FRASES 4
LAERTE ANTONIO
Deus-Pai,
o Senhor usa fios tão fortes!
Costuras tão inapelável
nosso caminho
entre o destino e a nossa vontade,
Deus-pai!
LA 05/02
Cheque sem fundo
é que nem camisinha,
só desenrola no pau —
dizia irmã Laurinda
sacudindo um pré sem prestígio.
LA 05/02
Não, as cartas não mentem jamais,
apenas enganam sempre.
Toda felicidade
está onde não a pusemos —
em dias que fingimos viver.
LA 05/02
Ser feliz ou não
depende mais de acreditar
num sim ou não
do que ser ou não ser.
LA 05/02
A água corre atrás de si mesma.
Quando a imitamos,
não temos tempo para outra coisa
que não seja ir virando a clepsidra
sobre a pedra que é tão dura
quanto a verdade que nos mentimos.
LA 05/02
Quando ardemos no centro
do nosso heroísmo,
então achamos que isto ou aquilo
vale a pena.
Quando a chama em nós desfalece,
aí entendemos que o anti-herói
é o irmão mais velho do auto-engano.
LA 05/02
Se você não se deixa explorar,
o mundo não lhe dá os seus prazeres.
Ainda assim,
ele mais quer do que dá.
O interesse está ligado
não só ao que se nega,
como ao real desinteresse.
LA 05/02
O Apocalipse fascina a muitos e muitos.
e as suas delícias.
O mistério tem uma mudez sedutora
e calmante.
E o homem mais ama
aquilo que menos entende.
Esperar diuturnamente o fim
é um modo talvez de ter forças
para recomeçar a cada dia.
LA 05/02
O modo mais inteligente de se fazer a guerra
é usar das armas que o inimigo
não sabe que possui.
LA 05/02
Amar além do que pode o amor
é o que fazem os apaixonados.
Lá um pouco de febre
ajuda a matar o vírus
da pequenez.
LA 05/02
Ri melhor quem come o bolo
e palita os dentes com o vinho.
LA 05/02
Apesar da abundância
de motéis,
aqui na beira do Espraiado
ainda coaxam
adoráveis pererecas.
LA 05/02
Deus te abençoe, meu inimigo,
e o Diabo te carregue!
LA 05/02
Tenho total confiança
em meus amigos —
sobretudo depois que passam
desta para melhor.
LA 05/02
Se amanhã não nascer,
a noite está muito boa.
As nossas preferências,
não raro, são bem tolinhas.
LA 05/02
Se ela não vier,
pouco me importa:
vou até ela.
LA 05/02
Dores de corno?
Só as tem
quem é curioso.
LA 05/02
Olho não viu,
nada existiu.
Pois pergunte ao tiziu,
que é mestre
em dar os seus pulinhos.
LA 05/02
Os normais
chamam os outros de loucos.
Os loucos
os chamam de anormais.
Até que enfim
chegaram a um consenso.
LA 05/02
... aí um dia as palavras
se estilhaçam,
sem mais nem menos
se estilhaçam —
e o amor cai
ferido de morte,
ou apenas ferido,
mas ferido: atingido —
para sempre atingido.
LA 05/02
Mágoas e mágoas e mágoas...
formando um rio no desfiladeiro...
Quem ousará passar?
Geralmente é mais fácil
se deixar afogar.
LA 05/02
Quem lançará,
não a primeira pedra,
mas a primeira
palavra de perdão?
Muito difícil, —
Ego não gosta disto não.
LA 05/02
Isto ou aquilo,
isto e aquilo,
isto-aquilo.
Haja setas de Páris
para tantos Aquiles!
LA 05/02
Não raro a sombra
assusta mais
que o corpo que a projeta.
Sim: temos muito medo
de assombrações,
se bem vivemos dizendo
que não existem.
LA 05/02
O amor
não pode ser de verdade.
Se for
vira mentira.
LA 05/02
Quando a bobeira é muita
vira coisa séria,
e... normal.
LA 05/02
Mulher boa e bonita
os amigos gostam,
os inimigos amam.
Possuí-las é bom,
tê-las —
só pra quem não liga...
LA 05/02
Por pouco, nos matamos.
Por muito, nem ligamos.
