ) em lugar do poético. LA 12/003
Belo
O belo da beleza é que ela nem precisa ser bela — basta ser vista, sentida assim.
Mais belo que a beleza é a força que nos liberta da bela babaquice do belo.
O belo só é belo quando você o descobre assim: belo, que não exige argumento. Tem seu borogodó apoiado no sopro da existência. O mais, o mais é tomar assento ao lado desse caniço chamado estesia. LA 12/003
Noético
Poético é o patético ( do avesso ) com ares de dialético, um tanto cético e claro: nada ou pouco hermético — nem por isso cataplético, menos ainda apoplético, só um pouco diurético, nem por isso menos ético do que o menino céltico imolado dispéptico com um machado nada estético — após discurso ético. LA 12/003
Hora
Chão palmilhado pelos pés do engano: areias de um deserto a desdobrar-se sobre o lombo de um sonho tão humano suado de ilusões na calma face...
Hora a queimar de um fogo meridiano luciferando a alma a recordar-se: o Pai, a Casa, a Queda, o auto-engano... a verdade e a beleza em desenlace...
Hora de vasculhar com o pensamento a ventura rolada com o vento da luxúria a fazer os seus reféns...
Hora de ver a sorte em seus vaivéns... e com o Verbo, sua força e tino, escaparmos das mãos do cru destino. LA 12/003
Mais Uma Vez...
Mais uma vez Natal. Temos o pão e o vinho que o mundo não sabe fabricar. A videira verdadeira do Pai agricultor. A brancura candial do Verbo, o frumento da vida. Mais uma vez vêem Deus as nossas sensações. LA 12/003
Encontro
Dentro das eras, a vida programa para o humano encontros e encontros consigo: da pessoa consigo mesma. Todos os tempos, todos os acontecimentos e todas as experiências confluem para o tempo maduro, isto é: para o hoje — para onde-acontece esse auto-encontro.
Esse encontro consigo tem perturbado a sociedade, mas é preciso ( e cósmico ) que cada indivíduo veja a assombração que é nesse Teatro do Medo: Teatro de Si.
O inimigo não está fora, mas dentro em cada um: o inimigo é cada um... Os problemas não são do outro ou meu — estão atados por um fio escarlate entre o mim e o tu, entre o eu e o ele, entre nós e os outros. Sim: pensa-se que o perigo é o outro, mas se esquece de ver que os outros são todos os eus feitos outros. Claro: somos os outros de nós mesmos enquanto co-criadores de irrealidades que encaixamos a bico de botinas e a golpes de martelo por sobre a realidade.
Não é difícil verque o ser humano é hoje conclamado, de modo individual-global, para esse terrível encontro consigo. Terrível? Sim: nada é mais terrível do que enxergar que o crime que imputamos ao outro é igualmente nosso.
Aproveitando esses dias em que mais de dois bilhões de pessoas dizem ter suas vidas renascidas da morte Daquele Outro — que quis nos ser, talvez eu não me ofenda em me propor: Que tal a gente olhar para a gente mesmo, assim: de alto a baixo, da pele até às entranhas, e ver o que se finge não ser, isto é: ver-se o outro? Ver-se sem se assombrar, nem precisar correr... Sem recriminações gratuitas e safadas... ( Ver-se e não comentar com ninguém, pois no fim do comentário a gente se justificaria...) Ver-se e nunca mais esquecer o que se viu. E isto, não como reflexão nenhuma que alguém não possa ter — mas como iluminação que se adiava habilmente ( não se desejava o clique...), até que um momento não tem jeito: a luz se faz. .............................................................. E que dessa forma este nos seja um feliz Natal, tão feliz que já ninguém se lembre das palavras duras que eu disse para mim disfarçado de eu-tu — pois me sei o derradeiro a não poder apontar o dedo para o último dos homens — já que eu o sou e ele me é nessa sala de espelhos do humano coletivo no grande Teatro do Ser. LA 12/003
Gaaaaaaaaa!...
