OS TRÊS LADOS DO RIO
última parte ( Laerte Antonio )
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Nosso Ver
O que é coerente e lógico você não o contesta: é coerente e lógico dentro de uma ciência intuitivo-universal — cujo sistema e instrumental lhe forneceram para que num ato-contínuo da razão tais tecidos científicos se auto-regulem e alimentem pleonasticamente por si mesmos lá em você — isto é: você os sendo... e, sendo-os, você e eles se são num todo in-con-tes-tá-vel — uma só carne-alma-espírito — sem dar por isso ( nem de lado ), pois isso é o seu pensar-pensado, o seu sonhar-sonhado: o seu viver-profetizado — vivido antes de você nascer. .................................................................................. De sorte que “eu” e “você” precisam ver com olhos interiores a realidade fabricada e vista-revistada e revisada bem antes de ter olhos nosso ver. LA 01/05
Será Que?...
E esse vento batendo à nossa porta, lá fora a uivar ganindo como um cão? Parece alma de princesa morta clamando por seu príncipe fujão...
E esse frio que a carne desconforta e faz gelar nariz e pé e mão? Esse safado tem a cara torta — nos corta o pique... menos o tesão.
E esse fogo a serpentear-lhe as pernas, massageando-as com labaredas ternas — que deu nele?... A lareira faz careta...
Enquanto nos crepita o fogo, amada, será que nesta sala ensombreada posso provar-lhe desta ameixa-preta? LA 01/05 Delícia
Delícia que é plantar caraminholase saboreá-las bem ao molho pardo, tendo por sobremesa carambolas entre eflúvios de anis, lavanda e nardo...
Delícia que é transar por sobre molas num colchão a vibrar, sob seu fardo, rabeca avoenga, violoncelo e violas... até o galo cantar em timbre sardo...
Delícia que é fazer por não querer... e ter em não fazer a graça infinda de saber não saber o que fazer.
Delícia que é coçar sem ter coceira... Viver devagarinho a vida inteira e morrer ( sem saber ) coçando ainda... LA 01/05
Entre Eqüínios
Lembras quando eras égua lá no Egitoe formavas comigo real parelha puxando a Faraó o carro invicto tanto na paz, na guerra em que se espelha?...
Lembras de meu relincho pontiagudo — quando te via lá na pradaria, minha mesopotâmica euforia por teu marchar esguio e sabichudo?...
Lembras da fresca relva, a tenra alfafa que degustávamos à beira Nilo — tão boas de curar qualquer estafa?
“Mas como não lembrar, ó parte gêmea?! Lembro, sim, desse tempo tão tranqüilo — só não me lembro se era macho ou fêmea...” LA 01/05
Hoje?...
Quando moço, sabia; hoje, não sei. Provável que amanhã tenha esquecido de esquecer... e, já quase distraído, encontre o que buscava: nexo e grei...
Jovem, sabia, sim, o amor e a lei, bem como o desamor e o dom traído... Construído-desconstruído-reconstruído — o meu viver além de norma ou rei...
Sim: moço, eu não sabia que o saber é tanto mais saber: sabedoria — quanto mais pela graça é dado ver...
Hoje?... De pensamento em pensamento — num viver que em si mesmo é aporia... dentro do renovar do entendimento. LA 01/05
Aprendi A Ciência...
Aprendi a ciência abominável desse aprender que vem de não saber: por isso mesmo menos responsável por aquele que todos pensam ter. Saber por inferência, de soslaio, em ângulo-intuição com re-sonhar outro flash e estalar do mesmo raio que por tempos a um tempo ousou ousar. E, ousado, transformou a própria doença em re/trans/auto-realização — eis tudo quanto faz a diferença e dá ao sonho a personal feição. Bem melhor que o maior conhecimento é semear-se no próprio pensamento. LA 01/05
Há Os Que Passam Rapidinho, Mas Deixam Suas Pegadas
Abominavelmente inteligente, os amigos a um tempo o ovacionavam e entre belos sorrisos desejavam vê-lo pros lados lá do etereamente...
Vê-lo enterrado, até grandiosamente, com resenhas... discursos, — toleravam! Bem melhor que sofrerem ( cavilavam ) o mal-estar de vê-lo com a gente...
Fizera uma ascensão meteorítica — os velhos lhe engoliram, na política, o riso, o sarro, as botas, a ironia...
Insuportavelmente astuto e franco, nem precisou usar cabelo branco... pra mostrar que era bom no que fazia. LA 01/05
Cousa Bem À Parte
Há os que pactuaram com si mesmos sobrenão terem nada pra dizer e ouvir... E não percebem quanto isso é pobre — um deixar de brotar e de fluir...
Ficaram com a pátina do cobre, com as sombras das pérolas de Ofir... e têm em não fazer um ato nobre — a glória em nada doar para o devir.
Mas escrevem: criticam e proíbem — confundem os incautos: os inibem — dizem que já morreu a história e a arte...