LA 05/02
Degustaste mesmo, Clódio,
o que César presumia
ser sua exclusividade?
LA 05/02
Quando chegou a sua hora
de se encontrar com Jesus,
o crente cê-dê-efe orou:
Senhor, Pai Santo, Único Rei,
Deus de Amor e Bondade,
muda, meu Pai,
o fuso...
muda o fuso desta hora!!!
LA 05/02
O rio corre atrás de si mesmo
pra avisar que ali adiante
tem
uma
ca...
cho...
ei...
ra...
e...
nor...
LA 05/02
Se nem César escapou, André,
por que pretendes só tua
“tua” buchinha de banhos?
LA 05/02
Quando demais,
o amor vira ódio.
LA 05/02
A honestidade, o compromisso
trazem, sim, felicidade.
LA 05/02
A mentira quando muita
vira verdade.
LA 05/02
O povo unido
sempre será vencido.
LA 05/02
Todo rio, por mais “esperto”,
mais gigantesco, mais terrível —
acaba por se afogar...
LA 05/02
O sofrimento, quando demais,
vira coragem.
LA 05/02
Se não desconfiarmos de nós,
teremos sempre razão.
LA 05/02
Mais velha que andar a pé,
a mentira convive bem
com as meias-verdades
que o mundo tem como verdade.
LA 05/02
Quem ri por último
ri por último.
LA 05/02
Quem madruga
agrada ao administrador —
que adora dormir mais devagar.
LA 05/02
Não fosse o riso,
qual seria o saldo
de tudo?
LA 05/02
Sem humor
não há amor,
nem relações humanas —
a não ser com muito cinismo.
LA 05/02
À medida que envelheço,
me dou melhor comigo,
e consigo ir me perdoando
por esquecer tão devagar
o que me dói muito lembrar.
LA 05/02
Um dia trocarei
as lembranças que doem
pelo esquecimento
do esquecimento delas.
LA 05/02
O que mais dói no palhaço
é a consciência que ele tem
atrás do riso que lhe exigem.
LA 05/02
Você faz, desfaz, refaz...
depois se vê enrodilhado
pelos seus feitos.
LA 05/02
Na doença,
o primeiro passo
é ver-se doente.
O segundo
é buscar ajuda.
O terceiro
é topar a briga
para recuperar-se.
LA 05/02
Paris é sonho,
é pensamento.
Será sempre sonho —
não-obstante
um sonho re-sonhado.
Será sempre pensamento
um pensamento repensado
e a gestação
de sua transcendência.
Sim: Paris é um brilho,
um brilho mágico em nós.
LA 0/5 /02
Mas onde fica Deus
nessa religiosidade
lunático-priápica?
LA 05/02
O homem da esperança?
Um ser capaz de amor e caridade.
LA 0/5/02
Olha, pai: três aviões...
Será que vão jogar bombas
ou pacotes de comida?
LA 05/02
Os homens lutarão pela paz.
Quando pensarem que a têm nas mãos,
verão que não: era um míssil
que acabará com tudo.
LA 05/02
A vida do outro
é sempre feliz para nós.
Por sua vez, o outro
nos inveja.
Não acreditarmos nisso
é o combustível
do desencontro
e toda a força
do auto-engano.
Se não formos em nós
o que buscamos,
por fora, não o seremos.
LA 05/02
— Feliz Ano Novo!
— Mas não estamos em abril?
— Sim: primeiro de abril.
LA 05/02
A desonestidade
parece bom negócio.
Assim como levar a doce amada
( ou amado )
pra morar com a gente.
LA 05/02
Antes só que muito sozinho.
LA 05/02
Se um amante diz não é não,
uai!
E o vizinho ou a vizinha
gosta.
LA 05/02
O quanto perdi não sei.
O quanto ganhei não sei.
Mas entre perdas e ganhos
há um lucro:
saber que muita vez
cada um desses dois
viram os seus opostos.
LA 05/02
Não poucas vezes,
a vida dá translógica.
A razão dá lógica,
quando não senta com Deus
e arrazoa.
LA 05/02
O coração é um profeta,
mas o deserto
não é o seu melhor amigo...
