OS TRÊS LADOS DO RIO

 

última parte  ( Laerte Antonio )

 

Nosso Ver

 

O que é coerente e lógico

você não o contesta:

é coerente e lógico

dentro de uma ciência intuitivo-universal —

cujo sistema

e instrumental

lhe forneceram

para que num ato-contínuo da razão

tais tecidos científicos

se auto-regulem e alimentem

pleonasticamente por si mesmos lá em você —

isto é: você os sendo... e, sendo-os,

você e eles se são num todo

in-con-tes-tá-vel —

uma só carne-alma-espírito —

sem dar por isso ( nem de lado ),

pois isso é o seu pensar-pensado,

o seu sonhar-sonhado:

o seu viver-profetizado —

vivido antes de você nascer.

..................................................................................

De sorte que “eu” e “você”

precisam ver com olhos interiores

a realidade fabricada

e vista-revistada e revisada

bem antes de ter olhos

nosso ver.

LA 01/05

                

 

 

 

 

 

Será Que?...

 

E esse vento batendo à nossa porta,

lá fora a uivar ganindo como um cão?

Parece alma de princesa morta

clamando por seu príncipe fujão...

 

E esse frio que a carne desconforta

e faz gelar nariz e pé e mão?

Esse safado tem a cara torta —

nos corta o pique... menos o tesão.

 

E esse fogo a serpentear-lhe as pernas,

massageando-as com labaredas ternas —

que deu nele?... A lareira faz careta...

 

Enquanto nos crepita o fogo, amada,

será que nesta sala ensombreada

posso provar-lhe desta ameixa-preta?

LA 01/05

                 

 

 

 

 

 

Delícia

 

Delícia que é plantar caraminholas

e saboreá-las bem ao molho pardo,

tendo por sobremesa carambolas

entre eflúvios de anis, lavanda e nardo...

 

Delícia que é transar por sobre molas

num colchão a vibrar, sob seu fardo,

rabeca avoenga, violoncelo e violas...

até o galo cantar em timbre sardo...

 

Delícia que é fazer por não querer...

e ter em não fazer a graça infinda

de saber não saber o que fazer.

 

Delícia que é coçar sem ter coceira...

Viver devagarinho a vida inteira

e morrer ( sem saber ) coçando ainda...

LA 01/05

               

 

 

 

 

 

Entre Eqüínios

 

Lembras quando eras égua lá no Egito

e formavas comigo real parelha

puxando a Faraó o carro invicto

tanto na paz, na guerra em que se espelha?...

 

Lembras de meu relincho pontiagudo —

quando te via lá na pradaria,

minha mesopotâmica euforia

por teu marchar esguio e sabichudo?...

 

Lembras da fresca relva, a tenra alfafa

que degustávamos à beira Nilo —

tão boas de curar qualquer estafa?

 

“Mas como não lembrar, ó parte gêmea?!

Lembro, sim, desse tempo tão tranqüilo —

só não me lembro se era macho ou fêmea...”

LA 01/05

                   

 

 

 

 

 

Hoje?...

 

Quando moço, sabia; hoje, não sei.

Provável que amanhã tenha esquecido

de esquecer... e, já quase distraído,

encontre o que buscava: nexo e grei...

 

Jovem, sabia, sim, o amor e a lei,

bem como o desamor e o dom traído...

Construído-desconstruído-reconstruído —

o meu viver além de norma ou rei...

 

Sim: moço, eu não sabia que o saber

é tanto mais saber: sabedoria —

quanto mais pela graça é dado ver...

 

Hoje?... De pensamento em pensamento —

num viver que em si mesmo é aporia...

dentro do renovar do entendimento.

LA 01/05

           

 

 

 

 

 

Aprendi A Ciência...

 

Aprendi a ciência abominável

desse aprender que vem de não saber:

por isso mesmo menos responsável

por aquele que todos pensam ter.

Saber por inferência, de soslaio,

em ângulo-intuição com re-sonhar

outro flash e estalar do mesmo raio

que por tempos a um tempo ousou ousar.

E, ousado, transformou a própria doença

em re/trans/auto-realização —

eis tudo quanto faz a diferença

e dá ao sonho a personal feição.

       Bem melhor que o maior conhecimento

       é semear-se no próprio pensamento.

       LA 01/05

          

 

 

 

 

 

Há Os Que Passam Rapidinho,

Mas Deixam Suas Pegadas

 

               Abominavelmente inteligente,

os amigos a um tempo o ovacionavam

e entre belos sorrisos desejavam

vê-lo pros lados lá do etereamente...

 

Vê-lo enterrado, até grandiosamente,

com resenhas... discursos, — toleravam!

Bem melhor que sofrerem ( cavilavam )

o mal-estar de vê-lo com a gente...

 

Fizera uma ascensão meteorítica —

os velhos lhe engoliram, na política,

o riso, o sarro, as botas, a ironia...

 

Insuportavelmente astuto e franco,

nem precisou usar cabelo branco...

pra mostrar que era bom no que fazia.

LA 01/05

                

 

 

 

 

 

Cousa Bem À Parte

 

Há os que pactuaram com si mesmos sobre

não terem nada pra dizer e ouvir...

E não percebem quanto isso é pobre —

um deixar de brotar e de fluir...

 

Ficaram com a pátina do cobre,

com as sombras das pérolas de Ofir...

e têm em não fazer um ato nobre —

a glória em nada doar para o devir.

 

Mas escrevem: criticam e proíbem —

confundem os incautos: os inibem —

dizem que já morreu a história e a arte...

 

Mas fazem arte... ( e em sobretom nababo!...)

Seu raro dom é cousa bem à parte...

pois que sentem e pensam pelo rabo.