Mas fazem arte... ( e em sobretom nababo!...) Seu raro dom é cousa bem à parte... pois que sentem e pensam pelo rabo. LA 01/05
Unção Que Glorifica
A alma erma, o coração pelas areias — o humano esvaziado de si, do mundo — a pessoa em nós enfeixa em si percepções que se abrem em flor para a Vida: e o intercâmbio se dá — já tornados uma só água o interior e o exterior, o um e o multiverso. Nesse estado de infinito pode ocorrer o insólito... E as nossas sensações conversam eternamente com Deus — numa visão holística de todos os bilhões de partes em nós. Luz e sombra cantam a unção que glorifica. LA 01/05 Com Orvalhos Divinos
Telefone tocou: uma chuva de florinhas.... Desliguei rapidinho. Deixei teimar. Não foi ela quem tocou — ela não liga a cobrar. Outra e outra vez gorjeou ( por vezes nosso ouvido está romântico... ) Não foi ela quem tocou.
Ela foi viajar. Isto é: disse que foi... Quem supuser que não — vá amolar o boi. O que coração não sente não faz doer o dente. E o meu está tranqüilo — alegre como um grilo em dias de frio e chuva. E chuva, serve pra que mesmo? Pra não dormir, gostosamente.
Telefone tornou, deixei tocar. Deu um concerto, sinfonizou. Quase estourou minha alegria. Deixei berrar. Se foi aquela que me disse que ia viajar — já foi muito bem ida: isto é, alada, pela via dos nefelibatas... Vá com Deus e me volte com as pernas no lugar. E, claro! também a ... e os... e a... — com todas as rosas nos pontos triangulares: na frente — três em cima, três embaixo. No verso: três.
Enfim, se ela foi ou não — isso não dá prejuízo: telefonei pra sua irmã mais nova e ela cá está — já me fez chá e vai comigo para o quarto — espantar os pernilongos... ...................................................................... E até que tudo, tudo está adorável assim. Quando ela voltar, a irmã sai pela porta da frente ( pois tem o seu aval para me socorrer ), abraça-a, beija-a, recebe o prêmio... e se vai. E fica tudo bom igual: fico com a minha Zênite ( são gêmeas ) pensando na possibilidade de logo-logo ter Zenite ( a irmã ) — para companhias esporádicas... Ambas muito boas: bom igual. Só uma diferença entre as duas: Zênite: é frenética. Zenite: flilosófica. Juntando ( na memória ) os talentos das duas, a gente curte deíficos mistérios e os sumarentos arcanos da melhor das mitologias.
Bom contar sempre com uma delas ( tendo as duas ) — contar sempre com uma. Assim: de duas, — uma. De uma e outra, — duas. Picos e vales: leite e mel com orvalhos divinos. LA 01/05
Pobre De Ti Se Pensas...
Pobre de ti se pensas que o outro tem aquilo que te falta, e possa dar-te. Só nô-lo dá o viver no firme encarte de nos moldarmos entre aqui e além...
Não há caminho algum que te convém, senão o que constróis em ti ( com arte ) — é o que te falta e deves: boa parte do que vieste buscar, — teu sonho e bem.
Tudo quanto buscamos é possível, mas o seu núcleo é sempre intransferível — pois é parte do nosso construir...
O pouco em nós, que temos a luzir, é fruto de um querer feito visível apenas no invisível do porvir. LA 02/05
Velha Síndrome
Parem com isso! Não façam mais. Parem um pouco. Estão fazendo muito, muito demais — por isso a vida não vai bem. Nada vai indo bem — não dá pra ver?
Sim, façam menos, e terão feito mais. Parem um pouco, que andarão muito. Sim, façam menos — menos com menos pode dar mais. Respirem fundo — e vejam-se fazendo!...
Façam bem menos, e se der pra sentir, se der para pensar — sintam-pensem, pensem-sintam mais bem sintonizados, bem angulados — o suficiente para que vejam para onde estão indo e o que é que estão fazendo...
Tchau, seus malandros honestos! Seus cínicos honrados! Canalhas doutorandos e doutorados. Não podemos nos ajudar a tirar as nossas máscaras? Tirando as minhas, estarão tirando as suas... e assim para atrás de haver sempre outra detrás.
Tornamo-nos tão “espertos”, que em toda a parte só existe esperteza... e a tal ponto que — espantados — perguntamos: E o que faremos com ela?!... LA 02/05
Escravos Libertários
Há um tempo em que nos sentimosbem livres para ser infelizes. Fazemos de nossa autonomia um modo de explorar o mundo e a nós mesmos. Pior: confundimos isso com liberdade — essa coisa que toda a gente jura saber o que é, dá aulas sobre e... enfim: sabem lidar com ela... E vivem tão livres, que são escravos libertários de um velho modo de ser. LA 02/05
Nada Com Nada
Melhor que amigosé sermos nada. Já que nada com nada pode ser tudo dentro dessa dialética mulher e homem.
Por isso é que lhe peço: seja-me nada, também lhe serei nada... e o mais, o mais seja tudo — todo o sonho que a nossa incompetência ( ou nosso fingir querer? ) não deixa se realizar. Todos os laços, cipós e juncos anteriores que nos amarram ao poste da nossa mísera abulia...