Enfio moedas entre os teus dedos, e o teu amor logo funciona, bonito, como um fliperama. Quando os teus dedos não sentem money, inteira te arrefeces — vais virando múmia fria e muda, até cheiras a sarcófago... Aí vou te injetando mais argent — e logo ressuscitas teu tesão em rotações e translações, gritinhos, fungos, gemidos virtuais, de provocar coriza e dores nos músculos do abdômen...
Mas sempre calculas bem... Antes de prensar as três jabuticabas, dás um “flip” em minhas costas e esperas com a mão em concha mais moedas: mais derrama — e tudo volta a ser um fliperama — em ciber-remelexos, siderchiliques nesse mundo de Matrix... E enfim: as uvas ( sem luvas ) — são prensadas em tiques ofegantes num orgasmo ga... sim, ga... bem ga... ga... ga... gaaaaaago! LA 12/003 Pão Molhado
Molho o pão secodo mundo na poesia. Minha avó me molhava na caneca o pão que comprava lá no Hugo. Aprendi com ela a fazer isso. Como já não tenho aquela caneca, molho esse pão na fé, na esperança, no amor — que ela me ativou aqui em alma-coração.
No silêncio desta sala molho o pão seco do mundo entre meu ler-escrever e lembrar minha infância — minha infância que aprendera com minha avó a molhar o pão da vida na alegria singela de conviver entre os que amamos. LA 12/003
Tanto Tempo
Faz tempo que você já não me vemfazer cantar a tarde e dar à rosa aquele plá que a faz bem mais charmosa — reflexo seu sobre ela em gesto além...
Tempo de graça, dom, tempo de bem entre nós e com a vida: verso e prosa... Tempo de desventura venturosa, tempo de paradoxo e calma zen...
Sim, tanto tempo faz que não me vinha, que não se lembraria da vizinha a cantar os seus hinos na varanda...
Você veio faz tanto, que não lembro se usavas uma estampa de urso panda... nem se era março, junho ou já dezembro... LA 12/003
Empada De Eros
Chato pra burro morrer. Pra burro? Desculpe: pra gente. Já pensou? Você ali, com aquele ar lambido, aquele desaire de quem não soube aonde enfiar a cara.
Aquele jeito sem-graça de quem estava em orgasmo e lhe acenderam a luz no rosto...
Chato pra burro é não ter capim. Chato pra gente é morrer.
Um desconforto dos diabos, morrer. Acho que é por isso que existe gente-bomba...
Chato pra burro, chato pra gente, chato pacas — morrer.
Pior que morrer é não ter degustado ( sem camisinha ) o viver. LA 12/003
Pedrosos
Há os que vão pe... las pe... dras...
Altas botinas, nem molham pés ou pernas. Vêm e vão pelas pedras. A mão de seus ancestrais é que lhes preparou essa via confortável. Vêm e vão pelas pedras. Desde muito e muito tempo, vêm e vão pelas pedras, e as vão mostrando e conservando para os filhos e netos e... Têm raízes, têm nome, têm Família — têm o caminho das pedras e — sobretudo — altas botinas. LA 12/003
Olhei Pela Janela...
Olhei pela janela e vi a vidaa marulhar por entre um mar de gente... Um charme, uma ventura enlouquecida, uma dança-ousadia reluzente...
E o coração, que não sentia, sente chiliques reais-virtuais em cada esquina... O amor, tomando a forma de serpente, sua peçonha injeta tão divina...
São delícias mortais tão venturosas, são doçuras letais tão nutrientes — tanto mais veras quanto mentirosas...
Loucuras tão fiéis quão displicentes, quanto mais belas tanto mais vaidosas, quanto mais cândidas mais impudentes. LA 12/003
(C)ONTOLOGIA
Se negas alguma coisa, é porque queres dizer que essa coisa existe. “Não há verdade”; “não existe amor”; não há paz”... Como “não há”? se estás falando “deles”? Os arquétipos da vida existirão para sempre — desde os seus primeiros até os últimos degraus.