LA 01/05

        

 

 

 

 

 

Unção Que Glorifica

 

A alma erma,

o coração pelas areias —

o humano esvaziado

de si,

do mundo —

a pessoa em nós

enfeixa em si percepções

que se abrem em flor

para a Vida:

e o intercâmbio se dá —

já tornados uma só água

o interior e o exterior,

o um e o multiverso.

Nesse estado de infinito

pode ocorrer o insólito...

E as nossas sensações

conversam eternamente

com Deus —

numa visão holística

de todos os bilhões de partes

em nós.

Luz e sombra cantam

a unção que glorifica.

LA 01/05

       

 

 

 

 

 

Com Orvalhos Divinos

 

Telefone tocou:

uma chuva de florinhas....

Desliguei rapidinho.

Deixei teimar.

Não foi ela quem tocou —

ela não liga a cobrar.

Outra e outra vez gorjeou

( por vezes nosso ouvido

está romântico... )

Não foi ela quem tocou.

 

Ela foi viajar.

Isto é: disse que foi...

Quem supuser que não —

vá amolar o boi.

O que coração não sente

não faz doer o dente.

E o meu está tranqüilo —

alegre como um grilo

em dias de frio e chuva.

E chuva, serve pra que mesmo?

Pra não dormir,

gostosamente.

 

Telefone tornou,

deixei tocar.

Deu um concerto,

sinfonizou.

Quase estourou minha alegria.

Deixei berrar.

Se foi aquela que me disse

que ia viajar —

já foi muito bem ida:

isto é, alada, pela via

dos nefelibatas...

Vá com Deus e me volte

com as pernas no lugar.

E, claro! também a ... e os... e a... —

com todas as rosas nos pontos

triangulares: na frente —

três em cima, três embaixo.

No verso: três.

 

Enfim,

se ela foi ou não —

isso não dá prejuízo:

telefonei pra sua irmã mais nova

e ela cá está —

já me fez chá

e vai comigo para o quarto —

espantar os pernilongos...

......................................................................

E até que tudo,

tudo está adorável assim.

Quando ela voltar,

a irmã sai pela porta da frente

( pois tem o seu aval para me socorrer ),

abraça-a, beija-a, recebe o prêmio...

e se vai.

E fica tudo bom igual:

fico com a minha Zênite ( são gêmeas )

pensando na possibilidade

de logo-logo ter Zenite ( a irmã ) —

para companhias esporádicas...

Ambas muito boas: bom igual.

Só uma diferença entre as duas:

Zênite: é frenética. Zenite: flilosófica.

Juntando ( na memória )

os talentos das duas,

a gente curte deíficos mistérios

e os sumarentos arcanos

da melhor das mitologias.

 

Bom contar sempre com uma delas

( tendo as duas ) —

contar sempre com uma. Assim:

de duas, — uma.

De uma e outra, — duas.

Picos e vales: leite e mel

com orvalhos divinos.

LA 01/05

          

 

 

 

 

 

Pobre De Ti Se Pensas...

 

Pobre de ti se pensas que o outro tem

aquilo que te falta, e possa dar-te.

Só nô-lo dá o viver no firme encarte

de nos moldarmos entre aqui e além...

 

Não há caminho algum que te convém,

senão o que constróis em ti ( com arte ) —

é o que te falta e deves: boa parte

do que vieste buscar, — teu sonho e bem.

 

Tudo quanto buscamos é possível,

mas o seu núcleo é sempre intransferível —

pois é parte do nosso construir...

 

O pouco em nós, que temos a luzir,

é fruto de um querer feito visível

apenas no invisível do porvir.

LA 02/05

         

 

 

 

 

 

Velha Síndrome

 

Parem com isso!

Não façam mais.

Parem um pouco.

Estão fazendo muito,

muito demais —

por isso a vida não vai bem.

Nada vai indo bem —

não dá pra ver?

 

Sim, façam menos,

e terão feito mais.

Parem um pouco,

que andarão muito.

Sim, façam menos —

menos com menos

pode dar mais.

Respirem fundo —

e vejam-se fazendo!...

 

Façam bem menos,

e se der pra sentir,

se der para pensar —

sintam-pensem,

pensem-sintam

mais bem sintonizados,

bem angulados —

o suficiente

para que vejam

para onde estão indo

e o que é que estão fazendo...

 

Tchau, seus malandros honestos!

Seus cínicos honrados!

Canalhas doutorandos

e doutorados.

Não podemos nos ajudar

a tirar as nossas máscaras?

Tirando as minhas,

estarão tirando as suas...

e assim para atrás

de haver sempre outra detrás.

 

Tornamo-nos tão “espertos”,

que em toda a parte

só existe esperteza...

e a tal ponto que — espantados —

perguntamos:

E o que faremos com ela?!...

LA 02/05

         

 

 

 

 

 

Escravos Libertários

 

Há um tempo em que nos sentimos

bem livres

para ser infelizes.

Fazemos de nossa autonomia

um modo de explorar o mundo

e a nós mesmos.

Pior: confundimos isso

com liberdade —

essa coisa que toda a gente

jura saber o que é,

dá aulas sobre e...

enfim: sabem lidar com ela...

E vivem

tão livres,

que são escravos libertários

de um velho modo de ser.

LA 02/05

     

 

 

 

 

 

Nada Com Nada

 

Melhor que amigos

é sermos nada.

Já que nada com nada

pode ser tudo

dentro dessa dialética

mulher e homem.

 

Por isso é que lhe peço:

seja-me nada,

também lhe serei nada...

e o mais, o mais seja tudo —

todo o sonho que a nossa incompetência

( ou nosso fingir querer? )

não deixa se realizar.