Sim: antes nada ( nada com nada ) que amigos... ............................................................... O belo é a chama, a chama viva — aquela que devora o escuro... Brasa e carvão são restos de escombros — não iluminam. Pior: não queimam as palhas e bugalhos para ajudar a sementeira a germinar e florescer.
Nada com nada pode ser tudo. LA 02/05
Nem Deixam Fazer Nem Entrar...
Se te prendes ao que foi dito, ficas aluno sempre. Claro que somos sempre discípulos — mas do viver. Claro que teremos sempre um mestre — a Vida. Temos que cavar de lado, acima, abaixo — descobrir outras margens do rio que corre por nós... Ultrapassar e nos ultrapassarmos — deve ser a força-intuição que havemos de gestar em nós. Aprender rapidinho: pegar o que nos falta — estudar todos os grandes, apreendê-los em síntese — pegar o pássaro pelo vôo e saber a intenção de suas rêmiges... Desprezar ( em silêncio ) as alcatéias — elas não fazem, não entram, nem deixam fazer nem entrar. Claro, há pessoas muito sérias e honestas — mas jamais sejamos escravos de suas qualidades... O que nos interessa nelas é como escavam a mina ou andam por dentro da luz...
Não seguir a nenhum crítico — apenas saber o que disseram. Nenhuma pressa. Entre mortos e feridos a necrópole e o hospital acomodam a todos. Nenhuma pressa. Tolo, tolo demais é o homem que não busca a alegria, o bem-estar, a paz — e aprende a ser boa gente para si mesmo. Isto digo para ti, que, antes de tudo, sou eu. LA 02/05 Conte Até Três
Vai ficar aí jogado, com esse tédio charmoso, engordando a depressão na cama? Vai cavar seu buraco antes do tempo, a sua bela cova? .................................................................. O sol lá fora está ardendo como um danado — e a vida tá que tá, meu caro: é só tesão. Vai deixar tudo isso para o padre, para o vizinho, para os amigos? Vá beliscar o mundo, cara, vá se coçar. Vá trabalhar e degustar as filhas deste mundo.
Deixe para morrer naquele dia e hora que você nem ninguém sabe. Não te basta este mal, cara? Quer torná-lo pior?
Você pode se erguer agora, meu velho, e de pé sobre este momento, dentro da luz fresca deste hoje, que acaba de ser feito, você pode viver gostosamente o “seu dia”.
Conte até três, meu caro, e diga comigo: Aqui vai um cara que aprendeu que vitória e fracasso são dois belos impostores... Um cara que decide, neste instante, a não deixar que desengano nenhum, nem prejuízo ou traição o persuada a trocar a vida pela morte. Até porque ( não por acaso ) é filho e herdeiro de Deuspai. LA 02/05
Matéria E Fogo
Ante qualquer mister, tarefa ou sonho — necessário paixão.
Sem paixão, a matéria é fria — não se transmuda, nem a crisálida ganha asas para abraçar-se com a luz.
Sem paixão, não dá liga, impossível a fusão — o um ser todos, todos ser um. O eu e o tu ficam entre um muro de vidro.
Sem paixão, o objeto e o sonho não se encontram num ponto-florescer.
Mister apaixonar-se — fingir que vale a pena. LA 02/05
Aventura
Respiro a paisagem pelo vê-la filtrando-se por mim em vário crivo. Assimilo anjo, cobra, mar, estrela — o que vejo, imagino, penso e vivo.
Metabolizo a realidade ao vivo e aquela repensada de trivela — um rio a repassar numa aquarela que eis... fotografa e deixa o negativo...
Ver transmuda: recicla o quanto fomos lá por dias e sonhos de nós mesmos — além de organizar o quanto somos.
E entre os olhos e o visto a criatura se redescobre outros caminhos e esmos... e percebe que o ver-se é uma aventura. LA 02/05 Uma Menina
Joana, Filha de Vera, de Joaquina... naqueles dias, Joana se vendia, a preço de ocasião ( em cada esquina ), a toda mão... suja de noite fria...
Comida ( pra comer ), essa menina de uma beleza ainda nuela... ia cumprindo insciente, não a sua sina, mas a que a sociedade lhe sorria:
viver, sobreviver... o que pudesse... sem saber distinguir um “cê” de um “esse”... ou um tabefe ou cisne de um carinho...
Joana, filha de Vera, de Joaquina... bebeu noites e tapas com o vinho da vida... e foi... só foi uma menina. LA 02/05
Ah, Sim!...
Não transpareça a dor, senão no riso. O tédio pouco exista. A nostalgia seja apenas do instante que devia ser vivido, mas que virou granizo...
O amor? Ah, sempre o amor: esse Narciso que quer o capital e a mais-valia... a não ver nada além de seu sorriso e o corpo com um véu de poesia...
Mister cantar, dançar por sobre as águas... ( as nossas ) e o que toca ao desamor — sabê-lo sempre um divisor de mágoas...