Afirmar ou negar é apenas ritualizar a existência — conferindo-lhe força, continuidade e transcendência.
Melhor que afirmar ou negar será sempre esperar que o tempo desvire o que está do avesso. Cada geração conta o seu conto, dentro de um sem conta de contos, e cada coisa é um contar-se. Ser e universo precisam renarrar-se naquela grande Odisséia em que Ulisses é o Ser e Penélope o Tempo. LA 12/003
Adaptação
Agora, amada, que as estações enlouqueceram ( cheias de tiques e aflições ), o tempo operiza suas Isoldas em câmeras apressadas: cospe e chega com o vento em ritmos dementes lá por dias-estações... E o amor, até o amor tem orgasmos taimerizados pra não perder o avião.
Sim, amada, o amor já não pode gaguejar aqueles chiques chiliques na corola dos lençóis.
Saudades? Que esperança! Nem-só-uma. Se o amor perdeu em amor, ganhou logo em amoras: nunca a gente viu tantas — fiando seus sonhos cor de aurora entre casulos de seda. LA 12/003
Assim Com Calma...
Assim, com calma, amor, bem devagar —pega um grampinho e coça, coça em mim essa dor lá em alma: assim... assim!... Ai, que delícia, amor! dá pra gozar...
Coça a dor de existir, pra suportar essa dor virtual que ama quindim... acompanhado, é claro, de alfenim e licor de juá pra alevantar...
Assim, com calma, amor, cantando em grego, prega esse enferrujado e torto prego na parede e pendura a frigideira...
Ah! Vamos nos coçar a tarde inteira — até, amor, o quarto fazer bico... E a gente joga a Sena e um dia fica rico. LA 12/003
Normal-Normal
Amor para ser bom, amada, há que ser cômico, há que ter incursões pela tragédia e, sempre que possível, ser ridículo.
Sim: os dois lados de alguém ou de uma coisa, somados, hão de dar um natural ridículo — um ridículo normal.
O homem faria bem em assumir com orgulho o seu lado ridículo — aprenderia o humor, o riso e até a gargalhada: tão necessários ante as bobagens lustrosas do dia-a-dia e o bico fino das botinas do mundo.
O ridículo, amada, é sinal de que o amor vai bem. E a gente ( rindo ) agradece e ( gargalhando ) esquece. LA 12/003
Até O Meio-Dia...
Mais perigoso que viver —só viajar em cima do último vagão. A vida é graça nua e crua — jamais oferece essa coisa chamada segurança: pura infantilidade não-infantil...
A vida é como a rosa — eterna até o meio-dia.
Estar em perigo é o sorvete de todos os sabores sob o sol quente de viver, necessário ser bom de língua...
Sim: viver em segurança não seria interessante, nem desejável... Muitos o experimentam mas ( parece ) não ganham nada com isso...
Morrer é muito fácil. Difícil é o viver — é sua arte feita debaixo de fogo amigo e inimigo. .......................................................... O mais? É viável esperança de tomar café com bolinhos ( nas tardes de chuva fina ) lá na cozinha de Hermendarga. LA 12/003
Porque-Sim
Fizeram a maioria abdicar de exercer o direito de viver. Excluíram pobres e miseráveis. Excluíram porque-sim, e ponto final, e pronto-acabou. E nenhum pio, nenhum grasno.
Ao miserávelresta racionalizar... e a todos os mais — o desencantamento.
Mas ( como diria aquele tipo heróico ) nem tudo está perdido — só se desencanta quem já esteve encantado: se após um encanto nos vem um desencanto — o vice-versa disso também é verdadeiro. E a tal ponto, que tais alternâncias sabem ambas esperar com tranqüilidade e alegria pelo oposto do que está vivendo. De sorte que ser ou não ser é só uma maneira de se aprender a lidar com a vida — se é noite, daqui a pouco o sol virá; se é dia, logo teremos as estrelas com seus risonhos flertes a esbanjar ironias de distâncias...