A não ser quando come do seu mel
e dos seus gafanhotos —
e os metaboliza
em sua transcendência.
LA 05/02
Amor é como caqui.
Embora bem vermelho,
pode dar nó no paladar.
LA 05/02
Estou de mala pronta.
É só o trem chegar,
embarco.
LA 06/02
Um coaxar mambembe...
e não eram sapos.
LA 07/02
Nem só disso vive o homem,
mas daquilo e aquilo: a quilos.
LA 07/02
Histórias como esta
mamãe já me contava,
mas como bom neném
jamais lhe acreditava.
LA 07/02
Chega uma hora que é tarde,
e não adianta chorar,
que só será manhã
quando passar a noite.
LA 07/02
Xiranha chorosa
só vale meia.
LA 07/02
Sanduíche de mortadela
fê-lo prefeito,
governador
e presidente.
LA 07/02
No palanque,
quem fosse mais mambembe
ganhava a eleição.
LA 07/02
Tinha seis anos
quando fiquei pasmo
ao ver aquele homem
( de bigode de piaçava )
ser carregado e beijado
por todo aquele espaço,
que se chamava
Largo da Boa Morte.
LA 07/02
O homem desenvolveu
uma linguagem pernóstica
e cantante,
que fisgava
com os anzóis da mentira
peixes pequenos e grandes.
LA 07/02
Viveur como quase todos, —
degustador de bons molhos,
de vinhos
e de fêmeas,
renunciou à Presidência
sem opor-lhe sequer um fio
de seu chaplinesco bigode
ou mesmo de seu pentelho.
LA 07/02
Ela fingiu não me ver...
Claro que me senti envaidecido.
LA 07/02
Sempre o mesmo discurso:
mais impostos mais impostos
e o dinheiro sempre curto...
Fraude explica.
LA 07/02
Para intelectual dodói —
elogios.
Sara tão na hora,
que faz dó.
LA 07/02
Não, não faça ruídos!...
Seja feliz bem baixinho,
senão a inveja escuta.
LA 07/02
O ácool faz confessar
que a vida dói.
E a dor de todos
é sempre a mesma:
fome de afeto.
LA 07/02
Estrepou seus dezoito anos —
fez um nenê.
Tesão resolvida
em hora e lugar errados.
LA 07/02
A gente se detesta,
mas se ama.
LA 05/02
Existimos, nos movemos
e vivemos nos hábitos:
ingeridos pela cintura
e metabolizados
lá bem antes dos avoengos.
LA 05/02
Ver-se pouco
garante longa amizade.
LA 11/02
Flores — muito cheiradas —
murcham e morrem.
LA 11/02
Encabei minha enxada
e vendi meu violão.
O violão,
pra comprar um bem melhor.
A enxada,
pro meu vizinho
capinar-me o quintal.
LA 11/02
Mulher brava,
xiranha ácida.
LA 11/02
Desconfiar
é ( quase sempre )
ter certeza.
LA 11/02
O amor é um vírus
que não se deixa isolar.
LA 11/02
Fazia omeletes
com saltos-10.
LA 11/02
Manga e xandanga
têm que ter fiapos.
LA 11/02
Abrir a porta ao amigo
dá problema de DNA.
LA 11/02
Patroa temperamental,
xereca ressentida:
em geral como a lima —
aguada e de um pós-amargo.
LA 11/02
A esposa lhe faz lembrar
o canto do bem-te-vi —
que diz que viu,
mas viu nada.
Sim, André é assim:
diz que viu
mas depois é convencido
( pela própria esposa e sogra )
de que era o vento empurrando
para dentro e para fora —
a cortina...
LA 11/02
Quando morreu Antônio,
sua esposa sentiu tanto,
que seu psicólogo achou bom
ela se casasse o quanto antes.
Sem vacilar,
casou com esse tal psicólogo —
que por acaso era irmão
do seu finado marido.
LA 11/02
Sem sujeira não há fungos,
nem fungadas.
LA 11/02
Há amantes
que depois da trepada
querem levar a lenha
da árvore.
LA 11/02
Segurou cabra
( por mais de vinte anos )
para os amigos
fazerem doce de leite.
LA 11/02
Enquanto viveu,
a mãe de André lhe lembrava:
Deguste, coma, farte-se —
mas jamais leve
o que sobrar.