Todos os laços,

cipós e juncos anteriores

que nos amarram ao poste

da nossa mísera abulia...

 

Sim: antes nada

( nada com nada )

que amigos...

...............................................................

O belo é a chama,

a chama viva —

aquela que devora o escuro...

Brasa e carvão

são restos de escombros —

não iluminam.

Pior: não queimam as palhas e bugalhos

para ajudar a sementeira

a germinar e florescer.

 

Nada com nada

pode ser tudo.

LA 02/05

                       

 

 

 

 

 

Nem Deixam Fazer Nem Entrar...

 

Se te prendes ao que foi dito,

ficas aluno sempre.

Claro que somos sempre discípulos —

mas do viver.

Claro que teremos sempre um mestre —

a Vida.

Temos que cavar de lado,

acima, abaixo —

descobrir outras margens

do rio que corre por nós...

Ultrapassar e nos ultrapassarmos —

deve ser a força-intuição

que havemos de gestar em nós.

Aprender rapidinho:

pegar o que nos falta —

estudar todos os grandes,

apreendê-los em síntese —

pegar o pássaro pelo vôo

e saber a intenção de suas rêmiges...

Desprezar ( em silêncio ) as alcatéias —

elas não fazem, não entram,

nem deixam fazer nem entrar.

Claro, há pessoas muito sérias

e honestas —

mas jamais sejamos escravos

de suas qualidades...

O que nos interessa nelas

é como escavam a mina

ou andam por dentro da luz...

 

Não seguir a nenhum crítico —

apenas saber o que disseram.

Nenhuma pressa.

Entre mortos e feridos

a necrópole e o hospital

acomodam a todos.

Nenhuma pressa.

Tolo, tolo demais é o homem

que não busca a alegria,

o bem-estar,

a paz —

e aprende a ser boa gente

para si mesmo.

Isto digo para ti,

que, antes de tudo, sou eu.                 

LA 02/05

       

 

 

 

 

 

Conte Até Três

 

Vai ficar aí jogado,

com esse tédio charmoso,

engordando a depressão

na cama?

Vai cavar seu buraco

antes do tempo,

a sua bela cova?

..................................................................

O sol lá fora está ardendo

como um danado —

e a vida tá que tá, meu caro:

é só tesão.

Vai deixar tudo isso para o padre,

para o vizinho,

para os amigos?

Vá beliscar o mundo, cara,

vá se coçar.

Vá trabalhar e degustar

as filhas deste mundo.

 

Deixe para morrer

naquele dia e hora

que você nem ninguém sabe.

Não te basta este mal, cara?

Quer torná-lo pior?

 

Você pode se erguer agora,

meu velho,

e de pé sobre este momento,

dentro da luz fresca deste hoje,

que acaba de ser feito,

você pode viver gostosamente

o “seu dia”.

 

Conte até três, meu caro,

e diga comigo:

Aqui vai um cara

que aprendeu que vitória

e fracasso

são dois belos impostores...

Um cara que decide, neste instante,

a não deixar que desengano

nenhum, nem prejuízo ou traição

o persuada a trocar a vida

pela morte.

Até porque ( não por acaso ) é filho e herdeiro

de Deuspai.

LA 02/05

        

 

 

 

 

 

Matéria E Fogo

 

Ante qualquer mister,

tarefa ou sonho —

necessário paixão.

 

Sem paixão, a matéria é fria —

não se transmuda,

nem a crisálida ganha asas

para abraçar-se com a luz.

 

Sem paixão, não dá liga,

impossível a fusão —

o um ser todos,

todos ser um.

O eu e o tu

ficam

entre um muro de vidro.

 

Sem paixão, o objeto e o sonho

não se encontram

num ponto-florescer.

 

Mister apaixonar-se —

fingir que vale a pena.

LA 02/05

                

 

 

 

 

 

Aventura

 

Respiro a paisagem pelo vê-la

filtrando-se por mim em vário crivo.

Assimilo anjo, cobra, mar, estrela —

o que vejo, imagino, penso e vivo.

 

Metabolizo a realidade ao vivo

e aquela repensada de trivela —

um rio a repassar numa aquarela

que eis... fotografa e deixa o negativo...

 

Ver transmuda: recicla o quanto fomos

lá por dias e sonhos de nós mesmos —

além de organizar o quanto somos.

 

E entre os olhos e o visto a criatura

se redescobre outros caminhos e esmos...

e percebe que o ver-se é uma aventura.

LA 02/05

              

 

 

 

 

 

Uma Menina

 

Joana, Filha de Vera, de Joaquina...

naqueles dias, Joana se vendia,

a preço de ocasião ( em cada esquina ),

a toda mão... suja de noite fria...

 

Comida ( pra comer ), essa menina

de uma beleza ainda nuela... ia

cumprindo insciente, não a sua sina,

mas a que a sociedade lhe sorria:

 

viver, sobreviver... o que pudesse...

sem saber distinguir um “cê” de um “esse”...

ou um tabefe ou cisne de um carinho...

 

Joana, filha de Vera, de Joaquina...

bebeu noites e tapas com o vinho

da vida...  e foi...  só foi uma menina.

LA 02/05

                 

 

 

 

 

 

Ah, Sim!...

 

Não transpareça a dor, senão no riso.

O tédio pouco exista. A nostalgia

seja apenas do instante que devia

ser vivido, mas que virou granizo...

 

O amor? Ah, sempre o amor: esse Narciso

que quer o capital e a mais-valia...

a não ver nada além de seu sorriso

e o corpo com um véu de poesia...

 

Mister cantar, dançar por sobre as águas...

( as nossas ) e o que toca ao desamor —

sabê-lo sempre um divisor de mágoas...