Saudades? Só daquelas a rigor — as dos sonhos ainda não vividos... e claro: todos eles coloridos. LA 02/05 Um Bem, Um Mal
Sacerdotisa, oráculo e patuá, seja a poesia um mal que faça bem. Aquilo que se olha com desdém, mas se anota no verso do crachá...
Seja a poesia um bem que faça mal — produza anorexia à voraz mão que leva o bolso, a calça, a instituição, carreando para si o bem geral.
Mostre os moluscos e o rochedo... e dede, não com visão de cisne, mas com olhar caolho, o que anda ao lado da parede...
Seja a poesia um bem e um mal constantes — qual procelária a dar os seus rasantes... e criança a pôr no balde todo o mar... LA 02/05
Síndrome De Bartleby
Há os que preferem não ao seu fazer. A multidão dos “Bartlebies” diria sua frase fatal: Preferiria não o fazer... a ponto de esquecer
que já a dissera ( sem se arrepender ) toda vez que intimado à serventia... pois já não traz em si nobre alegria nada daquilo que se faz fazer...
Até as coisas que julgamos úteis: “Quando fizerdes tudo o que devíeis, dizei: Eis-nos aqui, servos inúteis.”(!)
( Ó vós! Sem o fazer, o que faríeis?...) Bem que podia desaparecer o nosso alegre e triste escreviver. LA 01/05 Magno Sacrifício
Silêncio catastrófico desaba dentro de nós no abismo desta hora. Sobre as águas, um choro que uiva e chora, anunciando um fim que não acaba...
Um silêncio terrível como a morte que quer morrer mas que morrer não pode... Sobre um pano, soldados lançam sorte... Um sacerdote sacrifica um bode...
Um tilintar de moedas pelos ares e o muxoxo de um ósculo perverso... Um vento frio ruge seus pesares... Algo desencarrila no Universo... A carne se liberta do cilício — o perdão vem de um Magno Sacrifício. LA 02/05
Mas Venha De Verão...
Quando você, do Carmo, se lembrarque moro junto à flauta do Espraiado — venha ouvir um pedaço musicado de tarde com o vento a gorjear...
Mas venha de verão: a esvoaçar... de salto e violão bem afinado — à sombraluz de um sonho mosqueado, com guizos nos artelhos a dançar...
Depois nos coçaremos ( sem sapatos ), você me tira, amor, os carrapatos e corta aquela unha do dedão...
E depois de depois, me fará rir com cócegas por toda a região... e me balança e cansa até eu dormir. LA 02/05
Tão Azulmente...
Segurando na mão das estações, fomos nos desfolhando suavemente — alegria de ser gente com gente, um gozo a florescer nos corações...
Segurando na mão das estações, o tempo nos levava sempre à frente... Era o céu de um azul, tão azulmente... que era tudo canções de sensações...
Era tudo canções em que esperanças tomavam sol, brincando feito crianças em águas de alegria, em águas de alegria...
Sim: um tempo de lindas ilusões a nos cantar suas canções... e a gente ia segurando na mão das estações. LA 01/05
? & !
A dúvida é a possibilidade dentro do sonho.
A certeza — o possível dentro dos olhos.
Entre um e outro flui o sêmen da realidade. LA 02/05
Persona Heróica
Sejamos inexatos, imperfeitos, gostosamente inexatos e imperfeitos — e um pouco menos infelizes.
O mundo nos faz heróis, depois nos mata — injeta-nos coisas-condições de ficarmos abobalhados... de vivermos insculpidos... e ( muitas vezes ) para sempre!
Sim, sejamos irrazoáveis, insensatos — sempre que virmos que ele nos cobra sua cínica seriedade, sua capciosa coerência... .......................................................... No mais, sejamos perfeitos em tudo — busquemos felicidades um pouco menos infelizes. LA 02/05
Três Tulipas
Tudo quanto não se diz, já por medo, já por pejo, pelo muito do desejo — faz isto a gente infeliz?
A tudo quanto não fiz ( se bem que até hoje o almejo...) que fazer: chá de poejo, e arnica na cicatriz?
Deixo tudo a se esquecer no fundo de minhas tripas, ou reorganizo o meu ser?
Ou retraço a minha vida — digo-lhe a palavra crida a enlaçar-lhe três tulipas? LA 02/05 Espere Só Um Pouco...
Sabe quando você raspa o fundo do tacho de suas forças? Pois é, hoje estou assim.
Sabe quando está até às tampas de ser herói de coisa nenhuma, mas ser esse herói?!... Pois é, sou esse herói de nadas, a equilibrar-se em coisa alguma por alpondras nenhumas através de águas-nuvens — sim: nadas que me livram de ser engolido pelo mundo — pelo tudo-nada.