LA 111/02
Engraçado...
A esposa lhe deu um beijo
que lhe lembrou o Baixinho —
o farmacêutico Lomônaco.
LA 11/02
Quando a mulher o alicatava
( após seu doutorado
em xiranhagem ) —
ele gritava tanto
para chover,
que o vizinho senil
( e cheio de aparelhos
pra respirar )
pedia para a enfermeira
que — pelo amor de Deus —
o masturbasse.
LA 11/02
As flores brancas
têm medo de se sujar...
Algumas pessoas lhes inculcaram
que são puras... que são...
Enfim, passam-lhes enfermidades
que trazem do avesso
em sua espiritualidade:
sim, chamam-se espirituais,
e às flores —
de puras.
LA 11/02
A mulher de André disse a Pedro
( amicíssimo do marido )
que aqueles cornos
apontando para cima,
como torres de igrejas...
não ornavam para ele —
pois era brevilíneo:
Caíra-lhe melhor
tê-los voltados para baixo...
Ao que lhe responde Pedro:
Sim, Clementina,
os meus eram assim:
para baixo... esses
eram do teu cônjuge André...
Pois é isso ( lhe diz Clementina )
que lhe tento explicar:
André é longelíneo —
pra ele vão muito bem
tais chifres finos
e em forma de antenas místicas...
tentando captar conversas de ETs.
Todo chifre, amigo Pedro,
é personal e identitário.
LA 11/02
Conheci espiritualistas
que nem tinham espírito.
LA 12/02
Conheci muitos gurus
que amavam mais a carniça
do mundo
que os próprios urubus.
LA 12/02
Um texano demonizado
vai rachar o mundo em quatro.
LA 12/02
A intimidade, quando muita,
vira ódio:
há um jogo de espelhos
não menos que terrível.
LA 12/02
A calúnia,
a maldade gratuita —
o homem as paga
na carne de seu corpo.
LA 12/02
Enquanto o combustível
for um processo químico,
o homem só terá asas
metafóricas.
Quando for químico-mental —
o homem será um viajor galáctico.
LA 12/02
“Natal sem fome”—
uma passada ( espero )
para “Ano sem fome”.
LA 12/02
Ser neutro neste mundo,
só no caluda (!) —
de bico bem fechado.
LA 12/02
A mudez do mundo
é culpa
exclusivamente nossa.
LA 01/03
Desce ao fundo de ti mesmo,
bem lá no fundo —
mas leva o fio de Ariadne...
que te trará de volta
tão-logo matares o Minotauro
que se alimenta de tua vida.
LA 01/03
Um rastro verde tagarela no ar —
verde-voando arisco sobre as matas:
as inquietas e gárrulas maitacas
são uma trincha verde no ar a garrular...
LA 01/03
Mandou crisântemos pra sogra, —
com as hastes bem compridas.
LA 01/03
O Diabo é o padrasto do universo:
dele muitos se têm valido
para justificar suas loucuras.
LA 01/03
O amor conjuga-se no subjuntivo,
e é transitivo.
Já o transar se dá no indicativo,
e em geral é intransitivo.
LA 01/03
Para que surja a pérola
é necessário que a vida
machuque quem a produz...
LA 01/03
Não pregues no deserto —
pregos não firmam nas areias.
LA 01/03
Disse à filha que a mãe o traía...
Respondeu-lhe que já passa da hora
de toda a humanidade
aprender a repartir
suas infidelidades.
LA 01/03
Nossos fantasmas
devem ser identificados.
Assim podemos sofrê-los
com vocativos de intimidade
e mais naturalidade.
LA 01/03
Quando jogam
com o teu amor-próprio —
não deves tê-lo.
LA 01/03
O amor pelo singular,
o desdém pelo geral —
eis a polpa da ficção.
LA 01/03
Há que aprender
a brincar.
LA 01/03
Só leve a sério
quando o riso
for pra valer.
LA 01/03
Desaforo morrer magoado,
morrer com ódio.
Ninguém, nem nada
vale isso.
LA 01/03
Não discuta. Diga ao outro
que ele está certo.
LA 01/03
Perdoa sempre,
mesmo sem saber o que se passa...