 

Saudades? Só daquelas a rigor —

as dos sonhos ainda não vividos...

e claro: todos eles coloridos.

LA 02/05

            

 

 

 

 

 

Um Bem, Um Mal

 

Sacerdotisa, oráculo e patuá,

seja a poesia um mal que faça bem.

Aquilo que se olha com desdém,

mas se anota no verso do crachá...

 

Seja a poesia um bem que faça mal —

produza anorexia à voraz mão

que leva o bolso, a calça, a instituição,

carreando para si o bem geral.

 

Mostre os moluscos e o rochedo... e dede,

não com visão de cisne, mas com olhar

caolho, o que anda ao lado da parede...

 

Seja a poesia um bem e um mal constantes —

qual procelária a dar os seus rasantes...

e criança a pôr no balde todo o mar...

LA 02/05

        

 

 

 

 

 

Síndrome De Bartleby

 

Há os que preferem não ao seu fazer.

A multidão dos “Bartlebies” diria

sua frase fatal: Preferiria

não o fazer... a ponto de esquecer

 

que já a dissera ( sem se arrepender )

toda vez que intimado à serventia...

pois já não traz em si nobre alegria

nada daquilo que se faz fazer...

 

Até as coisas que julgamos úteis:

“Quando fizerdes tudo o que devíeis,

dizei: Eis-nos aqui, servos inúteis.”(!)

 

( Ó vós! Sem o fazer, o que faríeis?...)

Bem que podia desaparecer

o nosso alegre e triste escreviver.

LA 01/05

              

 

 

 

 

 

Magno Sacrifício

 

Silêncio catastrófico desaba

dentro de nós no abismo desta hora.

Sobre as águas, um choro que uiva e chora,

anunciando um fim que não acaba...

 

Um silêncio terrível como a morte

que quer morrer mas que morrer não pode...

Sobre um pano, soldados lançam sorte...

Um sacerdote sacrifica um bode...

 

Um tilintar de moedas pelos ares

e o muxoxo de um ósculo perverso...

Um vento frio ruge seus pesares...

Algo desencarrila no Universo...

       A carne se liberta do cilício —

       o perdão vem de um Magno Sacrifício.

       LA 02/05

          

 

 

 

 

 

Mas Venha De Verão...

 

Quando você, do Carmo, se lembrar

que moro junto à flauta do Espraiado —

venha ouvir um pedaço musicado

de tarde com o vento a gorjear...

 

Mas venha de verão: a esvoaçar...

de salto e violão bem afinado —

à sombraluz de um sonho mosqueado,

com guizos nos artelhos a dançar...

 

Depois nos coçaremos  ( sem sapatos ),

você me tira, amor, os carrapatos

e corta aquela unha do dedão...

 

E depois de depois, me fará rir

com cócegas por toda a região...

e me balança e cansa até eu dormir.

LA 02/05

           

 

 

 

 

 

Tão Azulmente...

 

Segurando na mão das estações,

fomos nos desfolhando suavemente —

alegria de ser gente com gente,

um gozo a florescer nos corações...

 

Segurando na mão das estações,

o tempo nos levava sempre à frente...

Era o céu de um azul, tão azulmente...

que era tudo canções de sensações...

 

Era tudo canções em que esperanças

tomavam sol, brincando feito crianças

em águas de alegria, em águas de alegria...

 

Sim: um tempo de lindas ilusões

a nos cantar suas canções... e a gente ia

segurando na mão das estações.

LA 01/05

       

 

 

 

 

 

? & !

 

A dúvida

é a possibilidade

dentro do sonho.

 

A certeza —

o possível

dentro dos olhos.

 

Entre um e outro

flui o sêmen

da realidade.

LA 02/05

      

 

 

 

 

 

 Persona Heróica

 

Sejamos inexatos,

imperfeitos,

gostosamente inexatos

e imperfeitos —

e um pouco menos infelizes.

 

O mundo nos faz heróis,

depois nos mata —

injeta-nos coisas-condições

de ficarmos abobalhados...

de vivermos insculpidos...

e ( muitas vezes ) para sempre!

 

Sim, sejamos irrazoáveis,

insensatos —

sempre que virmos

que ele nos cobra

sua cínica seriedade,

sua capciosa coerência...

..........................................................

No mais,

sejamos perfeitos em tudo —

busquemos felicidades

um pouco menos infelizes.

LA 02/05

       

 

 

 

 

 

 

Três Tulipas 

 

Tudo quanto não se diz,

já por medo, já por pejo,

pelo muito do desejo —

faz isto a gente infeliz?

 

A tudo quanto não fiz

( se bem que até hoje o almejo...)

que fazer: chá de poejo,

e arnica na cicatriz?

 

Deixo tudo a se esquecer

no fundo de minhas tripas,

ou reorganizo o meu ser?

 

Ou retraço a minha vida —

digo-lhe a palavra crida

a enlaçar-lhe três tulipas?

LA 02/05

         

 

 

 

 

 

Espere Só Um Pouco...

 

Sabe quando você raspa

o fundo do tacho de suas forças?

Pois é, hoje estou assim.

 

Sabe quando está até às tampas

de ser herói de coisa nenhuma,

mas ser esse herói?!...

Pois é, sou esse herói de nadas,

a equilibrar-se em coisa alguma

por alpondras nenhumas

através de águas-nuvens —

sim: nadas que me livram

de ser engolido pelo mundo —

pelo tudo-nada.

 

Sabe quando você se jura

que não se mata

porque em matar-se

não acharia nada melhor

do que viver?

Pois é, hoje estou assim —

estou com essa força dialética,

com essa lucidez fisica

e metafísica

que me mostram que matar-me

seria, no mínimo, um mau negócio.

Prefiro o ócio,

o ócio em flor

das raparigas proustianas...