Sabe quando você se jura que não se mata porque em matar-se não acharia nada melhor do que viver? Pois é, hoje estou assim — estou com essa força dialética, com essa lucidez fisica e metafísica que me mostram que matar-me seria, no mínimo, um mau negócio. Prefiro o ócio, o ócio em flor das raparigas proustianas... Mais vale um púbis macio que uma fração mínima da idéia de matar-me. Embora esse tal púbis só exista na memória material de já tê-lo tido um dia e à farta ( dentro do que a sociedade e a cultura pedem ) — tê-lo tido é como se o tivesse agora, neste instante-agora — metade de um pêssego bem maduro com o sol a contrapelo... Pois é, se isto for nada, então posso dizer que tudo são nadas que dão sentido a tudo.
Sabe quando você se sente calmo, tranqüilo, forte, alegre, completo — metabolizando um gozo no fígado e na alma? Pois é, agora estou assim. ............................................................................................. A beleza das coisas é elas não durar. Por isso não devíamos dar importância ao estado delas, ou melhor: aos nossos estados nas coisas. Para nada ser tudo, tudo ser nada — espere só um pouco... LA 02/05
É Isso Aí
É isso aí, minha Nega, —morrendo sempre e aprendendo de vez em quando. Mas nem por isso!... Cocemos os nossos baixos, que os lá de cima não entendem o mundo — nem o mundo foi feito pra se entender.
É isso aí, minha Nê, — aprender muito o quê, pra quê, se no pouco que se aprendeu já deu pra ver que essa história de aprendiz não tem nada com ser feliz?
É isso aí, minha Nega, — é bom que a gente sossegue e dê até graças a Deus — pois se a vida é uma goiaba, mesmo com bichos a temos, mesmo bichada ela é nossa. Sim, se a vida presta pouco, imaginemos o resto!...
É isso aí, minha Nê, — morrendo, mas aprendendo. E se viver não é nenhuma garantia de aprender — a gente primeiro vive e, se der tempo, diz: Nunca aprendi a viver. LA 02/05
Cada Uma!
Os metafísicos são pessoasdoentes de infinito. Sentadas no colo de Deus, procuram-No por caminhos que nem Eu Sou conheceria se pudesse não ser Eu Sou. É por demais divertido ler seus delírios-desvarios e insanidades líricas... exceto naquela hora em que — entontecidos de si mesmos — explicam-nos o Absoluto (!) com uma paranóia deliciosa ( ia escrever deliciosíssima... ). Sempre que os leio saboreio de memória aqueles heróicos orgasmos das masturbações adolescentes. O universo é sexo purinho: purinho sexo. Só não sei se precisa ser macho e fêmea... ou ... Cada uma, meu Deus! Todos nós sofremos um pouco de infinito. LA 02/05
Vamos!
Vamos, que passa da hora. Passa da hora de mudar. Mudar eu e você, aqueles com quem não se pode falar e todos de todos os nomes.
Vamos, que passa da hora. Mudar o que já se mudara — mudar de velhas para novas mudanças — mudar até acertar os desacertos, até endireitar caminhos e veredas — que foram dar em nuvens, em nuvens que escondem mísseis e o dinheiro que era dos outros.
Vamos, que passa da hora. Sim: antes que o mundo acabe — o mundo acaba à toa-à toa... é só acabar a paz e a ordem, que o mundo acaba, e não há um planeta habitável para o qual possam voar os mamíferos de luxo — vão ter de ficar aqui: entre o míssil, a faca, o cacete e a bomba-humana...
Vamos, que passa da hora. O mundo está muito doente, doente de ressentimento. Vamos, não filosofem não, que não dá tempo de “apurar” se tal ressentimento é “legítimo” ou não. Vamos, que não demora, chega uma hora que é desora. LA 02/05
Inex
Tem horas, Zefa, que o ruim é bom e o que não presta ajuda.
Quando se nasce com os fundos virados para a lua — até os amigos se mordem... mas se virados pra outra coisa, ai, Deuspai, já ninguém inveja não!
A gente aprende debaixo de paulada — do amigo, do inimigo, do santo, do safado, do bom e do à-toa. É tanta pancada, Zefa, que a gente faz doutorado bem antes de saber letras.
E reclamar pra quem? Pro bispo que viajou? Pro amigo que foi pescar? Com quem pode não se brinca, se brinca, sai chamuscado, ou até... sabe Deus quê. Cada bicho com sua espécie ( cada espécie com seu darwin ou seu criacionista... ), cada pessoa ( isto é importante! ), cada pessoa em seu lugar — os incluídos com os in, os excluídos com os ex. ................................................................. E tá tudo muito bom ( aleluia! ) praqueles pra quem tá bom. Tem horas, Zefa, que o ruim é bom e o que não presta ajuda. LA 02/05
Não Sei Por Que Amplas Águas...
Não sei por que amplas águas me navegoenfunado por sonhos que eis... adio... para construir a nave em que me chego bem antes de construí-la no alvedrio...
E me singro em abismos desse pego tão mais profundo quanto fugidio — a realidade irreal que afirmo e nego conforme mostra ou vela o seu navio...
Entre sargaços e algas e corais há sombras que revelam quem já fui antes de eu me singrar para os florais...