LA 01/03
O homem ou a mulher?
A mulher, é claro.
LA 01/03
Azul ou vermelho?
Depende do ângulo.
L 01/03
Nunca mais!
Só amanhã.
LA 01/03
Jamais a pegaram
com a rolha na botija.
Mas de seus cinco filhos,
três tinham a cara de
dó-ré-mi-fá
do professor de piano...
Quando André ( o pai-padrasto ) estrilou,
Leônidas, o farmacêutico da esquina
( um meia-foda: um metro e meio de carne,
mas com vários andares de finório ),
lhe explicou: Isto, caro André,
um biocientista suíço,
chamado Yeux-Vifs,
descobriu e catalogou com o nome
de Genética da Contigüidade...
Isto prova, meu amigo,
que não somos apenas como os outros,
mas, sim: também os outros...
Além do que, lá nas hipocôndrias...
— Chega, seu Leônidas!
Se o senhor falou,
é porque é.
.............................................................................................
— Toma, André, toma uma do meu consumo:
o absinto adoça as farpas da vida...
LA 01/03
Sou feminista,
onanista
e machista-alpinista:
adoro escalar mulheres.
Sim: elas são o Himalaia
do nosso bendito tesão.
LA 01/03
Como dizia Maxito Pingolilim:
Xiranha é bom,
o duro é a dona dela.
LA 01/03
Seus seios —
duas morangas
saltando para as mãos
do príncipe, montado
em sua tropa —
uma Ferrari.
LA 02/03
Antes de voltar do exterior
( onde ficou por dois anos
cavucando pra família ),
fez uma plástica
no pingolim
pra retirar-lhe aquele ar,
fingido quanto cínico,
de “vaidade das vaidades”...
LA 02/03
Noite sim, noite não,
o escravo se alforriava,
e servia a sua dona
pelo secreto cavodá.
LA 02/03
Vinte anos mais moça,
queria ver-lhe a caveira
pra meter a mão na grana.
Mas o diabo do homem,
além dela,
ainda enterrou — legalmente —
mais duas.
LA 02/03
Dava só para o marido —
aos sábados.
LA 02/03
Sempre respeitou muito o cônjuge:
punha a aliança
bem lá no fundo da bolsa.
LA 02/03
Visitava o amigo
quando ele estava trabalhando.
Mas a esposa,
sabendo que o marido o detestava,
poupara-o de saber
por dezessete anos e três meses,
isto é: até que ele se fosse desta
para melhor.
LA 02/03
Citava sempre o ditado:
O que olhos não vêem....
olhava-o bem olho no olho —
pra mostrar que
Quem não deve não teme.
LA 02/03
Se o amor fosse pra sempre,
perderia todo o charme
de ter orgasmos eternos.
LA 02/03
Gostava tanto de Graziela,
amava-a em tão altas escadarias,
tão altas quanto fluidas,
que não podia envilecê-la...
fazendo amor com ela.
Mas ela compreendia:
não ligava não.
Às segundas, quartas e sábados,
padre Inácio a confessava.
LA 02/03
Gostava tanto de Mário,
que ele nem lhe ligava.
Só quando ela se casou,
é que Mário começou
a ver-lhe os dotes, as prendas...
e o celestial de seus gemidos.
Aí a mãe envenenou Eurico,
de quem jamais gostou.
E Mário a jogou no rio,
por saber que ela o preferia.
Mas foram muito felizes —
não para sempre,
que casamento não é de ferro
nem madeira-de-lei.
LA 02/03
Quando Pedro a livrou
do estorvo da virgindade,
ficaram tão felizes,
que nunca mais fizeram sexo —
sempre com medo
de na próxima vez
não ser assim tão loucamente bom —
como conversas com a sogra.
LA 02/03
Disse à mulher que precisava
de uma bem urgentinha,
uma bem rapidinha:
tava que tava! —
ordenhando as pedras...
A consorte lhe disse
que isso não era problema —
acabara de contratar,
vinda do Sul,
uma china lindona
para fazer-lhe as vezes
( dela )
quando tivesse aquelas
malditas dores de cabeça...
Apresentou-lhe a china:
Aí, benzinho, hoje é com ela.