Mais vale um púbis macio

que uma fração mínima da idéia

de matar-me.

Embora esse tal púbis só exista na memória

material de já tê-lo tido um dia e à farta

( dentro do que a sociedade e a cultura pedem ) —

tê-lo tido é como se o tivesse

agora,

neste instante-agora —

metade de um pêssego bem maduro

com o sol a contrapelo...

Pois é, se isto for nada,

então posso dizer que tudo

são nadas

que dão sentido a tudo.

 

Sabe quando você se sente calmo,

tranqüilo, forte, alegre, completo —

metabolizando um gozo

no fígado e na alma?

Pois é, agora estou assim.

.............................................................................................

A beleza das coisas

é elas não durar.

Por isso não devíamos

dar importância ao estado delas,

ou melhor: aos nossos estados nas coisas.

Para nada ser tudo,

tudo ser nada —

espere só um pouco...

LA 02/05

        

 

 

 

 

 

É Isso Aí

 

É isso aí, minha Nega, —

morrendo sempre

e aprendendo de vez em quando.

Mas nem por isso!...

Cocemos os nossos baixos,

que os lá de cima não entendem

o mundo —

nem o mundo foi feito

pra se entender.

 

É isso aí, minha Nê, —

aprender muito o quê,

pra quê,

se no pouco que se aprendeu

já deu pra ver

que essa história de aprendiz

não tem nada com ser feliz?

 

É isso aí, minha Nega, —

é bom que a gente sossegue

e dê até graças a Deus —

pois se a vida é uma goiaba,

mesmo com bichos a temos,

mesmo bichada ela é nossa.

Sim, se a vida presta pouco,

imaginemos o resto!...

 

É isso aí, minha Nê, —

morrendo,

mas aprendendo.

E se viver

não é nenhuma garantia

de aprender —

a gente primeiro vive

e, se der tempo, diz:

Nunca aprendi a viver.

LA 02/05

         

 

 

 

 

 

Cada Uma!

 

Os metafísicos são pessoas

doentes de infinito.

Sentadas no colo de Deus,

procuram-No por caminhos

que nem Eu Sou conheceria

se pudesse não ser Eu Sou.

É por demais divertido

ler seus delírios-desvarios

e insanidades líricas...

exceto naquela hora

em que — entontecidos de si mesmos —

explicam-nos o Absoluto (!)

com uma paranóia deliciosa

( ia escrever deliciosíssima... ).

Sempre que os leio

saboreio de memória

aqueles heróicos orgasmos

das masturbações adolescentes.

O universo é sexo purinho:

purinho sexo.

Só não sei se precisa

ser macho e fêmea... ou ...

Cada uma, meu Deus!

Todos nós

sofremos um pouco de infinito.

LA 02/05            

 

               

 

 

 

 

Vamos!

 

Vamos,

que passa da hora.

Passa da hora de mudar.

Mudar eu e você,

aqueles com quem não se pode falar

e todos de todos os nomes.

 

Vamos,

que passa da hora.

Mudar o que já se mudara —

mudar de velhas

para novas mudanças —

mudar até acertar

os desacertos,

até endireitar caminhos

e veredas —

que foram dar em nuvens,

em nuvens que escondem mísseis

e o dinheiro que era dos outros.

 

Vamos,

que passa da hora.

Sim: antes que o mundo acabe —

o mundo acaba à toa-à toa...

é só acabar a paz e a ordem,

que o mundo acaba,

e não há um planeta habitável

para o qual possam voar

os mamíferos de luxo —

vão ter de ficar aqui:

entre o míssil, a faca, o cacete

e a bomba-humana...

 

Vamos,

que passa da hora.

O mundo está muito doente,

doente de ressentimento.

Vamos,

não filosofem não,

que não dá tempo

de “apurar” se tal ressentimento

é “legítimo” ou não.

Vamos,

que não demora,

chega uma hora

que é desora.

LA 02/05

          

 

 

 

 

 

Inex

 

Tem horas, Zefa,

que o ruim é bom

e o que não presta ajuda.

 

Quando se nasce com os fundos

virados para a lua —

até os amigos se mordem...

mas se virados pra outra coisa,

ai, Deuspai,

já ninguém inveja não!

 

A gente aprende

debaixo de paulada —

do amigo, do inimigo,

do santo, do safado,

do bom e do à-toa.

É tanta pancada, Zefa,

que a gente faz doutorado

bem antes de saber letras.

 

E reclamar pra quem?

Pro bispo que viajou?

Pro amigo que foi pescar?

Com quem pode não se brinca,

se brinca, sai chamuscado,

ou até... sabe Deus quê.

Cada bicho com sua espécie

( cada espécie com seu darwin

ou seu criacionista... ),

cada pessoa ( isto é importante! ),

cada pessoa em seu lugar —

os incluídos com os in,

os excluídos com os ex.

.................................................................

E tá tudo muito bom

( aleluia! )

praqueles pra quem tá bom.

Tem horas, Zefa,

que o ruim é bom

e o que não presta ajuda.

LA 02/05

               

 

 

 

 

 

Não Sei Por Que Amplas Águas...

 

Não sei por que amplas águas me navego

enfunado por sonhos que eis... adio...

para construir a nave em que me chego

bem antes de construí-la no alvedrio...

 

E me singro em abismos desse pego

tão mais profundo quanto fugidio —

a realidade irreal que afirmo e nego

conforme mostra ou vela o seu navio...

 

Entre sargaços e algas e corais

há sombras que revelam quem já fui

antes de eu me singrar para os florais...

 

Em quanto fui há sonhos em que flui

( por ígneas sensações ) a sensação

que mostra ( ao leme ) as mãos do Capitão...