Em quanto fui há sonhos em que flui ( por ígneas sensações ) a sensação que mostra ( ao leme ) as mãos do Capitão... LA 02/05
Carteado
Nem linda, nem Inês. Ah, que cansaço!... Era bela por dentro qual sarcófago... e culta, como os membros do areópago... Que cansaço!... Não sei se compro ou faço...
E boa, além da conta. Era um pedaço de paraíso neste mundo sôfrego... Andar celeste à frente de olhos trôpegos... Que cansaço!... Não sei se jogo ou passo...
O marido nem lhe ligava: um traste... deixava que outro lhe fizesse a parte... Que cansaço!... Sou eu? Mas... já jogaste?!
— E o outro? — Caprichava: amor e arte!!! Um mulherão!... Bem, hoje, deu. Ah, que cansaço!... Que pernas!... Tchau! Conto amanhã mais um pedaço. LA 02/05
Quem É Que Me Plantou...
Quem é que me plantou esta paisagemque o vento faz asssoviar em mim? E essa sede de azul, essa voragem de onde me vêm em sua força e fim?
Lá em Deus fui buscar essa coragem para ver-me num vórtice carmim — o tempo a reciclar sua passagem em caminhos de avessos em cetim...
Em caminhos por mim abrindo em ser... e ser em ser-se: a vida essencializa um transcender-se em outro transcender...
O tempo a ente-ser por fora e dentro da criatura: sopro interno e brisa... tendo o seu desdobrar-se como centro. LA 02/05 Filogênese
Essa porção de sonho e realidadeé preciso incubá-la suavemente... a fim de se tornar uma unidade em que sonho e sonhado virem ente...
E essa duplicidade de repente se vê, num dado instante, unicidade — já transformada numa só vertente a escoar-se, nova, em nova realidade...
De tal modo que o sonho e que o sonhado sejam asas de um vôo a ser voado sobre as estampas de um tapete persa...
E tudo assim: dentro de um vice-versa — tudo o que o homem sonha Deus o quer... e sonhar e querer se tornam ser. LA 02/05
Estratégia
O chão não raramente fica liso, e há escorregões e quedas. Inter-relacionar-se por vezes vira bicho que sapeca. Querer consertar o desconserto pode estragar bem mais. É aí que não fazer é lucro e não querer é toda a força. Se persistirem ( aliás, são persistentes os que nos querem desbancar... ), mude de ângulo o corpo e a conversa — olhe pra cima e veja anjos... e ao mesmo tempo, entre em profundo coma auditivo. Apenas veja e sorria... ou procure meio assustado, procure com os olhos de onde é que vem um pedido angustiado de socorro... ....................................................................... Com o tirano — passividade e alienação. O mais dá prejuízo. LA 02/05
Soneto Para A Amada
Fantasma e não fantasma, eis o neutrinoque lhe atravessa e nem o sente, amada, ( milhões deles por hora ) — qual menino brinca-lhe o corpo e a beija, não-beijada...
É matéria e energia esse caprino que chispa e nem se vê: uma arretada partícula a viajar sem ser notada — atravessa e não toca... e haja tino!
Atravessa-a e nem vê, que nem o André que a come com o olhar: um olho teso a perfurá-la toda e que você nem vê...
Da minha parte, fico entre esses dois ( neutrino e André ): sim, olho-a com desprezo... mas quero-a carne e osso, já e depois. LA 02/05
Nem Menos Belas...
As ilusões —tão mais belas quanto mais definitivamente perdidas. Um charme, um perfume, nesse vazio e sombralume a tremular... nesse já não ser a não ser nas lembranças perdidamente belas de as ter tido um dia e agora ressuscitá-las — recordá-las sem nostalgia ( aliás, com suave alegria ) enquanto saboreadas na memória. ............................................................... Perdidas? Não: transmudadas — desvestidas de corpo, mas nem por isso menos reais, menos táteis ao senti-las, menos ao lado e companheiras — lá por nós dentro entranhadas em nós. Nem menos belas porque perdidas — nem menos reais porque achadas... em outras formas-ser. Sim: as ilusões perdidas, as ilusões achadas em outras gamas-ser lá por veredas em nós — viandantes do sonho-realidade, anacoretas do mistério que a vida faz circular pelos caminhos do tempo, do tempo multiaberto em flor. LA 02/05
Aspiração
Adoraria ser um saltimbanco, ou nem isso, somente um vagabundo — a não ter nada nem de honesto ou franco, ser mais uma pessoa neste mundo,
cujo humor fosse um riso de tamanco... Um cara nem tão burro, nem profundo... Nem Mercedes, nem lata a urrar no tranco... Nem tão limpinho, e nunca tão imundo...
Um bufo, um histrião, só um mambembe — ou coisa bem mais brega: algo que lembre o circo e seu patético arlequim...
Arlequim ou alguém muito mais pícaro a degustar paçocas de amendoim enquanto arrota e peida bem ridículo. LA 02/05
Conexão
A vida é muito mais que isto, bem mais que aquilo e Aquiles — que morreu pelo estróina Páris, e em morrendo, perdeu: embora sem perder-se... A vida é aquele mais da nossa fé — aquele mais que, se acionado, faz mover aquelas águas do tanque de Siloé... O sonho amanha a realidade e esta gera o possível. O sonho-mais prepara a pessoa para transcender a realidade e transcender-se — ser para além de si.