Sim: aos miseráveis resta racionalizar: guri e guria fazendo escadinha pra chupar aquelas uvas que a raposa de La Fontaine dizia a si mesma que estavam verdes, dizia e queria acreditar... Guri e guria saboreando aquelas uvas que sabiam maduras ( porque cheiravam a doçuras ) e nunca acreditaram no que dizem as raposas nem os mais velhos. LA 12/003
Solidão/Pluridão
A solidão é quase um luxo. Quem não a tem à mão é até melhor não saiba o de que se ressente. Mesmo aquela que é rodeada de pessoas conversando com a gente — é coisa boa: mostra que o singular ( lá no fundo que não tem ) é bem igual ao plural ( que não sabe ser um ).
Solidão é seiva pra quem quer humanescer — fazer dela o ateliê de suas arborescências.
Solidão faz crescer e caminhar com liberdade: noção de si e do outro. Pluridão faz embolar: um só corpo teratológico, imoral e alienado. LA 12/003
Querem Que...
Querem nos ensinar o que fazer: de que modo, onde e quando o fazimento — virtual ou de pedra ou massa-vento, contanto que o fazer se deixe ser
tal como o catecismo do querer que impinge o Circo a um fazer no intento de ser feito segundo o aprazimento dos donos e notáveis do Exercer.
Querem que nossas mãos ( e com ternura ) se amoldem à nostálgica feitura de tradições cheirando a seus anais...
Querem que nossa voz, num santo berro, lhes aclame a áurea estátua do Bezerro que brunem entre flatos colossais. LA 12/003
Bom Não Buscar...
Bom não buscar o amor onde a ternura tomou o seu lugar e cobra menos. Adeus, ó cordas, penhas e venenos — amor já não se mata nem segura.
Bom não buscar o amor onde a doçura de sonhos ( em seus betacarotenos ) são fibras de sorrisos mais amenos — ruflar azul que o céu já não usura.
Bom não buscar o amor onde seu laço está bem mais pra forca, pra baraço que pensamento ou sonho em forma de asa...
Bom não buscar o amor que já não sabe que fazer do carvão que já foi brasa e sapato de pé que já não cabe. LA 12/003
Não-Escolha
Vou desmorrer de amor por Catarina, pois mudou-se pra cá a Joaninha — uma graça de pernas a menina... e além de tudo, mais real: vizinha.
Catarina tem seios de moranga... Os de Joaninha estão mais pra manga. Catarina tem bunda enluarada... A de Joaninha é bem entusiasmada.
Pensando bem, a minha Ká tem charme... A Jô também, mas não com aquele alarme que acorda o quarteirão naqueles saltos...
Quanto a sonhos, as duas os têm altos!... A Joaninha é quase que divina... e bem terrena é a doce Catarina. LA 12/003
Até Que Um Dia...
Esbarrei nas venturas de Rosinhae logo me fartei: barriga cheia — lombrigas satisfeitas, pois que tinha os olhos em tom mole de pós-ceia...
Fazia algumas luas não me vinha fartura assim tão lauta e de mão-cheia. Deram-me os céus andar por sua vinha — e vindimei bem pródigo e sem peia.
Degustamos luares venturosos, saboreamos venturas enluaradas... Cruzamos e parimos multigozos.
Até que um dia — as caras enfastiadas — olhamos um pro outro e nos dissemos: Vamos partir a estrada em dois extremos. LA 12/003
Do Diário De André
Quando eu a acariciava, de pé, um fluido arrepiante me chuviscava pelos dedos.
Quando eu a acariciava, deitados, a penumbra ( transida ) dava espirros de felicidade e a gente ficava que era só coriza.
Entre a fiozeira desencapada, a gente dava choques e quando fechava as pontas — dava curtos delirantes que aterravam dentro d’água... Sim: coisa de matar. LA 12/003
Gente-Marisco |