LA 02/05

                    

 

 

 

 

 

Carteado

 

Nem linda, nem Inês. Ah, que cansaço!...

Era bela por dentro qual sarcófago...

e culta, como os membros do areópago...

Que cansaço!... Não sei se compro ou faço...

 

E boa, além da conta. Era um pedaço

de paraíso neste mundo sôfrego...

Andar celeste à frente de olhos trôpegos...

Que cansaço!... Não sei se jogo ou passo...

 

O marido nem lhe ligava: um traste...

deixava que outro lhe fizesse a parte...

Que cansaço!... Sou eu? Mas... já jogaste?!

 

— E o outro?

          — Caprichava: amor e arte!!!

              Um mulherão!... Bem, hoje, deu. Ah, que cansaço!...

              Que pernas!... Tchau! Conto amanhã mais um pedaço.

LA 02/05

         

 

 

 

 

 

Quem É Que Me Plantou...

 

Quem é que me plantou esta paisagem

que o vento faz asssoviar em mim?

E essa sede de azul, essa voragem

de onde me vêm em sua força e fim?

 

Lá em Deus fui buscar essa coragem

para ver-me num vórtice carmim —

o tempo a reciclar sua passagem

em caminhos de avessos em cetim...

 

Em caminhos por mim abrindo em ser...

e ser em ser-se: a vida essencializa

um transcender-se em outro transcender...

 

O tempo a ente-ser por fora e dentro

da criatura: sopro interno e brisa...

tendo o seu desdobrar-se como centro.

LA 02/05

               

 

 

 

 

 

Filogênese

 

Essa porção de sonho e realidade

é preciso incubá-la suavemente...

a fim de se tornar uma unidade

em que sonho e sonhado virem ente...

 

E essa duplicidade de repente

se vê, num dado instante, unicidade —

já transformada numa só vertente

a escoar-se, nova, em nova realidade...

 

De tal modo que o sonho e que o sonhado

sejam asas de um vôo a ser voado

sobre as estampas de um tapete persa...

 

E tudo assim: dentro de um vice-versa —

tudo o que o homem sonha Deus o quer...

e sonhar e querer se tornam ser.

LA 02/05

              

 

 

 

 

 

Estratégia

 

O chão não raramente fica liso,

e há escorregões

e quedas.

Inter-relacionar-se

por vezes vira bicho

que sapeca.

Querer consertar o desconserto

pode estragar bem mais.

É aí que não fazer é lucro

e não querer é toda a força.

Se persistirem

( aliás, são persistentes

os que nos querem desbancar... ),

mude de ângulo o corpo e a conversa —

olhe pra cima

e veja anjos...

e ao mesmo tempo, entre

em profundo coma auditivo.

Apenas veja e sorria...

ou procure meio assustado,

procure com os olhos

de onde é que vem

um pedido angustiado de socorro...

.......................................................................

Com o tirano —

passividade

e alienação.

O mais dá prejuízo.

LA 02/05

          

 

 

 

 

 

Soneto Para A Amada

 

Fantasma e não fantasma, eis o neutrino

que lhe atravessa e nem o sente, amada,

( milhões deles por hora ) — qual menino

brinca-lhe o corpo e a beija, não-beijada...

 

É matéria e energia esse caprino

que chispa e nem se vê: uma arretada

partícula a viajar sem ser notada —

atravessa e não toca... e haja tino!

 

Atravessa-a e nem vê, que nem o André

que a come com o olhar: um olho teso

a perfurá-la toda e que você nem vê...

 

Da minha parte, fico entre esses dois

( neutrino e André ): sim, olho-a com desprezo...

mas quero-a carne e osso, já e depois.

              LA 02/05

         

 

 

 

 

 

Nem Menos Belas...

 

As ilusões —

tão mais belas

quanto mais definitivamente

perdidas.

Um charme, um perfume,

nesse vazio e sombralume

a tremular...

nesse já não ser

a não ser nas lembranças

perdidamente belas

de as ter tido um dia

e agora ressuscitá-las —

recordá-las sem nostalgia

( aliás, com suave alegria )

enquanto saboreadas

na memória.

...............................................................

Perdidas?

Não: transmudadas —

desvestidas de corpo,

mas nem por isso menos reais,

menos táteis ao senti-las,

menos ao lado e companheiras —

lá por nós dentro entranhadas

em nós.

Nem menos belas

porque perdidas —

nem menos reais

porque achadas...

em outras formas-ser.

Sim: as ilusões perdidas,

as ilusões achadas

em outras gamas-ser

lá por veredas em nós —

viandantes do sonho-realidade,

anacoretas do mistério

que a vida faz circular

pelos caminhos do tempo,

do tempo multiaberto em flor.

LA 02/05

                 

 

 

 

 

 

Aspiração

 

Adoraria ser um saltimbanco,

ou nem isso, somente um vagabundo —

a não ter nada nem de honesto ou franco,

ser mais uma pessoa neste mundo,

 

cujo humor fosse um riso de tamanco...

Um cara nem tão burro, nem profundo...

Nem Mercedes, nem lata a urrar no tranco...

Nem tão limpinho, e nunca tão imundo...

 

Um bufo, um histrião, só um mambembe —

ou coisa bem mais brega: algo que lembre

o circo e seu patético arlequim...

 

Arlequim ou alguém muito mais pícaro

a degustar paçocas de amendoim

enquanto arrota e peida bem ridículo.

LA 02/05

           

 

 

 

 

 

Conexão

 

A vida

é muito mais que isto,

bem mais que aquilo

e Aquiles —

que morreu pelo estróina Páris,

e em morrendo, perdeu:

embora sem perder-se...