Somos seres da falta... ( da rejeição ) — os rejeitados que rejeitam. Vivemos para nos refazer, e buscar o que nos falta — e a essa falta suprir, e ultrapassá-la em nós.
Claro, a felicidade existe. E você pode ser feliz. Mas não se prenda só a ela — dê mais valor aos degraus que você tem de subir por si mesmo. O homem precisa organizar-se e aprender a ver a Deus no seu senti-Lo, conversar com Deuspai no seu pensá-Lo e amá-Lo. Chegar a si e ao Pai pela conexão da fé — a antecessora do que vemos. LA 02/05 As Criaturas Da Falta
Esses trapos de frases-pensamentose agarram à ramagem outonal... e desde sempre lembram dentre o vento fantasmas a gemer de um velho mal...
São gemidos de um duplo sofrimento que se espinham num denso pinheiral... a correr de si mesmos num tormento em que a sombra cavalga o seu gestual...
Nesse ulular de rubro sentimento o pinheiral desfia o pensamento desnovelando o vento em seus gemidos...
São angústias fugindo por estradas de claro-escuro... Os gritos combalidos das criaturas da falta: as rejeitadas. LA 02/05
Vermelho-Uivante
Um corpo averonado, ardendo em flor — a desfolhar-se em si mesmo.
Buganvília vermelho-uivante, pulando o muro — um grito apache mirando o sol e a demarcar seu território entre uma e duas da tarde.
Um tesão destrambelhado — carruagem disparada renteando precipícios... Cara!?! É pular, ou sifur! LA 02/05 Cápsulas De Tempo
Fiz de palavras em palavras um edifício de tempo: cápsulas de tempo, e ali guardei-te com jeito e arte — a coma de leãozinho... Os olhos cor de saudade... O sorriso rendado de ternuras de avencas... O riso tilintante e niquelado... O semblante: lonjuras entre o mar e gaivotas... O pescoço de garça mergulhado na brisa castanha dos teus cabelos... Ombros e braços despojados lembrando outono-inverno... Dois coelhos curiosos pelos desvãos do decote... Cintura de pinheiro novo ( Pinus elliottii ), acariciada pelo vento... Andar esguio e longo, as pernas bordando panos... E quanto ao todo, você toda — uma rosa entre os lábios da vida... Um sonho a transpirar o orvalho de uma manhã que já desponta... a convidar os girassóis a olharem para você e se esquecerem de terem se esquecido... LA 02/05
Seres Da Falta
Somos seres da falta: os rejeitadosque igualmente rejeitam... Do Jardim do Pai ao cônjuge e os seus gerados — entre a mágoa, o desejo e a dor afim...
Somos seres da falta: os renegados, os expulsos de um dom — não feito sim... e tais vírus então introjetados em toda a carne: o seu viver com fim.
Somos seres da falta: doravante, sigamos com aquele Caminhante que se doeu por nós e foi moído...
Somos filhos da falta: as ruínas todas dos céus... Fiemos com os fios Dele o tecido das nossas vestes crísticas das bodas... LA 02/05
Impliquem Comigo Não, Malandros!
Faço soneto às vezes por preguiça: caem-me os versos não raro já acabados — a cheirar a bodum ou a melissa e até a anis em gestos refinados...
Faço soneto como vou à missa — tudo conciso, fatos consumados, e algo que não se espera: flor que viça em estação com os seus dons trocados...
Faço sonetos como alguém que adora, não só fazer sonetos, mas também fazer amor com a vizinha Dora...
que não tem esse nome, é claro, nem é vizinha, mas que fazer soneto é desvesti-la de seu longo preto... LA 02/05 Para Um Crítico Que ChamouManoel De Barros De Engraçadinho
Tivesses outra coisa pra me dar do que querer que eu leia a molambenta da crítica que exerces: lazarenta e invejosa, um moleque a punhetar...
Com a barriga e a bunda de polenta, ficas o tempo todo a lecionar o que deve ser dito e o que calar — que topete, malandro!... Aliás, noventa
por cento do que escreves valem nada — provém de uma cabeça deformada: um ver caolho, fora de arrazoar...