André gostou tanto,
que quando a esposa
lhe insinuava estar bem,
respondia:
Que esperança, amorzinho!
Não quero que aquela praga
da tua dor de cabeça
te volte, minha amiga,
nunca dos núncaras mais.
LA 02/03
As idéias desidratam
e, quase sempre, viram múmias.
LA 02/03
Da Vinci:
o antes e o depois
de si mesmo.
LA 02/03
Ela prensava uvas
fungando e rindo.
Noite sim, noite não,
a gente fazia vinho.
LA 02/03
Um sentimento gostoso
de fim de mundo
por vezes nos consola...
LA 02/03
Amava tanto a esposa,
que nem fazia amor com ela.
Chamava sempre um amigo —
e ficava olhando: pasmo,
chorando,
maravilhado.
LA 02/03
Mandaram-no procurar
um psicanalista.
Disse que ele e a esposa
o eram.
LA 02/03
A mãe lhe avisava:
Não case, André, não case.
Casar com mulher bonita
é segurar cabra, homem!
Casou.
LA 02/03
Encontraram-se
sessenta e dois anos depois.
Rolaram lágrimas,
floriram risos,
e mais.. mais risos...
só risos.
LA 02/03
Não se venda nunca, amiga.
Dá de graça,
que o cara dá gorjeta.
LA/02/03
Agarrou-se na bunda de Marina
e assim atravessou todo o oceano.
LA 02/03
Tem um sorriso tão bonito,
pernas tão aerodinâmicas,
seios tão ameaçadores,
glu...
e vejam como é a vida
( dizia seu vizinho ):
Teve a graça
de casar com um cientista
dos melhores:
vive na Antártida
( só vem de três em três anos ).
Estuda a cópula
do urso branco.
LA 02/03
Se gostas de exclusividade,
vais precisar de um analista.
LA 02/03
Xiranha com macarronada
e carne de carneiro
antigamente dava congestão.
LA 02/03
Pra não pegar paixão,
André usava camisinha
no coração.
LA 02/03
Mulher bonita dá problema.
Os amigos querem comer —
com pena e tudo.
LA 02/03
Mulher bonita é chifre
em cabeça de jegue.
LA 02/03
Se a bonita é coceira
por todo o couro cabeludo,
a feia
nem mexe com a careca.
LA 02/03
A bonita
tu a comes em consórcio.
A feia
tu a comes sozinho,
mas com a fome por tabela.
LA 02/03
Claro que sim:
Leite com manga mata,
se ingeridos com arsênico.
LA 02/03
Frei Inácio era hortelão,
mas só comia carne fresca.
LA 02/03
Quem sabe um dia
a gente até consegue
não querer conseguir.
LA 02/03
Bush é bem mais perigoso
para a paz mundial
do que Saddam Hussein.
LA 02/03
Pelo volume da bosta,
cor, consistência, odores...
Joarês distinguia
se era de homem ou de mulher.
LA 02/03
Gostava tanto da dela,
que precisava pensar nela
quando vestia outra peruca.
LA 02/03
Demorou oito dias
para esquecer o ex-cônjuge.
Mas esqueceu!
LA 02/03
Te vejo um dia,
me dizia Maria,
mas nunca via...
— Não via ou não queria?...
— Sei lá, deixa a Maria!
LA 02/03
Um dia eu e Glória
fizemos chover
numa aula de história.
( Não conte isso pra ninguém.
Glória taí, casada,
no seu sexto casamento.)
LA 02/03
Se você não come, não dá,
não fuma, não cheira, não bebe,
não pinta, não toca, não joga, não lê, não escreve,
não ama, não gosta, não odeia, não ora, não xinga,
não...
Entendo, cara, entendo a tua situação —
aí dentro deste túmulo sujo.
LA 02/03
Fez uma ampulheta
com as cinzas do cônjuge.
Quando ia fazer amor,
cronometrava a atividade
olhando com prazer
para aquele fluir funéreo
sobre o criado-mudo:
velhos orgasmos cinéreos...
E dizem que a trepante
multiplicava orgasmos
gorjeando além da morte
tal como a Fênix.
LA 02/03
Uma estrela caiu,
caiu tão alto,
que só Deus viu.