A vida

é aquele mais da nossa fé —

aquele mais que, se acionado,

faz mover aquelas águas

do tanque de Siloé...

O sonho amanha a realidade

e esta gera o possível.

O sonho-mais prepara a pessoa

para transcender a realidade

e transcender-se —

ser para além de si.

 

Somos seres da falta...

( da rejeição ) —

os rejeitados que rejeitam.

Vivemos para nos refazer,

e buscar o que nos falta —

e a essa falta

suprir,

e ultrapassá-la em nós.

 

Claro, a felicidade existe.

E você pode ser feliz.

Mas não se prenda só a ela —

dê mais valor aos degraus

que você tem de subir por si mesmo.

O homem precisa organizar-se

e aprender a ver a Deus

no seu senti-Lo,

conversar com Deuspai

no seu pensá-Lo e amá-Lo.

Chegar a si e ao Pai

pela conexão da fé —

a antecessora

do que vemos.

LA 02/05

         

 

 

 

 

 

As Criaturas Da Falta

 

Esses trapos de frases-pensamento

se agarram à ramagem outonal...

e desde sempre lembram dentre o vento

fantasmas a gemer de um velho mal...

 

São gemidos de um duplo sofrimento

que se espinham num denso pinheiral...

a correr de si mesmos num tormento

em que a sombra cavalga o seu gestual...

 

Nesse ulular de rubro sentimento

o pinheiral desfia o pensamento

desnovelando o vento em seus gemidos...

 

São angústias fugindo por estradas

de claro-escuro... Os gritos combalidos

das criaturas da falta: as rejeitadas.

LA 02/05

      

 

 

 

 

 

Vermelho-Uivante

 

Um corpo averonado,

ardendo em flor —

a desfolhar-se em si mesmo.

 

Buganvília vermelho-uivante,

pulando o muro —

um grito apache

mirando o sol

e a demarcar seu território

entre uma e duas da tarde.

 

Um tesão destrambelhado —

carruagem disparada

renteando precipícios...

Cara!?!

É pular,

ou sifur!

LA 02/05

                   

 

 

 

 

 

Cápsulas De Tempo

 

Fiz de palavras

em palavras

um edifício de tempo:

cápsulas de tempo,

e ali guardei-te

com jeito e arte —

a coma

de leãozinho...

Os olhos

cor de saudade...

O sorriso

rendado de ternuras

de avencas...

O riso

tilintante e niquelado...

O semblante:

lonjuras

entre o mar e gaivotas...

O pescoço

de garça

mergulhado na brisa castanha

dos teus cabelos...

Ombros e braços

despojados

lembrando outono-inverno...

Dois coelhos

curiosos

pelos desvãos do decote...

Cintura

de pinheiro novo

( Pinus elliottii ), acariciada

pelo vento...

Andar

esguio e longo,

as pernas bordando panos...

E quanto ao todo,

você toda —

uma rosa entre os lábios da vida...

Um sonho a transpirar o orvalho

de uma manhã que já desponta...

a convidar os girassóis

a olharem para você

e se esquecerem

de terem se esquecido...

LA 02/05

                

 

 

 

 

 

 Seres Da Falta

 

Somos seres da falta: os rejeitados

que igualmente rejeitam... Do Jardim

do Pai ao cônjuge e os seus gerados —

entre a mágoa, o desejo e a dor afim...

 

Somos seres da falta: os renegados,

os expulsos de um dom — não feito sim...

e tais vírus então introjetados

em toda a carne: o seu viver com fim.

 

Somos seres da falta: doravante,

sigamos com aquele Caminhante

que se doeu por nós e foi moído...

 

Somos filhos da falta: as ruínas todas

dos céus... Fiemos com os fios Dele o tecido

das nossas vestes crísticas das bodas...

LA 02/05

      

 

 

 

 

 

Impliquem Comigo Não, Malandros!

 

Faço soneto às vezes por preguiça:

caem-me os versos não raro já acabados —

a cheirar a bodum ou a melissa

e até a anis em gestos refinados...

 

Faço soneto como vou à missa —

tudo conciso, fatos consumados,

e algo que não se espera: flor que viça

em estação com os seus dons trocados...

 

Faço sonetos como alguém que adora,

não só fazer sonetos, mas também

fazer amor com a vizinha Dora...

 

que não tem esse nome, é claro, nem

é vizinha, mas que fazer soneto

é desvesti-la de seu longo preto...

LA 02/05

 

 

 

 

 

 

Para Um Crítico Que Chamou

Manoel De Barros De Engraçadinho

 

 

Tivesses outra coisa pra me dar

do que querer que eu leia a molambenta

da crítica que exerces: lazarenta

e invejosa, um moleque a punhetar...

 

Com a barriga e a bunda de polenta,

ficas o tempo todo a lecionar

o que deve ser dito e o que calar —

que topete, malandro!... Aliás, noventa

 

por cento do que escreves valem nada —

provém de uma cabeça deformada:

um ver caolho, fora de arrazoar...

 

Não entras, Fariseu, nem dás a entrar —

teclas mil vezes tecla já teclada...

Onde é que está o teu fazer-criar?!

LA 02/05

        

 

 

 

 

 

Livre De Si E Dos Deuses

 

Caminhamos

sempre à beira do vazio,

a inventar um sentido.

Tudo começou sem nós

e sem nós acabará.

Triste é o olhar

que sabe disso;

feliz o coração

que disso não depende.

Miseráveis os pés

cujo caminho

são as veredas de outros pés...

Benditas as asas da fé,

que constroem seu caminho

num tranqüilo além-visão...

Pobres dos mitos

e das linguagens

e dos símbolos

a guiarem os homens —

pois que tudo findará

quando o homem tiver feito

uma ponte de si mesmo.