Não entras, Fariseu, nem dás a entrar — teclas mil vezes tecla já teclada... Onde é que está o teu fazer-criar?! LA 02/05
Livre De Si E Dos Deuses
Caminhamossempre à beira do vazio, a inventar um sentido. Tudo começou sem nós e sem nós acabará. Triste é o olhar que sabe disso; feliz o coração que disso não depende. Miseráveis os pés cujo caminho são as veredas de outros pés... Benditas as asas da fé, que constroem seu caminho num tranqüilo além-visão... Pobres dos mitos e das linguagens e dos símbolos a guiarem os homens — pois que tudo findará quando o homem tiver feito uma ponte de si mesmo. Pobre Glória, pobre Grandeza, pobre Estilo, pobre Poder — o homem já não é nenhum de vós. Terá pois dado o salto para além de sonhar-se e reter-se tão pequeno... O homem já não será os seus apocalipses. A flor de ser abrir-se-á em ser-se — o homem livre de si e de todos os deuses. LA 03/05 Prece
Quero falar Contigo, Senhor, em minhas preces, mas ouvir-Te não, meu Pai, não quero ouvir-Te — senão serei alguém muito doente... Da mesma forma, quero ser bom, Senhor, quero ser bom, mas sem saber que o sou — para não correr o risco de dizê-lo por mim mesmo num rasgo de loucura... ................................................................. Deuspai, livra-me sempre da baixeza como também me livra, ó Pai, das pessoas que fazem de tudo para parecerem boas e honestas. A Tua graça nos assista — a mim e a todos que Te pedirem dela. Em nome do Teu Filho. LA 03/05
Dias De Não Saber
Como era azul esse pedaço!Loucos gorjeioseram esses quintais ensombrados do charme de belas jabuticabeiras. E o vento, o vento operizava lendas que nenhum tímpano áulico já ouvira.
Como era rico aquele tempo! Aliás, não apenas rico, mas rico e saboroso de não saber. De sorte que a gente até podia ser feliz sem depender de nenhuma felicidade.
Andávamos alegres pelas linhas tortas de Deus como se fora o mais reto dos caminhos. Degustávamos a esperança de cada dia como se fora pão crocante — nossa avó tinha o dom de ressuscitá-los ( os pães amanhecidos ) ao fogo de seu fogão de lenha...
Ah, como nosso não saber fazia belos aqueles tempos! Se ficaram saudades, por certo elas são a ternura daqueles dias de não saber. LA 03/05
Conherrares
A realidade é como o presidiário que se preza — está sempre procurando escapar. As coisas são-hoje; amanhã elas serão-amanhã: o hoje de um ontem. O conhecer será sempre aproximado — a expansão do sujeito coletivo em direção a seus objetos. O Universo nunca se revelará para a aparelhagem cognitiva do homem. O conhecimento é quanto podemos suportar. O ato de conhecer é erro que vai sendo retificado com novos conherrares... Mesmo em época em que se tem a ilusão de caminhar a velocidades vertiginosas ( ou virtuais, como é o caso de nossos dias ), o conhecer depende de nosso caminhar interior — é paulatino e não se apressa, apesar do auto-engano atual que criou labirintos de informações multicruzadas, dando a impressão ingênua de que mais nada, mais nada existe para se aprender nem dizer, para fazer nem criar. Mas não: o que está havendo é aquele embolado de mandruvás pretinhos e fedidos ( comedores de folhas cítricas ) — que se locomovem num bolo... uma noção coletiva embolada... Nunca o indivíduo foi tão pensado como hoje, foi tão sonhado como hoje, foi tão vivente de uma vida profetizada como hoje — nunca o homem foi tão passivo, tão teleguiado como hoje... E em contrapartida, nunca se sentiu tão agente de sua liberdade... Isto é: de sua ciberliberdade! LA 03/05 Impossível
Impossível não se molhar em suasfeminices... não saborear os sóis de seu corpo, não degustar-lhe as luas... e o vinho de seus duplos arrebóis...
Impossível não descalçar as luvas e afagar devagar seus caracóis... e lento-lento saborear-lhe as uvas com você de sandálias nos lençóis...
Impossível não lhe dizer que tudo vira uma gargalhada, sobretudo quando lá não está o seu sorriso...
Impossível não ver que são eternas as rosas... que desfolha de improviso com o charme e o bordar de suas pernas... LA 03/05
... que faz haver o infinito
A vida é um nada, mas um nada bonito que faz haver o infinito. Os que a sentem como um belo navegar — estes estão sobre as águas e ao leme de si mesmos... Então, a vida é um nada bem mais bonito porque precioso finito...... Os que conseguem transformar sua própria doença em realização, e tornar seu realizar em auto-realização... então, a vida é um nada que se torna tudo — um tudo-nada tão bonito quanto infinito. LA 03/05
Feminezas
A vida é bela pelas estranhezas, pelo seu lado sempre inapreensível — seu visível que esbarra no invisível, seus real irreal surreal e realezas...
Você também com suas feminezas mostra de quem é filha em alto nível — sim, é o poema mais intraduzível que já se fez em surtos de grandezas...
Entre você, Mulher, você e a Vida, qual é a mais difícil de entender, ou mais fácil de ser compreendida?
Entre você, a rosa e o agudo espinho — qual nos machuca mais para colher os sonhos que molhamos em seu vinho?... LA 03/05
No Princípio, Os Extremos
É preciso dizer que os piedososmetabolizam Deus em sua fé e que Deus quer o que eles sonham: pé após pé realizam dons vistosos...
Por outro lado, observe os poderosos: cheiram sua arrogância com rapé e metralham o pobre, “a ralé”, com chumbo serras flatos ruidosos... |