LA 02/03
Visitou-me ontem,
depois de duas décadas
sem nos vermos.
Um falava aramaico,
outro francês...
Ainda bem que ambos
sabíamos os dois idiomas.
Ainda assim, tempo e distância
fazem toda a diferença.
LA 02/03
Entre o Eu e o Tu
moram todos os problemas.
LA 02/03
Mr. Bush & Mr. Blair
subestimaram.
Subestimaram o discernimento
do ser humano de hoje.
O coração sabe o caminho.
LA 02/03
Respeitar as diferenças
faz toda a diferença.
LA 02/03
Seus seios —
meigos-selvagens,
dois preás...
farejando para cima...
LA 02/03
Às vezes não tem jeito,
mas você tenta
e ajuda tudo a desabar...
Parabéns! Teve coragem.
LA 02/03
Crianças, —
sabemos tudo.
Moços, —
sabemos e podemos.
Velhos, —
sabemos: nada podemos.
LA 02/03
A amada voltará.
Sem dúvida, voltará:
esqueceu o dinheiro do aluguel.
LA 02/03
Quanto mais conheço os homens
mais me vejo igual a eles...
Sim: mesmo naquilo
que mais detesto neles.
LA 02/03
Não entendo as mulheres.
Se as entendesse,
talvez não as pudesse amar.
LA 02/03
Viver bem com o cônjuge
deve ser o maior tédio.
LA 02/03
A vida só não será tédio
quando for outra coisa
mais que isso-agora.
LA 02/03
Sem tesão,
tudo é morto.
Com tesão,
mesmo a morte
dá vontade de amar.
LA 02/03
Quer tentar, tenta.
Mas quando a coisa acaba,
acaba.
LA 02/03
Deixar morrer
o que já estava morto
( mas jantares ressuscitaram... )
é não adiar o inevitável.
LA 02/03
Se queres ir,
vai.
Mas vai agora,
que depois será
não fui.
Mudar é bem difícil.
Muitos o desejam
porque outros
não gostam deles assim.
LA 02/03
Se mudar te é sacrifício,
agradece a Deus
por ter-te feito assim.
LA 02/03
Sem mulher, só depois
que a terra comer tudo.
Sentir-me-ia um cretino
tivesse conhecido
só a “minha” mulher.
LA 02/03
Tenho uma queda por aqueles
que a sociedade exclui
com só chamá-los de loucos,
perto de cuja inteligência
há os que sentem mal-estar —
porque invejosos e pequenos.
LA 02/03
Gosto dos loucos,
gosto dos excluídos —
sem que eles saibam disso.
LA 02/03
Bem semelhante ao mar,
a gente marulha
e tem que andar
por sobre as próprias águas —
se não for homem
de fé pequena.
LA 02/03
Vão por aí?
Deus abençoe!
Eu? Fico.
Vou-me por dentro
do sonho em mim,
onde chegar
é não partir.
LA 02/03
A alegria é gratuita.
Sim: graça, dom de Deus —
não precisa de motivo,
por isso é força:
a alegria do Senhor
é a nossa força.
LA 02/03
Muitos amigos
acenderam ( charmosamente )
o seu charuto
nos restos dos meus incêndios.
LA 02/03
Contei-lhe quase todas as misérias
de minha vida,
e eu me deliciava em ver-lhe o gozo
de ouvi-las.
LA 0/03
Naqueles tempos
eu era muito só,
e tinha um amigo
que me visitava amiúde.
Só lhe contava os meus fracassos,
meus ridículos —
para que ele voltasse sempre.
LA 02/03
Gosto muito do corpo das mulheres.
LA 02/03
Um dia te escrevo a canção
em que as rosas terão
seus espinhos mais efêmeros
que suas pétalas.
LA 02/03
Lá vez por outra ele vinha,
vinha ver o amigo.
Almoçávamos ( era amigo de casa ),
e íamos para fora,
entre as árvores e a área...
A conversa?
Ele adorava escombros, ruínas,
restos de incêndios, cinzas...
Tinha um tesão danado
por tudo quanto fossem
exumações alheias,
sim: isso lhe esfregava
o ponto-gê da alma:
orgasmos disfarçados,
mas ululantes...
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