Pobre Glória,

pobre Grandeza,

pobre Estilo,

pobre Poder —

o homem já não é

nenhum de vós.

Terá pois dado o salto

para além de sonhar-se

e reter-se tão pequeno...

O homem já não será

os seus apocalipses.

A flor de ser

abrir-se-á em ser-se —

o homem livre de si

e de todos os deuses.

LA 03/05

               

 

 

 

 

 

Prece

 

Quero falar Contigo, Senhor,

em minhas preces,

mas ouvir-Te não, meu Pai,

não quero ouvir-Te —

senão serei alguém muito doente...

Da mesma forma,

quero ser bom, Senhor,

quero ser bom,

mas sem saber que o sou —

para não correr o risco

de dizê-lo por mim mesmo

num rasgo de loucura...

.................................................................

Deuspai, livra-me sempre

da baixeza

como também me livra, ó Pai,

das pessoas que fazem de tudo

para parecerem boas e honestas.

A Tua graça nos assista —

a mim e a todos

que Te pedirem dela.

Em nome do Teu Filho.

LA 03/05

         

 

 

 

 

 

Dias De Não Saber

 

Como era azul esse pedaço!

Loucos gorjeios

eram esses quintais

ensombrados do charme

de belas jabuticabeiras.

E o vento,

o vento operizava lendas

que nenhum tímpano áulico

já ouvira.

 

Como era rico aquele tempo!

Aliás, não apenas rico,

mas rico e saboroso

de não saber.

De sorte que a gente até

podia ser feliz

sem depender de nenhuma

felicidade.

 

Andávamos alegres

pelas linhas tortas de Deus

como se fora

o mais reto dos caminhos.

Degustávamos a esperança

de cada dia

como se fora pão crocante —

nossa avó tinha o dom de ressuscitá-los

( os pães amanhecidos )

ao fogo de seu fogão de lenha...

 

Ah, como nosso não saber

fazia belos

aqueles tempos!

Se ficaram saudades,

por certo elas são a ternura

daqueles dias

de não saber.

LA 03/05

                

 

 

 

 

 

Conherrares

 

A realidade

é como o presidiário que se preza —

está sempre procurando escapar.

As coisas são-hoje; amanhã

elas serão-amanhã: o hoje de um ontem.

O conhecer será sempre aproximado —

a expansão do sujeito coletivo

em direção a seus objetos.

O Universo nunca se revelará

para a aparelhagem cognitiva do homem.

O conhecimento

é quanto podemos suportar.

O ato de conhecer é erro

que vai sendo retificado

com novos conherrares...

Mesmo em época em que se tem a ilusão

de caminhar a velocidades vertiginosas

( ou virtuais, como é o caso de nossos dias ),

o conhecer depende de nosso caminhar interior —

é paulatino e não se apressa,

apesar do auto-engano atual que criou

labirintos de informações multicruzadas,

dando a impressão ingênua de que mais nada,

mais nada existe para se aprender nem dizer,

para fazer nem criar. Mas não:

o que está havendo é aquele embolado

de mandruvás pretinhos e fedidos

( comedores de folhas cítricas ) —

que se locomovem num bolo...

uma noção coletiva embolada...

Nunca o indivíduo

foi tão pensado como hoje,

foi tão sonhado como hoje,

foi tão vivente de uma vida profetizada

como hoje —

nunca o homem foi tão passivo,

tão teleguiado como hoje...

E em contrapartida, nunca se sentiu

tão agente de sua liberdade...

Isto é: de sua ciberliberdade!

LA 03/05

                 

 

 

 

 

 

Impossível

 

Impossível não se molhar em suas

feminices... não saborear os sóis

de seu corpo, não degustar-lhe as luas...

e o vinho de seus duplos arrebóis...

 

Impossível não descalçar as luvas

e afagar devagar seus caracóis...

e lento-lento saborear-lhe as uvas

com você de sandálias nos lençóis...

 

Impossível não lhe dizer que tudo

vira uma gargalhada, sobretudo

quando lá não está o seu sorriso...

 

Impossível não ver que são eternas

as rosas... que desfolha de improviso

com o charme e o bordar de suas pernas...

LA 03/05

         

 

 

 

 

 

... que faz haver o infinito

 

A vida é um nada,

mas um nada bonito

que faz haver o infinito.

Os que a sentem

como um belo navegar —

estes estão sobre as águas

e ao leme de si mesmos...

Então, a vida

é um nada bem mais bonito

porque precioso finito......

Os que conseguem transformar

sua própria doença em realização,

e tornar seu realizar

em auto-realização...

então, a vida

é um nada que se torna tudo —

um tudo-nada tão bonito

quanto infinito.

LA 03/05

                

 

 

 

 

 

Feminezas

 

A vida é bela pelas estranhezas,

pelo seu lado sempre inapreensível —

seu visível que esbarra no invisível,

seus real irreal surreal e realezas...

 

Você também com suas feminezas

mostra de quem é filha em alto nível —

sim, é o poema mais intraduzível

que já se fez em surtos de grandezas...

 

Entre você, Mulher, você e a Vida,

qual é a mais difícil de entender,

ou mais fácil de ser compreendida?

 

Entre você, a rosa e o agudo espinho —

qual nos machuca mais para colher

os sonhos que molhamos em seu vinho?...

LA 03/05

        

 

 

 

 

 

No Princípio, Os Extremos

 

É preciso dizer que os piedosos

metabolizam Deus em sua fé

e que Deus quer o que eles sonham: pé

após pé realizam dons vistosos...

 

Por outro lado, observe os poderosos:

cheiram sua arrogância com rapé

e metralham o pobre, “a ralé”,

com chumbo serras flatos ruidosos...